Lembranças de um Homem Comum
1 Capítulo 1 - Rotina
Rotina: O fardo de todos os seres humanos, condenados a repetição até a morte.
Rotina: Faz o mundo girar, une e separa famílias, gera coisas, destrói coisas, cansa os olhos dos homens. Poe o pão em nossa mesa, o cigarro em nossos dedos e nos leva de volta para a cama. Para fugir desse desgaste acabamos criando outra rotina. E chamamos de fim de semana.
Aos fins de semana eu esqueço do meu trabalho, dos meus alunos, da minha própria vida para me concentrar em minha vida paralela como escritor. Ultimamente não tive nenhuma ideia para um novo livro, então acabo lendo meu próprio livro para abrir um pouco a minha mente, esperando que uma inspiração caia do céu e acerte minha cabeça.
Costumo passar a tarde lendo em um banco sob uma grande arvore em um parque tranquilo próximo de onde leciono. É bonito, seu verde me traz paz, vejo pessoas caminhando, casais namorando, crianças brincando com seus cães, tudo nesse lugar tem seu toque de perfeição. Ao mesmo tempo me traz uma sensação pacata demais, a sensação de que minha vida nunca terá uma emoção verdadeira. Algo que ferva meu sangue, faça minha alma explodir, me encha de vida.
Em todos os 41 anos que tive que viver, nada me tirava da morbidez do dia a dia, meu casamento fracassado, meus alunos tapados, problemas com diretores, pais, nada me dava uma gota de agitação.
Eis que então meus olhos caíram em maldição profunda. A pior coisa que poderia me acontecer. A melhor coisa que poderia me acontecer. Meu coração acelerou como se estivesse a um passo de explodir. Minha alma agora era puro fogo de artificio. Minhas mãos gelaram como se segurasse neve. Meu corpo todo ficou dormente. Minha mente ora tola ora oscilando e se agarrando ao fio de razão e bom senso que eu tinha cultivado nesses 41 anos. Razão e bom senso que agora já não existia em mim. Já não tinha mais certeza de quanto tempo estava fitando aquela obra dos anjos. Tinha um jeito despreocupado de se vestir, seu cabelo tão curto que de costas podia ser confundida com um garoto se não fosse por sua roupa. Andava fitando o chão, tinha um semblante que aparentava estar carregando o mundo em suas costas. Ah como gostaria de levar esse peso eu mesmo para você, coisa preciosa.
Tentei me concentrar em meu livro, continuei lendo cada palavra, mas minha mente estava tão longe que não conseguiria pensar no significado da palavra “caminhar”. Olhos congelados fixados no livro, mas agora já não lia mais nada. Nada no mundo podia me tirar daquele transe, nada seria tão interessante quanto aquela garota, nada me daria mais prazer do que olha-la mais uma vez. Mas ela já não estava em meu campo de visão. Tentei procurar em volta, mas...
— Hey, o senhor pode me dizer a hora?
Virei instantaneamente quando ouvi uma voz doce de criança. Era ela.
A pequena que eu conhecia fazia tão pouco tempo, minutos para ser um pouco mais exato, mas tempo suficiente para meu subconsciente lhe oferecer tudo que o mundo tem, tudo o que eu pudesse dar, juras de amor criadas em frações de segundos, todas com seu nome, mesmo sem saber seu nome. Todas para você. E agora me dirigia a palavra, eu me sentia tão lisonjeado, tamanha minha emoção que senti não ser merecedor de tal prazer.
— O que disse? – Perguntei tentando aparentar tranquilidade, já não sabia mais qual foi sua pergunta após me afundar em meus pensamentos
— Eu perguntei se o senhor pode me dizer a hora. – Ela respondeu de forma doce, como uma criança que pede para os pais se pode sair para brincar com seus amigos.
— Ah sim, claro – como um bobo da corte tirei o relógio de bolso de meu paletó que eu havia deixado do meu lado no banco, por consequência do nervosismo causado pela presença daquele anjo deixei meu livro cair. – São... ah... 4h25.
Ela agradeceu por eu ter lhe dito as horas, se aproximou de mim como um gatinho se aproxima de seu dono, senti minha cabeça explodir, um cabo de guerra entre meu coração que insistia em tê-la de todas as formas e meu cérebro que me dizia a cada segundo para ser um homem bom. Ela se abaixou, pude sentir uma gota de suor descendo em meu pescoço. Entregou meu livro com gentileza, nunca agradeci por algo ter caído com tamanha estupidez como aquele instante.
— “Jardim da Vida”?? É um ótimo livro! – Ela disse com entusiasmo, me oferecendo o livro.
— Você... já o leu? – Perguntei sem conseguir esconder o brilho nos olhos
— Mais de uma vez – ela deu um breve sorriso – e lerei de novo... se eu tiver tempo. – Ela disse com um tom um tanto áspero. Por que não teria tempo? O que uma garota daquela idade faz que ocupa tanto tempo assim?
Me perdi em meus pensamentos por breves segundos até que ela me agradeceu novamente e se despediu. Não podia acabar assim. Nunca me perdoaria.
— Hey, você estará por aqui amanhã? Adoraria debater sobre esse livro com alguém que o conhece tão bem como você. Já que eu ainda estou no começo e...
— Eu estarei aqui, mas não é por diversão – havia tanta magoa em suas palavras que minha alma pôs-se em prantos. – Se estiver por aqui podemos falar sobre o melhor livro do mundo. – Se afastou e começou a andar em largos passos, com pressa.
Meu sangue que a pouco estava tão mórbido agora fervia. Quente como lava. De repente algo me acertou como uma bigorna em minha cabeça. No que eu estava pensando? O que eu estava desejando? Quanto anos ela deve ter? 14, 15 no máximo. Ela mal começou a viver enquanto eu... estava cada dia mais próximo do fim. Amaldiçoei cada ano de minha vida, nunca desejei tanto ter 15 anos novamente, nunca realmente quis de volta a juventude como agora, para poder me declarar sem medo, para fazer de tudo para ela se apaixonar por mim, para poder crescer ao seu lado, morrer ao seu lado. Adormecer todas as noites e amanhecer todos os dias apenas com a visão de seu rosto de menina. Por Deus, é uma menina, é uma criança. Como eu posso ter esse tipo de pensamento? Amaldiçoo todo meu corpo, minha alma, meu coração por querer tê-la ao meu lado. Mas agora a única coisa que toma conta dos meus pensamentos é saber que amanhã a verei de novo.
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