Notas iniciais
A aventura do nosso amigo Leo já está acabando, comentem o que estão achando da história!

Quando Leo acordou novamente, ele estava numa caverna, escura e úmida. Era possível ouvir o gotejar da água vinda do teto no chão da caverna. A única iluminação era uma vela na frente de Leo, já estava chegando ao final, em instantes ela se apagaria. Estava algemado com as mãos pra cima na parede da caverna como um prisioneiro em filmes de terror de terceira categoria, que Leo costumava assistir no orfanato só pra rir das babaquices e dos erros de gravações.

Tentou se soltar inutilmente e só aí percebeu a presença de Mike a sua direita e Emily ao lado de Mike. Ao primeiro instante, Leo pensou que estavam mortos, Mike estava com a cabeça sangrando, suspenso ridiculamente pelas mãos algemadas, como Leo. Leo gritou de susto e Mike mexeu levemente a cabeça que lhe doía. Emily estava com os cabelos desgrenhados, não estava sangrando, ou pelo menos Leo não conseguia enxergar seu sangramento pelo fato de Mike estar bloqueando sua visão. Leo era o que estava em melhor estado, não encontrou em si mesmo nenhum sinal de ferimento ou hematoma, mas em compensação, não sentia sua varinha no bolso da frente de sua calça rasgada e amarrotada.

Provavelmente, seu grito despertou a atenção de seus sequestradores, porque Leo ouviu passos irregulares e afobados se aproximando rapidamente. Leo pensou rápido e fingiu que ainda estava desacordado. Os passos finalmente cessaram na frente de Leo e ele pode sentir a respiração afobada de alguém na sua cara. Se esforçou ao máximo pra não dar sinais de que estava acordado. Balançaram sua cabeça de um lado para o outro, Leo não resistiu ao movimento, deixou que a balançassem.

Leo ouve os mesmo passos novamente, mas agora estavam se afastando. Seu coração batia como nunca e só depois de ter certeza que não havia mais ninguém ali, além dele mesmo e seus amigos teve coragem pra abrir os olhos novamente. Nada mudara, seus amigos ainda estavam ali no mesmo lugar do mesmo jeito que vira da última vez. Dessa vez, Leo achou melhor não gritar, apenas murmurou baixinho:

–Mike... Mike, você está acordado?

Nenhuma resposta veio do amigo. Tentou mais outras cinco vezes e começou a ficar preocupado. Aqueles homens que vieram pouco tempo antes poderia ter feito alguma coisa com eles, enquanto Leo fingia estar desacordado. Se culpou muito por isso, não devia ter deixado nada acontecer com seus amigos, podia ter ficado acordado e impedir os sequestradores de fazer mais alguma coisa com eles.

Aquele era, sem dúvida nenhuma, o pior dia da vida de Leo. Os amigos jaziam ali do seu lado, talvez mortos, assim como Lily e Peter. O pior é que a culpa disso tudo era dele mesmo. Se ele não fosse tão criança, tão imaturo de querer visitar Lily, ela nem Peter estariam mortos e provavelmente eles também não estariam ali. Leo sentia muito por Lily, queria voltar no tempo, mas nem a magia pode fazer isso por ele, tinha que conviver com a morte dela, de Peter e talvez de Mike e Emily também. Era assim que Leo pensava.

Não conseguiu segurar e começou a chorar silenciosamente, choraria como bebê recém-nascido se não tivesse medo daquele homem que veio lhe fazer uma visitinha minutos antes. O choro era um descarrego das emoções que ele sentia naquele momento, um desabafo com o silêncio, que era o único que podia lhe escutar agora ou talvez o único que sobrara pra conversar, mesmo que ele não possa responder aos argumentos de Leo, era o silêncio que o escutava.

Quando Leo estava começando a perder as esperanças e começando a pensar em suicídio quando saísse dali, Mike deu um sinal de vida, mexeu de novo a cabeça e a levantou com muito esforço. Seus olhos se abriram lentamente como se até esse simples gesto lhe doesse até os ossos.

–Graças a Grayton! Você está bem?

–Eu... eu... estou. On... onde estamos? – disse Mike com dificuldade.

–Parece que estamos numa caverna.

–Isso eu já per... percebi, que... que caverna é essa?

–Não sei. Só me lembro de estarmos no orfanato... e acordei aqui. Mas... o que fizeram com você, por que está sangrando?

–Não me lembro direito. Lembro de uns homens me batendo aqui, enquanto estava algemado e depois apaguei de novo.

–Pelo menos você tá vivo. Estava começando a ficar preocupado.

–Você... você estava chorando? – perguntou Mike quando viu uma lágrima no rosto de Leo.

–AH NÃO, isto foi só um cisco que entrou no meu olho, só isso – disse Leo tentando enxugar a lágrima com o ombro.

–HUM – disse Mike sem acreditar.

Leo ficou sem graça e perguntou:

–Emily está bem?

Mike olhou pro outro lado com dificuldade pra ver Emily, ela ainda estava desacordada.

–E... Emily, você está bem? – perguntou Mike para o corpo imóvel de Emily pendurado pelas algemas enferrujadas.

Ela nem se mexeu, continuou do mesmo jeito. Os cabelos embaraçados não deixavam Mike olhar diretamente nos olhos de Emily que estavam apontados para o chão.

–Nem se mexeu – alertou Mike para Leo.

–Emily. Emily acorde, por favor – tentou Leo sem sucesso.

–Você acha que ela está...?

–Não, não pode estar – respondeu Leo antecipando a pergunta de Mike porque não queria ouvir aquela palavra – Não somos nada sem ela, eu não sou nada sem ela.

Leo tinha até se esquecido da discussão dos dois na noite passada dentro do velho carro que Leo esperava estar bem. Talvez ela também tivesse esquecido, mas preferiu não pensar nisso agora, muito menos em Lily, isso não ajudaria em nada.

–O que nós vamos fazer?

– Você quis dizer o que VOCÊ vai fazer, não é? Use sua magia pra nos tirar daqui.

–Por que eu? Você não tem a sua varinha?

–Ela não está comigo, e mesmo que estivesse, como poderia usá-la, estou algemado aqui esqueceu? Mas você, por outro lado, não precisa de varinha.

Mike assentiu sem dizer nada. Tentou se livrar das algemas, mas não conseguiu de jeito nenhum.

–Não consigo, o lugar parece ser enfeitiçado. Ou eu que estou muito fraco e não consigo me livrar nem dessas algemas velhas e enferrujadas.

–Então, o que nós vamos fazer?

–Foi o que eu perguntei e... você que é o inteligente aqui. Eu não sirvo pra nada, só atrapalho vocês.

Leo se sentiu muito mal pelo amigo. Não se surpreendeu quando ele disse isso, era natural que ele se sentisse assim, mas Leo não podia fazer nada agora e era um péssimo conselheiro, mesmo assim tentou:

–Não fique assim, cada um tem a sua importância – foi o melhor que pôde dizer, mas não adiantou nada.

Mike não disse mais nada, sabia que não era hora certa de falar aquilo nem de se fazer de coitadinho então calou-se. Leo buscava palavras melhores pra consolar o amigo, mas não encontrou nenhuma.

Ficaram calados por um bom tempo, o único som que poderia se ouvir era o gotejo da água que ainda não cessara. O silêncio só foi quebrado quando a vela se apagou e eles ficaram no escuro total:

–AH, ótimo. Era tudo o que faltava – exclamou Leo infeliz.

Uma tosse ecoou na escuridão depois da fala de Leo, sucedido de um gemido baixo, quase inaudível.

–Emily, é você? – perguntou Mike esperançoso.

Outro gemido, dessa vez um pouco mais alto que o primeiro. Talvez ela estivesse tentando dizer sim. Depois mais outros gemidos, ela conseguiu falar, com uma voz muito fraca:

–Sim, sou eu.

Leo sentiu um alívio imenso percorrendo por todo seu corpo, desde o fio de cabelo rebelde mais alto no topo de sua cabeça até a ponta do dedão do pé dentro do sapato encardido.

–Você está bem? – quis saber Leo.

–Acho que sim, só a minha cabeça que dói um pouco – respondeu Emily depois de um tempo adquirindo seu tom de voz habitual aos poucos – Onde nós estamos?

–Numa caverna em algum lugar desconhecido – respondeu Leo.

A escuridão os cegava, portanto, Emily não respondeu com a mesma sequidão de Mike quando ele fez a mesma pergunta à Leo.

–Do que se lembra? – perguntou Mike gentilmente.

–Só de que fomos sequestrados no orfanato. O que aconteceu depois? – perguntou Emily com sua voz recuperada

–Não sabemos mais do que você. Nem quem era aquele homem mascarado que nos sequestrou – disse Mike.

–Nem o que ele quer – completou Leo em seguida.

–HUM. E... Leo, me desculpe por Lily e Peter – disse Emily tristemente.

–Por que está se desculpando? A culpa não foi sua.

–Foi sim – disse Emily

–Mas como poderia ter sido sua culpa?

–Quando voltei para o carro e não encontrei vocês lá, fui até o orfanato e olhei pela janela, vi vocês dois amarrados nas cadeiras e aquele mascarado. Entrei no porão pelo lado de fora do orfanato, peguei uma escada, posicionei na frente da janela onde estavam as crianças e subi. As crianças me reconheceram e abriram a janela pra mim entrar. Expliquei que as criaturas que estavam vigiando elas eram Dixens e que não fariam nada com elas se não fossem ordenados. Elas aceitaram me ajudar e mandei elas gritarem pra chamar a atenção do mascarado. Desci as escadas e olhei pela janela outra vez, esperei até que ele subisse para ver o que estava acontecendo com as crianças, entrei no orfanato e libertei vocês.

Ficaram em silêncio por um instante e Leo perguntou:

–Mas por que isso faria você culpada pela morte de Peter e Lily?

–Eu mandei que eles gritassem, arrisquei as vidas das crianças, os Dixens poderiam matá-las, e acabou matando uma delas, Peter.

–Não se culpe, não tem nada a ver, tudo bem? Peter e Lily não morreram por sua culpa.

– Alguma ideia de como vamos sair daqui?

–Não. Mike disse que o lugar é enfeitiçado, magia não funciona nessa caverna – comentou Leo.

–Parece que vamos ter que esperar até que nos tirem daqui. Não nos sequestraram pra ficarmos aqui presos pra sempre, eu acho – disse Mike.

–Você tem razão Mike, vamos esperar – concordou Emily.

–VOCÊ CONCORDOU COMIGO? – exclamou Mike surpreso – Você nunca concorda com o que eu falo.

–Eu tenho sido muita dura com vocês dois, não me admira que você pense aquilo de mim Leo.

–AH... então... sobre isso... eu queria te pedir desculpas – disse Leo desconcertado.

–Não diga isso, não estou nervosa com você. Admito que fiquei irada com você no início, mas... quando parei um pouco pra refletir, vi que você estava certo. Não sou uma pessoa fácil de lidar – confessou Emily.

Leo não tinha resposta e essa era uma das situações que ele mais odiava, quando ele tem que dizer alguma coisa e não conseguia, como aconteceu um pouco antes quando Mike disse que ele mesmo era inútil. Então limitou-se a não dizer nada.

Mike também não disse nada. O silêncio dos dois proporcionou que eles ouvissem um suspiro triste de Emily. Ela parecia estar chorando, apesar de não enxergarem nada, Leo sentiu isso. Ficou com um grande aperto no coração, queria poder abraçá-la para que ela se sentisse melhor, mas as algemas os afastavam.