Notas iniciais
Vamos estar usando as notas iniciais do capítulo. Gostaria de dedicar este capítulo a minha beta INCRÍVEL, Diih, homônima perfeita da minha Diana Murphy, por quem somos ambas apaixonadas. Diih, mana, obrigada por estar comigo desde o início dos tempos; das madrugadas jogando RPG, para as madrugadas conversando sobre pirataria e smuts kkk! Porto Venere não seria o que é, sequer existiria, não fosse a sua dedicação e carinho ao betá-la; me prestando conselhos e carinho sempre que eu dou aquela chamadinha no whatsapp ♥ Te amo.

Com Sofia ao seu lado e toda a tripulação do Stella De La Sera às suas costas, Diana acompanhou os passos de Alberto e Antonieta pela ponte à entrada da Cidade Naufrágio, que os levariam direto ao centro de reuniões; o coração da cidadela. Uma atriz; ao longe nenhum de seus inimigos seria capaz de compreender como seus passos dissimulavam o quanto suas costas estavam quebradas. No entanto, essa era sua máscara, seu charme, há mais anos do que o furacão Murphy concebia cálculo; e o olhar que trocou com Sofia deixara claro que ambas entendiam isso. Os irmãos Barbieri sumiram à sua vista e as irmãs sorriram angustiadas entre si. Casadas com a família, mas cientes de que alguns caminhos sempre pertenceriam apenas a seus legítimos filhos.

Encontravam-se envoltos pelo silêncio. Apropriado ao único navio maculado pelo luto. Uma última noite de folga, sua capitã lhe sugeriu, irônica, quando consciente daquilo que as esperaria do outro lado do oceano. A mão de Sofia apertou seu ombro carinhosamente, e Diana questionou-se se ela sabia o quanto estava feliz em revê-los. Embora nenhum gesto seu fosse capaz de superar Antonieta.

— Ela acabou esquecendo. – disse com a cabeça baixa, braços apoiados a balaustrada da embarcação. Sofia encarou-a, sem entender. – Às duas vezes em que ele esteve em sua vida, Barbossa não fez mais do que machucá-la, você me disse aquela noite em Tortuga; e eu disse que Antonieta não se esquecia facilmente. Mas ela esqueceu. Mesmo que a cicatriz ainda esteja no braço dela. Eu me enganei. – concluiu em desapontamento, Acidália notou.

— Não, não se enganou. – respondeu após refletir um momento. – Ela precisava voltar para a água; você tinha razão. – ponderou, branda. Diana sorriu um pouco.

— Então, é assim que você se sente o tempo todo? – permitiu-se uma brincadeira, conseguindo ouvi-la rir baixinho. Aos poucos, se restabelecia em sua velha posição; o balanço entre a luz e as trevas de suas irmãs. – Ela voltou para a água; e está lutando a batalha dele. – acrescentou friamente.

— Uma batalha não é o mesmo que uma guerra, Di. – Sofia lembrou-a. – Ela chegou até aqui, como prometeu; e Deus os proteja se recusarem o pedido dela agora. – continuou, cautelosa.

— Ela chegou até aqui. – concordou a irlandesa. – Ela vai chegar até lá? – inquiriu sombria. Sofia sorriu e suas sobrancelhas se ergueram levemente, contendo seu choque.

— Você não acha que Antonieta faria essa volta agora, acha? – retrucou, amparada pelas palavras de Barbossa. “Antonieta jamais escolheria trocá-los por qualquer coisa; eu sei. Ela sabe...”

— Esse é o problema, Soff... eu não sei. – falou com sinceridade, erguendo os olhos muito azuis a ela.

Sofia segurou seu olhar por um tempo, então focando-o para a saída da caverna. A dúvida de repente se abatendo sobre elas; as certezas que possuíam antes de deixarem Tortuga, antes de Singapura; antes que Hector Barbossa fizesse sua terceira entrada na vida de Antonieta.

— Eu vi Elizabeth, — a senhora Barbieri disse, ansiosa para que aquela sombra pairando sobre elas desaparecesse, — mas onde está Mestre Turner?

Algo ribombou à mente de Diana.

— Ora, vejam só... – murmurou com bom-humor. – Faz algum tempo que não o vejo.

— Você não acha...?

— Ele já nos traiu antes. – disse dando de ombros, ao que os olhos de Sofia realmente se abriram. – Algo sobre o pai dele, não faz sentido lhe contar agora. – dispensou com um aceno de cabeça. Seus olhos correram ao Pérola, então. – Vou ver se encontro algum rastro do nosso cucciolo[1]. – e saiu em direção ao navio.

Desabitado, o Pérola Negra assentava-se mais à fantasia de sua lenda. Os fantasmas que uma vez Mia ligara ao Stella De La Sera ínferos se comparados aos do navio de velas negras. O pior deles, a juventude de Jack Sparrow e, talvez, a pior traição que sofrera; a despeito de não saber se Elizabeth superara Barbossa. Diana checou a cabine e o castelo da proa, sem sinal de William Turner. Dirigindo-se aos alojamentos, porém, encontrou algo melhor. A voz de Tia Dalma vinda da cela, alta; e falava com alguém. Will? Imaginou o furacão Murphy.

Uma das tapeçarias mais antigas de Mia tomava vida diante de seus olhos. Davy Jones adentrara o Pérola. Diana nunca o conheceu; sequer nos momentos em que aproximar-se-ia da morte. O testemunho de marinheiros não lhe fazia jus. De fato, seu propósito tornavam-no o pior pesadelo entre a corja pirata; imponente, assustador – a última face da morte. Contudo, o sangue sob o qual era regado seu passado impediam-na de sentir, de fato, qualquer daquelas emoções. Ao contrário, sentia-se presenciar a história. A lenda do marinheiro que perdeu seu coração para o mar.

E que ao toque deste, abandonaria a carcaça mítica em favor do que foi; um homem; uma tragédia; algo mais a ser usado pelos pais que viviam junto aos portos, garantindo a obediência de seus rebentos.

— Calipso... – ele chamou-a com desejosa saudade. Não via seu rosto. Mas viu o de Tia Dalma. Olhava-o como algumas vezes vislumbrara Allegra olhar para Cícero, antes de se separarem.

— Eu serei livre. – ela disse, veemente. – E então eu te darei o meu coração; e ficaremos juntos, sempre... – Diana assistiu a mão dele traçar o contorno de seu rosto com adoração; e ainda assim não se sentia tocada. A escolha que fez não a tornara a quem de entender os sentimentos; talvez enxergasse para além das palavras. Chegou à conclusão de que ela era inconstante. O suficiente para enlouquecer um homem como Davy Jones à máxima de arrancar seu coração. – Se ao menos você tivesse um coração para dar. – fria o suficiente para que sua obra fosse também o seu trunfo. A sua tragédia, o seu triunfo.

A mão que envolvia seu rosto era, então, uma garra a aperta-lhe o pescoço.

— Você veio por quê? – a bruxa inquiriu; o primeiro sinal do medo brilhando em seus olhos. Jones removeu a garra, liberando-a. Surpreendendo ambas as mulheres ao adentrar a cela sem uso de chave.

— E que destino planejou para seus captores? – Jones falou finalmente.

— A Corte da Irmandade? – ela desdenhou. – Todos eles; a última coisa que descobrirão nesta vida, é como eu sei ser cruel.

Diana fechou os olhos, crispando os lábios.

— E o seu destino, Davy Jones? – inquiriu, a sombra de sincera preocupação em sua voz.

— Meu coração sempre pertencerá a você. – respondeu o capitão.

Nenhuma outra palavra. Somente a música, advinda de uma caixinha às mãos da deusa, Diana atestou, sentindo finalmente. Algo ebulindo em seu estômago corroído pelo vazio de dias.

— Então é isso. – interpôs a morena, saindo de seu esconderijo junto aos barris de pólvora. Tia Dalma fechou a caixinha de música, seu colar, de pronto, assumindo a defensiva em sua cela, ao passo que Diana aproximava-se das barras. – Antonieta estava certa; você está nos usando; e brincando com nossas esperanças; nossas vidas. – sentenciou, fervorosa, cuspindo as palavras.

— Não importa que corra até eles. – advertiu Tia Dalma. – Barbossa não pode abrir mão de sua palavra. – lembrou-a, exalando triunfo. Diana jogou-se contra as barras, apertando-as com violência.

— E o que a vida dele importa pra mim?! – rosnou entre dentes.

Calipso sorriu, calma.

— Importa para a menina Barbieri; ela a você. – advertiu, seu sorriso crescente fazendo com que o sangue de Diana ardesse mais.

Importava, mas por quê? Era diferente com dezesseis anos; ainda não existia Lorenzo Lucena. E seu apelo sempre esteve muito claro, mesmo para a risada de Murphy. Físico e mental. Não havia apelo em Barbossa, que ela fosse capaz de entender. Ambos a traíram; um antes do outro. Talvez doesse mais em Antonieta que Lorenzo fosse sua ideia do que Allegra e Cícero viveram; enquanto o lorde do Mar Cáspio fora apenas um forasteiro em suas terras. Não o primeiro; ou o último. Diana assistira por tantos anos a maneira com que sua irmã dispunha de seus pretendentes. Provocava-os ao ápice de seu orgulho, até enfim admitirem sua superioridade, quando então os enlaçava para sua cama; Lorenzo foi o único a ver a manhã seguinte. Barbossa sequer ficara.

Ele fizera sua escolha sem hesitar considerá-la. A primeira vingança que Antonieta jurou conquistar; o roubo de seu diário com o rubi. E aqui estava ele, vivo, contando com a preocupação dela. Por que se preocupava com um homem a quem ninguém mais valia seu tempo, se não possuísse algo de que pudesse usufruir?

— Todo esse tempo em que eu talvez devesse ter formado outra opinião; talvez em outros aspectos, mas ainda não consigo me separar do sentimento de que: ele não faria o mesmo. – ponderou, repousando a cabeça sobre o ferro.

— Ele não precisaria; você estaria por perto. – retrucou Tia Dalma.

— Não sou um peão. – a irlandesa sibilou.

— Não estaria aqui, se fosse. – a deusa concordou.

Diana empurrou as barras, afastando-se a fim de correr a mão por seus cabelos.

— Eu quase me afoguei uma vez... uma tempestade no meio da noite, ao mar... foi o mais assustada que já estive em toda a minha vida; mal conseguia respirar. – falava baixo, como se confessando-se. – Por isso as tenho. – apontou para seus tornozelos, onde a tatuagem do galo e do porco se escondiam. – Sempre acreditei que alguma força divina houvesse guiado meu humilde barril até Porto Venere. E aqui está você. – desdenhou, cuspindo aos pés dela.

O olhar de Tia Dalma se tornou severo.

— Meu desejo ainda tem poder. – advertiu. – Mesmo nessa forma.

— Deveria? – a pirata inquiriu. – Eles não depuseram a rainha para nunca mais se preocuparem com o seu desejo? O controle ilimitado dos mares. – havia um quê de curiosidade em sua voz, mas ainda venenosa.

— Depuseram-me de meu trono, não do meu poder. – foi a resposta da bruxa.

— Então porquê precisa de Barbossa? Ou de qualquer um deles? – Diana insistiu, dando de ombros.

— Esta forma continua sendo limitada; e eu não escrevi todas as regras. – respondeu com simplicidade.

— E o que acontece se eu matá-la agora? – interpôs, taciturna.

— Estarão perdidos. – sentenciou Calipso.

— Já estamos.

— O controle sobre os mares é meu; de nenhum outro homem ou mulher. – disse. – Uma vez que eu estiver livre, caberá a vocês prevalecer.

— E mesmo sem a sua parte na barganha, Barbossa vive?

Tia Dalma resumiu-se em um sorriso e Diana bateu levemente a mão às barras, entendendo que sua audiência havia terminado. Com os pés sobre a escadaria, no entanto, conteve-se.

— Por que Matteo não estava em um dos barcos, naquela noite? – perguntou sem muito pensar. – Ou Ilaria?

— Eles logo estarão. Uma vez que ela lhes conceda sua paz.

Diana apenas assentiu. Ela era Antonieta. E caso contasse que a vida após a morte de Matteo e Ilaria dependiam dela, não descansaria enquanto não soubesse como. Nem batalha ou guerra seriam mais importantes. Suas mortes jamais deixariam seus ombros e aquele era fardo que bastasse. Diana, porém, lia emoções bem o suficiente para entender os olhos de Calipso nos seus; e a resposta à sua pergunta, talvez a sufocasse tanto quanto a água.

[1] filhote

Notas finais
Espero que tenham gostado!! Amando essa semana cumprindo direitinho o cronograma de atividades! Nos vemos nos reviews! Beijos, Ana