Let Me Take Care Of You
9 Capítulo 08 – Cala a boca!
Notas iniciais

– Cala a boca! -
Passei toda a minha tarde de trabalho daquele dia imaginando quem poderia ter sido a boa alma que pagou minha dívida com o colégio. Claro que eu tive que parar uma hora ou outra para atender os clientes da loja, mas minha mente nunca parava de funcionar.
Já se passaram uns dias e até agora eu não tenho nada de concreto.
O nome do meu pai me veio em mente, mas ele nem sequer ficou sabendo dessa cobrança, como poderia ter quitado a dívida? Sem falar que estava muito ocupado gastando dinheiro com coisas menos importantes, como jogos e bebidas, para pensar nos meus possíveis problemas.
Quem mais poderia ter sido? As minhas amigas? Talvez. Mas aposto que Levy não conseguiria guardar um segredo desses por tanto tempo caso soubesse de alguma coisa, então provavelmente me contaria tudo uma hora ou outra – o que até agora não aconteceu. Mas algo me diz que as coisas não são assim tão simples, como se houvesse algo maior por trás disso tudo, sabe?
Quem sabe não foi a pessoa que Ryoko disse que já estava em minha vida para me ajudar? É uma possibilidade não é? Ou então eu estou surtando imaginando coisas ridículas e impossíveis.
– Você decidiu não acreditar nela Lucy, então não me venha com suposições idiotas. – digo para mim mesma enquanto chuto uma pedra que estava no chão.
O caminho para casa estava tão tranquilo que me permito refletir sobre mim mesma para fugir dos pensamentos anteriores.
Um dia desses eu estava reavaliando minha vida e percebi que nunca fiz nada de mais, nunca fui a melhor em alguma coisa. Não sou a mais inteligente da turma, nem a mais bonita ou mais alegre. Nunca fui boa em nenhum esporte, só o que consegui foram muitos arranhões e alguns ossos quebrados.
Ás vezes eu sinto vontade de jogar tudo para o ar e ser alguma coisa além de uma garota pálida com alguns hematomas pelo corpo. Eu sempre quis encontrar minha mãe, mas nunca fiz nada de concreto a respeito. Talvez por medo da reação do meu pai – ou do Jude – ou quem sabe por temer o que eu posso encontrar.
Gosto de pensar que neste momento ela pode estar caminhando em alguma cidade, assim como eu, e pensando na vida. Quem sabe eu também não habito seus pensamentos? Quem sabe ela não está mais próxima do que eu imagino? Numa cidade vizinha ou em um Estado próximo...
Ou quem sabe ela simplesmente esqueceu que tem uma filha. Meu subconsciente me dispara essa informação como um tiro certeiro no peito. Realmente é uma possibilidade, mas eu tenho que ter pelo menos um sonho, não é? E minha mãe é o mais forte deles.
Quando dou por mim já estou no início da minha rua. Só mais uns passos e poderei me jogar em minha cama após um cansativo dia de trabalho. Talvez eu leia algum daqueles livros de romance açucarado, que fazem você parar pra pensar e notar que sua vida é uma droga sem sal, ou simplesmente vá dormir e economize o meu cérebro de tantas baboseiras. Acho que vou acabar optando pela segunda opção.
Ao entrar em casa quase caio em desespero. Imundice seria um nome bonitinho para denominar o estado em que ela se encontrava.
Suspiro, derrotada, enquanto encaro os móveis fora do lugar, cacos de vidro espalhados e restos de comida em toda a parte.
Alguém trouxe os amigos para casa hoje. Na verdade até fazia um certo tempo que isso não acontecia...
Agora vivo um dilema interno... Devo optar pela cama ou pela vassoura? Minha vontade com certeza é de ignorar tudo isso e vivenciar o sono dos justos, mas qual a possibilidade de eu estar menos cansada amanhã do que estou hoje? Sinceramente, só consigo imaginar o inverso, então com certeza socializarei com o esfregão e a vassoura esta noite.
Pego meu celular basiquinho de dentro da bolsa e, após conectar os fones de ouvido, coloco na minha estação de rádio favorita, que para a minha sorte estava tocando uma música alegre.
– Ok, essa casa não vai se limpar sozinha.
Corro para o quintal em busca dos materiais necessários e mãos a obra.
[...]
– Senhorita Heartfilia! – o som de um apagador sendo batido no quadro chama a atenção de todos e quase me faz pular da cadeira. – Se dormir mais uma vez em minha aula terei que lhe encaminhar para a diretoria. – o professor, de forma séria, chamou minha atenção pela terceira vez só naquele horário. Ou seria quarta?
– Perdão. – me ajeito na cadeira na tentativa de espantar o sono.
A verdade é que eu demorei mais do que esperava na faxina de ontem, ou seja, não dormi quase nada noite passada e consequentemente estou caindo de sono.
É como dizem, noite de festeiro e manhã de zumbi – tudo bem, eu posso ter inventado isso. Só não sei dizer se eu dançando com uma vassoura poderia ser considerado uma festa.
– Lu-chan... o sinal já tocou. – Levy balançava as mãos em minha frente.
– Oi, oi. To acordada! – falei exaltada quando recobrei a consciência.
– Calma garota. – Erza sorriu.
– Tudo bem com você? – Juvia tinha uma feição preocupada.
– Tudo, só dei uma festa com a vassoura ontem à noite. – bocejei enquanto estirava os braços e me levantava da cadeira.
– Festa com... – a ruiva parecia confusa.
– Jude levou uns amigos lá para casa ontem, daí vocês já podem concluir.
– Não acredito nisso! – a baixinha estava espumando de raiva. – Esse... esse... filho de uma...
– Calma Levy-chan, olha a boca. – sorri. – Eu já estou acostumada, você sabe disso.
– Pois não devia. – dessa vez foi Juvia a intervir. – Você sabe que as portas da minha casa sempre vão estar abertas para você.
– Na verdade a de todas nós. – Levy falou ainda irritada.
– Eu sei. – sorri de canto. – E agradeço muito por isso, mas ele precisa de mim.
Elas se entreolharam, como se pudessem conversar dessa forma.
– Bem, eu vou indo. Depois a gente conversa. – falei antes que elas chegassem a uma conclusão.
– Vai aonde mocinha? – Levy mantinha uma expressão desconfiada em seu rosto.
– Biblioteca. – sorri para ela e corri antes que esta quisesse me seguir. Ás vezes eu simplesmente prefiro ficar sozinha.
Quanto mais eu me aproximava de meu destino menos alunos eu encontrava pelos corredores, afinal não é todo mundo que gosta de curtir o intervalo enterrado debaixo de uma montanha de livros, exceto por Levy que neste momento já deve estar muito entretida secando algum rapaz, mas tudo bem.
Minhas notas não andam das melhores ultimamente, pois eu não tenho tido muito tempo e nem cabeça para estudar, então, no momento, estou aproveitando qualquer momento livre para devorar alguns livros.
Como eu previa, a biblioteca está praticamente vazia, apenas algumas poucas almas se fazem presentes. Aqui é o único local do colégio com acesso livre a computadores e internet para uso dos alunos, mas lógico que a entrada em redes sociais é estritamente proibida. Somente para os estudos, frase esta que já cansei de ouvir vinda da boca da velha bibliotecária, Sra. Poluscka, que por mais contraditório que seja, odeia a presença dos alunos na biblioteca.
Sentei em frente a um dos computadores e comecei a fazer um dos meus trabalhos que estavam pendentes. O intervalo pretendia ser bem agitado, só que não. Minha coluna já começava a doer devido ao desconforto e eu pedia a Deus que terminasse tudo de uma vez para que eu me visse longe disso. Já tinha em mente que teria que perder o próximo horário para que isso fosse possível.
Dei um suspiro e tentei, sem sucesso, estalar minhas costas para tentar aliviar a tensão em meu corpo.
– Yo Lucy! – uma voz conhecida reverbera pelo local.
– Silêncio moleque! – a Sra Poluscka grita por detrás do balcão. Não é meio contraditório pedir silêncio dessa forma?
O rosado passa a mão por trás da nuca de forma envergonhada e senta ao meu lado.
– O que você faz aqui? – pergunto surpresa.
– Qual é, eu não posso estar na biblioteca para estudar? – se faz de ofendido.
– Bem, eu não te conheço muito bem, mas acho que não. – dou um risinho baixo.
– Tudo bem, você me venceu. Estava passando pela porta e quando olhei que você estava aqui resolvi entrar.
Corei um pouco.
– A sim. – sorri sem graça. – Deseja alguma coisa?
– Você. – falou de forma séria olhando profundamente nos meus olhos.
Seu rosto começou a se aproximar do meu, me deixando sem reação. Meus olhos dobraram de tamanho e minhas bochechas adquiriram um tom mais avermelhado que o da maçã da branca de neve.
Mais alguns segundos e Natsu simplesmente começou a demonstrar que estava se segurando para não rir, mas isso aconteceu só por algum tempo já que depois ele acabou caindo na gargalhada. Tudo bem Poluscka, pode bater nele agora.
– Você tinha que ter visto a sua cara. – continuou sorrindo, mas dessa vez de forma mais discreta enquanto voltava para a sua posição inicial.
– Idiota. – voltei minha atenção para o computador enquanto ignorava a existência do ser rosa ao meu lado.
Cinco minutos se passaram sem que eu dissesse uma única palavra, mesmo com Natsu ainda ao meu lado. Química orgânica nunca me pareceu tão interessante.
– Ficou zangada?
– Não. – respondi sem o olhar nos olhos.
Como ele pode ter conseguido ser tão convincente? Eu realmente achei que... E pensar que eu ia permitir que ele me beijasse. Patético, Lucy. É bom eu fazer uma nota mental para me lembrar o quão bom ator ele consegue ser.
– Ei, desculpa tá? Eu não sabia que você ia ficar chateada.
Respirei fundo. Normalmente quando algo de muito inesperado acontece comigo meu corpo responde com lágrimas, e essa é a última coisa que eu quero que aconteça nesse momento.
– Tudo bem. – comecei a recolher minhas coisas. – Vou terminar meu trabalho depois. Adeus Natsu. – dei uma acenada fraca e caminhei rumo à saída.
Percebi que ele ficou com uma expressão de quem não tinha entendido o que acabou de acontecer, mas não me importei muito com isso. Pensando bem não sei qual cara era a mais impagável, se a dele de babaca lento ou a minha de garotinha idiota. Bufei soprando minha franja que estava em cima dos meus olhos. Sem sombra de dúvidas a minha ganharia de lavada.
E o pior de tudo é que eu nem cheguei a terminar o trabalho. Ótimo, agora terei que voltar lá outro dia.
– Natsu idiota. – falei para mim mesma.
– Só não vou revidar porque sei que mereço. – ouvi a voz dele bem atrás de mim.
Revirei os olhos.
– Está me seguindo? – perguntei sem, novamente, olhá-lo nos olhos.
– Na verdade não. Não tenho culpa se estudamos na mesma sala. – deu um sorrisinho.
Claro que ele não estaria me seguindo, que loucura a minha.
– Hm... – prefiro não discutir, afinal nem teria como.
Continuamos caminhando um ao lado do outro. O sinal ainda não havia tocado, mas eu, pelo menos, pretendia ir para a sala e tentar dormir um pouco apoiada em meus livros para compensar minha noite mal dormida.
Entrei na sala, sem me importar com a presença do rosado, e sentei em minha cadeira. Organizei minhas coisas na bolsa e estava prestes a me debruçar sobre os livros quando vejo Natsu se aproximando.
– Você aceitou mesmo o meu pedido de desculpas?
– Por que você se importa? – perguntei irritada enquanto o encarava de forma desafiadora.
Se for para ficar com essas brincadeirinhas idiotas prefiro não ter nenhuma aproximação com ele. Tudo bem, eu sei que isso é mentira da minha parte, mas ele não precisa saber disso.
– Porque sim. – ele desviou o olhar.
– Ok. – me inclinei para cima dos meus livros e encostei minha cabeça neles.
– Ei. – senti alguém cutucando meu braço.
De princípio decidi ignorar, mas com o tempo a velocidade das cutucadas foi aumentando e minha paciência diminuindo. Daí vocês já podem imaginar o humor que eu tinha quando o encarei.
– O quê?! – minha irritação aumentou ainda mais, se é que isso era possível.
– Eu me importo com você, tá legal? – ele também se alterou. – Não sei te dizer o motivo, mas me importo. – agora sua voz estava mais calma.
Eu não sabia o que responder, então apenas o encarei por alguns instantes, como se estivesse analisando a veracidade de suas palavras. Elas me pareceram sinceras, mas depois do que aconteceu hoje mais cedo não tenho certeza de muita coisa.
– Você pensa que eu não sei Lucy? – fiquei estática. – Você chega com alguns hematomas, machucados e coisas do gênero e pensa que ninguém vai notar? Faça-me o favor. – levantou as mãos para dar mais entonação.
Se antes eu não sabia o que responder agora eu não sabia nem o que pensar.
– Eu só não entendo como você pode ter deixado chegar a esse ponto. – me fitou de forma interrogativa.
O sinal bateu e algumas pessoas começaram a chegar na sala.
– Eu não quero falar sobre isso. – falei de forma séria e calma na tentativa de encerrar o assunto.
– Ele é o seu pai! Devia te proteger e não o contrário.
– Natsu, por favor, eu não quero falar sobre isso. – tentei manter meu tom calmo e o olhei como se clamasse por um encerramento de tudo aquilo.
A classe começava a encher e, para o meu azar, estávamos chamando atenção demais e o rosado não dava sinal de que iria se calar tão cedo.
– Tem algum hematoma novo hoje? Aquele idiota bêbado fe...
O barulho de um tapa reverberou pela sala. Eu havia acertado seu rosto em cheio e já não continha mais minhas lágrimas.
– Você não sabe do que está falando! Cala a boca! Nunca mais fale do meu pai desse jeito! Nunca mais! – fechei meus olhos e respirei fundo por um instante. Minha vontade era de avançar em cima dele e arrancar aquelas palavras de sua boca para que nunca mais fossem ditas. – Ele só é doente. – falei com a voz fraca.
As lágrimas embaçavam minha visão, mas consegui ver bem a cara de espanto que Natsu possuía e por um momento ele pareceu arrependido do que havia dito, mas eu não me importava mais.
Saí da classe depressa, ouvindo ao longe a voz de Levy chamando o meu nome de forma fervorosa.
Não quero falar com ninguém no momento, e muito menos com Natsu Dragneel.
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