Lendas da Luz
2 A Guerreira Escarlate
Notas iniciais
Reino de Waduz
Os olhos do grande pássaro estavam alerta a qualquer tipo ameaça. Guardavam a entrada da construção com cautela, a espera de algum sinal suspeito que possa comprometer a paz e tranquilidade de sua morada. Emanavam poder, que muitos acreditavam realmente possuir, demonstrando seu papel autoritário como o líder nato pelo qual era conhecido. Em conjunto das asas abertas ao seu limite, do peito estufado em todo seu esplendor e das temíveis garras enfincadas firmemente sobre o galho de bronze, sua imagem era a de um caçador impetuoso e viril, capaz de dizimar espécies e de alcançar toda a sua glória.
Embora assim parecesse, os contos e lendas originários daquele reino mostravam o outro lado do Pássaro de Ouro. A parte caridosa, protetora e altruísta; características que tanto a ave quanto seus seguidores se orgulhavam de ter. Pregava que a violência não era a única solução, tão pouco a mais viável, e, portanto, era preciso controlar as emoções para ver outras possíveis alternativas. Como uma mãe que não mede esforços pelo filho, assim era o pássaro para aqueles que o seguiam. E era deste outro lado de Phyris que Eklayre mais confiava.
A grande estátua de ouro se erguia pelo Sagrado Templo, quase a tocar no teto. Diversos fiéis se encontravam ao seu redor, fazendo suas preces, oferecendo presentes, adorando a imagem. Como já conhecida, a tradição exigia de todos total silêncio ao orarem, ajoelhados, observando a majestosa ave durante toda a confissão. Não era regra a distinção por sexo, cor, idade ou grau de riqueza; porém o padrão se tornava visível a qualquer um que fosse ao Templo. Mulheres e homens, cada qual de um lado, onde os mais novos e detentores de grandes quantias se posicionavam à frente, enquanto idosos e pessoas mais pobres prestavam sua devoção mais perto da entrada frontal. Havia ainda os que preferiam fazer sua adoração em pequenos grupos ou sozinhos, como era o caso de Eklayre.
Cobria-se com panos por todo o corpo, com exceção de seu rosto, pés e mãos. Estava em seu lugar de costume – logo em frente à estátua, no último degrau da escadaria feita especialmente para o depósito das oferendas –, onde ia todos os dias para pedir por bênçãos, sabedoria e proteção. Com os pálidos dedos segurando o peculiar pingente de ouro ao peito, recitava silenciosamente sua tão aclamada prece, que após mais de quinze longos anos finalmente parecia se cumprir: ser capaz de reencontrar sua tão amada mãe.
— ...Peço, com total clamor a ti, que me ajude. Agora que pareço estar tão perto, preciso de forças para prosseguir. Conceda-me coragem e esperança. – Seus olhos esverdeados encaravam com emoção os olhos dourados, implorando em silêncio para ser atendida. Embora a atenção da ave estivesse fixa na entrada de seu lar, podia sentir algo sobre si incapaz de explicar em palavras, e tomou aquilo como o sinal de que precisava para prosseguir. – Espero que ouça atentamente ao meu chamado, Phyris. E que a luz... Alumie a minha vida.
Finalizando a oração diária, permaneceu encarando a estátua em toda pompa e clareza. Sempre o fazia, para ter a garantia de que suas palavras atingiram o grande pássaro. Soltou o pequeno pingente de formato arredondado e pôs-se de pé, preparando-se para sair. Passou o olhar por entre as demais pessoas que estavam no recinto em seu momento de paz e se despediu do lugar na sua mente. Não desejava atrapalhar as confissões, nem tanto admitir a si mesma que estava partindo – mesmo que tivesse passado sua vida inteira apenas naquele pacato reino do sul.
Virou-se à saída e andou a passos lentos até o portão. Caminhou de cabeça baixa para que não a perturbassem, além de facilitar sua partida e deixando-a invisível entre os outros. Desceu pelos achatados degraus da construção rumando ao norte, onde pretendia chegar aos limites do reino, ter a passagem concedida pelos guardas e conseguir adentrar na Floresta, seu principal objetivo no momento. Cada segundo valia a partir de agora, e ela sabia que talvez nunca tivesse outra chance como esta em sua vida.
Precisava encontrar a Mulher do Fogo. Ou suas orações não passariam de palavras tolas jogadas ao vento.
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Desde que se iniciaram boatos sobre Feist, como é conhecida a floresta ao norte de Waduz, em que grandes áreas naturais foram irrompidas em fogo ardente, chamas incessáveis e um calor infernal, Eklayre soube que algo nunca antes visto estava acontecendo, bem perto de si. Entretanto, não sabia que tudo fora causado por apenas uma única pessoa: a Mulher do Fogo, como a chamavam.
Segundo o que ouviu, se tratava de uma mulher normal, como qualquer outra. Porém possuía características distintas. Seu cabelo era negro como o carvão; olhos avermelhados como sangue ou até a mais poderosa chama; a pele era mais bronzeada, porém tornava-se avermelhada quando tinha o corpo coberto pelo fogo. Tinha o domínio total sobre o elemento, utilizando-o contra a floresta com fúria e poder; contudo, ninguém soube dizer o porquê. As pessoas que recebiam a notícia se dividiam entre o medo iminente de sofrer um ataque de fontes totalmente desconhecidas ou a incredulidade, ignorando a notícia como se fosse apenas mais uma estória para fazer criança dormir. Mas a Bavallier pensava de outra forma. Via aquilo como uma chance.
Passou a infância escutando as lendas e contos do reino. Mas os que mais adorava escutar eram os de sua mãe. Falavam sobre criaturas místicas com poderes incríveis, entre os quais o domínio de magia – algo, até então, repudiado pelas pessoas e que causava diversas discussões sobre sua verdadeira existência, se é real ou não. Lembra-se de ter escutado sobre seres capazes de atear fogo e controla-lo, da mesma maneira que outras criaturas o faziam com gelo, água e outros elementos, sendo apenas capazes de fazer isso com a magia.
Portanto, se a Mulher do Fogo for mesmo um boato verdadeiro, pensava consigo, sua mãe então conhecia de verdade as criaturas que protagonizavam os seus contos. E, possivelmente, já havia feito contato com eles. Assim, precisava ver com os próprios olhos a tal Mulher do Fogo, para confirmar as suas suspeitas e ter certeza de que tudo que ouviu era real – de que Mystic era real – e então passar a descobrir com clareza onde sua mãe se encontra.
A evidência de uma mulher controladora de chamas era tudo o que precisava. Eliminaria várias de suas suspeitas. E deixaria bem mais fácil a sua procura por ela: aquela que a amou de todo o coração.
— Lá está... – Falou, ao reconhecer a fronteira que a impedia de prosseguir.
Após deixar o Templo Sagrado, fez um longo caminho até os limites entre o reino e a floresta. Muros enormes contornavam Vaduz, funcionando como barreiras contra possíveis ataques de reinos vizinhos e delimitando o território do sul. Postos de controle se encontravam espalhados por pontos específicos para impedir a entrada de inimigos ou contrabando e a saída de criminosos ou possíveis informantes. Esta era a única maneira de chegar ao outro lado. O mesmo acontecia em outros territórios reais de maior importância.
Eklayre não era uma criminosa, muito menos pretendia fazer o mal a alguém. Mas sentia-se tensa. Era a primeira vez que saia de sua terra natal, totalmente sozinha, em busca de certa mulher que podia nem sequer existir. As circunstâncias não conspiravam ao seu favor, infelizmente. Mas era preciso. Já fazia dias desde o início dos boatos; não queria por tudo a perder e chegar tarde demais na floresta, ficar de mãos vazias. Isto é, se a Mulher do Fogo fosse mesmo verdadeira. Entretanto, estes não eram os únicos problemas que tinha no momento. Algo mais lhe preocupava.
De onde estava, era possível ver a fila de mercadores e visitantes desejando retornar a suas casas. Havia também aqueles que pretendiam tentar uma vida nova fora de Vaduz, carregando ouro, vestimentas e crianças. Conseguiu identificar três guardas supervisionando o posto – um deles responsável pelo estreito portão de ferro, enquanto os outros dois averiguavam os pertences daqueles que desejavam passar e faziam perguntas sobre a viagem.
Era exatamente isso que temia. O que faria caso não a deixassem passar?
Respirou fundo, querendo manter a calma. Pensaria nisso somente se ocorresse. Por isso torcia para conseguir passar sem nenhum problema.
Aproximou-se do final da fila, observando o céu de tom alaranjado. Estava anoitecendo. Encarava aquilo como um ponto ao seu favor, caso algo desse errado. Seria bem mais fácil fugir dos guardas no escuro. Também ajudava na questão de se esconder deles na possível perseguição. Porém não desejava pensar assim. O que mais queria era passar pelos limites sem nenhum problema.
A fila foi diminuindo. A cada passo se sentia mais tensa, menos preparada. Pensou até em desistir no último momento ao ser chamada pelo homem uniformizado – e armado – até recordar-se do porquê estava ali. Deu um passo a frente, receosa, querendo que aquilo tudo terminasse o mais rápido possível.
— Boa noite, senhorita. Poderia identificar-se? — O oficial trajado com peças de cor azul, a cor simbólica do reino, chegou mais perto para questiona-la. O segundo oficial iniciou a revista em si.
Era possível que nunca mais fosse pisar naquele reino. Então tratou de dizer a verdade.
— Eklayre Bavallier. – Respondeu, soando medo. Tentou parecer firme, mas o guarda já havia notado seu nervosismo.
— Com medo? Há algo para esconder? – Ele riu, o que a deixou ainda mais apreensiva. Levantou os braços a pedido do segundo homem.
— Não, senhor... – O guarda a encarou com curiosidade.
— Certo. Qual o propósito da viagem?
Pensou por alguns instantes.
— Desejo cruzar a floresta para chegar ao norte. Tenho parentes lá que precisam da minha ajuda. – Decidiu mentir em certa parte. O homem arqueou uma de suas sobrancelhas grossas a fazer, agora carregando um sorriso cínico nos lábios.
— Pretende cruzar a floresta sozinha? Mesmo após os boatos sobre os incêndios misteriosos e uma possível “mulher do fogo”? É mesmo uma mulher corajosa. – Riu outra vez, agora acompanhado de seu colega de trabalho. Eklayre franze o cenho.
— Não estou sabendo sobre estes boatos... – Tentou ocultar a mentira com uma expressão confusa. Felizmente, o guarda não pareceu desconfiar de seus atos.
— Oh, é uma pena. Ela está livre? – Abaixou o olhar ao companheiro, que conferia se havia algo no tecido do vestido que usava. Estava prestes a responder, quando sentiu algo sólido na lateral da perna direita de Eklayre. Ao tatear melhor, percebeu ser algo afiado.
Ela congelou. Havia se esquecido deste detalhe.
Em uma tentativa de detê-lo, deu um passo para trás, puxando a barra do vestido com força. O movimento surpreende ambos os oficiais, que tentando impedi-la de uma aparente fuga, agarram o tecido que cobria sua cabeça e se estendia até o chão, para depois puxa-lo.
O pano branco, então, revela o que escondia por baixo de si. Eklayre leva as mãos à cabeça, notando a falta da peça e direcionando seu olhar aos homens assustados. Ela tenta se justificar pelo ato, ao mesmo tempo em que procurava outra forma de cobrir-se.
— Esperem! Eu... Isso não é...
— Vermelho... – O oficial que a revistava diz, interrompendo-a. Todos agora a encaravam, principalmente devido à cor marcante que se destacava em seu cabelo. Um vermelho forte, que descia de sua nuca, ombros, costas, até chegar finalmente abaixo da cintura. Um silêncio amedrontador se instalou no ar, antes de ser quebrado pelo tom de voz elevado do primeiro guarda.
— O que é isto? Nunca vi tamanha aberração antes... Por acaso é uma praticante de magia? – Sua expressão era de completo nojo e desprezo. Eklayre meneava a cabeça em negação constantemente, tentando contornar a situação. – Que outra mulher banharia seu próprio cabelo em sangue? Só pode ser uma bruxa. Ou então... – Um lampejo de reconhecimento passou pelo rosto do guarda. – Você pretendia cruzar a floresta. Quem sabe você não é mais uma como a tal Mulher do Fogo? Deseja ajuda-la a destruir a floresta com suas chamas, aberração?
De repente, tudo saiu do controle. As pessoas da fila começaram a gritar, furiosas e conturbadas, arremessando objetos em Eklayre, no mesmo instante em que os guardas se aproximavam dela, com espadas em mãos. A ruiva, então, não viu outra alternativa.
— Feche o portão! – A voz grossa ordenou, segundos após Eklayre correr em direção à floresta. O terceiro homem, alarmado, procurou pela alavanca que acabaria com as chances da ruiva. Puxou-a, mas foi tarde demais. Ela já havia passado a fronteira.
Olhou para trás, a fim de ver arcos apontados para si e uma multidão efervescida pela raiva e desgosto. Continuou a correr, desta vez atenta apenas na floresta, cada vez mais perto a cada passo que dava. Acabou tropeçando em certos trechos do caminho, e não conseguiu desviar de certas flechas certeiras. Contudo, ao chegar a Feist, sentiu-se aliviada. Tratou de se afastar por mais alguns metros vegetação adentro, antes de encontrar um lugar mais calmo para se esconder: um emaranhado de folhas e arbustos rodeado por árvores.
Com medo, machucada e cansada da corrida, decidiu que repousaria ali. Afinal, o pior já tinha passado. Pelo menos assim acreditava. Seu único problema agora era encontrar a controladora do fogo.
No estado em que se encontrava, decidiu fazê-lo pela manhã.
Após ter passado a noite deitada por entre folhas secas, exposta ao frio noturno pelo qual não estava acostumada e a animais selvagens, percebeu a real situação em que estava. Encontrar a Mulher do Fogo era sua prioridade no momento; porém, começou a temer as circunstâncias. Mas não se atreveu a recuar. Com uma fé crescente preenchendo seu peito, começou a vagar floresta afora ao amanhecer, espantando da mente os seus possíveis fracassos.
Minutos se passaram, seguidos de algumas longas horas. O sol já podia ser visto em seu ápice, mesmo com as copas das árvores atrapalhando a passagem de sua luz. A fome tornava-se cada vez mais torturante, assim como sua sede. Mesmo que precisasse, não se daria ao luxo de parar neste ponto crucial da procura. Arranjaria uma maneira de se alimentar mais tarde, por mais que o vazio a incomodasse bastante. Por fim prosseguiu, desejando por logo um fim em sua dor.
Em nenhum momento sequer deixou de segurar o seu pingente. Depositou todas as suas forças nele, inclusive sua esperança. Recordava a cada momento do porquê estar passando por aquilo, para persistir no que acreditava ser o certo. Assim como havia feito durante toda sua vida.
A caminhada não durou muito mais pela tarde. Obrigou-se a descansar e comer alguma coisa. Hidratar-se também era essencial. Mas duvidava que fosse encontrar algo naquela parte da floresta. Ainda segurando o pingente, apertou-o com firmeza.
— Phyris... Eu lhe imploro. Ajude-me... – Sussurrou, com a voz falha. Aguardou alguns instantes por algum sinal vindo dos céus, rogando ao pássaro por cuidado e proteção.
Como que por um milagre, ouviu ao longe o fraco som de água corrente. Agradeceu silenciosamente pelo presente que lhe fora dado, andando na direção que imaginava estar a correnteza d’água. Felizmente, a encontrou: um filete translúcido correndo dentre as árvores, forte o suficiente para provocar o som pelo qual havia escutado. Louvando a grande ave, decide seguir o lado contrário do percurso, a fim de encontrar a nascente e somente assim se hidratar. Caminhou a passos curtos, porém rápidos.
Ao acha-la, tratou de beber o máximo possível. Isso eliminou sua sede momentaneamente; mas sabia que cedo ou tarde ela voltaria. E ainda não havia ingerido nada. Contudo, resolveria um problema de cada vez. Não poderia ser exigente em meio ao cenário incomum onde se encontrava. Então procurou clarear a mente.
Sentada ao lado da límpida água, encarou o próprio reflexo. Permanecia sem nada para cobrir-lhe a cabeça, entretanto já não era mais necessário. Ali não havia nenhum outro ser que pudesse despreza-la somente pela sua aparência. Tocou uma mecha caída e observou a peculiar tonalidade que a mesma havia. Recordou da conversa na noite anterior, a sua fuga, e de como escapou por pouco. Olhando mais atrás no passado, relembrou outras fugas suas por causa do mesmo motivo. Pôs os fios ruivos para trás da orelha, querendo se esquecer das cenas anteriores. Aquela era uma parte de seu passado que preferia não se prender. Seu presente e futuro estavam em jogo.
Olhou para cima, procurando orientação. Será que tinha mesmo feito a escolha certa? Queria crer com toda convicção que sim. No entanto, onde estaria a tal Mulher do Fogo agora? Não havia visto resquício de fogo, rastros de destruição, cinzas, nem nada do tipo. Suspirou, desejando mais uma vez que algum sinal se revelasse e lhe desse a prova de que precisava para reestabelecer-se. Fechou os olhos, com o intuito de se isolar totalmente na escuridão, onde procurava por paz e sossego, e tudo parecia perfeitamente bem.
Até um grito feminino irromper no ar.
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