Não demoraram mais de cinco minutos na mansão e saíram. Subiram a rua em silencio e entravam em outras sem que soubessem onde estavam indo. Andavam em silencio enquanto Leo tentava criar um carro pra ajudar, os outros dois apenas observavam. Nem Emily sabia o que falar, ela estava sendo a “líder” até agora, não falava nada, estava pensativa, queria entender o que aconteceu, quem eram aqueles invasores e pra que queriam aquela adaga, como não chegara a nenhuma conclusão permaneceu calada.

Depois de mais ou menos umas três horas de caminhada Leo rompe o silencio:

–Acho que podemos parar pra descansar agora. Toda essa confusão me deixou exausto e ainda mais essa porcaria de carrinho que não consigo aumentar pra podermos entrar nele – disse indicando o mesmo Impala vermelho em suas mãos que não passava de uns cinco centímetros.

Sentaram num banco de uma praça. Ninguém tinha ideia de onde estavam, só sabiam que era longe da mansão.

Leo conjurou umas bolachas e não tinha forças para fazer uma coisa melhor. A bolacha não estava muito boa, Leo se recusou a comer alegando que não estava com fome. Seus amigos comeram com um pouco de sacrifício pra não magoar o amigo, não reclamaram, pois não queriam exigir mais de Leo que estava aparentemente cansado.

Ficaram sentados por uns vinte minutos com as cabeças baixas olhando para o chão da praça pouco arborizada, cheia de buracos e com brinquedos quebrados quando Leo disse:

–Pronto, estou me sentindo melhor – mentiu Leo – Se quiserem podemos ir agora.

–Leo, não precisa se preocupar muito – disse Emily tentando ajudar – Não acho que vão nos encontrar aqui, além do mais já está ficando tarde. Vamos achar um lugar pra ficar, conversar sobre o que aconteceu e descansar um pouco mais. Se saiu muito bem hoje, se não fosse por você quem sabe onde estaríamos agora com aquelas criaturas esquisitas.

–Obrigado Emily, você tem razão, vamos arrumar um lugar pra ficar – disse Leo.

–Legal, mas onde exatamente vamos ficar? – perguntou Mike – Eu não tenho dinheiro pra hotel.

–Quem falou em pagar o hotel? – disse Leo.

Levantaram do banco e perguntaram para uma senhora que estava jogando migalhas de pão para os pássaros:

–Por favor, onde tem um hotel por aqui? – perguntou Emily carinhosamente.

–OH, porque jovens como vocês querem saber onde tem um hotel?

–A nossa mãe nos deixou aqui e disse que estaria no hotel mais próximo – mentiu Emily de um jeito muito convincente.

–AH, sendo assim... Sigam em frente e virem na segunda rua, lá tem um hotel – disse a senhora apontando a direção.

–Muito obrigada – agradeceu Emily.

–OH meus queridos... não tem por que agradecer. Espero que encontrem sua mãe lá – disse a senhora.

Seguiram na direção indicada pela senhora enquanto ela voltava a distribuir migalhas de pão aos passarinhos.

Encontraram o hotel sem muita dificuldade. Uma grande placa com os dizeres: ”HOTEL DESCANSE MELHOR” estava pendurado na entrada. Leo riu do nome ridículo e sem criatividade do hotel. Apesar do nome, o lugar era apropriado, parecia que ninguém entrava lá. O piso era de mármore, o lustre de cristal e as paredes pareciam de um castelo. A mesa da recepção era de madeira com bonitos desenhos de flores esculpidos. Por sorte a recepcionista estava ocupada atendendo um moço elegante que queria se hospedar então não percebeu quando subiram correndo as escadas de mogno que levava aos quartos.

Um corredor se estendia à frente deles com várias portas de madeira iguais. Escolheram a última porta, Leo apontou a varinha e depois de algumas tentativas conseguiu abrir a porta, torcendo pra que ninguém estivesse hospedo naquele quarto. Não tinha ninguém.

Leo foi o último a entrar e conseguiu ouvir passos na escada, provavelmente do homem que viram na recepção e se apressou pra entrar.

O quarto era arrumado, tinha uma cama de casal, um sofá que se transformava em cama, uma televisão de 24 polegadas um pouco velha e um banheiro pequeno com azulejos pouco refinados, nada além disso. Leo já estava pensando na hora em que iam dormir, como só tinha uma cama de casal, talvez dormisse nela com Emily e Mike no sofá cama. A ideia o animou e o fez parar de se preocupar um pouco com tudo que aconteceu.

Decidiram que deviam tomar banho. Estavam imundos, principalmente Leo. Mike e Emily trouxeram roupas dentro de suas mochilas e Leo se esqueceu de que não dispunha de tais coisas, desanimou, não queria tomar banho e vestir a mesma roupa.

–Trouxe umas roupas a mais – comentou Mike – Se quiser posso te emprestar.Trouxe uma calça jeans e uma camiseta.

–Não obrigado Mike. Vou tentar fazer minha própria roupa.

–Como quiser.

Fizeram sorteio e Emily ganhou, ela foi a primeira a tomar banho.

Leo se concentrou em conjurar roupas. Demorou um pouco até que conseguisse uma blusinha azul com um desenho de unicórnio. Mike viu aquilo e zombou da criação de Leo:

–Você vai mesmo usar isso?

–Claro que não, não consegui fazer o que queria.

Não desanimou e depois de um longo tempo. Emily e Mike já tinham terminado de tomar banho, Leo conseguiu uma camiseta preta simples, uma calça jeans e até um perfume. Ficou muito orgulhoso e partiu pro banho.

Voltou depois de dez minutos, devidamente vestido, mas não muito cheiroso, aconteceu alguma coisa com o perfume, tinha ficado com cheiro de cachorro molhado. Ficou morrendo de vergonha, mas ninguém comentou sobre sua nova fragrância. Sentou-se na cama ao lado de Emily enquanto Mike estava sentado no sofá cama que anteriormente reclamara de ser desconfortável.

–Acho bom começarmos a conversar. Os acontecimentos de hoje não podem ser esquecidos – comentou Emily.

–Certo – concordou Leo – Queria falar primeiro de Scott, que sumiu misteriosamente quando eu fui capturado por uma daquelas criaturas estranhas.

–AH... Scott, ele é um medroso, isso sim – disse Mike – Nunca confiei inteiramente nele.

–O que mais me perturba é que ele abandonou a própria casa.

–É, mas quando uma pessoa está com medo não pensa nessas coisas não – completou Mike – Ainda mais, quando se é um covarde.

–Receio que esteja certo Mike – concordou Emily – Também não confio nele, mas não tínhamos opção.

–O QUÊ? – disse Mike espantado – Você concorda comigo?

–Sim, qual é o problema? Tenho de admitir que seu cérebro funciona bem quando as coisas são óbvias.

–Não briguem, por favor – interveio Leo antes que começassem a discutir – Outra coisa que me intriga são aquelas criaturas, o que elas são?

–Não sei – disse Emily – Mas você disse que elas tinham sequestrado Grayton Leo, como pode ter certeza disso?

–Foi só um palpite, mas ainda acho que ele é verdadeiro – respondeu Leo.

–Você pode ter razão, mas não sei como aquelas criaturas poderiam fazer isso, elas nem conseguiam falar.

–Talvez alguém esteja controlando elas, quero dizer... essas criaturas estão recebendo ordens de alguém.

–Entendi, mas Grayton poderia derrotar qualquer um. Não seria vencido por alguém que o quisesse sequestrar. A não ser que essas criaturas ajudassem, só assim Grayton poderia ser sequestrado.

–Mas só há um probleminha, agora não sabemos onde Grayton está e também não temos mais a adaga.

–É verdade – concordou Emily – Não creio que possamos voltar à casa de Scott, provavelmente ele não vai estar lá e mesmo se estivesse seria muito perigoso.

–Pra mim parece óbvio onde Grayton está, o problema é que não temos como chegar lá – disse Leo.

–Onde?

–No Mundo de Grayton, não é óbvio? Eles queriam aquela adaga por um motivo. É só uma dedução, pode não fazer sentido, a adaga nos leva para outro mundo, o mundo de Grayton, talvez eles precisassem da adaga pra transferir Grayton para o seu mundo.

–Pode ser – disse Emily – Mas porque eles queriam transferir Grayton de mundo?

–Isso eu não sei – respondeu Leo – Mas é a única ideia que temos.

–Então você está sugerindo para procurarmos Grayton no mundo dele?

–Sim.

–Suponhamos que Grayton no mundo dele, como vamos chegar lá? – quis saber Emily – Não tem como atravessar os mundos sem a adaga.

–Esse é o problema – disse Leo – Mas pensei que poderiam existir outras dessas adagas.

–Não... não existe. Ele só criou uma.

–E não existe alguém que possa criá-las?

–Não que eu saiba – respondeu Emily.

–Que tal Brian? – sugeriu Mike.

–Quem é Brian? – perguntou Leo.

–É um velho feiticeiro amigo de Grayton que fomos visitar uma vez. Muito poderoso, mas não chega aos pés de Grayton. Não acho que possa construir uma adaga daquelas – disse Emily.

–Mesmo assim, podemos ir visitá-lo.

–Sim, se tivéssemos dinheiro para viajar ou um carro. O velho mora no Maine e nós estamos na Califórnia, acho que não podemos fazer isso andando como sempre fazemos.

–Quem disse que não temos um carro? – disse Leo – Estou tentando construir um.

–Mas não conseguiu ainda – disse Emily.

–Leo vai construir um carro para visitarmos o velho Brian. Acha que pode fazer isso? – perguntou Mike

–Acho que sim.

–Não acho que é uma boa ideia – disse Emily.

– Mas é a única que temos – disse Mike.

–Tudo bem, então está decidido, amanhã vamos ajudar Leo com o carro e ir visitar Brian. Tomara que dê certo e aquele velho possa nos ajudar. AH... e a propósito Leo...

Leo sentiu aquela dor no rosto de novo, sua cara ia se contorcendo retomando seu rosto normal. Emily fizera aquilo sem avisar de novo.

–Achei que ia querer ter seu rosto de volta – disse Emily completando sua frase anterior.

Depois que a dor passou Leo conseguiu dizer:

–Obrigado, estava com saudades de mim. E da próxima vez que for fazer isso me avise, por favor, você não sabe como dói.

–Não seja frouxo – disse Emily.

–Não estou sendo frouxo, quer que eu faça isso com você também? – perguntou Leo.

– Não, obrigada, mas se serve de consolo, admito que eu estava errada, você é mais bonito quando é você mesmo.

Esse elogio era tudo que Leo precisava depois do longo dia que tiveram. Emily o elogiou como ele era, gostava mais do Leo verdadeiro. Não tinha coisa melhor pra ouvir naquele momento.

Mike não disse nada, apesar de ficar aparentemente incomodado com a situação.

Leo não teve coragem de responder, era muito tímido. Queria dizer que também achava ela bonita, mas não conseguiu, sua voz ficou engasgada. Pra amenizar o clima que ficou pairando no ar, desconversou dizendo:

–Acho melhor descansarmos. O tempo passou rápido hoje, já são 20h00min. Amanhã temos um carro pra construir.

–Você tem razão vamos dormir – disse Emily deitando-se na mesma cama que Leo.

Mike sorriu pra ele e mostrou o polegar enquanto também deitava. Leo levantou, apagou a luz e deitou ao lado de Emily.