Notas iniciais
Boa Leitura!!

A brisa cortou através do corte de Antonieta Barbieri, estancando-a em meio ao seu caminhar a tempo de ser atingida pelo corpo acelerado de Federica. Bochechas rosadas, olhos brilhando pela consciência de sua travessura – de que, possivelmente, onze anos fosse uma idade tardia demais para permanecer atada a antigos protocolos; no entanto, estas, por sua vez, permaneciam a lhe proporcionar prazer tão puro que, como diria sua capitã, dane-se. A Barbieri apreendia toda aquela ponderação de tais olhos, do pequeno sorriso que se formava junto aos lábios plagiadores do traço que delineavam o seu próprio ao perceber quem estivera perseguindo a garota. Téo obteve anos prazerosos dentro das imediações de dois navios. Enternecia Antonieta que se esforçasse para que a menina – a quem sempre reservou verdadeiro carinho familiar – desfrutasse de semelhante vitória.

Os três trocaram olhares amigáveis, conhecedores da anarquia, da tão bem-vinda frugalidade – traços divididos entre os membros sanguíneos daquele clã que, por nenhuma razão, guardava parentesco com antigos barbeiros italianos. Federica aprumou-se, acenando gentilmente para sua superior em título antes de seguir em frente com sua infância; Téo, logo atrás, gesticulando como se lhe retirasse o chapéu, mas sem de fato fazê-lo, o que arrancou uma risada de sua tia e mais um sorriso legítimo quando alcançou sua prima, erguendo-a acima de sua cabeça, girando com ela, dando-lhe a impressão de que poderia voar para longe junto às gaivotas. Silencioso, Alberto aproximou-se da irmã a fim de tocar-lhe sutilmente o cotovelo esquerdo por entre os braços cruzados. Ela um dia fora erguida com as mesmas perspectivas de voo pelos braços de seu irmão mais velho; e lembrar-se de que tal tempo pudesse ter existido parecia apenas tornar o fardo, que jamais o fora, mais latente. A brisa cortou através do corte mais uma vez.

— Hora de trocar essa atadura. – chamou Cínzia, com os dois braços apoiados no corrimão da escotilha que separavam convés e porões. Antonieta assentiu, assoviando para Elizabeth Swann.

O cisne metera-se a ajudar com a limpeza do deque a fim de tentar ouvir a conversa que se desenrolava entre Barbossa, Turner e Gibbs. Estes, muito compenetrados em seus planos – ou muito cegos – para notarem suas intenções. A capitã, todavia, não considerava tal ato de espionagem como uma vocação saudável à mente ainda em formação da anteriormente lady de grande renome de Port Royal.

— Mostre-me suas mãos. – pediu com delicadeza, forçando-a a descerem juntas para a cozinha. Elizabeth obedeceu incapaz de esconder o arquear confuso de suas sobrancelhas. – Nenhum calo. Uma suposta iniciante. Nunca aceitou meu conselho para que usasse as ataduras. Qual o seu segredo, milady? – estava claro que falava com troça, provocando-a e a loira já se sentia tão à vontade em sua companhia, que a risada vazada pelo nariz soava como traço inerente de eras de sua amizade.

— Ganhei um apelido novo? – rebateu, batendo a mão sobre o umbral da cozinha antes de cair para dentro dela com Antonieta. A capitã apenas deu de ombros, o que significava a possibilidade positiva, caso Elizabeth permitisse que sua condição passada fosse alvo de sua carinhosa zombaria. – Antes do ataque de Lord Beckett, Will já havia começado a me treinar. Eu lhe disse. – reiterou, olhando ao redor quando passaram da cozinha para um andar ainda mais ulterior.

— Disse. – concordou a capitã, num gesto reverente com a aba de seu chapéu. – Só estava me perguntando se haveria algum segredo no modo como milady mantém tão bem tratadas mãos tão valiosas ao querido Mestre Turner. – prosseguiu displicente, trocando olhares com Cínzia enquanto adentrava seus domínios. O vestíbulo da cirurgiã era tão arejado e organizado quanto se poderia ser dentro do espaço limitado, nada propenso a altos padrões de higiene, numa embarcação, ponderou a senhorita Swann.

— A única coisa que Antonieta nunca tentou foi banhar-se com o sangue de cem virgens. – falou a mulher, chamando a atenção da loira. A Barbieri repugnou a ideia com um arrepio que visivelmente cortou seu corpo inteiro, entregando a cuia de Tia Dalma a ela. – Vê? A vaidade encontra limites na moralidade de uma pessoa. – acrescentou para Elizabeth que concordou sem jeito.

— Ela tentou te abordar de alguma forma? – foi a vez de Mia falar. A ausência de um sujeito em sua oração, porém, não impediu que o teor de suas palavras produzisse o efeito desejado em Cínzia.

— Não. – respondeu simplesmente. – Mas eu lidaria melhor com a situação, do que se fosse você. – disse como se aquele fosse um grande insulto às habilidades de relacionamento da capitã. Ela não retrucou. – Esse unguento dela foi muito bom para as suas costas... quase não se vê nenhum traço do corte dos homens de Lucena; se quiséssemos suspender o uso agora, eu diria que já cumpriu com o propósito...

— No entanto, Cínzia Bianchi jamais desrespeita a prescrição alheia. – debochou Antonieta, então.

— Ótimo, Berto disse que tinha descido pra cá. – interpôs Sofia, surgindo ao lado de Elizabeth. – Olívia quer mãos junto ao arsenal. Limpeza. – disse.

— Nenhuma das minhas pomadas poderia ter reconstruído o tecido desse jeito, Mia. Você deve a ela. – Cínzia prosseguiu em defesa a bruxa, ignorando o pedido de Sofia. Seus domínios, é claro, lhe concediam certa imunidade tácita.

— Oh, claro. – Mia retorquiu sarcasticamente, perguntando-se quando e como realizaria tal empreitada. – Mãos, você disse, Soff? Bem, e o que tem aquele pessoal que está sendo pago lá em cima?

— Todas as armas. – insistiu Sofia, significativamente. – Isso inclui...

— Já entendi. – dispensou a outra. A primeira revirou os olhos, assentindo à contragosto antes de sair. Recrutando Elizabeth com um último olhar. A loira apenas seguiu-a. Sozinha com a sua cirurgiã, a capitã permitiu-se um urro exasperado.

— Não gosto da ideia de dever qualquer coisa a... – uma deusa, gostaria de dizer. Contudo, aquele era um segredo a ser mantido. – uma feiticeira.

— Os sujeitos nunca te incomodaram mais do que os resultados, antes. – constatou Cínzia, liberando-a de sua mesa.

— É? Bem, acho que estou envelhecendo. – disse ajeitando as cordas de seu corpete. A morena riu.

— E ninguém acreditaria em mim, se eu dissesse que você resolveu admitir isso. – troçou ao lhe devolver a pequena cuia de Tia Dalma. Mia se resumiu a dar de ombros; a vaidade, tão cara, em nada guardava relação com aquele comentário.

No arsenal, Olívia fora capaz de reunir um grupo considerável de bons samaritanos para ajudá-la com a limpeza. Canhões, mosquetes, pistolas, todos passando de mão em mão para que a manutenção se realizasse. Mia, por sua vez, envolvia-se naquele mar de rostos de forma alguma em lealdade a sua velha amiga, mas por receio de confiar tal tarefa sobre suas armas a outrem. A pistola que carregava junto ao coldre de sua saia, por exemplo, exalava a pólvora que queimara ainda contra os subordinados de Lucena; manchando e corroendo a integridade do material e do entalhe que a adornavam. Retirou o chapéu por um instante, sentando-se.

— Federica me passe uma escova, por favor. – pediu estendendo uma das mãos, ao passo que seus olhos vasculhavam o cano em busca de marcas. – Obrigada. – agradeceu ao sentir algo lhe sendo entregue, virando-se sorridente para a menina; apenas para encontrar as feições taciturnas de Hector Barbossa a encará-la.

Ele estava de pé, forçando-a a erguer por demasiado o pescoço a fim de sustentar seus olhos como uma igual; a escova separando-os. Assim permaneceram, enquanto Antonieta decidia-se pelo significado de tal ação. Relaxado era uma palavra que dificilmente usaria com um homem como seu velho algoz e, no entanto, ali estavam. Os olhos, porém, golpeavam-na com a mista carga de poder e contrição; sinal de que o orgulho se ferira, mas por alguma causa boa o bastante; Ela? A capitã não evitou que o canto de seus lábios se erguesse. Puro descrédito e que, nem por isso, deixava de lado algum grau de empatia.

— É assim que me pede perdão, suponho. – disse. Sua voz tornando todo o gesto dele insignificante, à medida que aceitava a escova. Hector apenas acenou, tomando as vezes de afastar-se novamente; impedido, contudo, pelo som de um banquinho sendo empurrado e posicionado a alguns metros de distância dela, pelos pés de Antonieta, sem que se desviasse de sua tarefa. Ele apenas permaneceu ali, encarando-a, quando Federica retornou com outra escova. – Obrigada. – agradeceu trocando a de Barbossa pela dela. – Não faço convites formais, Hector. – disse depois que a menina se afastou, ainda sem lhe dar atenção. Barbossa registrou o abandono do sotaque italiano ao pronunciar seu nome de batismo, voltando-se para a figura diminuta, mas alta para a idade, que passava de um lado para o outro.

Ocorreu-lhe a força de sua própria estupidez por não ter chegado ao fundo daquele segredo antes. Federica ostentava os lábios, o nariz e a pose de Antonieta; ainda que esta última pudesse ser fruto apenas da convivência e admiração juvenil, os outros primeiros eram irrefutáveis.

— Ela sabe? – perguntou com certa cautela, embora não lhe interessasse mantê-la de fato. Finalmente, conseguindo a atenção da Lady da Ligúria. Outro minuto de velado silêncio que Antonieta prolongou não por temer a revelação, mas, pois, devido a sua natureza inerente, a omissão planejada soava como o pior dos castigos.

— Todo mundo sabe. – frisou com nenhuma outra intenção além de reforçar a letargia de sua perspicácia. – Uma vez que se tenha decidido seguir em frente, não é uma condição facilmente maquiada ou escondida. Não fazemos alarde sobre isso, porém; se é o que você quer saber. – a voz mais neutra incutiu maior segurança ao seu ouvinte, que, por fim, resolveu sentar-se no banco que lhe foi oferecido. O assunto Federica, no entanto terminara e Antonieta sentiu que o serviu apenas como pretexto para retornar às suas graças; o descaramento do homem. – Diana lhe disse para vir pedir desculpas? Está preocupada com a aposta, imagino.

— Houve um diálogo, sim. – admitiu com um meneio de cabeça, quase sorrindo. – Nenhuma menção a um pedido de desculpas, no entanto. Ela me contou como se conheceram. – tal elucidação foi capaz de pegar Antonieta de surpresa, ele notou; o leve franzir de lábios.

— Nunca os imaginaria tão íntimos. – zombou com elegância. Todavia, Barbossa observou que ela não parecia nem um pouco ferida. – Foi bom descobrir que houve um tempo em que eu fui uma presa ainda mais fácil? – provocou em seguida, branda, sorrindo de lado.

— O propósito dela foi um pouco mais nobre. – rebateu seu oponente, na defensiva. – Você. – explicou simplesmente. Mais uma vez ele detinha toda a atenção dela. O feitiço em seus olhos convertendo-se no brilho fugaz de uma mulher com muito menos da sua experiência.

— Agora, isso é novidade. – constatou ao recobrar a compostura. – Geralmente você não sonda minha família para conseguir informações a meu respeito... valeu a pena? – a pergunta feita no tom taciturno que, usualmente, resguardava-se a ele, escondia uma chancela daquela esperança que ela afirmou possuir meses antes.

— Contradisse algumas das minhas noções mais tristes e patéticas. – aceitou sugestivamente e ela teve que rir.

— Entendo. – anuiu entre risos. – Muito longe de ser um pedido de desculpas, realmente. É uma trégua. Afinal, se eu posso manter algumas opiniões a seu respeito, independentemente do tempo... Muito bem. Estamos quites. Porém, nunca mais se atreva a...

— Eu não quis dizer aquilo, na verdade. – e pela primeira vez, Antonieta não capturou nenhum subterfúgio em seu discurso. Como consequência, viu-se esvaindo a guarda que de alguma maneira sempre parecia manter à sua presença.

— Bem, digamos que talvez eu estivesse te passando a impressão errada. – retomou calmamente, finalizando o trabalho em sua pistola e virando-se para um dos canhões; alcançando uma das vassouras a fim de limpar o seu interior. – Tentar forçá-lo a se lembrar de que eu posso ser confiável... acho que é a maldição entre todos os piratas. – ponderou em tom conclusivo; o suspiro perpassando por seus lábios com bom humor. A consciência de que algumas verdades eram maiores do que todos eles.

— Você não acredita em maldições. – lembrou-lhe Barbossa, seu rosto cheio de empatia.

— Acredito na sua. – murmurou Mia em resposta, afastando o suor de sua testa com as costas das mãos, sorrindo significativamente para ele; Hector riu baixinho.

— Dificilmente pode se chamar de maldição no meu caso. – contrapôs. – Fui traído pelas pessoas certas mais de uma vez, só isso. – tentou se explicar dando de ombros.

— Nem todas. – foi a vez dela de contrapor. – Mas, de novo, esta é mais uma impressão errada... – e sua voz saiu tão baixa que Barbossa cogitou encontrá-la no primeiro momento vulnerável desde Porto Venere, desde que se reencontraram. – Não estou tentando ser a Margaret. – acrescentou, candidamente. – Independente do que a história conte; bem, independente de meu coração ter se partido ou não, à época, não foi em virtude de qualquer competição... nada mais do que eu mesma; nós dois reconhecemos meu valor. – e, novamente conclusiva, ergueu um pouco o canto direito dos lábios num sorriso lacônico e deixou-o.

Os olhos baixos acompanharam à medida que o som dos passos se afastavam pela escada. Ergueram-se a tempo somente de registrar o último vislumbre do salto de suas botas batendo contra o último degrau e retornaram a fixar-se ante a figura que os alcançava em meio ao arsenal. Tia Dalma caminhou até ele, sorrindo sugestiva; o sorriso tão esgaçado e corrupto; capaz de repugná-lo para longe dela. A deusa, porém, acostumara-se a fuga dos homens e dificilmente aceitaria derrota às suas palavras.

— A ferida começou a se fechar. – anunciou a alguns passos de distância dele, os olhos de todos os tripulantes sobre os dois. Sofia sentiu a brisa fria do anoitecer atrás de sua orelha, estancada sobre o chão por um segundo.

— Graças a sua interferência, senhora. – disse, escolhendo um dos significados àquela constatação sombria e Barbossa resumiu-se a arquear as sobrancelhas para a loira. Calipso reverenciou a senhora Barbieri com outro de seus sorrisos esgaçados, retornando prontamente ao seu subterrâneo. – Imaginei que à essa altura tivesse aprendido a não envolver seus negócios com o místico. – ralhou vividamente quando ela partiu de todo.

— Desafiei-o, senhora Barbieri. – corrigiu com forçada polidez. Sofia inspirou asperamente; fadados a frieza dela desde o primeiro instante. – Essa mácula é dificilmente removida. – ponderou finalmente, correndo os olhos pela sala. Os expectadores não pareciam interessados em dispersar-se, Hector percebeu, saindo; seguido pela outra.

— Se ao menos o seu orgulho não tivesse prevalecido sobre o seu bom senso. – comentou mordazmente. Ele parou no alto da escotilha, Sofia um degrau atrás, encarando-o com sentimento muito mais enervado do que o próprio desprezo; o velho lorde pirata não conseguiu identificá-lo, contudo. Detinha conhecimento, todavia, da sua referência. Sua segunda noite em Porto Venere, sentado ao bar junto com a nobre senhorita Barbieri e suas irmãs, enquanto Jack lhes contava sobre o ouro de Cortez. Antonieta aguardou estarem sozinhos uma outra vez para alertá-lo das histórias envolvendo-o. O intrépido Hector Barbossa, por sua vez, não acreditava em contos de fada; nem histórias de fantasmas.

— Não se preocupe, senhora Barbieri. – disse zombando. – Fui punido pelo, assim chamado, orgulho.

— E por seus próprios erros e ganância, acha que merece qualquer espécie de recompensa? – inquiriu abrasiva, acompanhando-o pelo deque com os braços mexendo-se veementes junto ao quadril. Deveras, não fossem os olhos e o cabelo, Sofia Barbieri facilmente se confundiria com o fantasma de Margaret Smyth. Outra razão mais do que suficiente para que sua presença, por si só, o afligisse.

— E ela estava tão certa de que a senhora não mais se preocupava com os homens que ela permite em sua cama. – continuou a zombar, embora soubesse reconhecer uma tempestade quando a via. Sofia era tão inabalável quanto. Fechou os olhos e remexeu a cabeça, rindo por dentro.

— Suponho que ela não tenha lhe dito – começou friamente branda – que quando descobrimos que o diário havia sumido, ela o ligou imediatamente ao roubo; e saiu à sua procura em Tortuga. – os olhares sustentavam-se com ousado rancor, com ele imaginando o que viria a seguir. – Foi como ela descobriu sobre a outra... viu-a com o diário. – Barbossa não viu outra alternativa além de afastar-se, virando-se para o parapeito; preso dentro de um navio, quando há muito este o libertara.

— Lágrimas? – sugeriu e Sofia surpreendeu-se com a falta de qualquer sentimento em sua voz.

— Não... ela lacrimejou um pouco, só. – respondeu quando o choque passou, aproximando-se dele para que ninguém mais ouvisse. – Não entendi, contudo... eu sabia que ela o tinha amado... mas observou apenas e disse que você teve o que merecia. O que acha que significa? – indagou analisando-o de soslaio. Ao fundo, ouviu-se o som de uma moeda sendo lançada ao alto e Barbossa sorriu à medida que fechava os olhos.

Até então, lhe pareceu que constituía os dois lados da moeda com Antonieta Barbieri. Sua fria perspectiva sobre o mundo, as pessoas que o povoava, contra a calorosa recepção dela a todo estranho, toda aventura. Seus sensos de justiça e liderança completamente enraizados à diferentes ângulos daquilo que entendiam como um e outro. Ela se guiando à sombra de um legado passado; ele valendo-se de sonhos gananciosos, uma vida a qual supostamente tinha direito. A ingenuidade dela que a levou a quebrar-se diversas vezes, contrariando o título que sua mãe lhe concedera ou se valendo de tantas decaídas a fim de reafirmá-lo, não importava. Contra essa ingenuidade, tinha-se o ceticismo dele, quebrado por uma realidade que Antonieta, após derrocadas, nunca almejou para si. A verdade atual, pois o tempo permanecia a ser aquele eterno bastardo, confrontava as lembranças de Porto Venere.

Eram o mesmo lado, afinal. E à Margaret reservava-se o outro. “Ele teve o que merecia”. “Não estou tentando ser a Margaret”. Seria possível, provável, que até nisso ela estivesse certa? Que fosse tão resoluta a ponto de entendê-los desde então?

— Então, sabe? – insistiu Sofia. Ele negou, mentindo; mas a senhora Barbieri jamais saberia.

— Sabe por que, deduzindo o que pensa, não a escolhi? – a pergunta mais uma vez, pegou-a desprevenida e Barbossa riu de lado, compreendendo o choque nela. – Porque isto; este navio, vocês e toda a comuna; tudo isto fazem ela ser quem é. Antonieta jamais escolheria trocá-los por qualquer coisa; eu sei. Ela sabe... – que ele precisava de alguém totalmente aquém da sua moralidade dúbia para lhe conceder aquela parcela de luz; de empatia com o resto da humanidade; que o obrigaria na busca por um caráter consideravelmente melhor. Alguém com quem o desejo de mudança fosse natural. À contrapartida, Antonieta. Nada mais do que ela mesma, o que por consequência o permitiam ser nada mais do que ele mesmo. Nenhuma exigência, apenas empatia. A chance de viver o presente como ele é, diria a senhorita Murphy.

— Estou vendo... – murmurou Sofia, vendo-o sorrir consigo mesmo. – Uma última advertência, mascarada em um conselho, capitão... – disse chamando-o de volta. Barbossa a olhou. – Não suba à cama dela, tentando encontrar outra pessoa. – já não soava tão dura, quase piedosa; ele assentiu, verificando seus passos enquanto se afastava. Não seria o caso.

Com a noite recaindo sobre eles, Antonieta subiu ao tombadilho para determinar a ronda que se seguiria. À princípio, ela manteria o curso e o passaria para Tristan Parisi, uma vez que Luigi contraíra enxaqueca durante a tarde. Passaram-se duas horas dentre as quais ele apenas a observou ao tombadilho.

— Então, eu tive o que mereci? – indagou iniciando a conversa, posicionando-se junto ao ponto que usualmente caberia ao primeiro imediato ou navegador ocupar. Sem virar-se completamente, Mia ergueu as sobrancelhas.

— Até Sofia?! – exclamou em total desespero. – Inacreditável. – balbuciou mexendo a cabeça.

— Então? – ele insistiu, fazendo-a emitir outro som exasperado.

— Não que eu precise de defesa, mas sempre disse que você deveria me dar mais crédito. – ainda assim, soou na defensiva.

— Não a ouvi dizendo nada parecido em quase quatro...

— Muito bem! Então, vamos supor que eu estivesse tentando usar um pouco de sutileza. – interpôs com um gesto displicente de mão para trás, sem desviar-se da frente. Houve silêncio, então. Antonieta imaginando o que teria compelido Sofia a revelar aquela metade da história para ele...

— Já abrigou algum homem da Cornualha, Antonieta?

Ela riu. Sentindo alguma onda palpável, mas riu. Alto, virando-se para encontrar os olhos azuis fixos nela.

— A oportunidade surgiu certa vez, mas ele escapou. – foi sua resposta, uma das mãos ainda apoiada ao leme. – Conseguiu me roubar duas vezes, no entanto. O segundo rendeu-lhe uma bonificação pessoal pela qual nunca recebi nenhum agradecimento. – prosseguiu à medida que ele caminhava até ela. – Mas também, os anos a menos... a facilidade com a qual nos deixamos levar e acabamos enganadas é natural.

Ele já estava a um palmo dela. Antonieta sorria enquanto sustentava o peso de seus olhos.

— Não se engane, — murmurou Barbossa correndo-os pelo rosto dela. – ainda é muito fácil... mesmo que a maturidade dos anos tenham-na alcançado. – troçou em clara provocação com um sorriso torto; Mia bufou, erguendo uma das mãos em direção ao rosto dele, parada num outro gesto rápido dele para pará-la, jogando um pouco de seu peso sobre ela.

Antonieta tomou consciência de onde estavam, das consequências daquilo que viria a seguir, cravando os olhos verdes sobre a boca tão próxima a sua. Respirando calmamente em meio a um sorriso guloso, analisando-o num misto de desafio e concessão. Hector correu os olhos por ela novamente, fixando-os na boca delineada naquele sorriso, lembrando-se dela; e finalmente, bebendo dela com a salutar urgência, ambos se sentindo varrer por aquela onda que crescia tão palpável.

Notas finais
Olá, meus amores!!! Imagino que os senhores sabem o que vem a seguir... espero que gostem do capítulo!!! Bjooos, Ana!!