Leo acordou com o chamado de uma voz feminina:

–Vamos acordar, já dormiu demais!

Isso o deixou tão feliz, achava que era Lily lhe chamando para ir para escola e que aquilo tudo que acontecera era mentira. Mas não, a voz era de Emily, mas também não ficou chateado com isso. Ela estava linda como sempre, seus cabelos loiros balançando com o vento que entrava pela janela ao lado de Leo o deixou mais animado, apesar de saber que não era a mesma situação que ele sempre sonhara, seus olhos intimidadores encaravam Leo de longe esperando que ele se levantasse.

–Levante, vamos começar seu treinamento hoje.

Leo ainda estava com sono, suas pálpebras lutavam contra os comandos cerebrais que as ordenava permanecerem abertas. Soltou um bocejo que durou uns 10 segundos, seu hálito estava horrível e Emily olhou pra ele enojada. Demorou um tempo até que conseguisse sentar na cama e falar:

–Sim, sem problemas. Cadê o Mike?

–Está na cozinha preparando o café, você deve estar com fome.

Leo não pensara nisso antes desse comentário, mas era verdade, ele estava morrendo de fome. Desde que foi atacado só se lembrava de ter comido aqueles bolinhos medicinais de Grayton que não matavam a fome. Em compensação estava ótimo fisicamente, não sentia mais dores como da última vez que acordou e agora conseguia mover os braços e as pernas sem que esses movimentos lhe fizesse gritar. Era como se nunca tivesse sido atingido por aquele feitiço na escola, mas infelizmente ele foi atingido e provavelmente essa não seria a última vez.

Leo se levanta e vai direto para a cozinha atrás de Emily. Mike estava lá, com os cabelos despenteados e bocejando a todo o momento, ele preparava ovos com bacon. Mike sorriu pra Leo quando o viu na porta de madeira destruída por cupins, o sorriso de Mike era amarelado e seu hálito também não era bom. Suas olheiras terríveis e seu jeito preguiçoso com que ele andava pela cozinha davam-lhe uma aparência de um zumbi num estágio avançado de decomposição.

–Como arranjou comida? – perguntou Leo

–Um amigo de Grayton nos cedeu – respondeu Mike.

–Um amigo de Grayton?

–Sim, o nome dele é Benjamin e tem uma pequena mercearia aqui perto. Somos famosos nesse mundo, Grayton nos trazia frequentemente pra cá e todos acabaram nos conhecendo de uma forma ou de outra, inclusive Benjamin.

–Por que você foi pedir comida, não pode simplesmente fazê-la aparecer?

–Não, essa é uma das nossas limitações, talvez você consiga.

Leo foi buscar sua varinha e tentou seu primeiro feitiço, fazer aparecer ovos com bacon, sem sucesso, não aconteceu nada. Desanimado disse:

–Eu acho que não consigo.

–Aposto que consegue, esse lance de magia pode ser um pouco difícil. Deve ser mais fácil pra você do que pra nós, mas mesmo assim temos que treinar.

Se sentaram a mesa de madeira um pouco velha em umas cadeiras que estavam balançando e rangiam como portas de mansões mal assombradas de filmes de terror. Quando Leo foi sentar quase caiu, a perna da cadeira velha que Leo se sentou estava entortando. Emily riu e o deixou envergonhado, mas não disse nada.

Os ovos com bacon que Mike preparou tinham passado do ponto. O bacon estava duro e ninguém conseguiu parti-los com os dentes, Emily resolveu esse problema rapidamente fazendo aparecer garfos e facas ao lado dos pratos de cada um. Os ovos fritos estavam com uma casquinha queimada que eles tiveram que retirar com a faca. Mas mesmo assim estavam melhores do que aqueles bolinhos medicinais. Ninguém falou nada da refeição, pois sabiam que Mike tinha dado o seu melhor.

Foi então que Leo se lembrou de perguntar sobre o feitiço da memória.

–Existe algum feitiço que apague a memória?

Leo esperava que Emily respondesse, queria ouvir de novo aquela voz suave, mas foi Mike que respondeu:

–Grayton conseguia fazer, tentou nos ensinar, mas nunca conseguimos aprender. Por que a pergunta?

–Estava pensando que poderia usar um desses em Lily, a mulher que cuidou de mim no orfanato, ela deve estar sentindo minha falta.

–Olha cara, sinto muito... quando resgatarmos Grayton podemos tentar.

–É, talvez possamos – disse Leo desanimado.

Os três terminaram de comer, a refeição foi longa e pesarosa como se todos estivessem preocupados, porém não havia ninguém que estivesse mais preocupado que Leo.

Mike foi dar uma volta com Leo pra lhe contar mais sobre magia e apresentar aquele mundo encantado criado por Grayton.

Emily se recusou a acompanhá-los e disse que ia procurar um lugar para o treinamento, ela queria acabar o mais rápido possível esse treinamento e iniciar logo a missão de resgate à Grayton.

Saíram daquela casa escura e a luz do Sol ardeu nos olhos de Leo fazendo-o parar e fechar os olhos violentamente, havia muito tempo que não via o Sol, ele era mais brilhante do que Leo se lembrava.

–Tudo bem aí cara? – perguntou Mike ao ver Leo esfregando os olhos freneticamente com as mãos.

–Sim, é só o Sol – falou ele com os olhos semicerrados olhando para Mike.

Caminharam conversando sobre assuntos que vinham à cabeça de Mike, ele falava de grandes feiticeiros como Sayron Whinclet, Reyclint Eastman, Brian Mikael e mais alguns que Leo não se lembrava, pois não estava prestando muita atenção na “aula de magia” de Mike, apenas balançava a cabeça afirmativamente como se estivesse entendo.

Ele explicou sobre Grayton, os feitos heróicos dele, por que ele era considerado um grande feiticeiro e como era viver e aprender com ele. Mike falava de Grayton como quem fala de Deus, como se ele fosse o mais sábio de todos.

Chegou uma hora que Mike não tinha mais o que falar e perguntou à Leo:

–Você parece estar encarando tudo isso com tranquilidade, quero dizer... como se sente ao descobrir tudo isso?

–É meio confuso. Fui criado como uma pessoa comum sendo que na verdade eu sou um feiticeiro.

–Mas você tem que entender que Grayton fez isso para o seu bem, pra te proteger.

–Sim, eu sei. Eu só acho que preciso de um tempo pra absorver tudo isso.

–Eu entendo, deve ser bem difícil mesmo.

Ninguém disse mais nada por um bom tempo, apenas caminhavam tentando encontrar Emily, pois tinham se distanciado muito da cabana.

Mike queria falar uma coisa com Leo, mas estava com vergonha, depois de muito tempo reunindo coragem disse:

–Queria conversar com você sobre Emily.

–O que tem a Emily?

–Tivemos uma discussão perto da escola, onde você ficou com ciúmes de mim e Emily e claramente furioso. Queria te dizer que não namoro com ela mesmo, tentei te dizer isso antes mas parece que você não acreditou em mim.

–AH me desculpe... eu fui grosseiro com você aquela hora.

–Não se preocupe com isso, eu só achei que você tinha ficado nervoso comigo.

–Não vou mentir, eu fiquei mesmo na hora, mas agora eu entendo, vocês foram criados como irmãos.

–Exatamente.

–Você alguma vez mencionou que EU GOSTO DELA?

–Não. Sabia que um dia vocês dois iam ter que se conhecer e que você poderia ficar envergonhado.

–Obrigado.

Novamente o silêncio, Leo odiava ficar caminhando com alguém sem conversar, mas a ocasião foi boa para refletir sobre tudo o que tinha acontecido e “aprendido” com Mike nessa longa caminhada que já duravam algumas horas.

O sol ardia fervorosamente sobre suas cabeças fazendo eles passarem mal e terem que parar por um tempo. Emily tinha escolhido um lugar bem longe, eles não conseguiam encontrá-la.

Já era meio dia quando finalmente encontraram a garota. Ela estava em um monte bem alto e verde balançando as mãos acima da cabeça e pulando como uma doida.

Demoraram até conseguirem subir até o topo do monte. Eles escorregavam tentando subir, o gramado estava molhado graças à chuva da noite anterior, pareciam crianças se divertindo. Quando finalmente conseguiram subir tudo Emily disse:

–Até que em fim, achei que nunca iam vir. Temos muito o que fazer. Venham. Preferi um lugar alto, quase ninguém deve vir aqui.

–O que devemos ensinar primeiro, chefa? – perguntou Mike.

–Pare Mike, sabe que odeio quando me chama de chefa. Mas enfim, a primeira lição é a defesa.

–Legal – disse Leo entusiasmado – Como faço isso?

–Você deve imaginar um escudo na sua frente. Imagine a cor e a forma dele, isso ajuda. Vai precisar da varinha.

Leo saca a varinha do bolso e faz o que Emily explicou. Não dá certo.

–Acho que você deve fazer um movimento com a varinha, como se expulsasse o escudo que está dentro dela para fora e o projete na sua frente.

Quase. Algo parecido com uma bolha de sabão saiu da ponta da varinha.

–Muito bem – elogiou Emily –Parece que vai ser mais fácil que imaginei. Mas agora dessa vez projete o escudo e deixe-o permanecer, não tire o pensamento dele, senão ele some. Tente de novo.

Leo tentou algumas vezes e a única coisa que conseguiu foi a mesma bolha de sabão inútil. Emily incentivava Leo com frases de otimistas do tipo: “Vai você consegue”, “Não desista”, “Tente de novo”, “Está quase lá”, mas não adiantava muita coisa.

Precisou de umas trinta tentativas até que conseguisse projetar um escudo por uns 10 segundos. Os amigos aplaudiram de longe.

–Parabéns – gritou Emily, o que fez Leo se sentir melhor ainda do que já estava.

Tinha uma boa concentração e sua varinha era poderosa, ela o ajudava. Leo obteve sucesso em todas as outras vezes que tentou, ele não fazia quase nada e o escudo saia e ficava ali parado, protegendo-o.

–Ótimo você conseguiu — disse Emily interrompendo a diversão que Leo sentia ao soltar todos aqueles escudos.

–Aí, parabéns, sabia que conseguiria – disse Mike encorajando.

Um sorriso se projetou nos lábios de Leo. Ele havia conseguido e Emily estava orgulhosa.

–Certo, agora precisamos testar a eficiência do escudo – disse Emily – Mike, ataque Leo e ele terá que defender.

–É pra já chefa.

Emily fez uma cara de ódio para Mike quando ele a chamou de chefa novamente e desviou o olhar. Ele atacou, o escuto ficou entre o feitiço e Leo, o impacto no escudo fez Leo voar longe, a sorte é que Emily tinha escolhido um lugar com gramado que amorteceu a queda de Leo.

Mike e Emily correram para ver se estava tudo bem. Quando finalmente chegaram até Leo já estavam ofegantes.

Ele estava bem, mas meio grogue. Levantou-se cambaleando e ouviu um conselho de Emily:

–Agora tente imaginar o escudo mais grosso, mais resistente, como se fosse uma parede de alvenaria, vai funcionar melhor. Mike, de novo e... não precisa ser tão forte assim.

Mike lançava mais feitiços e em todos eles Leo voava, porém, cada vez menos longe, o que indicava que seu escudo estava se tornando mais resistente.

Só na décima quinta tentativa Leo não voou , ficou parado no mesmo lugar como se nada tivesse acontecido.

Emily pedia à Mike para aumentar a potência do feitiço gradativamente a medida que Leo se defendia sem problemas deles. O último desses feitiços foi o mais forte, se Leo não conseguisse se defender poderia morrer em decorrência da velocidade e da força que ele cairia. Os cabelos de Emily esvoaçaram quando o feitiço de Mike passou na frente dela. Leo conseguiu se defender com esforço, ele apenas se desequilibrou e teve que mover a perna esquerda para trás e continuar em pé.

–Consegui! — gritou Leo alegre – Não é tão difícil como imaginava, parece que levo jeito pra coisa.

–Muito bem, parabéns Leo – disse Emily com polidez – E... parabéns também Mike, esse feitiço foi extremamente forte

–Obrigado – disseram os dois juntos.

–Acho que podemos passar para a próxima lição: o ataque – disse Emily.

–É só isso? Não há outras maneiras de se defender? – perguntou Leo

–Sim. Há várias maneiras de fazer muitas coisas. Você vai aprender com o tempo, e alguns você mesmo vai criar, mas precisamos ser rápidos, Grayton pode estar em perigo, então só este feitiço de defesa é suficiente – disse Emily um pouco mais suave do que das outras vezes, talvez esteja começando a confiar em Leo.

–Tudo bem, passemos então para outra lição – disse Leo

–Como eu disse há muitas maneiras de fazer várias coisas. Atacar é uma delas. O feitiço mais comum é arremessar o oponente longe como Mike estava fazendo agora a pouco. Não mata, com ele você ganha tempo. É muito fácil de fazê-lo. Imagine alguma coisa potente o suficiente saindo da varinha capaz de arremessar outra pessoa longe, seguido de um movimento com a varinha, é claro.

–Acho que posso fazer isso.

–Vamos tentar, atire em Mike – ordenou Emily.

Leo estava preparando a varinha quando Mike questionou:

–Por que em mim? Depois diz que você sempre faz a parte difícil.

–Pare de reclamar, precisamos ser rápidos. Ou você está com medo?

–AHHHH, tudo bem, você que manda chefa.

Emily ficou com tanta raiva que lançou um feitiço em Mike. O coitadinho foi parar a uns 4 metros.

–Tá vendo Leo, é assim que se faz. Mas você tem que controlar a força do feitiço, se for muito forte pode lançar Mike muito longe e ele se quebrar, até que não seria ruim, mas controle-se mesmo assim.

–To ouvindo tudo hein – disse Mike ao fundo.

–AH, não importa, venha logo – respondeu Emily.

Mike quase disse “Você que manda chefa” de novo, mas se conteve, não sabia o que podia acontecer dessa vez, é melhor não irritar Emily quando ela já está irritada, Mike aprendeu isso com o tempo e veio correndo sem dizer nada.

Leo tentou a primeira vez, mas só saiu uma faísca quase imperceptível. Emily riu baixinho para não ofender Leo, mas ele ouviu.

–Pode rir, não me importo.

–Me desculpe – disse Emily

Leo tentou de novo, dessa vez saiu um raio de luz mais forte que o primeiro, mas não chegou nem até a metade do caminho.

–Concentre-se — sugeriu Emily.

Leo estava se concentrando, chegava ao ponto de suar, mas os feitiços dele não passavam da metade. Leo tentou mais vezes do que precisou pra defender. Quando estava prestes a completar 50 tentativas, o feitiço finalmente chegou em Mike, ele nem estava prestando mais atenção em Leo e o feitiço dele fez Mike cair com tudo no chão, seu traseiro ossudo não o protegeu muito do impacto e acabou soltando um grito de dor.

–Parabéns Leo, pode tentar um pouco mais forte se quiser – disse Emily e virando-se para Mike disse – E você trate de prestar atenção senão vai acabar ficando sem cabeça.

Certo, ela dissera mais forte não foi. Leo se concentrou o máximo que conseguiu e ficou até com dor de cabeça. Lançou um feitiço tão forte que até se desequilibrou, ainda bem que Mike se defendeu, senão provavelmente Emily estaria remendando Mike e reclamando ”Tem que ser eu pra fazer tudo aqui”.

Mike olhou estupefato para Leo, Emily tentou disfarçar, mas também se impressionou.

–Ótimo, é assim que tem que fazer com seus inimigos, quem realmente queira machucar – disse Emily.

–Cara, como você fez isso? Ainda na primeira aula – impressionou-se Mike.

–Minha varinha, acho que é forte demais.

–É, realmente, o que significa que terá que tomar mais cuidado ainda. Vamos tentar de novo.

Leo tentou. Dessa vez seu feitiço teve a intensidade certa. Mas uma coisa estranha aconteceu, ao invés de sair um raio de luz azul como aconteceu nas outras vezes, uma bola de fogo irrompeu da varinha de Leo. O coitado do Mike quase virou churrasquinho, mas pensou rápido e lançou um jato de água contra a bola de fogo de Leo.

–AH legal, uma bola de fogo.

–Isso foi proposital? Por que se foi... você tá encrencado, quero dizer... você quase me matou – exclamou Mike meio assustado.

–Mais ou menos, eu queria lançar o feitiço normal, mas na hora eu pensei em fogo – explicou Leo meio acanhado com medo da reação de Mike.

Mike lançou o feitiço em Leo, mas ele se defendeu numa rapidez incrível, criou um escudo na sua frente, não um escudo comum, quando o feitiço bateu no escudo ele voltou para Mike que se defendeu sem problema nenhum.

–Vamos parar as duas mocinhas. – disse Emily – Mas mesmo assim parabéns Leo, executou dois feitiços que não expliquei, na verdade, nunca tinha visto esse escudo que você criou. Como fez ele?

–Eu não sei, só defendi e desejei que o feitiço virasse contra Mike – explicou Leo.

–Isso quer dizer que você queria mesmo me machucar?

–Não é isso Mike, é que achei estranho você me lançar esse feitiço.

–Isso não importa – interveio Emily antes que a briga continuasse – O que importa é que Leo evolui muito hoje e parece ter entendido a arte de lançar feitiços, é só pensar no que você quer e pronto.

–Entendi.

–Acho que está bom por hoje, vamos encerrar, amanhã continuamos seu treino e acho que já bastará.

Já eram 17h00min, Leo se impressionou como o dia tinha passado tão rápido.