Notas iniciais
Onde está Leo depois de desmaiar no ataque à sua escola?

Leo acordou num cômodo que nunca tinha visto antes. Era mal iluminado e havia uma janela pequena que estava fechada na parede à esquerda de Leo. A iluminação vinha de uma lâmpada incandescente que pendia bobamente no teto por fios de eletricidade. O chão era rústico e sem pisos. A pintura verde das paredes estava descascando. O lugar precisava de reformas urgentes, as rachaduras nas paredes indicavam que o cômodo poderia cair a qualquer instante.

Leo estava dolorido e cansado, como se tivesse sido atropelado por um caminhão, tido todos os ossos quebrados e consertados de maneira desleixada.

Uma pessoa entrou no cômodo. Leo não conseguiu distinguir quem era de imediato por causa da má iluminação. Mas a figura se aproximou e Leo a reconheceu, era Emily. Estava melhor do que a última vez que a tinha visto, os arranhões tinham sumido de rosto angelical.

–Ele acordou! – gritou Emily

–Graças a Grayton, estava ficando preocupado – disse uma voz vinda da cozinha. Leo reconheceu a voz, era de Mike.

Mike entrou no cômodo com uma expressão aliviada, trazia uns bolinhos numa bandeja.

–Coma isso, vai se sentir melhor – aconselhou Mike.

Leo obedeceu sem pestanejar. Os bolinhos eram horríveis, mas mesmo assim ele comeu todos, estava com fome e os bolinhos o faziam se sentir melhor.

–Como está se sentindo? – perguntou Mike depois que Leo terminou de comer.

–Melhor – respondeu Leo – O que é isso?

–Um dos bolinhos medicinais e milagrosos. Não sei como conseguiu comê-los, são horríveis, mas faz você se sentir melhor.

–Tem razão. Quanto tempo fiquei apagado?

–Uns dois dias – disse Emily.

–Dois dias? O que aconteceu? Cadê a Lily?

–Acho melhor você descansar um pouco mais antes de responder suas perguntas – disse Mike

–Não, estou me sentindo ótimo. Já descansei por dois dias. Aliás já estou cansado de descansar, quero saber AGORA!

Mike ia fazer uma objeção, mas Emily o conteve:

–Ele precisa saber.

Mike assentiu. Um silêncio prolongou-se, talvez estivessem pensando na melhor maneira de contar tudo a Leo. E claro, Leo que teve que quebrar o silencio:

–E AI? Estou esperando.

–Lembra-se do sonho que você me contou quando estávamos indo encontrar Emily na escola? – começou Mike

–Sim, lembro, mas o que esse sonho tem a ver comigo?

–Aquele casal que estava no laboratório eram seus pais, e a criança chorona era você. – explicou Mike.

–Meus pais? O que eles estavam fazendo?

–Uma parte do nosso cérebro é diferente das outras pessoas, ela é destinada à magia. Seus pais estavam extraindo sua magia e aprisionando num objeto.

–Naquele pedaço de madeira que encontrei ontem?

–Exatamente – completou Emily — Na verdade é uma varinha mágica. Eu, você, Mike somos feiticeiros, mas só você tem uma varinha. Eu e Mike não precisamos de varinha para usar nossa magia, nós não temos acesso a toda a nossa magia dentro de nosso cérebro. Você sim, sua varinha permite que você tenha acesso a toda a sua magia.

–Além de você, o único que também tem acesso a toda a sua magia é Grayton, nosso mestre – completou Mike — mas não porque ele tem uma varinha, ele conseguiu desenvolver toda a magia dele aprisionada no cérebro.

–Legal. E onde está ele agora? – perguntou Leo.

–Esse é o problema, ele sumiu e não sabemos onde ele está. Por isso precisamos da sua ajuda – respondeu Emily.

–Mas eu também não sei onde esse tal Grayton está, eu nem conheço ele.

–Nós sabemos disso. Parece que alguém está atrás de você. Essa sua varinha foi escondida pelos seus pais, eles a enfeitiçaram de maneira que ela só se apresentasse se você estivesse em perigo, por isso fiquei preocupado quando vi você com a varinha – disse Mike.

–Por que ninguém nunca me disse isso?

–Para te proteger – respondeu Mike.

–O moço que apareceu no seu sonho pra impedir seus pais se chama Christian — disse Emily – Ele ficou revoltado quando soube o que os seus pais aprisionaram seu poder numa varinha. Achou que você poderia ser perigoso e querer destruir todos os feiticeiros. Ele provocou uma explosão no laboratório de seus pais e se matou.

–E meus pais? – quis saber Leo.

–Sinto muito. Também não resistiram — disse Emily com tristeza

Leo também ficou triste, tinha esperanças de que seus pais estivessem vivos. Decidiu não pensar muito nisso.

–Como eu sobrevivi?

–Foi Grayton – disse Mike – Ele quase morreu naquele dia. Ele tinha que mantê-lo em segurança, por isso deu-lhe ao orfanato, se você crescesse como os outros feiticeiros poderia chamar a atenção das trevas.

–Na escola – interrompeu Mike – alguém lançou em você um feitiço muito forte, nem sequer conhecemos. Você apagou e tivemos que te trazer pra cá, por enquanto está em segurança. Conseguimos curar você do que quer que tenha te atingido, com esses bolinhos medicinais de Grayton e uma série de feitiços de cura.

–E... onde exatamente estamos?- perguntou Leo.

–Num outro mundo, o Mundo de Grayton– diz Emily pegando uma adaga e passando-a para Leo – Esta adaga é a chave do portal por onde podemos entrar e sair desse mundo. As pessoas que sequestraram Grayton roubaram essa adaga, mas felizmente consegui recuperá-la.

–E agora, como encontraremos Grayton?

–Conhecemos alguém que talvez possa ajudar, mas não temos certeza. O nome dele é Scott e ele é filho de Christian.

–O homem que matou meus pais?

–Ele mesmo. Poderíamos voltar ao mundo real e pedir ajuda. Ele é o único feiticeiro que tem e sabe usar o Globo dos Feiticeiros, um objeto criado pelo pai dele que indica a localização exata de qualquer outro feiticeiro. Era amigo de Grayton, pode nos ajudar. Mas o pai dele não gostava dos seus pais, então talvez não simpatize por você. Se nós realmente formos conversar com eles você não poderá ir – sugeriu Emily.

–E deixar vocês irem sozinhos? De jeito nenhum. Posso me disfarçar, me transformar em outra pessoa, mas deixar vocês sozinhos, isso eu não posso fazer.

–É uma ideia boa, podemos fazer isso, mas não hoje. Você precisará de treinamento, caso aconteça alguma coisa errada saberá se defender. E seja quem for que está por trás disso tudo, não conseguiremos derrotá-lo sem você.

–Agora descanse, você precisa e não me diga que não, eu iria lançar-lhe um feitiço para adormecer.

Leo não discutiu, estava realmente cansado, fora uma conversa longa e reveladora. Tudo aquilo o assustava. Queria que estivesse sonhando e agradeceria muito se ouvisse o barulho irritante de seu despertador para lhe acordar, mas parecia tudo muito real e Leo não acreditava que isso realmente fosse acontecer.

Leo quase não conseguia acreditar no que tinha ouvido e talvez não tivesse acreditado se não fosse Mike contando. LEO ERA UM FEITICEIRO, COMO ERA POSSÍVEL? Há alguns dias atrás ele nem sabia que feiticeiros existiam e hoje ele acabara de saber que não só eles existiam como ele era um deles, assim como seus pais, seu melhor amigo e a garota por quem ele era apaixonado. Estava numa missão pra resgatar um velho que salvara Leo quando era bebê e como se isso não bastasse, Leo nem o conhecia, não se lembrava dele, afinal de contas ele era muito pequeno. Involuntariamente ele largou tudo e saiu nessa aventura com esses amigos.

Isso fez Leo se lembrar de Lily, o que ela estaria pensando agora sem Leo? Deveria estar preocupada com ele ou feliz por ter menos uma criança para cuidar. Não isso nunca, ela era muito boa com ele. Chegou à conclusão que ela deveria estar preocupada com ele, Leo não sabia se isso o deixava feliz ou triste, não queria que ela sofresse. Prometeu para si, que um dia iria visitá-la, mas não ia adiantar muito, ele não podia contar a verdade do que aconteceu, talvez existisse um feitiço de apagar a memória, isso iria acabar com o sofrimento de Lily. Pronto, estava decidido, quando acordasse iria perguntar para Emily se existe um feitiço assim, seria doloroso, mas era o melhor para sua velha amiga que sempre cuidara dele.

E com este último pensamento, que parecia tê-lo esgotado ainda mais, Leo não aguentou e caiu no sono.