Notas iniciais
Boa Leitura!

Sob o casco do Stella De La Sera, o atlântico estendia-se. Mais algumas semanas e o mar da ligúria daria boas-vindas aos filhos que ansiavam o azul translúcido de suas águas; se fechassem os olhos, avistariam os montes que ligavam rudemente as Cinque Terre. Os três meses e meio prometidos por Matteo acabando-se entre os cantis vazios e a rações servidas em horas cada vez mais esparsas. Arriscar a sorte em algum porto ou enfrentar sede e fome pelas próximas luas, sugerira Antonieta aos tripulantes da estrela, mas consciente de que a segunda opção não passava de zombaria. Pareceu-lhe, contudo, sedutora tal ideia, à luz das indicações de seu navegador. Tristan demorou seu olhar nela antes de indicar ao mapa. Cádiz.

Supostamente, o porto aproximava-se mais de sua posição atual e a cidade não representaria ameaça tão tentadora à Companhia das Índias Orientais quanto Porto ou Lisboa. Intimamente, ela concordava com a hipótese. De fato, o galeão que guardava a cidade dificilmente permitiria que seu forte fosse tomado. Os Lucena sempre foram difíceis de abater, ela bem lembrava; tendo lutado com unhas e dentes contra um deles; vencendo. E, agora, dirigia-se para a cidade de seu irmão na esperança de conseguir provisões que a mantivesse e à sua tripulação. A fúria de um homem e seus subordinados, no entanto, soava menos ameaçadora do que a marinha britânica e o preço que colocara sobre sua cabeça.

— Oggi mi sento speranzosa.[1]— o falso sorriso encorajador em seus lábios quase fez com que Sofia sentisse pena dela.

— Beh, dovevi uccidere suo fratello.[2]— zombou a Acidália com um sorriso amarelo que se refletiu em um pouco mais de confiança no de Antonieta. Pouco lhe importavam as zombarias de Sofia, agora que a tinha de volta ao seu lado. – No. Nessuna misericordia dalla Signora della Liguria.[3]

— Não me lembro de vê-la tentando me impedir, à época. – Mia zombou de volta ao passo que deixavam sua cabine.

— Não imaginava que algum dia fôssemos nos ver forçados a pedir esmolas à porta do irmão dele. – rebateu Sofia, na defensiva. – Alguma ideia de como vamos convencê-lo? – indagou com os olhos fixos no horizonte.

— Antonieta poderia encurtar um pouco as saias. – foi a sugestão de Diana, descendo da mezena. Mia fingiu rir.

— Com esses olhos, Diana, você poderia baixar as calças dele. – ponderou a capitã, com veneno. Todavia, o sorriso do furacão Murphy apenas abriu-se mais.

— Eu não lido mais com o sexo do ego frágil. – disse piscando para um dos irmãos Ferretti, de passagem por elas. – Mas poderia lucrar consideravelmente com outras mocinhas que facilmente cairiam pela possibilidade de se deitar com um Lucena. – acrescentou enquanto caminhava para o tombadilho, rindo-se da reação cúmplice que recebeu de Luigi.

Entreolhando-se, Antonieta e Sofia inspiraram profundamente em resignada consciência da personalidade dúbia de sua fiel amiga. O sentimento também lhes servindo de incentivo para dar as ordens ao timoneiro e tripulação. Eles deveriam ancorar em Cádiz ao pôr-do-sol; tanto melhor, cria Antonieta, pois diminuiria a visibilidade de suas cores tão memoráveis aos moradores do porto. Também as chances de Sandrino Lucena saborear de lucidez suficiente para desafiá-la. Lorenzo, claro, não acharia o mesmo empecilho forte o bastante para impedi-lo e muito desta coragem estúpida havia a seduzido nele.

— Perturbada? – inquiriu Barbossa, atrás dela.

— Sentindo como é andar às suas pegadas. – respondeu, fazendo com que ele tomasse o lugar ao seu lado. – Estou prestes a entrar numa barganha com alguém a quem minhas ações feriram diretamente, no passado. Engraçado, não é? – continuou sorrindo cabisbaixa.

— Estamos no mesmo negócio. Cedo ou tarde trocaríamos de posições. – ele ponderou de volta, sorrindo de lado.

— Talvez. – ela sorriu de volta. – Só gostaria que o contexto desta troca fosse outro. – acrescentou, gravemente, rindo-se logo em seguida. Barbossa acompanhou-a, entendendo a malícia em suas palavras, mas encontrando a graça na espirituosidade destas. Do outro lado do convés, ao lado de Téo, Sofia os observava com vigilante receio, ao qual Mia não resistiu. – Vá em frente... – convidou-a ao prostrar-se junto a eles, apoiada ao parapeito a estibordo. Acidália riu baixinho.

— Em quase vinte anos, você nunca pediu por um sermão meu antes. – constatou.

— Estou contando com o atrativo deste. – respondeu Barbieri, rindo pelo nariz.

— Só gostaria de compreender melhor o que te impulsiona a querê-lo por perto...

— Ele me prometeu a cabeça de Lorde Beckett. – disse retesando-se brevemente.

— Sabe o que eu quero dizer, Mia. – insistiu Sofia, austera. Antonieta permaneceu em silêncio, fechando os olhos. Havia muito a ser visto; imagens de traição e mágoa, mas também outras. Leves ao mesmo tempo em que carregavam o peso de sua história com aquele homem e cheias de relances que, conforme a mágoa e traição se dissipavam, tornavam-se cada vez mais claros.

— Eu me lembro. – foi sua resposta ao reabrir os olhos para encontrar o pôr do sol. Sofia analisou seu semblante à medida que o verde deles sucumbia mais e mais ao âmbar. Eles se aproximavam da cidade, afinal, e o estado de alerta no qual Antonieta se colocou, a fim de se preparar para o encontro indesejado, modificou o feitiço na cor de seus olhos. Toda ela um aviso agora. Entrou em sua cabine e saiu com uma capa, sem o chapéu. – Diana e... Mestre Turner, comigo. – anunciou, surpreendendo o rapaz e o resto de sua pequena corte.

— Turner? – perguntou Sofia, cruzando os braços.

— Turner. – confirmou a capitã. – Dois dos melhores espadachins a bordo comigo... e o mais atraente também. – acrescentou sorrindo sugestivamente à menção da segunda parte. Entre as mulheres houve um murmúrio de compreensão, ao passo que os homens fitavam-nas sem a mesma clareza. – Matteo, Angello, Alessandra, Giulia e Marco, vocês me acompanham até que eu negocie com Sandro e depois vão com os homens dele pegar a carga para carregar o navio. Armados. Tristan e Luigi, tracem a rota de fuga e mantenham o Stella pronto para zarpar a qualquer instante. Sofia dá as ordens até eu voltar. – concluiu com o cais se aproximando; poucos navios, nenhum deles com bandeira. – Hector, não roube o meu navio. – lançou, enquanto saía.

Sombras noite adentro, a única iluminação provinha dos poucos lampiões que se mantinham acesos, contrariando a brisa fria. A Santa Cruz sobre o mar, ainda carregada com sinais de construção, erguia-se monumental sobre suas cabeças, mesmo a noite incapaz de esconder a cúpula amarela que ornava uma de suas torres. Logo, as ruelas abriram-se para entretê-los com os vários antros de prazer e álcool que outros marinheiros considerariam bênçãos, após meses limitados ao balanço do mar. Através das portas da velha Casa Manteca, lançavam-se vários corpos e, acenando aos seus homens – à exceção de Diana e Will – para que a esperassem ali, a Barbieri misturou-se entre eles, entrando.

— Esteve pensando em nossa conversa, Mestre Turner? – inquiriu fazendo com sua voz sobressaísse a música. Will tinha os olhos presos nas pessoas. A visão lembrando-o em demasia de Tortuga. – Eu sei. Eles mudam apenas de continente, não de personalidade. – disse Mia, lendo-o. – Parece que nunca mais o ouvi falar, depois de nosso tête-à-tête na cozinha...

— Preferi matutar seus conselhos em silêncio, capitã. – respondeu à contra gosto e ela apenas assentiu, analisando-o por um instante, antes de correr seus olhos pelos rostos vermelhos a sua volta. Foi Diana quem lhe cutucou, acenando em direção ao bar. Uma figura conhecida se sentava com vários copos de sangria à sua frente.

— Alfonso! – exclamou, sentando-se ao lado dele; baixou o capuz e o primeiro imediato do Strada pareceu considerar sua identidade por um momento antes de se decidir. Por fim, riu alto, som que muito se assemelhava a um agouro de morte. Mia não o acompanhou, jogando uma moeda de ouro sobre o balcão. – Sangria. – pediu de pronto, recebendo um caneco sujo com um líquido que poderia ser o próprio sangue que trazia nas veias. Enojada, arremessou-o para o homem ao seu lado, enquanto Diana pedia um para si mesma. – Onde está Sandrino? – perguntou sem rodeios.

— Nos fundos. Com uma puta entre as pernas. Não vai querer outra. – respondeu Alfonso Ordále, negando a bebida que ela lhe pagara. – Sempre foi uma puta, Barbieri... tem a cara de pau de aparecer aqui... só pode ser! O que quer com Lucena? – continuou, o álcool lhe conferindo coragem que a capitã não recordava de algum dia ter possuído.

— Imagino que se fosse o sol lá fora e não a lua; e se você não estivesse no sexto ou sétimo copo; se teria panca para continuar falando assim, Alfonso... ou se eu lhe daria a oportunidade... – murmurou a capitã, sutilmente fazendo sinal para que sua segunda imediata desse a volta no homem, ao passo que descia de sua cadeira. Ao passar por ele, Diana fingiu se desiquilibrar, afundando um de seus cutelos na mão de Ordále.

A capitã já se encaminhava para os fundos, ignorando quaisquer desculpas que sua imediata viesse a dar para fugir de uma briga de bar – ou não. Will, por sua vez, apressara o passo para manter-se junto a ela; a disposição que encontrara ao entreouvir sua conversa com o desconhecido alertando-o para a natureza daqueles homens. Seguiram pelos fundos da taverna, Antonieta escutando atentamente os gemidos provindos de cada uma das portas, antes de finalmente escancarar uma delas.

Sandrino, caro! – exclamou, surpreendendo-o com um rapagão entre as pernas, enquanto outra moça se masturbava em uma cadeira, tentando acobertá-los. – Ainda fazendo escondido atrás da porta, caro? Que deprimente! – disse adentrando o quarto, fechando a porta atrás de si. Os dois homens pularam para fora da cama, ao passo que a moça se cobria, chocada – o quanto uma mulher na sua profissão ainda conseguia deter daquele sentimento. – Não se sinta mal, tesoro. Seu trabalho estava esplendido... para alguém que não saiba a diferença de uma mulher que está realmente gozando. – acrescentou rapidamente, com os olhos presos em Lucena.

Sandrino Lucena encarou Antonieta Barbieri com a mesma receptividade que disporia a uma barata, vestindo seu camisão, agressivo, ao que a capitã soltou um muxoxo de desapontamento, como se ele a retirasse de um momento de lazer. Resoluto, arremessou uma pequena bolsa de moedas para seu parceiro, permitindo-se um olhar rápido na direção de Will – parecendo considerá-lo por um instante.

— Este era, com certeza, mais bonito do que aqueles de quem me recordo... e dizem que o dinheiro não compra tudo, quanta bobagem! – desdenhou Mia, verificando uma das outras cadeiras disponíveis no quarto; parecia limpa; então, sentou-se. – E os negócios, Sandrino, como vão? – Will, já em resposta instintiva – como se a conhecesse de várias eras – abriu sua expressão em tediosa perplexidade, inerente a atitude falsamente despreocupada de sua protegida. Lucena, por sua vez, arredou caminho até seu rosto, pressionando seus dedos contra a carne de suas bochechas, como se, de fato, ela agora fosse uma barata. Uma que gostaria de esmagar com as próprias mãos.

— Eu quero você e essa sua buceta maldita fora da minha cidade! – murmurou pausadamente, intensificando seu aperto a cada palavra.

— Não foi por ela que eu vim. – disse com algum desdém, entre dentes. – Não era você quem sempre disse... dinero no tiene olor[4]? – e retirou uma gorda bolsa de ouro de dentro da capa, jogando-a sobre a mesa ao lado deles. Impulsionando-a para o lado, Sandro a soltou; Will fazendo menção de puxar a espada, impedido por um aceno firme de mão vindo de Antonieta. – Quero negociar mantimentos com você, nada mais. – disse ajeitando uma mecha de cabelo que se soltara atrás da orelha.

O capitão pareceu considerar sua oferta por um segundo. Sua reflexão, todavia, foi interrompida com os sons cada vez mais altos provindos da frente da taverna. Inspirando profundamente, Antonieta considerou a causa por um instante e trocou olhares rápidos com o jovem Mestre Turner. A confirmação veio no som de uma risada deveras característica; a todos no quarto. Diana estava ao centro de um grupo de desgarrados que lhe incitavam; junto dela, Alfonso. Reiterando a previsão de sua capitã, ela sequer tentara inventar uma desculpa para o cutelo em sua mão e com gosto enfiara-se naquela briga. O som da pistola de Lucena, porém, aquietou-os por um momento.

— Mantimentos? – ele repetiu, seus olhos descendo de Will para ela, que assentiu brandamente. Então, sua mente pareceu vagar por todos os rostos presentes naquele salão, embora Antonieta estivesse mais do que convencida de que avistava apenas o rosto de Lorenzo. Buscando maneiras de justificar a dificuldade que poderia imbuir em um pequeno negócio, naquela rusga que possuíam. Contudo, a Barbieri conhecia também aquele homem, tanto quanto conhecera seu irmão mais velho. Isso servia a ensiná-la sobre o amor doentio que Sandrino mantinha com o dinheiro. – Bebe comigo, Barbieri? – foi sua resposta final e a surpresa fê-la assentir, permitindo que a desconfiança se abatesse sobre seus passos não muito depois. Tão logo eles se sentaram, o barulho continuou, mas agora Diana mantinha-se taciturna a alguns metros de distância deles, alerta.

Alfonso, por sua vez, prostrou-se bem ao lado de seu mestre, que lhe sussurrou algo ao ouvido antes de mandá-lo sair.

— Quer me roubar apenas algumas galinhas ou deseja algum tipo de munição? – perguntou Lucena, servindo-os de duas taças de Sangria. Ele virou uma dose de uma só vez, ao passo que Antonieta prolongava sua análise ao copo antes de bebericar um pequeno gole. – Perdeu o jeito, foi?

— Não bebo quando estou falando de dinheiro. – retrucou apenas. – Galinhas, sal, farinha, ração, rum e água. – enumerou autoritária. – Pode ficar com sua munição pra você. – zombou com outro pequeno gole.

— Ótimo. – rebateu Sandrino. – Meus homens...

Meus homens – cortou-o ela duramente – estão aguardando lá fora. Eles farão o carregamento, seu pessoal só precisa lhes mostrar onde a carga está guardada. – explicou esticando-se para trás, cruzando os braços sobre o peito. Sandrino sorriu com escárnio, erguendo uma das mãos para chamar dois de seus subordinados. Instruiu-os a levar o grupo do lado de fora até o galpão e ceder-lhes determinado número de seus rendimentos e, em seguida, lançou olhar de soslaio para Antonieta, como se importasse o aval a seus termos. Ela assentiu, de toda forma, branda, com a desconfiança ainda pairando sobre sua cabeça. – Não irei me prolongar; serviço pago, vou acompanhar o andamento. Passar bem, Lucena.

— Teve essa mesma diligência ao enfiar sua espada no meu irmão? – provocou quando ela, Diana e Will já se achavam à porta. O jovem Turner acompanhou a mão dela se fechando sobre sua espada e o modo como os lábios do furacão Murphy se crisparam em dissabor.

Com calma, Mia retornou até a mesa e virou o resto de sua sangria, rangendo os dentes com a ardência.

— Alguma das suas putinhas já te meteu uma faca nas costas, caro? – murmurou com as mãos apoiadas na mesa, desejando ter a ousadia de expô-lo para a taverna inteira. Em sua casa, situações como aquela não seriam um problema. Contudo, para um Lucena... e um que deveria viver eternamente à sombra de seu irmão mais velho, suas próximas palavras poderiam outorgar sua sentença de morte. E ela jamais gostara de passar adiante o direito de puxar o gatilho ou empunhar a lâmina. Finalmente, sorriu, puxando o copo dele para mais perto. – Não foi bem diligência. Foi do jeitinho que seu irmão sempre gostou. Lento – disse molhando o dedo na sangria – e fundo. – concluiu enfiando lentamente o indicador dentro da boca e voltando, sinuosamente.

As duas cadeiras voaram para trás, ao passo que Lucena e Barbieri cruzavam as espadas sobre suas cabeças. Will e Diana correram para o centro com eles, mas viram-se entrecortados por uma pequena e determinada orla de homens para impedi-los. No entanto, não era exatamente como se Mia estivesse em desvantagem. Sandrino, claro, afogueara-se pelo álcool que viera ingerindo; o que contribuía para certa letargia. Antonieta, por sua vez, afogueara-se com o orgulho provocado que, ungido a sobriedade, tornavam seus movimentos mais incisivos. Eles rodaram as mesas, facilitando para que aquela fosse uma memorável rusga de bar; era só o que parecia. Até as portas se abrirem com a violência dos pés de um pequeno batalhão da milícia britânica.

— Você mandou Alfonso avisá-los. – Mia grunhiu, a realização recaindo junto ao ódio sobre suas feições. Os barcos na costa estavam sem bandeiras; eles provavelmente mantinham disfarce agora, os miseráveis de casacas vermelhas. Lucena apenas sorriu. – TURNER! SUMA E MANDE SOFIA TIRAR O NAVIO DAQUI! AGORA! – urrou a Will. O rapaz fitou Diana por um segundo antes de obedecer a ordem; a mulher Murphy murmurara algo como “alcançamos vocês”, guardando uma espada de volta ao coldre, munindo-se de uma pistola contra os recém-chegados. – Desgraçado! – continuou contra Lucena.

— Dinheiro não tem cheiro, é verdade. – anuiu ele, desviando-se dela. – Mas tampouco há valor no dinheiro de uma puta. – ponderou zombeteiro. Antonieta rosnou, puxando uma pistola contra um inglês que se aproximava dela pela direita. – Acabamos aqui, Barbieri. – concluiu ele apontando para o grupo que começava a se fechar contra Diana, apertando uma corda invisível na garganta de Mia. Ela o encarou; regozijante com o desespero emanado dela.

— Tenho direito a um último pedido? – perguntou ela, abaixando-se a alguns palmos dele, sem perder seus olhos de vista. Sandrino assentiu, rindo, deliciado. – Diga ao Lorenzo... que ao menos ele não morreu como um rato. – sentenciou. Foi rápido. Lucena mal conseguira processar suas palavras. Ela puxou a adaga de seu coldre, desferindo o golpe à altura da virilha do espanhol, descendo a lâmina por seu pau. Rápida e funda. Ele contorceu junto ao sangue, caindo sem qualquer sinal de que fosse se levantar novamente. E Antonieta correu para junto de Diana.

Will encontrou a tripulação do Stella De La Sera dividida em dois grupos. Aqueles que lutavam para terminar com o carregamento de um último conjunto de barris, enquanto as balas em suas pistolas zuniam contra os homens de Lucena; e aqueles que os expurgavam da terra com o uso das lâminas frias. Elizabeth avistou-o primeiro, um rifle na mão, informando a Alberto Barbieri, quem lutava ao seu lado, sobre a ausência de Antonieta e Diana.

— A Companhia está aqui. – ele disse, desviando de golpes de terceiros, enfiando-se ao lado de Sofia e Ilaria, que duelavam juntas. – Ela mandou zarpar! Diana disse que nos alcançariam! – e então viu-se metido em sua própria luta. Acidália e Vitale se entreolharam preocupadas pela gravidade da situação que importaria na anuência de Antonieta para que seu navio zarpasse sem ela. – ELA MANDOU TIRAR O NAVIO DAQUI! – insistiu Will.

— Merda...TÁ! – concordou Sofia a contragosto, afundando sua lâmina ao centro da cabeça de seu oponente. Dali, avistou a imagem de Alberto deixando o navio em direção à cidade. – Luigi nos tire daqui! – ordenou ao timoneiro, sua voz contraída com fúria mal colocada. O velho ocupava-se junto a Marco, Carlo e três outros homens. Nico, Olívia e Bea, igualmente limitados. Restava a ela, indignada, encaminhar-se ao tombadilho; porém, súbito, uma mão lhe agarrou o braço com violência. Antes, contudo, que pudesse tomar qualquer providência, o zunir de uma bala cortou o ar diante de seus olhos. Seu salvador assumia a forma de Barbossa, acenando para que o seguisse até o timão.

— Fique com ela, senhora Barbieri e mantenha-os afastados enquanto ajeito nossa fuga. – disse entregando-lhe a pistola que usara antes de assumir o controle. – COTTON E RAGETTI! SOLTEM AS VELAS DA MEZENA! – os dois membros da tripulação do Pérola Negra abriram alas entre os tiros e espadas, subindo para cumprir com a ordem. Sofia ocupava-se entre mirar contra as cabeças de intrusos, esperando o momento oportuno de um tiro que não arriscaria o pescoço de seus companheiros. Cinco deles depois, encarou Hector Barbossa, abismada. – Só precisamos nos afastar o suficiente... – ele lhe disse, aguardando o trabalho de seus subordinados.

— E se eles não voltarem? – inquiriu Acidália com o coração à boca. Barbossa ousou olhar para trás, ansioso por um sinal.

— SOLTAS! – bradou Ragetti do alto da gávea, recobrando a atenção do lorde pirata. Rápido, ele virou, de uma vez, a proa para bombordo.

— BRAÇADOS! – alertou o velho capitão, conseguindo que a família de Antonieta se retraísse e os apoios das velas, soltos, atingissem apenas os visitantes, varrendo grande parte desavisada para fora do deque. O remanescente cedia às balas de Sofia, Angello e Olívia. Aproveitando a brisa noturna, seguiram alguns metros para longe do cais; nenhum sinal dos Barbieri em terra. Alessandra subiu ao cesto, em busca de visão melhor dos ocorridos na cidade, mas avistou apenas outro navio da Companhia se aproximando a estibordo.

— Não podemos ir sem eles! – zangou-se Ilaria em vista de um comentário de Marco Ferretti para que seguissem por águas mais rápidas. – Vamos ter que aguentar a abordagem. – advertiu, correndo até o pé da escada do tombadilho, falando a Sofia.

— Preparar artilharia a estibordo! – foi sua ordem, voltando-se para Barbossa. – Ideias?

— Vamos afundá-la. – foi a resposta dele, simples, virando o navio. Sofia engoliu em seco, correndo para conseguir visão da embarcação inimiga. – Eles não vão acatar com ordens minhas, sabe... – Hector alertou-a, chamando sua atenção.

— PREPARAR PARA ABORDAGEM! – bradou Acidália, a frente. – GANCHOS À POSTOS! BEA, NICO...

— Não! – interpôs Barbossa, erguendo sua voz sobre o som do vento. – SENHORES PINTEL E RAGETTI, ACOMPANHEM MAIS UM DE VOCÊS ATÉ O PAIOL! – surpreendeu-o como vários rostos pararam para ouvi-lo, mesmo que Antonieta houvesse deixado Sofia no comando. Esta o fitava com algum divertimento, nada surpresa à mostra de sua necessidade por poder; ela bem conhecia o tipo. – O RESTO, PREPAREM-SE PARA ABORDAGEM! ARMEM-SE!

Seguiu-se o primeiro tiro à estibordo, o choque fazendo-os tremer. Olívia correu ao arsenal, retornando abarrotada com armas prontamente carregadas para todos. Elizabeth alcançou nova munição para seu rifle, indo posicionar-se ao lado de Will. Por um instante, eles se entreolharam, a situação apresentando demasiadas semelhanças ao ataque do Pérola Negra contra o Interceptor, anos antes. A empatia, porém, não durou o suficiente e logo, eles se atentavam aos comandos de outros. Finalmente lado a lado, iniciou-se a troca fervorosa de fogo.

— Eles são tão educados. – desdenhou Olívia, ao lado de Elizabeth, abatendo dois homens do outro lado, enquanto um grupo saltava para o outro lado. Entre eles, Pintel, Ragetti, Beatrice e Angello. Sem perder tempo, os dois últimos recolheram as atenções dos ingleses, permitindo que a dupla do Pérola caminhasse até o paiol, desviando de eventuais golpes na sua direção. A bordo do Stella, olhos firmes no deque inimigo ajudavam seus irmãos.

— Derrubem o mastro! – lembrou-lhes Barbossa. Will e Téo correram para os canhões; o mais jovem Barbieri acenou para mais dois homens ajudá-los a carregar um de estibordo para cima. Armado de uma palanqueta, Will deu o tiro. Homens voaram pelo convés do Stella De La Sera, desviando da majestosa peça que vinha em direção a eles.

— Antonieta vai odiar isso. – comentou Sofia, verificando o estrago na madeira.

— Ela vai sobreviver. – devolveu Barbossa, olhando ansioso para a terra e em seguida para o outro navio. O pequeno grupo vinha fazendo a volta e ele tomou velocidade para afastá-los da explosão. – CORTEM AS CORDAS! LANCEM ESSA MERDA PRA ÁGUA! – disse referindo-se ao mastro decaído. Ele se esforçava junto a família Barbieri, que se reunira para obedecê-lo, circulando a figura a fim de empurrá-la para fora conforme se afastavam.

Os estilhaços, tão logo, voaram noite adentro, enquanto os casacas vermelhas detentores de alguma sorte eram recebidos ainda com vida pela água; sendo continuamente vítimas dos tiros incessantes advindos de cima, da estrela italiana. Minutos depois, Sofia gritou, avistando Alberto com Diana abraçada em seu ombro e Antonieta ao seu lado. Gritos aproximavam-se do cais e emanavam da água; Acidália sentindo a brisa cortá-la à realização da distância que se encontravam deles.

— Faça a volta! – requisitou à Barbossa, prontamente aquiescida.

— SOFIA LANCE A CORDA! – ouviu-se a voz de Alberto. Sua esposa, então, correu para junto de Tristan Parizi. O navegador alcançou um dos exemplares, esperando uma distância mais considerável antes de obedecer a ordem do irmão de Antonieta. – PUXEM DIANA! – Alberto acrescentou quando finalmente o alicerce chegou até eles.

Os irmãos Barbieri pularam na água, facilitando para que a mulher Murphy fosse guiada através da baixa temperatura. Antonieta nadou ferozmente, com Alberto em seu encalço, afastando qualquer estranho que ousasse se aproximar dela.

— Ela está com uma bala no braço. – contou Alberto, ajoelhando-se. – Antonieta tem um corte nas costas. – acrescentou olhando para a irmã de soslaio. – Eu estou bem. – assegurou para sua esposa, ainda fitando a outra. – Vamos...

— Ainda temos munição para uma extravagância? – interrompeu-o Antonieta. À medida que se aproximava do parapeito danificado, o corte da parte de cima de sua camisa tornava-se mais aparente. Suas mãos correram pela madeira cortida, fechando-se em um punho resoluto.

— Roubamos mais do que Lucena sabe... Matteo deduziu o lugar onde eles mantinham a carga e mandou Alessandra chamar mais alguém para ajudá-lo, enquanto o resto de nós esperava do lado de fora conforme o combinado. Temos o suficiente para uma extravagância, até Singapura. – comentou Giulia, incerta ao fim. – Por quê?

— Afunde todos eles. – disse apontando para os barcos no ancoradouro. – Tomem a distância necessária para fuga e usem força total contra eles. AGORA! – havia algo diferente em sua voz que não os fez refutar; imaginando que ela apenas fazia questão de eliminar qualquer possibilidade de serem seguidos prontamente; sua tática para ganharem tempo.

Antonieta, no entanto, tinha sangue escorrendo pelas costas; a brisa aumentando a ardência do relance exposto de sua carne. Cádiz era liderada pela família Lucena desde antes de um chapéu subir à sua cabeça. A família Lucena quase lhe custara a vida de Diana e a liberdade de seus próprios familiares. A família Lucena usara-a uma vez e traíra outras duas; o pior, uma delas quando ainda lhes guardava a graça de boa-fé.

— Deveria deixar um de seus cirurgiões costurar isso. – comentou Barbossa, ao seu lado.

— Eu quero assistir. – ela respondeu simplesmente. Em relance, Mia comparou-os. Barbossa e Lucena, ambos. Hector pagara por crimes semelhantes cometidos contra ela; o mesmo não poderia ser dito sobre os Lucena, não de todo. Até agora.

As últimas balas da primeira remessa atravessaram o casco do último navio e, à medida que ele pendia, o feitiço nos olhos de Antonieta aumentava.

— Meus negócios em Cádiz estão, oficialmente, terminados.

[1] Me sinto esperançosa hoje.

[2] Bem, você precisava matar o irmão dele.

[3] Não. Nenhuma misericórdia da Lady da Ligúria.

[4] Dinheiro não tem cheiro.

Notas finais
Primeiramente, gostaria de agradecer a Deus por me conceder a sabedoria e a paciência para escrever este capítulo. Grande? Provavelmente, mas, eu jamais gostaria de encurtar demais o pacing de uma cena de ação como esta. Segundo, agradecer aos novos favoritandos e comentaristas, os senhores fazem minha alegria!!! Também, obrigada, Sel! Pela deliciosa recomendação!! Fiquei emocionada, de verdade!! Enquanto betava este cap., minha beta apercebeu-se de um detalhe demasiado importante. Na versão original, quando aportaram em uma cidade para reabastecer, Barbossa tentou roubar o navio da Antonieta; agora, vejam só, ele toma a dianteira para auxiliar na fuga da tripulação. Eu estou em êxtase pela percepção da Diih, porque, querendo ou não, pensei muito na versão original enquanto montava a segunda parte deste reconto. O que aprendi? No original, não havia, de fato, motivação nenhuma para as ações de Hector; ou ao menos eu não consigo mais compreender o sentido que a minha eu da época pretendia dar. Agora, eu consigo ver a motivação muito mais clara. He's a bastard? Totalmente! Contudo, um bastardo que já teve seu primeiro navio tomado por um homem a quem certa vez chamou de amigo - canon information - e que já roubou o navio de outro alguém que o considerava um amigo - a sua maneira - mas porque não queria prender-se as suas noções infantis; que elas o dominassem. Considerando as reflexões que nos acompanharam até aqui: Hector e Antonieta são dois lados de uma mesma moeda tão polida que, bem, THAT MAN JAMAIS OUSARIA ROUBAR O NAVIO DESSA MULHER GENTE! O QUE EU TINHA NA CABEÇA? Ao invés disso, ele ajuda em sua defesa; a) porque isso aprouvem a ele b) letra a) multiplicada ao infinito. Porém, porque ele compreende a ligação... ele consegue compreender Antonieta neste aspecto como somente, talvez, Alberto consegue. THIS MEANS A LOT! Enfim... espero que tenham gostadooo!! Aguardo-os nas reviews!! Obrigada mais uma vez pelo amor de todos!! Bjinhos da Ana.