Let It Be

14 Capítulo 14


Yesterday
All my troubles seemed so far away
Now it looks as though they're here to stay
Oh, I believe in yesterday

Suddenly
I'm not half the man I used to be
There's a shadow hanging over me
Oh, yesterday came suddenly

“Credo, Mu. Será que dá para ser menos depressivo? Já não chega a letra da música, ainda tem esse teu olhar de dor de cotovelo.” Shiryu me recriminou. Fiquei impressionado de ele ter tirado a atenção dos estudos, já que eu estava há duas horas no quarto dele e ele não havia desviado os olhos dos livros um segundo sequer. Achava isso um exagero; estávamos recém na quarta semana de aula.

“Se você prestasse atenção no que eu digo, entenderia o porquê de eu estar com essa cara!” Reclamei de sua incompetência como amigo. Eu gostaria de conversar com Saga, mas até ele havia sumido nos últimos dias, às voltas com um tal de Dite, que havia surgido do nada e grudado nele como se fossem metades da mesma maçã.

“Para você repetir pela vigésima vez a mesma coisa que vem repetindo nas últimas duas semanas? Não, obrigado.” Ele voltou a me dar as costas e se debruçar sobre sua escrivaninha de estudos. Ele estava exagerando. Não havia fechado duas semanas ainda.

Duas semanas do quê? Você deve estar se perguntando. Duas semanas desde que eu fugi da chácara do Aiolia, depois do flagra da Marin. Eu praticamente saí correndo da cena, constrangido demais e sem querer me meter entre os dois – apesar de já ter feito isso no momento em que cedi aos avanços do Aiolia. Eu cheguei na casa e praticamente implorei ao Aiolos que me levasse até a estação. Não tive coragem de ficar e encarar a situação, me sentia terrivelmente culpado e uma vontade indescritível de chorar tomava conta de mim. E eu odiava me sentir fraco.

Pude ver pela reação do Aiolia que ele ainda amava a Marin e queria ficar com ela. Ele se levantou tão desesperado, que eu tive certeza de que ele havia finalmente percebido a loucura que estava fazendo. Em seguida ele se resolveria com a Marin e viria falar comigo para esquecermos tudo. Eu fugi antes que acontecesse, não iria suportar ouvir isso tão cedo.

Aiolos relutou um pouco, mas no fim me levou à estação. Eu peguei o primeiro ônibus para a cidade, cheguei em casa exausto, mas arrumei minhas coisas e fui para casa do Saga. Depois de explicar tudo, ele me chamou de idiota e disse que eu deveria ter ficado lá para resolver tudo, e não fugir como se eu fosse o errado da história.

“Eu sou mesmo um babaca!” Exclamei e caí no choro, escondendo meu rosto no peito dele.

“Hei, calma, você seguiu teu coração...” Ele falou, ainda que houvesse um tom de ironia velada em sua voz. Palavras carinhosas não combinavam com o Saga. “Não se recrimine por isso.”

Passei a noite na casa dele e no dia seguinte me mudei para meu apartamento mobiliado. Meus dias tornaram-se cheios – havia a faculdade e o trabalho na loja dos pais do Shiryu. Mas o que mais me apertara o coração foi ver que, na quarta-feira, Aiolia não voltara da chácara e, na sexta, não apareceu para dar aula de Cálculo. Nem na semana seguinte. O que teria acontecido com ele? Fiquei preocupado, consternado e cheguei a pensar em ir falar com Marin, mas seria muito abuso, ela provavelmente me queria longe, bem longe de suas vistas.

Eu sei que poderia ligar para o Aiolia e perguntar se estava tudo bem, mas e a coragem?

“Você acha que amanhã ele vai ir dar aula...?” Perguntei ao Shiryu. Ele suspirou – eu vinha perguntando isso todo o dia anterior a uma aula de Cálculo.

“Não sei, Mu. Só sei que o professor substituto é uma droga.” Ele tamborilou o lápis sobre o caderno no qual fazia alguns exercícios de química fundamental.

“Você só aparece nas aulas quase no final, como pode saber? Mas tem razão, ele é uma droga. Aiolia é muito melhor...” Suspirei.

“Muito melhor em várias outras coisas, posso apostar...” Ele falou como quem não quer nada, levando-me a ruborizar e tocar um travesseiro nele. Eu estava ali no quarto dele de abusado. Não quis ir para casa ficar sozinho num domingo depois de termos ido a um pequeno show aberto de uma banda que vinha ganhando destaque, então me enfurnei na casa dele.

“Eu estou sendo ridículo, não é? Não consigo tirá-lo da minha cabeça...”

“Mas é óbvio que não consegue! Ainda mais quando o assunto entre vocês ficou mal-resolvido. Eu sinceramente acho que você deveria parar de tirar conclusões precipitadas e, se ele aparecer amanhã, ir conversar com ele. Quem disse que ele quer ficar mesmo com a tal garota que eu não lembro o nome? Você pode estar se martirizando por nada...” Shiryu enfim largou os livros e veio sentar no chão ao meu lado, depois de ligar seu videogame. “Vamos jogar, vai te ajudar a se distrair.”

“Obrigado pela paciência de ouvir minhas lamúrias, Shiryu.” Falei, um pouco constrangido por estar enchendo os ouvidos dele há quase duas semanas. Ele deu duas batidinhas com a palma da mão no topo da minha cabeça.

“Tudo bem, você fica me devendo para quando eu brigar com a minha namorada.”

“Você não tem namorada.” Apontei.

“É, mas um dia vou ter, né? Ou quem sabe namorado.” Disse pensativo. O olhei abismado.

“Você ficaria com outro cara?”

“Só com um bonitinho que nem tu.” Bagunçou meus cabelos. O empurrei e revirei os olhos, ele e Saga adoravam tirar comigo só porque eu não era tão másculo como a maioria dos homens.

Jogamos videogame até cansar – não tinha graça, já que eu sempre perdia ou morria enquanto o Shiryu era expert em qualquer jogo – e mais tarde eu fui para casa. Ainda sentia falta de morar com o Aiolia, mesmo que não tivesse ficado tanto tempo assim na casa dele para ter me apegado de tal forma e... A quem estou querendo enganar? Não era da casa que eu sentia saudades.

XxX

“Quer parar de roer as unhas? Está me dando nos nervos...” Saga reclamou, enquanto esperávamos o início da aula de Cálculo. E aí ele largou a bomba. “Eu vi o Aiolia chegando na Link hoje, então acho que teremos aula com ele.” Contou entediado.

Eu o encarei em choque.

“E você me diz isso só agora?!” Senti vontade de esganá-lo.

“Eu mal cheguei!” Defendeu-se.

“Não justifica. Deixou que eu ficasse sofrendo em silêncio por cinco minutos!” Eu sei ser dramático quando quero. Suspirei e apoiei meu queixo entre os braços, meu coração acelerado enquanto esperava a chegada do professor.

Meu ar faltou quando eu o vi entrar. Estava sério e mal olhou para ninguém, foi direto para o quadro e começou a explicar a matéria do ponto em que o outro professor havia parado. De novo não consegui prestar atenção em nada do que falava, ficava esperando que ele olhasse para mim, desse algum sinal de que também sentira minha falta, mas ele não fez isso. Parecia até estar dando aula para uma sala vazia!

E foi isso. Ao fim da aula, ele simplesmente saiu e logo os alunos começavam a juntar os materiais, colocar as mochilas nas costas e sair da sala.

“Você não vem?” Saga perguntou. Assenti ausente e desapontado. Era isso, era a prova que eu precisava: Aiolia nem olhar na minha cara queria mais. Deveria ter ficado os últimos dias curtindo com a Marin, acabando com sua abstinência. Fazia bastante sentido.

Meus olhos se encheram de lágrimas e eu segurei um soluço. Saga suspirou e passou um braço pelos meus ombros, carregando-me para a próxima aula, puxando um assunto qualquer para me distrair.

“Não fique assim. Se quiser, ainda podemos ser namorados.” Ele tentou brincar, mais tarde. Só tínhamos mais uma aula e esperávamos o horário dela numa das cantinas da Link.

Balancei a cabeça.

“A ideia de fingir que éramos namorados era para me manter longe do Aiolia. Não adiantou de nada, e agora o que eu queria era justamente ficar perto dele de novo...”

Saga bufou.

“Por que você não vai falar com ele então?”

“Até você me mandando atrás dele? Eu não vou.” Falei emburrado, cruzando os braços sobre o peito feito uma criança mimada.

“Faça como bem entender então.” Revirou os olhos, enquanto Shiryu ria, dizendo que já havia me dito a mesma coisa, mas que eu estava sendo teimoso demais para escutá-los.

Ora, era só eu que achava toda a situação ridícula? Não iria correr atrás do Aiolia e perguntar se ele havia se resolvido com a Marin. Ele que deveria ter o mínimo de senso e vir falar comigo! Eu acho que meus dois amigos não aguentavam mais minha cara de infelicidade e meus resmungos mal-humorados, por isso queriam me convencer a tomar uma atitude.

Eu em geral não sou uma pessoa teimosa, sou prático, procuro não complicar quando se pode simplificar, mas... Era a primeira vez que eu havia me apaixonado! Era difícil lidar com isso, ainda mais quando nem um relacionamento propriamente dito existe, ou existiu. Eu e o Aiolia só havíamos trocado alguns beijos e... carícias mais ousadas.

A última aula passou se arrastando e eu praticamente me arrastei dependurado nas costas do Shiryu até a loja. Seria uma tarde maçante de trabalho. Eu ficava revendo a última aula de Cálculo, relembrando a voz do Aiolia, seus lábios sensuais se movendo, o modo displicente com que passava a mão pelos cabelos acobreados para tirá-los do rosto.

“Droga!” Murmurei, querendo bater minha cabeça na parede mais próxima. Era um saco estar apaixonado, coloquei na minha cabeça que na próxima vez eu cuidaria para acontecer apenas por alguém que eu tivesse certeza que queria ficar comigo. Não com alguém complicado como o Aiolia.

“Vá embora mais cedo hoje.” Shiryu praticamente me enxotou feito um cão sarnento para fora da loja. “Aproveita e ao menos liga para ele. Conversar um pouco não vai ter mal algum, vocês ainda são amigos, não é? E ele sumiu e você está preocupado com o que pode ter acontecido.”

Cheguei no meu apartamento e até peguei meu celular, olhando o visor e me perguntando se seria uma boa ideia. Mas a descartei rapidamente. Não queria gaguejar no celular, tinha certeza de que eu não conseguiria falar nada com nada. Como eu não tinha nada melhor para fazer, peguei meus fones de ouvido, coloquei uma música do Beatles para escutar e deitei na cama com uma revista que comprei no caminho até em casa sobre meio ambiente, já que fazia tempo que não me atualizava quanto ao assunto.

Quando eu já estava lá pelo fim da revista, notei que havia algum som atrapalhando a música que vinha dos fones – eu sempre escutava baixo, por medo de acabar surdo se aumentasse muito o volume. Tirei os fones e notei o som de alguém tocando e cantando no corredor do prédio. Eu reconhecia aquela voz – até porque ninguém poderia cantar tão mal, sem querer ser maldoso, é apenas a verdade...

...

Why she had to go I don't know
She wouldn't say
I said something wrong now I long
For yesterday

Yesterday
Love was such an easy game to play
Now I need a place to hide away
Oh, I believe in yesterday

Meu coração saltou do peito e eu corri até a porta, abrindo-a e dando de cara com o Aiolia, com o violão nos braços. Ele parou de tocar e cantar – graças a Deus –, jogou o violão para suas costas e avançou em minha direção sem dizer nada. Num segundo eu estava em choque por vê-lo ali, no outro seus lábios quentes estavam sobre os meus, empurrando-me de volta para o interior do apartamento. Ouvi a porta bater e logo minhas costas estavam pressionadas contra o balcão que separava a sala pequena da cozinha menor ainda.

Eu gemi completamente entregue e, sem saber o que fazer com as mãos, passei os braços ao redor de seus ombros. Aiolia me ergueu do chão e me fez sentar sobre o balcão, abrindo minhas pernas e se acomodando entre elas, sem deixar de devorar minha boca por um segundo. Meu corpo já queimava de excitação, mas minha mente mal conseguia conceber com clareza o que estava acontecendo ali – como assim ele surgia do nada no meu apartamento, depois de 13 dias sumido e simplesmente me agarrava desse jeito?

Minha sanidade voltou quando senti sua mão subir perigosamente pela minha coxa, com uma pegada forte, aproximando-se da minha virilha. Eu me inclinei para trás, fugindo de seus lábios, e o encarei ofegante.

“O que diabos você está fazendo?!” Praticamente gritei e minha voz saiu meio estrangulada pela incredulidade. Ele sorriu e, no lugar de dar-me alguma explicação coerente, afundou o rosto no meu pescoço e aspirou profundamente.

“Senti falta do seu cheiro...”

“Aiolia...” Não sei por que, mas meus olhos se encheram de lágrimas e eu tapei minha boca com a mão. Por que eu precisava ser tão patético? De repente, me sentia extremamente sensível. Todos aqueles dias me martirizando pela culpa, e sofrendo pela saudade pareciam explodir no meu peito.

“Hei, hei, hei! Não chore!” Ele falou preocupado, tocando meus cabelos e começando um carinho gentil. “Desculpe, eu acho que deveria ter ligado antes... é que foi tudo... uma grande correria.” Suspirou cansado.

“O que aconteceu?” Perguntei rapidamente esquecendo meus dramas e me focando em seu olhar abatido.

“Por que você fugiu de mim?” Ele não respondeu e aproximou seu rosto do meu, deixando-me trêmulo – era absurdo como conseguia me afetar facilmente. “Por que foi embora às pressas?”

Mordi o lábio inferior com força.

“Não queria atrapalhar... Você e a Marin tinham muito que conversar.” Abaixei o olhar, mas ele voltou a erguê-lo com uma mão em meu queixo. “Por que sumiu esses dias?” Aproveitei para perguntar.

“Minha mãe... ela teve outro ataque cardíaco.” Falou.

“O QUÊ?! Ela está bem?” Segurei suas roupas e praticamente o sacudi. Aiolia sorriu de leve e roubou um selo rápido de meus lábios, aturdindo-me.

“Sim! E mandou lembranças. Não foi uma falência completa do coração, mas o médico xingou todos nós por deixá-la fazer mais do que deveria. Na verdade foi minha culpa. Quando voltei à chácara, estava nervoso e fiquei ainda mais nervoso quando vi que você não estava mais lá. Eu a Marin começamos a discutir, ela me acusava de várias coisas e tinha razão na maior parte delas, nós brigamos feio, foi terrível, nunca imaginei que uma mulher braba podia ser tão assustadora. Ela ficou ainda mais possessa quando Katie se meteu e disse que a culpa de ter me perdido era dela por inventar uma aposta idiota.” Aiolia riu baixo, enquanto eu o olhava petrificado. “A questão é que minha mãe ouviu tudo, ficou nervosa e, como havia inventado de passar o dia trabalhando às escondidas em vez de descansar, acabou sobrecarregando o coração de novo.”

Aiolia desceu as mãos e acariciou minhas coxas, suspirando.

“Fiquei em função da recuperação dela junto com meu irmão até ontem. Ela já está bem melhor, mas inconsolável por haver tantas pessoas cuidando para que fique em repouso absoluto. Ela odeia ficar parada. Eu teria ficado mais tempo com ela, mas... eu precisava te ver.”

Senti meu rosto esquentar e meu coração engasgar na garganta. Eu não podia acreditar. E eu pensando que ele estava numa espécie de lua-de-mel com a Marin! Me senti a pior das pessoas, não sabia onde meter a cara.

“Eu terminei com a Marin. Ou melhor, coloquei um ponto final entre nós.” Aiolia falou firme, o que me fez encará-lo em surpresa novamente. Não consegui nem sorrir, estava chocado demais. Minha expressão pareceu deixá-lo apreensivo. “Ela ficou comigo por mais dois dias na cidade, para me ajudar a lidar com toda a situação... no fim, nós conseguimos conversar sem brigar, e ela disse que, apesar de tudo, não queria perder minha amizade, e me perdoou, principalmente quando... quando eu...”

“Quando você...?” Incentivei, franzindo a testa frente à sua súbita expressão nervosa.

“Quando eu falei que havia me apaixonado.” Ele me olhou diretamente nos olhos, com toda a intensidade que só seus orbes verdes poderiam ter. Quase caí para trás. “Me apaixonado por você.” Aiolia completou, apenas para garantir que eu havia entendido.



Notas finais
Música - Yesterday. Sugerida pela querida Ambrose Nym.
Obrigada a todos que vem comentando, a história cresceu muito além do planejado inicialmente graças a isso. Mas o próximo capítulo é, muito provavelmente, o último! :)
Beijos!