“PI! PI! PI!” Esse era o barulho irritante do despertador de Leonard Blake que indicava que já eram 06:00, hora de acordar.

Como de costume, Leo, era assim que todos o chamavam, volta a dormir esquecendo-se que deve levantar para ir à escola. Mas ele nunca faltava porque escutava um berro: ”LEEEEEEEEO”, vindo sem dúvida de Lily no andar inferior. Lily era a dona do orfanato em que Leo morava, um amor de pessoa que cuidava de todas as crianças de lá como se fossem seus filhos. Tinha 35 anos, mas com toda a responsabilidade no orfanato que levava sozinha aparentava 45, tinha olheiras enormes e algumas rugas começavam a se formar no canto olhos, era magra, mas apesar de tudo Leo a considerava uma mulher bonita.

Ainda sonolento, o garoto desce as escadas com seus cabelos negros desarrumados, seus olhos azuis estavam se fechando a todo segundo, Leo fazia um esforço imenso para mantê-los abertos. Tinha um metro e setenta. Seria um garoto bonito se não fosse tão magro, suas costelas formavam ondulações no peito por baixo de sua pele dando uma aparência cadavérica ao garoto.

Os outros garotos do orfanato, que por sinal odiavam Leo ou só tinham ciúmes dele por causa de Lily já começaram o dia perturbando o garoto:

-Olha o esquisitão acordou! Ele acha que pode fazer tudo que quiser aqui – disse Ethan, o garoto que mais irritava Leo no orfanato para seus outros coleguinhas, Mark e Brian, que seguiam ele pra todo lugar como se fossem suas sombras.

Lily apareceu logo e já deu um jeito naqueles meninos idiotas:

-Parem de perturbar o pequeno, ele acabou de acordar – disse Lily pra eles e voltando-se para Leo disse — Bom dia! Dormiu bem? Você estava demorando um pouco para descer então tive que lhe chamar. Venha, sente-se aqui — Lily puxou uma cadeira no canto da cozinha em meio a todas as crianças — O café já está pronto.

Leo, tentando parecer o mais animado possível, responde com uma voz não muito convincente:

-Obrigado Lily. O que tem de café da manhã para hoje?

-Oh meu querido, não muito, as doações desse mês não foram favoráveis, então tive que economizar. Só temos alguns pães e um pouco de café que guardei para você.

Todo o orfanato era mantido por doações, que apesar de não serem muitas dava para se viver tranquilamente. A principal doadora era a senhorita Cristen que morava do outro lado da rua, era uma moça simpática por quem Leo sempre sonhara em ser adotado. Era médica e trabalhava no maior hospital da região, Leo nunca teria dinheiro para entrar lá.

-Ora, vamos se apresse você já está atrasado para a aula – disse Lily antecipando a próxima pergunta de Leo que seria ”Que horas são?”. Leo sempre perguntava isso quando acordava.

Peter, seu melhor amigo no orfanato, era um garoto magricela como ele que também era zombado por Ethan, Mark e Brian. Peter se sentou na cadeira ao lado de Leo para tomar café da manhã com ele.

-Parece que Ethan e sua turminha começaram cedo com as gozações hoje – disse Peter.

-É, mas eu nem me incomodo mais com isso – disse Leo. E isso era verdade, antigamente ele ficava tão nervoso que chegava ao ponto de brigar com Ethan, mas agora ele se acostumara com aquilo e nem ligava para o que Ethan falava.

-Preparado pra mais um dia de escola? – pergunta Peter mudando de assunto.

-Acho que sim – responde Leo desanimado – Temos que estar preparados, não vejo a hora disso tudo acabar.

Leo odiava a escola por que ele também era motivo de risos nela. Philip era o garoto que mais atormentava Leo na escola, e o pior era que eles eram da mesma classe, então a vida de Leo era uma droga, não há lugar no mundo que ele se sinta feliz. Mas ele continuava a frequentá-la porque Lily dizia que era importante para ter um bom emprego e um bom salário. O sonho de Leo era ser médico, como a senhorita Cristen. Tinha um espírito bom e gostava de ajudar as pessoas. Se conseguisse realizar esse sonho, Leo ia ajudar Lily com o orfanato, contratar funcionários pois Lily era muito ocupada, e fazer o máximo de doações que conseguisse.

Terminou de comer, colocou o velho e abarrotado uniforme escolar, escovou os dentes amarelados rapidamente, penteou os cabelos rebeldes de qualquer jeito e saiu apressado para a escola com Peter ao seu encalço. Quando pôs o pé calçado em seu velho tênis doado pela escola pra fora de casa Lily gritou:

-E vê se não demora que hoje você tem entrevista, uma família me ligou ontem a noite interessada em adotar uma criança, mencionei você!

-Tudo bem! – disse Leo em resposta – Estarei aqui às 13:00.

Não havia muitas famílias interessadas em adotar Leo, ele já não era mais nenhuma criança, tinha 13 anos, apesar de Lily tratá-lo como um bebê. Queria ficar no orfanato para sempre, mas dava muitas despesas e ele não queria dar trabalho, Lily era muito boa para ele.

Chegara ao ponto do ônibus escolar quando o ônibus já estava passando. Subiu antes que Peter, cumprimentou o motorista e se dirigiu ao penúltimo banco pois todos os outros assentos já estavam ocupados, Peter sentou-se ao lado dele. Philip e sua turminha formada por mais 3 garotos que Leo nem sabia o nome estavam no banco atrás dele e atormentava os dois como faziam todo dia, mas Leo não dava muita atenção para eles já que a única pessoa que lhe interessava era Emily Collins que estava sentada no banco da frente. Ela era uma garota linda, por quem Leo era apaixonado, ela nunca dera bola pra ele, talvez nunca tivesse reparado a existência de Leo. Ela era loira, seus olhos eram da mesma cor dos de Leo, azul celeste, era um ano mais velha que Leo, não tinha namorado, pelo menos não que Leo soubesse apesar de não faltar pretendentes, Philip era um deles, mas ela parecia não estar interessada em ninguém.

Hoje uma coisa diferente aconteceu, ela sorrira para ele, ficou tão feliz que nem percebeu que a turminha de Philip tinha pegado sua pequena e velha mochila sem marca, só percebeu quando chegaram na escola. Os meninos malvados desceram correndo do ônibus, e Leo pensou: “com certeza foram eles que pegaram minha mochila”. Saiu correndo atrás deles xingando-os de todos os palavrões que conhecia, que não eram muitos. Eles riam como idiotas com a mochila de Leo balançando na mão de Philip. Leo não era pessoa uma pessoa muito atlética e nem tinha muito condicionamento físico, portanto, ficou para trás enquanto Philip desaparecia pra dentro da escola.

Leo e Peter ficaram todo o tempo que tinham antes de começar a aula procurando pela mochila, mas não os encontrou em lugar nenhum. O sinal da escola bateu, ele se parecia com aqueles dos presídios que indicava que o horário do banho de sol tinha acabado e os prisioneiros tinham que voltar para a cela, era assim que Leo via a escola, como um presídio. Peter era um ano mais novo que Leo, então não estudavam na mesma sala, eles se separaram e Peter prometeu que iria ajudar Leo a procurar sua mochila no intervalo.

As duas primeiras aulas eram de biologia com o Sr. Crowe, o professor que Leo mais odiava.

-Leo, onde está sua mochila? – perguntou o Sr. Crowe.

-AH... eu esqueci em casa – mentiu Leo depois de ver Philip olhando pra ele no fundo da sala. Para Leo o olhar de Philip significava: ”se você contar alguma coisa vai ser um garoto morto”, então preferiu mentir mesmo com as risadas vindas de todos que estavam na sala.

Em silencio Leo sentou no seu lugar de costume perto de seu único amigo na escola, o nome dele era Mike.

-Você não esqueceu sua mochila – disse Mike que conhecia quando Leo estava mentindo.

-Não, na verdade foi Philip, não queria dizer ao professor – disse Leo baixinho para que ninguém mais escutasse.

-Entendi. Você acha que eles jogaram no lixo?

-Não sei, mas também não duvido disso.

-Te ajudo a procurar depois.

-Obrigado. Não sei porquê eles implicam tanto comigo, nunca fiz nada pra eles.

-A questão não é se você fez alguma coisa pra eles, só querem atormentar alguém e escolheram você, ou melhor, nós.

-Por que nós?

-Vai vê que é porque nós não fazemos nada.

-Você pode ter razão.

-Eu estou ouvindo murmúrios aí do fundo — disse o Sr. Crowe inclinado à cabeça na direção de Leo.

-Me desculpe professor, só estava perguntado ao Mike que página o senhor está explicando – mentiu Leo.

-Página 61 do livro Biologia, a ciência da vida. Vamos falar sobre os animais invertebrados. Mas por que quer saber a página do livro se não está com ele?

Leo não tinha resposta, não tinha pensado nisso, sempre mentiu mal. Ficou olhando pra cara do professor tentando dizer alguma coisa, mas nenhuma outra mentira vinha-lhe à mente.

-Tudo bem, isso não importa – disse o Sr. Crowe percebendo o nervosismo de Leo – Só façam silêncio, por favor, ou terei que encaminhá-lo à direção.

-Certamente não será necessário professor.

-Assim espero. Voltemos à atenção para o livro.

Leo fez uma careta para Mike tentando indicar o ódio que sentia pelo professor. Talvez Mike não tenha entendido o que ele quis dizer, mas mesmo assim também fez uma careta em resposta e riram baixinho.

A aula estava horrível, Leo odiava biologia e odiava ainda mais o professor então deitou a cabeça sobre a mesa que rangia e dormiu pelo resto da aula, só acordou quando Mike lhe deu uma cotovelada.

-Acorda cara, as aulas de biologia já acabaram e você dormiu na aula de matemática também. Agora é o intervalo, quer encontrar sua mochila ou não?

Leo levantou a cabeça relutante. Babou dormindo e estava todo molhado. Levantou-se da cadeira e acompanhou Mike até a porta da sala. Peter o esperava do lado de fora, Mike o cumprimentou e eles se dividiram pra procurar a mochila. Eles não viram a mochila com Philip então preferiram não perguntar.

Leo foi quem a encontrou, estava jogada numa poça de lama, toda suja. Leo lamentou, mas a pegou. Ao fazer isso se revelou um objeto curioso que até então estava mergulhado na lama. Parecia com um pedaço de madeira, mas não comum, se parecia mais com uma varinha mágica com detalhes em azul claro. Deveria ter uns 30 centímetros. Olhou pros lados para ver se tinha alguém procurando algo, não encontrou ninguém, estava sozinho no pátio atrás da escola. Uma vez Mike disse: ”Achado não é roubado” quando encontrou 2 reais num lugar próximo daquele, então recolheu o objeto e o enfiou na mochila toda suja. Partiu correndo atrás de Mike e Peter para avisá-los que já tinha achado a mochila. Encontrou a turminha de Philip no corredor, que não perderam a chance de caçoar do menino:

-Quer dizer que o podre garoto órfão encontrou sua mochila. E então, gostou da surpresa?

Leo com lágrimas nos olhos passou correndo por eles. Ficara triste não por ter escondido sua mochila, estava acostumado com essas brincadeiras de mau gosto, mas por lembrá-lo que era órfão. Sempre que perguntava a Lily sobre seus pais ela dizia que um homem idoso entregara o garoto ao orfanato, sem dar muitas explicações, numa noite chuvosa, e logo tratara de desviar o assunto para Leo não se aborrecer mais por seus pais que o tinham abandonado.

-Isso, corre mesmo pra mamãezinha. Ah desculpa você não tem uma.

Leo ficou com muita raiva quando Philip disse aquilo. Pensou no que Mike dissera sobre essas gozações de Philip, ele nunca fazia nada, apenas saia correndo. Ele virou-se e correu em direção a Philip, deu-lhe um soco em sua cara gorda e espinhenta. Um fiozinho de sangue escorreu pelo canto da boca de Philip.

Philip partiu pra cima de Leo e também lhe deu soco, dessa vez no olho de Leo que ficou roxo no mesmo instante.

Vários outros alunos chegaram para assistir e gritavam em uníssono:

-BRIGA! BRIGA!

Leo estava levando uma surra de Philip, os dois sangravam. Mike e Peter não demoraram a chegar ao local. Mike se intrometeu na briga dos dois dando pontapés e socos bem aplicados em Philip, Mike parecia que praticava luta, mas nunca comentou isso com Leo.

O diretor da escola, um senhor gordo e baixinho chegou correndo no local, estava ofegante quando os outros amigos de Philip se envolveram na briga também, Mike lutava com os quatro e estava começando a perder, um dos amiguinhos de Philip acertou-lhe um soco no nariz que começara a sangrar. O diretor quando finalmente conseguiu falar disse:

-Parem com isso agora mesmo!

A briga cessou. Mike, Leo, Philip e seus amigos sangravam. Peter preferiu não se envolver diretamente na briga só gritava coisas como: ”AI MEU DEUS, PAREM COM ISSO”.

-Vocês todos, vão embora! – disse o diretor e virando para os envolvidos na briga alertou – Vocês também, mas depois da aula passem na minha sala, teremos uma conversinha.

Todos saíram correndo e deixaram o lugar vazio. Quando chegaram à sala, a aula de inglês com a senhorita Margareth já tinha começado, pediram licença e entraram. A senhorita Margareth percebendo a mochila suja perguntou:

- Por que sua mochila está suja Leo?

Toda a classe riu do menino desengonçado que tentava se explicar:

-Estava vindo para aula quando tropecei e deixei a mochila cair numa poça de lama – mentiu Leo.

-Mas você não tinha esquecido a mochila? – perguntou um garoto no fundo da sala que Leo não conseguiu distinguir quem era.

-AH... eu voltei pra casa pra pegá-la no intervalo – mentiu Leo de novo.

-Não foi não – disse Philip – Estávamos no corredor.

-Mas isso foi antes, seu idiota! – respondeu Leo sabendo que ele não ia contrariar senão teria que confessar o que ele fez.

Philip levantou o braço com o punho cerrado para lhe dar outro soco, mas a senhorita Margareth interrompeu:

-Chega de briga por hoje, tudo bem? Tomem seus lugares que eu já vou começar a aula, vamos falar sobre Question Tags hoje.