Mais um dia que eu terei o prazer de ter a companhia de minha coisa preciosa. Não consigo imaginar até onde irei com isso, não posso de modo algum avançar, mas não consigo esquecer, não imagino mais minha vida sem ela. Oh Deus, por que me torturas assim? Não sei mais o que fazer... apenas me dou conta que continuo fazendo o de sempre, me arrumo, dou aula, invento desculpas para sair mais cedo do colégio e vou ao parque com um sorriso bobo no rosto. Era praticamente inevitável, não era forte o suficiente para parar. Talvez precisasse de um tapa na cara, algo que me fizesse acordar para a realidade. A realidade de que nunca a terei para mim.

— Vejo que chegou cedo, pequena. – Disse me aproximando do banco de sempre, onde ela se encontrava sentada com o livro abatido na mão.

— Eu não tinha nenhum compromisso hoje... bom, até as 4h30.

— O que há nesse horário? Se você puder me contar...

— é quando eu encontro minha mãe e... – Ela parecia se entristecer com o assunto – não vamos perder tempo com os meus assuntos – esboçou um sorriso quebrado.

— Oh, tudo bem... – não que eu estivesse satisfeito com aquela resposta. – Olha, estou terminando o capitulo 9, “o reencontro”

— Leu 5 capítulos só de ontem para hoje? – Disse desconfiada – você prestou atenção?

Ri um pouco alto e respondi – sim, eu prestei atenção.

— Sabe uma parte que eu adoro no capitulo 9, quando Richard e Elisa se deitam no gramado do jardim da mansão dos Black e observam as nuvens, apesar de todo o fardo da responsabilidade deles, naquele momento eram crianças.

— É realmente uma cena muito bonita.

— Às vezes eu faço isso e esqueço dos problemas. – Disse voltando com o tom de tristeza, não imagino o que essa garota leva em seu fardo, suas palavras saem com tanta dor, como eu gostaria de acabar com essa dor, cuida-la como se fosse um cristal.

— Quer fazer isso agora? – Perguntei sem pensar muito

Ela me olhou por breves segundos e começou a andar, não soube como reagir de imediato, acabei ficando plantado no banco como um bobo até ela se virar e dizer: — você não vem?

Obedecendo seu chamado, a segui por dentro do parque, um pouco distante daquele banco, após passar por algumas arvores havia um lago modesto, sem cerimônia ela se deitou um tanto próximo da margem, mas ainda distante.

— Anda, deita aí – ela disse como uma ordem e sem questionar, obedeci.

Deitados na margem daquele pequeno lago ainda no parque começamos a observar as nuvens no céu como Richard e Elisa fizeram no livro. Na verdade, não havia muito o que observar, a tarde estava nublada e só víamos nuvens cinzas se movimentando com o vento. Mas não importava, ela fazia algo que gostava e eu também, me referindo a sua companhia.

Não vi o tempo passar, ora olhando para o céu, ora olhando para ela. Já ela não tirava os olhos das nuvens. Não trocamos uma palavra naquele tempo em que ficamos deitados. Até que sentimos o princípio de uma chuva em nosso rosto, nos levantamos rapidamente, tão rapidamente quanto a chuva ficou mais forte, começamos a correr para procurar abrigo, enquanto corríamos eu a cobri com parte de meu sobretudo, logo chegamos em um palco coberto, lá havia algumas pessoas que foram pegas de surpresa pela chuva como nós, então nos juntamos a elas. Olhamos para a chuva por alguns segundos e então nós olhamos. Ela começou a rir alto e eu a acompanhei.

— Você está ensopado – disse em meio a gargalhadas

— Eu sei – disse rindo também

— Você é sempre tão sério, devia sorrir mais vezes...

Após rirmos de meu estado depois de correr na chuva ela finaliza com: "Você é sempre tão sério, devia sorrir mais vezes" Aquelas palavras me silenciaram, mas não tirou o sorriso de meu rosto, imagino que eu aparentava estar constrangido. Aquela risada que jamais esquecerei o som, aquele semblante que a pouco carregava tanta dor que eu desconhecia a causa agora se encontrava plena. E eu me sentia orgulhoso por isso, mas acima de tudo feliz por ter dado, um segundo que seja, de felicidade a ela como ela me dá desde o momento que a conheci.

A chuva logo se encerrou, peguei meu relógio de bolso e pude comprovar que as horas ao lado daquela garota se comportavam como segundos.

— É muito bonito o seu relógio

— E muito antigo, um tipo de herança... sabe – pensei um pouco – quero que fique com você!

— O que? Não posso aceitar isso – ela disse recuando

— Eu não tenho ninguém a quem dar isso, eu gostaria muito de repassar e gostaria que ficasse com ele.

— Eu...

— Por favor, eu insisto. – Entreguei o relógio naquelas mãos pequenas e ela não tirava os olhos dele. – Pelo visto, já está ficando tarde

— Sim, é melhor eu ir.

— Você... se importa se eu te acompanhar? Não tenho compromisso algum hoje, e...

— Tudo bem, vamos – ela disse ainda observando o relógio.

A chuva parou totalmente então fomos embora do parque, eu estava explodindo por ter o prazer de acompanha-la até em casa e pelo que pude perceber ela havia gostado de meu humilde presente, aquele brilho nos olhos era tudo para mim. Caminhamos lentamente enquanto ela tomava o caminho para a casa e eu apenas a seguia. Acabei pensando um pouco e me surpreendi com sua inocência, passar tardes com um velho e desconhecido, mostrar-lhe o caminho para sua casa sendo que me conhece há três dias. Jamais faria nada que a machucasse, mas não podia dizer isso por todo mundo. Será que não tinha medo? Não imaginou o perigo? Confia em mim? Meu coração bateu mais forte quando pensei na última opção.

Passamos por um vendedor de sorvete e pedi para ela esperar, comprei duas casquinhas de chocolate e entreguei uma a ela. Ela agradeceu sem questionar, pude perceber o brilho em seu olhar e percebi também que ainda segurava o relógio em suas mãos como se fosse a coisa mais importante do mundo. Eu não posso explicar minha felicidade com palavras, apesar que eu aparentava estar calmo.

— Está no capitulo 9, não é? – Ela questionou

— sim

— vai gostar do capitulo 10

Travei quando ouvi isso, o capitulo 10 era focado na fuga do casal e na perseguição que sofreram, mas tinha destaque na cena que Elisa se entregou à Richard pela primeira vez. Nesse momento meu cérebro se encontrava mais gelado que aquele sorvete, bloqueei qualquer pensamento que pudesse vir após esse comentário.

Chegamos em uma rua onde as casas se pareciam muito umas com as outras. Não ficava muito longe do parque, na verdade era bem perto. Ela adentrou no gramado de uma casa e sentou num pequeno banco. Disse que terminaria o sorvete antes de entrar em casa. Me sentei ao seu lado para terminar o meu também. Quando o meu acabou o dela ainda estava pela metade, ela parecia toma-lo o mais lentamente possível, as vezes olhava para o relógio e o guardava no bolso. Certo momento ela começou a balançar os pés que não chegavam no chão como uma criancinha. Percebemos que o cadarço de seu tênis estava solto há um tempo, me pus a arrumar.

— Permita-me – disse eu enquanto me levantava do banco e me ajoelhava na sua frente.

Comecei a dar o nó o mais devagar que conseguia apenas para prolongar esse momento, esse contato, essa gentileza para com ela. Nó feito. Olhei para cima e ela me encarava com aqueles olhos acinzentados, esperou poucos segundos e me agradeceu. Eu ainda estava ajoelhado em sua frente, não conseguia me mexer, não conseguia sair dali, na verdade eu não queria. Ainda olhava para ela e ela para mim. Num impulso forçado para conseguir me mover um pouco que seja acabei chegando ao ápice de minha desgraça, o momento que eu estragaria tudo, o motivo que eu precisava para socar a mim mesmo e até desejar a minha morte por algum tempo. Apenas fechei os olhos e a beijei.

Notas finais
moral n sei
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.