Lembranças sobre você
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Meu nome é Harumi e finalmente criei coragem para escrever sobre tudo o que aconteceu. Ou talvez tenha sido o cansaço de ficar guardando tudo dentro de mim que tenha me motivado. Eu não sei ao certo, mas sinceramente não importa.
Confesso que ainda não consigo enxergar o futuro brilhante e pacífico com o qual sonhávamos. Depois de finalmente termos vencido Muzan, apenas tentei descansar enquanto me deixava ser consumida por toda a saudade, que me cercou como uma densa névoa em um dia nublado. Foi o momento perfeito para lembrar sobre tudo: sobre a minha vida, a minha família, os nossos amigos que se foram, e principalmente sobre você.
Foi muito difícil chegar até aqui.
Isso tem perdurado já faz 4 meses e ao mesmo tempo em que me lembro dos bons momentos e sorrio, também choro e meu coração dói apertado, porque sei que não poderei criar mais nenhuma lembrança ao lado de todos, ao seu lado. E é isso que tem me sufocado a cada dia. Não me sinto confortável para conversar com ninguém, nem mesmo com a Aoi, que é uma grande amiga para mim.
Tudo o que tenho feito ultimamente é passear por aquela floresta em que ficávamos praticamente o dia inteiro treinando quando não estávamos em missões. No começo, claro, eu me escondia e tentava copiar seus movimentos de longe, porque eu queria aprender mais sobre a Respiração da Névoa, mas não gostava do seu jeito arrogante e avoado. Eu não sabia nada sobre você, exceto que havia perdido suas memórias e era o cara que tinha me superado em questão de semanas de treinamento, e se tornado o Hashira da Névoa no meu lugar.
É claro que fiquei furiosa! E decepcionada comigo mesma. Daquele dia em diante, decidi que iria te observar para ver se você era realmente tão bom assim. E para o meu descontentamento, sim, você era incrível.
Lembro como se fosse ontem: eu estava escondida atrás de um arbusto e você havia acabado de terminar o aquecimento. Quando você pegou sua katana e fez o primeiro movimento da Respiração da Névoa, mais do que surpresa, eu fiquei encantada. A leveza misturada com a precisão, velocidade e a tremenda força da sua técnica… Meus olhos com certeza brilharam, foi impressionante. Naquele momento eu entendi porque te chamavam de prodígio, e que para te superar eu teria um longo caminho pela frente.
Mas mal sabia eu que esse dia nunca chegaria.
Mesmo reconhecendo o seu poder e esforço, eu não aceitava seu jeito avoado e esnobe. Me tirava do sério ouvir você falando com desdém com os outros. Outro dia, quando te vi reclamando com um ferreiro já idoso simplesmente porque “seu tempo era precioso demais para ser gasto com toda aquela demora”, eu realmente fiquei irritada. Quando dei por mim, já estava brigando contigo. "Você é a garota que fica aqui perto tentando copiar os meus movimentos, não é?", calmo e com uma expressão levemente curiosa, foi a única coisa que você me disse. Eu fiquei tão envergonhada que gritei contigo e saí correndo dali. Era óbvio que você sabia que eu estava lá esse tempo todo, você era um Hashira afinal.
De tanto andar frustrada com a situação, acabei na beira da cachoeira em que o Gyomei-san costumava treinar com alguns poucos do Esquadrão. Me aproximei dele ansiosa, precisava desabafar. Depois de ouvir aquela longa história, a única coisa que ele me disse foi para ter paciência, que você tinha passado por momentos difíceis e não era um menino com um mau coração. E ele tinha razão.
Nossa primeira missão juntos também foi cheia de altos e baixos, porém muito importante para nos conhecermos melhor. Mais ou menos três semanas após minha conversa com o Gyomei-san, você me convidou (intimou seria a palavra certa) para essa missão. Eram ordens do Oyakata-sama e pessoas estavam em perigo, claro que tive que aceitar. Mas confesso que, além de cumprir com a minha obrigação, queria muito te provar que eu não era só mais uma Caçadora qualquer.
Nosso objetivo era claro: encontrar pistas sobre o desaparecimento de pelo menos 10 pessoas em uma vila ao sul e exterminar os onis responsáveis. Em menos de dois dias confirmamos nossas suspeitas. Por algum motivo, estavam sequestrando apenas mulheres jovens, o que só aumentava a minha repulsa e vontade de matar os desgraçados. Ao menos nisso estávamos conectados.
Com as informações que conseguimos, bolamos um plano. Quer dizer, você decidiu tudo sozinho e depois só me comunicou. Dei algumas das minhas ideias para aprimorar o plano inicial, visto que tinham alguns pontos soltos que poderiam ser fatais se o inimigo soubesse se aproveitar. E até que não foi tão difícil de te convencer, mas nunca me esqueço do que você disse antes de concordar: “Você é meio arrogante, né? Mas eu quero matar esse oni o quanto antes, então vou aceitar suas ideias. Vamos.”
Tudo bem que eu posso ter sido um tanto orgulhosa na conversa, mas fiquei indignada mesmo assim. Pior foi que você deu as costas e saiu andando como se não tivesse sido grosseiro! Fiquei de cara fechada o resto do dia por causa disso.
Quando a noite chegou, seguimos com o planejado. Cada um de nós estava em uma extremidade dentro de um espaçoso orfanato de dois andares, em que a maioria acolhida eram meninas. Todas as evidências indicavam que esse seria o próximo lugar a ser atacado. Durante o dia evacuamos o local, pois seria perigoso demais ter civis ali e não conseguiríamos nos focar totalmente na eliminação do oni. Sendo assim, estávamos só nós dois aguardando pelo inimigo no primeiro andar, que não demorou a dar as caras.
O ataque em mim foi tão rápido e feroz que o que me salvou da morte naquele momento foram apenas meus instintos que, infelizmente, não me safaram de ser arremessada na parede. Mal tive tempo de me recuperar e usar uma respiração pois precisei me defender do segundo golpe que me arremessou para o segundo andar. Minhas costas doíam muito, estava atordoada e com medo, não imaginava que esse oni seria tão poderoso.
Os estrondos altos com certeza despertaram sua atenção, contudo não imaginei que você chegaria tão rápido e podia enfrentar aquele demônio de igual para igual. Tudo bem que a sua extrema velocidade era bem conhecida no Esquadrão, mas ver essa execução em batalha foi excepcional.
Enquanto me levantava, percebi que se tratava da Lua Inferior 4. Mesmo com você lutando sem hesitar contra aquela oponente, eu precisava fazer algo, não podia me dar ao luxo de subestimá-la. Então, me concentrei e imediatamente após seu ataque, usei a primeira forma da Respiração da Névoa contra o inimigo, mas não fui veloz o suficiente. Após desviar, ela desferiu um golpe com suas garras em minhas costas. Gritei com a dor intensa e caí no chão, buscando forças pra me levantar o mais rápido possível. Senti o peso do instinto assassino daquela Lua sobre mim naquele instante, realmente pensei que morreria ali.
Procurei por você naquele cômodo, mas não te encontrei, e tudo que ouvi em seguida foi um baque de algo caindo no chão próximo a mim. Quando olhei na direção do barulho, era a cabeça decapitada do oni e o corpo caído ao lado, todo desfigurado e já se dissipando. Fiquei de joelhos ouvindo os gritos estridentes de frustração dela, quando você surgiu ao meu lado e me ofereceu ajuda para levantar, perguntando um simples “Você está bem?” com um tom levemente preocupado, porém eu mal consegui responder porque senti uma dor aguda nas costas, seguida de uma dormência tomando conta de todo o meu corpo, então desmaiei.
Quando despertei, estava deitada em uma cama em um dos quartos da casa da Shinobu-san, a Mansão Borboleta. Você não estava ali, mas a Aoi não demorou para chegar e me explicar tudo o que aconteceu. Antes de chegar para me ajudar, você enfrentou mais 3 demônios subordinados da Lua Inferior 4. Ela também me explicou que eu não só fui ferida, como também envenenada, e você prestou os primeiros socorros como a Shinobu-san te ensinou e me carregou até ali o mais rápido que pôde. Felizmente fui tratada a tempo e sobrevivi.
Refleti muito sobre o que havia acontecido, principalmente em como eu era fraca e só acabei te atrapalhando. A missão foi cumprida e saímos vivos daquele combate, mas isso não isentou o fato de que eu não estava tão preparada como pensei. Se você não estivesse lá, eu com certeza teria morrido.
Foi nesse momento que minha visão sobre você começou a mudar. O seu autocontrole, a sua postura, a sua força, seus conhecimentos, tudo foi essencial ali. Eu já te observava há algum tempo e sabia que você era sim muito forte, mas só depois daquele dia eu pude entender o quanto você era realmente comprometido como Caçador. Presenciar você lutando uma batalha real cravou em mim os motivos pelos quais você era (e merecia ser) o Hashira da Névoa, e que esse posto não era para qualquer um.
Minha admiração por você cresceu ainda mais, dessa vez não só pelo reconhecimento da sua força física e técnica, mas sim por você ser você. E eu que achava que o caminho seria longo para te superar, estava muito enganada. Primeiramente eu precisaria te alcançar, para só então me dar ao luxo de pensar em te superar. Mas nisso eu já estava decidida, me tornaria mais forte, porém, antes de qualquer outra coisa, eu precisava te agradecer.
Durante o curto tempo que passamos juntos, por muitas vezes eu te demonstrei minha gratidão, sejam pelas vezes em que me ajudou, por tudo que me ensinou, pelas vezes que me ouviu e me entendeu, pelas vezes que me salvou. E mesmo depois de tantos momentos, aquele dia em especial foi ponto muito marcante para mim.
É um pouco engraçado lembrar que a única coisa que eu consegui pensar em fazer para te agradecer foi preparar um obentô, já que eu sempre tive facilidade na cozinha e era algo que você provavelmente aceitaria sem reclamar. E foi certeiro mesmo! Quando você estava treinando, eu o deixei próximo da árvore que você costumava sentar para descansar, com um bilhete simples escrito “Obrigada (e não, não está envenenado!)”.
Na hora fiquei preocupada, porque assim que leu o bilhete você estava com uma expressão um pouco estranha, eu não sabia se você queria rir ou estava com medo de experimentar. Hoje eu quem dou risada disso! Não deveria ter escrito essa segunda parte, mas valeu a pena porque você gostou. Lembro que fez questão de agradecer pela comida em voz alta, pois sabia que eu estava ouvindo.
A partir de então mantive o foco constante no meu treino. Eventualmente pedi para ser sua tsuguko, e você aceitou sem se importar muito com isso, afinal, eu já treinava “com você” há um ano. Tudo parecia estar indo bem, mas ainda assim, nunca chegou nem perto de se parecer com um mar de rosas.
Sendo 1 ano mais velha, sabia que não pegaria leve. Também sabia que seria difícil aprender todas as formas da Respiração da Névoa com perfeição, porque apenas te observando eu consegui aprender somente as 2 primeiras, e mesmo assim eu não conseguia executar na mesma velocidade que você. E como esperado, você fez questão de deixar tudo pelo menos 10 vezes mais árduo.
Discutimos muito até eu entender que essa rigidez era sua forma de me ajudar a me tornar mais forte, porque, como já ficou bem claro anteriormente, nossos inimigos não hesitariam em nos destruir com todas as suas forças nem por um milésimo de segundo sequer.
Me machuquei muito, cheguei a ficar dias sem conseguir treinar ou fazer missões por causa da exaustão e dos ferimentos. A Aoi sempre brigava comigo por todo o esforço que eu estava fazendo. Mas foi muito efetivo. Em minhas missões, matei muitos demônios e protegi várias pessoas. Também me "quebrei inteira" como ela dizia, mas o importante é que eu estava progredindo aos poucos. Graças a você.
Entretanto, com o passar do tempo, estava cada vez mais difícil de te encontrar ou mesmo treinar contigo. As missões só aumentavam e com isso também suas responsabilidades como Hashira. As minhas também, porque eu havia subido duas posições no ranking dos Caçadores, indo de Kanoto para Tsuchinoto em apenas 2 anos.
Definitivamente não era qualquer coisa, nós tínhamos apenas 14 anos (eu ainda não tinha feito aniversário) e já estávamos cheios de deveres a cumprir. Felizmente a Shinobu-san e o Gyomei-san, que eram nossos responsáveis, sempre davam um jeito de nos tirar daquela realidade difícil em nosso tempo livre, conversando conosco e nos ensinando coisas novas e divertidas. Tenho até hoje o primeiro livro que o Gyomei-san me pediu para ler para ele e continuo usando o enfeite de cabelo que a Shinobu-san me deu, dizendo que eu ficaria ainda mais linda com ele.
Sinto tanta, mas tanta falta deles.
Tudo foi tão repentino, os meses que se passavam pareciam meros dias. Após a morte do Rengoku-san e a aposentadoria do Uzui-san, grande parte do Esquadrão estava receoso com o futuro. Não consigo mensurar como estava sendo para os Hashiras e o Oyakata-sama, que tinham perdido mais um amigo (filho, como ele preferia chamar) tão querido e próximo.
A única certeza que tínhamos era que os demônios não parariam até exterminarem todos nós, e isso ficou bem claro depois do conflito na Vila dos Ferreiros. Pouco tempo após aquela batalha terrível, em uma madrugada nublada e de lua cheia, eu te vi treinando no local de sempre.
Embora ainda ferido, continuava repetindo o treinamento com intensidade, mesmo seus movimentos estando mais lentos do que o normal. Fiquei surpresa quando, assim que notou minha presença, parou de repente e me chamou para perto com um gesto de sua mão. Se sentou sobre os joelhos no chão e embainhou sua katana calmamente. Me sentei à sua frente, ansiosa e um tanto preocupada, não tinha ideia do que poderia estar acontecendo, nunca tinha te visto daquela maneira.
Ainda sem dizer uma palavra, você encarou a lua brevemente, respirou fundo e baixou os olhos para mim. Eu já estava pronta para pedir mil desculpas e explicar os motivos pelos quais não consegui chegar a tempo para ajudar na luta na Vila dos Ferreiros (havia machucado a perna esquerda na última missão), quando você falou com a voz mais calma do mundo “Eu recuperei as minhas memórias”.
O choque misturado com a felicidade genuína que eu senti foram tamanhos que eu só percebi que havia te abraçado quando você reclamou no mesmo tom tranquilo que eu estava te machucando. Envergonhada, imediatamente te soltei e pedi desculpas.
Eu estava tão encabulada pela minha atitude espontânea que não consegui entender na hora porque fiz aquilo, mas agora vejo que fui motivada pelo alívio de saber que você com certeza estava se sentindo melhor, que toda aquela confusão que te atormentava havia sumido. Então, você continuou e disse que se lembrou do seu passado na noite em que derrotou o Lua Superior 5.
E como se eu fosse sua amiga a muito tempo, você me contou sua história.
Seu tom baixo, mas firme, e as pouquíssimas gesticulações que fazia, expunham o seu turbilhão de sentimentos. Toda a sua angústia e raiva misturadas em cada frase, a promessa tão direta de morte a todos aqueles que fizeram cada ser humano sofrer como você. Ainda assim, ao falar dos seus pais e do seu irmão, era perceptível o carinho que sentia por eles.
Ouvindo aquelas palavras enxurradas de saudade, eu chorei. Ali, não senti só tristeza, mas também me recordei daquela raiva latente que me perseguia todo dia. Foi inevitável lembrar da minha irmã e perceber as similaridades do nosso passado. Assim como você, eu também tive uma irmã gêmea. Ela e meu pai foram assassinados por um demônio, e eu teria o mesmo destino se não fosse pelo Gyomei-san.
No mesmo instante, me lembrei do sorriso da Mayumi, minha irmã. Nós já tínhamos sofrido muito com a perda do nosso pai por causa de uma doença grave meses antes de sermos atacados, mas ela sempre fez questão de manter o sorriso no rosto. Nas palavras dela, isso trazia esperança.
Eu só sobrevivi porque fui buscar algumas ervas no quintal para fazer o chá da minha mãe, e o Gyomei-san chegou a tempo de me proteger. Por muito tempo me senti vazia e impotente, e foi cada um daqueles sorrisos somados a todos os “não podemos desistir” que me mantiveram aqui. Foi essa esperança que ela cultivou em mim que me fez continuar.
E você me passou essa mesma força e esperança por diversas vezes.
Mesmo com todas aquelas lembranças latejando em minha mente, aquele era o seu momento e eu não queria estragá-lo por nada nesse mundo. Foquei em lhe fazer perguntas sobre seu passado e mantive o pensamento de que com certeza haveria o momento certo para falar sobre a minha história também.
O Sol imponente já começava a dar os primeiros sinais de um novo dia quando você perguntou sobre mim. Eu lembro exatamente que te disse “Quando voltarmos do nosso próximo treinamento, eu te conto tudo!” com um sorriso sincero nos lábios. Você concordou com um breve aceno de cabeça e abriu um sorriso pequeno e leve logo em seguida. As flores das árvores começaram a cair com o bater do vento da manhã e a linda memória daquela cena permanece clara como as águas de um rio na minha mente.
Contudo… Você partiu sem saber nada da minha história, e eu me arrependo amargamente disso até hoje.
Por estar totalmente compenetrada naquela conversa, eu me esqueci de um ponto crucial: nossas vidas se extinguem tão rapidamente quanto um sopro, e ninguém pode ter certeza do amanhã. Ainda mais para nós, que agora estávamos focados no Treinamento dos Hashiras, que não estava sendo nada fácil, mas era extremamente necessário para lidarmos com as ameaças cada dia mais perigosas vindas de Kibutsuji Muzan. Precisávamos estar sempre prontos para cumprir nosso dever, mesmo que não retornássemos vivos.
Aos olhos dos outros pode parecer um destino cruel e sem sentido viver dessa forma, mas só nós mesmos sabemos o quanto é especial e significativo poder nos dedicar em prol de alguém, poder salvar uma vida, poder trazer de volta a esperança derrotando o mal que as acometia, e que também nos acomete toda a vez que lembramos de cada uma das pessoas que perdemos para seres tão repugnantes como os demônios.
Se eu soubesse de tudo o que sei hoje, faria questão de passar mais tempo conversando com você como naquela madrugada. Não só sobre as nossas histórias tristes, mas principalmente as que nos fizeram sorrir. Porém, tudo aconteceu tão rápido que tivemos pouquíssimo tempo para processar. Só o que pudemos fazer foi agir de acordo com os nossos instintos e motivações para alcançar nosso objetivo: derrotar Muzan e todos os demônios.
Antes do caos se instaurar em nosso meio, eu me dirigia ao local onde você estava pós treinamento. Já era noite quando houve uma enorme explosão, seguido do som de corvos gritando sobre o perigo na mansão do Oyakata-sama. Desesperada, corri naquela direção, mas não consegui chegar nem perto. Em questão de segundos, o chão sob os meus pés ruiu e eu caí para dentro de um local que posteriormente soube que era a fortaleza dos onis.
A aterrissagem não foi das melhores, mesmo utilizando uma das técnicas da Respiração da Névoa. Mal tive tempo para raciocinar e o local se empesteou de demônios, os quais consegui derrotar graças a todo o avanço que o novo treinamento me deu.
Alguns corvos voavam por aquele enorme labirinto de madeira e me davam instruções de para onde seguir, e graças a eles consegui me unir com um pequeno grupo de Caçadores rapidamente. Fomos encarregados de prestar suporte aos pilares, derrotando o maior número de demônios que conseguíssemos, enquanto tentávamos alcançar Kibutsuji Muzan. Uma tarefa que não foi nada fácil, uma vez que o poder deles se igualava ao de um Lua Inferior. Mas não podíamos recuar nem que isso nos custasse a vida, era a nossa melhor chance de vitória em anos na história dos Caçadores de Demônios.
Cautelosamente éramos guiados pelos corvos, para não nos depararmos com inimigos que não poderíamos derrotar. E mesmo sofrendo alguns ferimentos, nosso grupo estava indo bem. Até que o baque de uma notícia terrível me atingiu: Shinobu-san estava morta.
Foi inevitável não lembrar daquele sorriso gentil que ela me direcionava sempre que me via. As lágrimas misturadas com a raiva profunda que me acometeu caiam livremente. Eu precisava seguir em frente, mas tudo que eu queria era ir até àquele maldito Lua Superior e enviar ele direto para o inferno. Em meio a tantos pensamentos e lembranças, o seu sorriso me veio à mente num instante. Será que você estava bem?
A angústia daquela dúvida me atingiu como um soco no estômago e um calafrio percorreu minha espinha. Eu sabia que precisava confiar em ti e em todos os Hashiras, mas estávamos em meio ao território dos nossos inimigos mais fortes. A preocupação de não saber como você e cada um dos meus amigos estava era inevitável e me consumia a cada instante.
Eu não suportaria perder mais ninguém. Muito menos você.
Em meio àquele turbilhão de sentimentos e pensamentos, eu precisava me esforçar muito mais para me concentrar em cada confronto. Mas bastou um segundo. Foi exatamente o tempo em que me atrasei, e isso custou muito caro.
Um dos membros do meu grupo foi atingido fatalmente no peito por um oni que jogava lanças embebidas em veneno. Ele agonizou e caiu morto em minha frente em questão de minutos. Horrorizada com a cena, foi por muito pouco que consegui desviar do ataque em minha direção. Os outros Caçadores estavam ocupados demais para conseguir ajudar.
Meu corpo tremia e minha respiração estava descompassada. Eu precisava me acalmar de qualquer jeito, pois só assim derrotaria aquele oni. Respirei fundo e sua voz tranquila soou na minha mente, trazendo à tona a memória do dia em que aprendi contigo a Quarta Forma da Respiração da Névoa. Senti meu corpo relaxar e executei o movimento com velocidade. No fim só restou o som da cabeça do oni rolando no chão e se desintegrando.
Ficamos ao redor do rapaz caído, sem conseguir aceitar que ele realmente estava morto. A culpa tomou um espaço enorme no meu coração. Eu poderia tê-lo salvado, mas estava ocupada demais com a cabeça cheia de inseguranças inúteis, e isso custou uma vida preciosa. Ele se chamava Shikichi Ren-san e vivia com seu irmão mais velho, Shikichi Hideo-san.
Os corvos nos diziam para seguir adiante, e mesmo completamente relutantes e entristecidos em deixar o nosso companheiro para trás, prosseguimos. Conforme as lutas eram travadas, recebemos uma boa notícia: o Lua Superior 3 foi derrotado. Isso fez um feixe de esperança brilhar em meu coração, nossos esforços até aqui não foram em vão. Tínhamos sérias chances de conseguir vencer essa longa guerra.
E realmente vencemos, mas… O amargor de perder tantas vidas ainda está impregnado na minha alma.
Seguíamos correndo o mais rápido possível quando os corvos anunciaram que você localizou o Lua Superior 1. Respirei fundo e suprimi todas as minhas inseguranças. Você era o garoto mais forte que eu conhecia, ninguém dentro do Esquadrão com a mesma idade podia ser comparado contigo. Te admirei desde o primeiro instante em que abri meu coração para te conhecer de verdade. Com certeza você era capaz de lidar com essa situação. Eu decidi confiar em você, da mesma forma que você confiou em mim ao me permitir estar contigo como uma querida amiga, e não só uma mera aprendiz. Ao me dar esperança em meio a um mundo tão cruel e injusto.
Viramos mais um corredor às pressas e em um piscar de olhos fui atacada de forma feroz por um oni enorme. Consegui me defender por muito pouco, porém o forte impacto me lançou para longe. Bati as costas contra a parede, e a cabeça em um pedregulho no chão. O sangue escorria por minha testa enquanto meu corpo fatigado se recusava a levantar. Só conseguia ouvir um chiado forte e bem ao longe o grito dos meus companheiros. Minha visão se escurecia pouco a pouco, até que eu desmaiei.
Acordei assustada um tempo depois e já não estávamos na fortaleza. Ainda zonza, observei os arredores com dificuldade e percebi que estávamos em uma pequena cidade. Não sabia dizer exatamente onde era, nem como fui parar ali. Um dos Kakushi se surpreendeu ao me ver, ele havia acabado de finalizar os curativos no meu braço direito, que também foi perfurado pelos escombros. Sobre a destruição daquela fortaleza, descobri apenas dias depois, quando o Murata-san conversou comigo.
Ainda atordoada, perguntei como estava a situação e ele disse que os pilares ainda estavam lutando e faltava pouco tempo para o amanhecer. Se bem me lembro, quando desmaiei faltava mais de uma hora para o amanhecer, então realmente fiquei muito tempo apagada e estava mais machucada do que antes.
Naquele momento, os sentimentos de inutilidade e vergonha me atingiram como um corte grosseiro de duas espadas. Eu precisava ajudar de alguma forma. Por ter perdido minha katana, o Kakushi me instruiu a procurar outra enquanto ajudava o grupo do Murata-san com os primeiros socorros dos nossos espadachins.
Não me permiti pensar em mais nada ali, já havia divagado demais. Me concentrei no que eu podia fazer, tinha plena convicção de que você também estava dando seu melhor contra o Muzan junto dos outros Hashiras.
Sim, eu não fazia ideia. Era simplesmente inconcebível para mim que você já havia partido.
Não consegui localizar uma nova espada, mas todos nós nos esforçamos até o último segundo, juntos. Quando Tanjirou-san voltou ao normal, finalmente pudemos respirar aliviados pela primeira vez em anos. A batalha finalmente acabou e todos os seres malignos que nos machucaram estavam exterminados!
Enxugando as lágrimas que já jorravam dos olhos, sabia que meu trabalho ainda não havia acabado. Precisávamos tratar os Hashiras e demais feridos. Te procurei por todos os lados e não encontrei. Encontrei primeiro o Gyomei-san rodeado por alguns membros do Esquadrão, mas ele já não estava mais aqui. Eu me aproximei e meu corpo já tremia de tanto que chorei. Não consegui me despedir do homem que salvou a minha vida inúmeras vezes, e foi como um pai para mim.
Primeiro a Shinobu-san, agora o Gyomei-san. Meu corpo tremia de dor e eu estava ofegante, mal conseguia ouvir as vozes ao meu redor perguntando se eu estava bem, muito menos conseguia falar. Mas nada disso me importava, tudo que eu precisava agora era te encontrar de qualquer maneira. Me certificar de que você estava bem. Mas não havia nenhum sinal seu, e aquela ansiedade esmagava o meu coração no peito.
Foi então que meus olhos se depararam com uma mecha esverdeada tão familiar pendendo de uma maca. Um pano preto cobria o corpo pequeno que estava sendo carregado por dois Kakushi. Eu não queria acreditar, mas ao mesmo tempo tinha certeza de que era você. Inundada por aquela profunda tristeza, nada mais fazia sentido.
Me deixei cair de joelhos no chão e chorei ainda mais, envolvendo meu corpo com os próprios braços, tentando buscar algum conforto para aquele caos. Mas no fundo eu sabia que mais nada poderia preencher aquele vazio na alma que eu senti e ainda sinto.
Juntos, nós vencemos, e nunca mais teremos que nos preocupar com esses seres desgraçados em nosso meio. E é claro que isso é um grande motivo para se alegrar, mas eu simplesmente não consegui, porque mais uma vez eu perdi minha preciosa família.
Eu chorei quase todos os dias durante dois meses, pois tudo ao meu redor despertava as lindas lembranças que fizemos juntos. A Aoi tentou me ajudar e me distrair me ensinando novas receitas, e até melhorei bastante nesse quesito, mas de que me adianta tudo isso se não poderei compartilhar com você? Se não poderei mais rir ao seu lado e daqueles que eu mais amo?
Eu estava no fundo do poço, visitando mais uma vez aquela floresta em que treinamos pela última vez, sem conseguir sorrir genuinamente depois de 3 meses sem você. Foi nessa hora que me deparei com o Shinazugawa-san, o antigo Hashira do Vento. Ele mal me olhou e já ia se retirando do local quando o chamei. Precisava desesperadamente saber como foram seus últimos momentos, e ele era o único que poderia me contar.
Desconfortável com a situação, ele desviou o olhar para o chão por alguns segundos, mas logo voltou a me encarar. Sem muitas delongas, ele me contou tudo o que aconteceu durante a batalha contra o Lua Superior 1.
Meu coração parecia não ter mais conserto depois daquele relato, estava estilhaçado em mais de mil pedaços. Você sofreu tanto, mas continuou lutando até depois do seu limite com coragem e convicção de que alcançaríamos a vitória e nenhuma morte seria em vão. Eu estava tão chocada e cansada que não conseguia mais chorar, apenas agradeci ao Shinazugawa-san, que se virou para ir embora.
Contudo, antes que desse um passo sequer, ele me pediu um favor: “Ei, continue vivendo a sua vida sem arrependimentos e seja o mais feliz que você puder. É isso que eles esperam de nós.”. Dito isso, ele partiu sem olhar para trás. Eu me curvei em agradecimento mesmo após sua partida e chorei copiosamente, mas dessa vez não foi só a angústia cansativa e incessante que tomou conta de mim, mas também um pouco de esperança.
Ontem eu completei 16 anos, algo que a alguns anos atrás eu achava impossível. Mas você e todos os membros da Organização me provaram que o impossível pode sim se tornar possível quando todos trabalhamos juntos. Perder você e a minha família mais uma vez abriu sim uma ferida enorme e dolorosa em mim que eu sei que nunca vai desaparecer, mas que aos poucos eu posso cuidar para que cicatrize.
Mesmo que em um futuro distante possam nos esquecer, tenho certeza que ainda falarão muito sobre você. Com certeza farão um livro sobre a batalha contra os onis que durou tantos séculos, sobre a Organização, sobre todos os Hashiras e, claro, sobre ti. Inclusive, talvez algum dia eu permita que incluam essa carta também, quem sabe? Tem informações confidenciais sobre o Hashira da Névoa, afinal.
Por fim… Eu só queria dizer que sinto muito a sua falta e nunca, nunca, vou te esquecer. Obrigada por estar ao meu lado quando eu mais precisei de ajuda, mesmo sem me conhecer, e mesmo sem que eu merecesse qualquer coisa vinda de ti. Eu sei que você já se foi, mas tenha a plena certeza de que eu sempre carregarei todas as lembranças sobre você no meu coração.
Eu amo você, Muichirou-kun. Muito obrigada por tudo.
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Yoshiteru só percebeu que estava chorando quando terminou a carta. Todas as histórias que havia lido mostrava os acontecimentos em torno dos Caçadores mais fortes, então estava chocado em ler o relato de uma Caçadora "comum". Enxugou as lágrimas, tentando absorver todas as informações.
Mais tarde certamente iria atrás de seu avô para tentar descobrir mais sobre Harumi, o que sabia que seria algo difícil, visto que essa história se passou a muitos anos atrás. Já era impressionante o fato de ter acesso a essa carta. Com certeza falaria para sua irmã mais velha, Toko, mesmo que ela não acreditasse em nada disso.
Ela tinha que saber o quanto era incrível perceber, através da história dessa Caçadora, que cada uma das pessoas que fez parte daquela Organização tinha sua história, seus motivos, suas alegrias, suas dores, sua importância. O quanto eles foram especiais para os espadachins mais fortes, em especial os Hashiras, e vice-versa.
Ele olhou pela janela e viu os raios de Sol dando adeus àquela chuva. Foi o suficiente para abrir um pequeno sorriso e sair do quarto gritando por sua irmã.
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