Let It Be

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Desculpem a demora! Escrevi o capítulo assim que entrei de férias, agora à noite, e estou podre de dor de cabeça (relevem se ficou uma droga). Anyway, agradeço imensamente pelas reviews, pelo carinho, e espero que não muitos tenham desistido de ler essa fanfic! :D

Acordei cedo de manhã, e me surpreendi ao ver Mu em pé bem antes do horário normal para um estudante de engenharia. Tudo bem que ele estava recém indo para seu segundo dia de aula, mas esses adolescentes têm mania de dormir doze horas por dia, no que depender deles.

Mu não parecia concordar com esse estilo de vida, entretanto. Tirando a primeira noite, que ele capotou e só acordou quando eu o cutuquei para que fôssemos juntos até a Link, para eu apresentar o lugar, na segunda ele também acordou bem cedo. Ele era do tipo bem disposto pela manhã, enquanto eu me sentia como um homem das cavernas saindo da toca, com os cabelos bagunçados e grunhidos que assustavam o pobre Átila. Não que eu me importasse se assustava ou não esse cachorro folgado.

Cheguei à cozinha ainda meio grogue, coçando a cabeça. Eu havia me esquecido de colocar uma camisa, mas que se danasse, não ia voltar até lá em cima só para tapar os mamilos. Eu não era uma maldita mulher para ficar cheio de pudores.

“Oi, Olia!” Mu cantarolou abrindo um sorriso. Ergui as sobrancelhas. Por que diabos havia um mutante de cabelos roxos sentado no balcão da cozinha, foi meu primeiro pensamento ao por os olhos nele.

Isso não seria tão problemático se esse mutante não fosse tão irritantemente encantador. Espera! Eu acabo de dizer que outro homem é encantador? Caralho! Garotas usam a palavra ‘encantador’! Não eu! Eu uso palavras como porra, merda, cacete! Porque eu sou muito macho. MA-CHO! Com todas as letras.

E falando nisso: MERDA! Por que Mu tem que ter esse sorriso tão bonitinho? E por que a maneira como ele está sentado sobre o meu balcão, com uma perna dobrada para cima, e outra pendendo para o chão, precisa ser tão sensualmente despojada?

Eu já disse que estou precisando, muito, de sexo?

Eu acho que grunhi um bom dia para Mu, mas nunca se sabe o que pode se sair da minha boca cedo pela manhã. Eu poderia estar dizendo ‘estou com hemorróidas’ que eu jamais saberia. Não que esteja com hemorróidas. Isso foi meramente um exemplo ilustrativo.

“Você está saindo para correr?” Mu perguntou interessado, bebericando seu copo com leite.

“Vou me arrumar e ir.” Fui até a geladeira atrás de alguma coisa, mas percebi que aquilo estava pior do que geladeira de esquimó. Havia gelo e... gelo. Fora uma caixa de leite pela metade, e um pão velho que eu não entendi o que estava fazendo ali dentro. “E preciso passar no supermercado.”

“É verdade.” Mu concordou solene. “Eu não sei do que você estava sobrevivendo até agora. Mas... é coerente. Você é o típico solteirão que mora sozinho.”

Me virei para Mu com uma careta incrédula. Como assim eu era um solteirão típico? Quer dizer, quantos solteirões ele conhecia, para começo de conversa? E o que diabos minha geladeira tem a ver com eu ser solteiro? Deuses! Por que nada faz sentido antes das oito da manhã?

“Do que você está falando?” perguntei mal-humorado, apertando os olhos ainda pesados pelo sono. Minha vontade era voltar para minha cama e dormir até que meus neurônios voltassem a trabalhar. E eu de preferência não sentisse mais atração por nenhum homem. Não que eu estivesse sentido alguma, não de verdade. Era apenas falta de sexo. Só isso.

Mu deu de ombros e a estúpida camiseta larga que ele usava escorregou por seu ombro, deixando-o à mostra. Meu corpo vibrou com um estúpido ombro. Você tem noção do quanto isso é preocupante? Daqui a pouco pés me causarão orgasmos avassaladores. E não, isso não é nada engraçado.

“Você é bonitão, descolado, há rumores de que seja galinha, mora sozinho e sua casa é organizada só a ponto de ninguém se perder aqui dentro, e sua geladeira está vazia desde que eu cheguei. Isso meio que faz de você um solteirão típico. Ah! Há também as camisinhas sujas em cima da sua cama, e as revistas pornôs-“

“Já entendi!” Exclamei. Será que ele nunca iria esquecer aquilo? Meu rosto corou, mas Mu sorriu inocentemente, balançando o pé. “Há só um furo nisso tudo que você acabou de falar.”

“O quê?” Mu se inclinou para frente, curioso. Ele ficava com um ar quase infantil assim, com os olhos piscando de curiosidade e... espera! Ele havia me chamado de bonitão? Então ele me achava mesmo bonito? Bem, isso facilitava as coisas, pensei. E depois me chutei mentalmente; o que exatamente facilitava o quê? Mas eu não queria nenhuma resposta.

“Eu não estou mais morando sozinho.” Pisquei para ele, e tomei o resto do leite diretamente da caixa.

Mu sorriu meio corado e voltou a se apoiar no balcão, terminando de tomar seu leite.

“Posso ir com você? Faz um tempo que eu queria começar a correr, aí quando vi você sair ontem cedo, pensei que poderíamos ir juntos.” Mu me olhou em expectativa.

Durante a corrida, era um dos poucos momentos em que eu conseguia relaxar e deixar para trás todos os meus problemas, sentia-me livre e até me esquecia de que estava há tanto tempo sem sexo. Com Mu do meu lado, seria algo meio difícil de esquecer, porque ele tinha esse estranho poder de liberar toda minha libido.

É, às vezes a gente cansa de negar.

Mas o que eu poderia dizer? Que não queria? Ora, as ruas são públicas, ele nem ao menos precisava pedir minha permissão para correr junto comigo. Eu assenti dando de ombros, tentando fingir que não era grande coisa. Mu sorriu e pulou do balcão com desenvoltura, seus cabelos ondulando com o movimento felino.

“Legal! Só espero não te atrasar muito...”

“Não tem problema. Em pouco tempo você pega o ritmo.” Disse.

Mu assentiu distraído enquanto lavava seu copo. Ele começou a assobiar, e desconfiei que fosse qualquer música dos Beatles. Eu me aproximei dele ao ver que havia um fiapo de tecido em seu cabelo longo. Só que Mu não viu minha aproximação e se virou de repente, chocando-se contra mim.

Eu ainda estava segurando a caixa de leite, e o resto do líquido acabou todo sobre meu abdômen. Agradeci por estar sem camisa. Uma menos para lavar.

“Ah, desculpa!” Mu falou atarantado. Ele correu para pegar um pano e voltou a se aproximar de mim. “Aqui, eu limpo para você...”

Isso não era nada bom. Eu fiquei estático, e não consegui impedi-lo de passar o pano sobre meu abdômen de uma maneira que julguei como lenta. Minha respiração ficou em suspenso quando senti o cheiro forte de lavanda dos cabelos dele tão perto de mim, nocauteando-me. O que diabos era isso? Por que tudo nele tinha que me afetar dessa maneira?

Apertei a mandíbula ao vê-lo com o olhar concentrado sobre meu corpo, a ponta de seus dedos raspando de leve em minha pele. Mu mordia o lábio inferior, e estava um pouco corado agora. Perguntei-me se ele estava fazendo por querer. Isso de corar, quero dizer. Depois pensei que isso era impossível. Ninguém controla o fluxo de sangue no corpo, do contrário, eu estaria impedindo meu sangue de descer lá para os países baixos.

Suspirei aliviado quando ele terminou e se afastou.

“Pronto.” Ele assoprou uns fios de cabelos que lhe caíam sobre os olhos e jogou o pano na pia. “Não sei como eu consigo ser tão desastrado.” Mu reclamou, tirando umas fitinhas coloridas do pulso e amarrando o cabelo com facilidade.

“Como é que você aguenta essa juba toda?” Perguntei francamente. Aquilo era grande demais.

Mu me encarou indignado.

“Não é uma juba! O seu pode ser uma juba, todo arrepiado desse jeito, não o meu!” Ele fez um biquinho gracioso. Ugh! E lá vou eu usando essas palavras estranhas para defini-lo. Mas não é minha culpa se elas se encaixam tão bem nos trejeitos dele.

Eu passei a mão pelos meus cabelos. Eles estavam mesmo terríveis.

“Esse não é ponto.” Resmunguei. “Eu vou lá trocar de roupa, e aí a gente sai para correr.”

Quando voltei, devidamente preparado para minha corrida matinal que sempre ajudava a melhorar meu humor e acalmar os nervos – e os pensamentos cada vez mais criativos sobre as mais diferentes posições sexuais (é sério, talvez eu devesse virar o mais novo autor do kama sutra) –, eu estanquei na escada, parando para observar Mu alongando-se. Aquilo era um pecado em forma de gente. E eu culpo a absolutamente normal excitação matinal masculina por esse pensamento.

Mu amarrara os longos cabelos e colocara fones de ouvido. Sua bermuda de corrida era pequena demais, e sua camiseta era de física, deixando os braços magros, porém definidos, à mostra. Achei um absurdo imaginá-lo correndo na rua e chamando a atenção de todos os tarados da cidade, porém contive minha vontade de mandá-lo ir se cobrir, como um irmão ciumento – e no caso eu prefiro o termo irmão, em vez de namorado. Isso porque ele obviamente iria me encarar como se eu houvesse comido lesmas e agora elas habitassem meu cérebro, alimentando-se de meus neurônios.

Eu engoli em seco ao perceber que algo estava endurecendo em meu corpo, se é que você me entende, só pelo simples fato de percorrer com os olhos as coxas torneadas e brancas dele, que incrivelmente pareciam livres de qualquer espécie de pelos olhando-se de longe, ou os glúteos arrebitados que pareciam ótimos para... Balancei a cabeça, frustrado. Era melhor eu não continuar minha linha de pensamentos, ou acabaria com um problema sério, muito, muito sério no meio das pernas! E não estou falando de sífilis!

Pigarreei, mas isso não teve o efeito que eu esperava. Mu estava com os fones ligados, provavelmente, e teve a indecência de dobrar o corpo até que suas mãos tocassem o chão. Eu levei minha mão à testa, tentando manter a sanidade quando a camisa larga dele escorregou e deixou boa parte de pele à mostra. Ainda bem que ele estava relativamente longe, já do lado de fora da casa, esperando-me depois dos degraus na entrada.

Para minha felicidade, meu cachorro idiota resolveu ser útil uma vez na vida e apareceu do nada no meu campo de visão limitado – e na verdade, não era como se eu quisesse reparar em algum outro fato que não a forma extrema e inconscientemente sedutora com que Mu se alongava. E eu estou mesmo tendo esses pensamentos sobre outro homem? Oh, deus, eu preciso ter uma conversa séria com a Marin, explicar que se ela não transar comigo o quanto antes, eu vou acabar entrando em curto-circuito.

Ah, sim, o Átila. Bem, ele me salvou porque se jogou em cima de Mu, fazendo o garoto cair na grama, rindo enquanto recebia inúmeras lambidas. Eu corri para ajudá-lo, feliz por, de alguma forma, a visão de meu cachorro babando o rosto de Mu ter acabado com o rumo insano dos meus pensamentos – e do meu corpo.

“Átila! O que você tem que não para de se jogar em cima do Mu?” Perguntei ao meu cachorro (talvez ele fosse mais parecido com o dono do que eu imaginava), puxando-o pela coleira preta que tinha no pescoço. Ele resfolegou e tentou jogar mais de sua baba em cima de mim, mas eu consegui impedi-lo. Eram anos de prática. “Você ‘tá bem?”

Estendi a mão para Mu, que a aceitou com um riso ainda nos lábios finos.

“Estou bem.” Mu afastou um fone de ouvido. “Felizmente minha asma está controlada hoje.”

Ele me olhou de cima abaixo e corou de leve, o que me fez erguer uma sobrancelha em curiosidade pelo que teria cruzado sua mente. Fiquei nervoso e olhei para baixo, mas felizmente não havia sinais da minha quase ereção de segundos atrás na minha bermuda, o que me fez suspirar de alívio.

“Erm... vamos? Eu estou ficando com frio só com isso de roupa já.”

Havia um sol fraco ainda criando raízes no céu, mas um ventinho gelado de início de manhã nos instigou a começar a correr sem mais demoras. Eu assenti e fiz um gesto com a cabeça para que ele me seguisse depois de trancar a casa. Átila nos seguiu, mas logo já disparava mais à frente, correndo como se a labradora de seus sonhos estivesse esperando-o no final do arco-íris.

“Ele não vai acabar se perdendo?” Mu perguntou preocupado sob a respiração mais acelerada. Eu o olhei correndo ao meu lado, com uma naturalidade e leveza que dariam inveja a qualquer bailarino profissional, e senti um arrepio. Seus cabelos presos num rabo de cavalo alto permitiam que agora eu visse seu rosto sem qualquer barreira. E ele era lindo, com a pele branca, as sobrancelhas finas na cor dos cabelos. E lá ia eu reparando no que não devia.

“Ele sempre chega no parque primeiro. Não vai se perder. Ele sabe que se isso acontecer, vai ficar sem comida.” Expliquei, arrancando uma risada de Mu. Eu acabei tropeçando numa pedra por fixar meu olhar em seu rosto risonho. Mu riu ainda mais, arrancando de mim um olhar tétrico.

Ah, sim, o tropeção me fez cair, quase de cara no chão, se não fosse eu usar as mãos pra me apoiar e assim conseguir vários arranhões extremamente agradáveis nas palmas. Que bela maneira de parecer abobado na frente do cara que ‘tá dormindo sob o mesmo teto que eu!

“Você quer parar de rir?” Perguntei mal-humorado, o que apenas o fez rir mais, com a diferença que agora ele tentava segurar a risada descarada. Mas que consideração da parte dele!

“É que isso foi... isso foi... a queda mais patética que eu já vi!” Ele caiu na gargalhada. “Foi quase em câmera lenta e você saltou para frente com uma cara de ‘adeus mundo cruel’ e...” Ele parou de falar ao me ver levantando com uma expressão de poucos amigos. “Aiolia?”

“É melhor você voltar a correr. E bem rápido.” Eu avisei. Eu comecei a caminhar na direção dele, com passos cada vez mais longos e rápidos enquanto ele se afastava meio de costas, com os olhos verdes límpidos presos aos meus. Assim que eu corri, ele disparou também, em direção ao parque que ficava naquela mesma direção.

“Aiolia! Me desculpa! Eu não vou rir mais!” Ele gritou, mas estava rindo, arfante depois de segundos num ritmo verdadeiramente rápido de corrida.

“Você ainda está rindo!” Eu retruquei, aumentando a velocidade, e ele fez o mesmo, mal conseguindo rir pelo esforço físico. Nós chegamos ao parque minutos depois e corremos por ele, descendo por um caminho de areia que ficava próximo a um lago que acompanhava quase toda a extensão do lugar.

“Olia, para! Eu já mal consigo respirar!” Mu pediu.

“Então para de correr!”

“Não antes que você tire essa expressão vingativa do rosto!” Ele gritou.

E foi quando Átila surgiu absolutamente do além, correndo rápido na nossa direção, empolgado com a agitação. O problema é que, de alguma forma, Mu conseguiu desviar do foguete em forma de cachorro, e Átila se esborrachou nas minhas pernas, fazendo-me cair empolado com ele no chão – de novo.

Átila ganiu com o choque e a queda, e se afastou em seguida lançando-me um olhar ofendido, como se eu fosse um cara rabugento que não sabe brincar. Tive vontade de atirar um toco de árvore no meu cachorro. E lá estava Mu, apoiado nos joelhos, rindo de novo da cena. Ao menos dessa vez eu havia caído na grama.

“Você e o Átila são tão engraçados, Olia!” Ele fez o favor de informar. Ótimo, sempre bom saber que sirvo para palhaço. Talvez eu devesse largar minha carreira de professor e ir trabalhar no circo. Imagine como seria fantástico? O palhaço Aiolia. Ah, sim, eu estou de mau-humor. Porque, um, eu estou sem sexo e, dois, eu não queria parecer um idiota na frente do Mu.

“Vou te mostrar quem é engraçado.” Eu me levantei e o alcancei, pegando-o de surpresa. O detalhe é que torci meu pé na última queda, então quando corri até Mu, eu perdi o equilíbrio por causa da dor súbita e, quando o segurei, nós dois fomos ao chão, e saímos rolando na inclinação em direção ao lago. Eu jurei que tomaríamos um banho, mas paramos de rolar na borda da água.

E eu parei em cima do Mu. É, nessa posição mesmo que você acabou de imaginar. E ele estava arfante, corado, com alguns fios lilases grudados no rosto tão próximo do meu. Meu corpo entrou em curto como eu havia previsto. De repente, eu não sabia mais como mover meus músculos, e meus olhos se cravaram nas risadas entrecortadas que ele soltou, até se acalmar um pouco e me olhar em retorno. Seu rosto pareceu ruborizar ainda mais, de uma forma quase irresistível. Eu acabei me movendo um pouco e minha coxa roçou entre as pernas de Mu.

Ele ofegou baixo, alarmado, e ergueu o corpo de súbito.

“Olia, eu... ai!” Só que ao se erguer rápido, ele fez com que nossas testas se chocassem com bastante força. Eu gemi, me afastando, e ele pareceu mais preocupado do que nunca. “Ah, Olia, me desculpa, você está bem? Ah, droga, como eu sou atrapalhado. Olha só, ficou um vergão vermelho na sua testa. Me desculpa.” Ele parecia extremamente nervoso, se desculpando e balançando os braços repetidas vezes.

“Hei, calma. Eu estou vivo ainda. Não precisa se desculpar tanto.” Eu falei, ajoelhado, e segurei seus pulsos, fazendo-o parar com a agitação. Ele me encarou mordendo o lábio inferior de tal forma que pensei que ele fosse rasgar a própria pele. Os fones de ouvido dele haviam caído de suas orelhas e pude escutar a música baixa saindo deles.

Love, love me do

You know I love you

I´ll always be true

So please, love me do

Oh, love me do

É claro que tinha de ser Beatles. Poderia no mundo existir alguém mais viciado nessa banda velha?

“Será que você não sabe que não é bom escutar música no fone assim tão alto?” Eu recriminei, e por algum motivo bizarro, tirei os fios de cabelo de seu rosto e os coloquei atrás da orelha. Isso fez com que ele me encarasse daquela forma, sobre as lesmas, e eu recolhi rapidamente a mão, erguendo-me e o ajudando a se levantar também.

Eu limpei minhas roupas, sujas de grama e areia, e olhei para Mu, que ainda parecia envergonhado. Franzi a testa em questionamento. Ele me olhou, erguendo a sobrancelhas, e aí abriu um sorriso mínimo.

“Então, estamos quites?” Perguntou tentativamente.

Eu sorri de lado, maldoso, e estiquei um braço, atingindo-o em cheio no peito. Ele tropeçou e caiu com tudo no lago, molhando os shorts, as pernas e os tênis. A beira do lago era bem rasa. Mu me olhou com o queixo caído, e eu achei sua expressão de surpresa e incredulidade extremamente engraçada. Caí na gargalhada.

“Aiolia!” Ele gritou inconformado e tentou atirar água em mim. Eu fugi para longe, rolando os olhos quando Átila entrou saltitando no lago, espalhando água para tudo quanto é lado e obrigando Mu a tapar o rosto. Ele se levantou rápido antes que Átila lhe desse um banho completo.

Ok, eu preciso admitir que molhar a bermuda de Mu não havia sido uma boa ideia, já que agora ela grudava despudoradamente em seu corpo delineado. Me senti um pouco perturbado pelo volume em suas calças. Eu não estava acostumado a reparar em homens, e muito menos acostumado a me sentir atraído por alguém que tinha o mesmo que eu nos países baixos.

Isso me atordoou, porque eu não sou gay. Eu sempre gostei de mulheres, e só me lembro de ter beijado meu primo na boca quando tinha uns nove ou dez anos. Eu lembro que ele era tão bonito que me irritava. Depois de beijá-lo lhe dei um empurrão e nunca mais olhei para sua cara. Algo de que me arrependo. Do beijo, do empurrão, não sei bem. Nós costumávamos nos dar muito bem. Quero dizer, isso faz de mim bissexual?

Eu dei as costas para Mu, não querendo mais pensar nisso, e voltei a correr, fugindo dessas lembranças que há muito não faziam parte dos meus pensamentos. Ou dessa necessidade louca de beijar um cara que eu conheço só há quatro dias. Por que Mu tinha esses efeitos sobre mim? Seria minha abstinência, ou ele próprio, por ser tão bonito, adorável e simpático? Balancei a cabeça, em busca de paz.

Corri por mais de quarenta minutos no parque, como costumava fazer, pois fechava uma hora de corrida toda manhã. Mu não me acompanhou, e não me importei, era bom que ele não ficasse por perto, pois senão eu continuaria a secá-lo sem nenhum pudor. E quando ele percebesse... não seria nada bom, seria? Nós morávamos juntos, eu não queria que o clima ficasse estranho. Suspirei. Eu iria me controlar.

Ainda assim, a música Love me Do não saiu da minha mente, e fiquei cantando mentalmente o refrão sem parar durante todo trajeto. Frustrante.

A primeira coisa a fazer quando eu chegasse em casa era tomar um banho gelado e bater uma para aliviar minha tensão. Certo! Eu tinha um plano! Voltei correndo para casa muito mais relaxado. Porém, me surpreendi ao ver Mu sentado nos degraus da casa acariciando o pelo de um Átila milagrosamente comportado. Ele ergueu os olhos para mim assim que eu me aproximei.

“Você ficou com as chaves.” Disse, sem muita emoção.

“Ah, merda. Você está esperando há muito tempo?” Perguntei, culpado. Mu se levantou e cutucou com força meu peito com o indicador, ao ponto de doer.

“Meus fundilhos molhados... isso vai ter volta, ouviu? E eu vou tomar banho primeiro.” Ele praticamente decretou, fazendo-me piscar, e depois suprimir uma risada por seu jeitinho indignado, que não meteria medo nem numa velhinha de noventa anos.

“Você fica uma graça irritado.” Debochei. Mu me olhou com os olhos faiscando.

“Então abra logo essa porta, antes que eu vire uma verdadeira gracinha!” Ele bufou. Eu ri, me aproximando, e enlacei seu pescoço com o braço antes que ele pudesse escapar. Átila pulou ao nosso redor, querendo brincar também, enquanto eu bagunçava os cabelos dele.

“Vamos, lá, rabugento, agora estamos quites!” Falei, divertido. A corrida havia acabado com meu mau-humor, e vê-lo irritado de alguma forma me deixou com imensa vontade de implicar ainda mais com ele.

“Olia, me larga! Deixa de ser chato!” Eu o soltei, ainda rindo. “Você me tocou no lago! Desde quando isso é estar quite? Poderia ter algum bicho naquela água! Eu posso acabar gripado também, não está tão calor assim para ficar andando molhado por aí.”

“Ah, deixa de ser fresco. Até parece uma menininha medrosa com medo de bichinhos inofensivos.” Eu fui abrir a porta.

“Eu não gosto de lagos. Uma vez um sanguessuga me atacou dentro de um! Um não! Vários sanguessugas!” Ele estremeceu, enquanto eu balançava a cabeça, tentando não pensar no quanto seria bom sugar aquela pele branca e deixá-la cheio de roxos. Oh, e aquele banho frio...?

“Chispa logo pro banho. Eu estou fedendo e também preciso muito de um.” E estou precisando muito de um orgasmo também, completei para mim mesmo. Mu praticamente correu para o segundo andar, e eu suspirei, indo para a cozinha para beber um pouco de água.

Os próximos dias até o final da aposta tendiam a se tornar ainda mais complicados...