Lembranças na janela
1 Capítulo Único
A paisagem que contemplo pela janela é digna de uma foto, as árvores e o céu parecem se mesclar, assim como o preto e o branco se juntam para formar o cinza.
Pena eu não estar disposto a aproveitá-la.
Sei que deveria observar pelo menos algumas das infinitas belezas da vida que me cercam por todos os cantos, porém tudo me faz lembrar daquele dia...
Estávamos voltando de um passeio.
—Você deveria se soltar mais. -ela disse.
—É mais fácil falar.
—Você é bobo. -ela me dá um tapinha nas costas e corre, olha para trás e diz, com um sorrio zombeteiro.- Quero ver você me pegar.
ela volta a correr, seus cabelos da cor do ouro batendo em suas costas, ela dá pequenas olhadelas para ver se eu estou atrás dela, me afogando naquele azul de seu olhar.
As árvores ao nosso redor exalam um ar acolhedor, ela se senta na grama para descansar, seu riso é música em meus ouvidos, sento-me a seu lado.
—O céu está bonito, não acha?
—Seus olhos são mais bonitos.
—Seu bobo!
Ela adorava me chamar de bobo.
—Você já teve vontade de ficar lá? -ela pergunta se deitando na grama.
—Lá aonde?
—Seu bobo, nós estávamos falando do céu não é? Deve ser tão bom ficar voando...
—É melhor ficar com você.
Eu a beijo.
—Seu bobo, você deveria aproveitar mais as belezas da vida.
—Você é a única beleza que quero aproveitar, agora e para sempre.
ela se senta, seu vestido preto está amarrotado. Como isso a deixa linda!
—Dessa vez é ela quem me beija. Eu poderia ter ficado preso nesse momento eternamente.
—Vocês dois! Podem ir parando com isso! -grita um bêbado do outro lado da rua.
Olho para ele e não dou importância, volto a beijá-la, ele porém, insiste.
—Vocês são surdos?!
—O que quer? -pergunto.
Ele vem em nossa direção.
—Me dá!
—o quê?
—Dinheiro!
ela se levanta, bate a sujeira do vestido, o ajeita no corpo e sorri para mim.
—Dê a ele Nick.
—Ele vai beber.
—Eu sei.
Ela me beija e pega a carteira do meu bolso.
—Seu bobo.
Eu tento pegar a carteira de volta, mas ela se vira, eu a agarro por trás num abraço.
—Que é bobo? -sussurro em seu ouvido.
Ela sorri e olha para mim, ela se vira e eu a beijo.
este foi o nosso último beijo.
Enquanto eu a beijava o bêbado a apunhalou pelas costas e pegou a carteira que caiu de suas mãos, fugindo para não sei onde.
Eu a deito sobre a grama, o desespero toma conta de mim, as lágrimas rolam, vejo a mancha de sangue sob seu vestido aumentando.
—Tudo vai ficar bem, eu... eu vou chamar a ambulância... você ficará bem Kat. -digo em meio às lágrimas. Ela sorri, o primeiro sorriso triste no rosto que só me mostrou sorrisos alegres.
—Nick, seu bobo. -diz ela num suspiro.
—Não, Kat, não! Nãããão!!! -grito afundando a cabeça em seu corpo sem vida, as lágrimas não param de vir.
Alguém deve ter escutado meus gritos, ou visto tudo e chamou uma ambulância, pois eu só me lembro de ter ficado junto dela, na esperança de ela acordar, na esperança de tudo aquilo não estar realmente acontecendo, encarando seus. Encarando seus olhos me senti perdido, não encontrava nenhum sinal daqueles olhos azuis cheios de alegria, tudo o que via era morte.
Não me afastei dela um único minuto.
E hoje, a paisagem é idêntica ao dia em que Katherine Suller morreu.
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