Lembranças de Porto Venere
31 Capítulo 31
— Olhem só quantos navios. – Pintel murmurou junto aos outros.
Barbossa mantinha-se à frente com Jack em seu encalço. Admirava a visão da costa e as bandeiras de cada lorde pirata com a consciência de que fora obra sua, como aquele que realizou o chamado; e à ideia de que tudo fosse seu.
— Não houve encontro igual a este em nossa geração. – anunciou para que ambos os lados o ouvissem. Alguns murmuraram com fascínio em resposta.
— Devo dinheiro a todos eles. – Jack confessou, tenso; e, ao seu lado, Diana questionou sua motivação. Se apenas para arrasar o orgulho nos olhos de seu antigo imediato. De toda forma, permitiu-se um sorriso solidário a Sparrow. No entanto, não deteve o tempo para assegurar-lhe de que todos deviam dinheiro a todos. Antonieta já tomara frente junto a Mestre Cotton, indicando a rota para que atracassem. Longe, a irlandesa sentia o peso de sua antecipação a fim de voltar a casa e rever sua família; dividindo de tal sentimento. Contudo, ainda temente do que encontrariam a bordo; o que não encontrariam; e como proceder perante a realidade.
Observava-a temendo, outrossim, julgá-la. Pelos dias que as antecederam e o que a chegada a Baía Naufrágio de fato significava, independentemente do desenlace de seu período separados. Caso pretendesse garantir que possuíssem uma casa para onde retornar, precisava ser mais do que a garotinha perdida em meio aos estranhos na costa – tão comuns nos grandes portos que visitaram ao longo de suas andanças – que Diana enxergava naquele momento. Esquecida de toda morte que já encontraram; diferente, uma vez que dentro de sua casa, sempre era. Para ela, pensou a morena, também seria outro fim. O fim de sua solidão com Mia; que precisaria de Sofia, diante do que descobrissem sobre Alberto; sobre qualquer tripulante. A velha dinâmica restaurada.
À ponte posta para que descessem, o grupo tomou prontamente a direção para a casa onde a reunião aconteceria. Antonieta logo atrás, correndo os olhos pelo cais. Sofia os teria avistado o navio. “A menos que também esteja morta...” pensou a Barbieri, sentindo seu estômago retorcer. Diana permaneceu acima dela, ainda à ponte, fitando-a mover-se entre os lados, decidindo, afinal, partir até onde avistara o navio.
— Antonieta! – a voz de Sofia parou-a. Sua irmã vinha correndo em sua direção. Mia sorriu, aliviada, correndo também. Chocaram-se com um abraço desesperado; acalmado ao tomarem ciência de que ambas estavam, de fato, ali.
— Berto è [1]...? – indagou ansiosa, respirando descompassadamente.
— Sono qui, fratella[2].
O rosto de Alberto era tão moreno e forte quanto se lembrava; e ele lhe sorria como se aquela fosse parte de uma piada interna muito antiga entre os dois. Antonieta manteve-se segura pelos braços de Sofia, fixa sobre seus pés, embora suas mãos tremessem. Todavia, não foi um sonho o que viram na ilha, tampouco Sao Feng mentiu; e ela se abraçara ao braço esquerdo de seu irmão uma última vez, na fatídica tarde. Em Alberto via-se apenas o trabalho de Cínzia, e de Carlo, nas suturas que fechavam a ferida no coto que o lorde de Singapura deixou para trás. Um braço; o suficiente para que a despedaçasse por inteiro, por sua vez; mas deixara-o para trás. Mérito que atribuiria apenas a Berto.
Sofia afastou-se à medida que seu marido se aproximou calmamente, abraçando sua fratella com gentileza, usando o único braço de que ainda dispunha. O toque despertou-a para que jogasse seus dois braços contra o pescoço dele, envolvendo-o por completo. Alberto apertou-a, então, sentindo as lágrimas de sua irmã contra o linho da camisa. Em poucas ocasiões ouvira ou viu seu choro, não obstante, ainda o fazia como uma menina. Diana havia os alcançado e sorria à cena, com um aceno de cabeça feliz para Berto, quando a avistou e um tapinha às costas de Sofia, que lhe apertou a mão.
— Dov'è Téo[3]? – Antonieta perguntou se recompondo. — E gli altri?
Alberto voltou sua atenção para a esposa. Sofia baixou os olhos por um instante, erguendo-os para devolver o olhar do marido com determinação. Mia e Diana assistiram-nos apreensivas.
— Eles permaneceram no navio, para que nos encontrássemos primeiro. – Berto esclareceu. – Para que falássemos. – acrescentou seriamente.
— Imaginamos que Sao Feng não resistiria a oportunidade de lhe contar sobre Alberto. – Sofia continuou. Antonieta assentiu crispando os lábios. – Mas, ainda que Berto esteja vivo, isso não quer dizer que...
— Sofia? – Mia interrompeu-a, engolindo em seco, soltando-se de Alberto. Ele, por outro lado, segurou-a pela mão. Diana olhou para a água.
— Matteo e Ilaria estão mortos. – a senhora Barbieri disse sem rodeios, com a voz trêmula. – Um agente de Beckett estava com Sao Feng quando aconteceu, e os matou. – continuou como se precisasse reafirmar algo a si mesma. Antonieta respirou fundo.
Ouviu-se, então, sobre a água, a chegada de outra embarcação. A Imperatriz. Elizabeth, pensa a capitã, enquanto se encaminhou para o espaço no porto onde realizariam a atracação. Diana em seu encalço, alertando os outros dois para que esperassem. O cigno surgiu primeiro sobre a ponte, sorrindo para as mulheres que a aguardavam na descida; nenhum sinal de Sao Feng, observou a irlandesa, silenciosamente. Sua mão deixando a bainha da arma sutilmente. Tai Huang acompanhou Elizabeth, parando quando ela parou para cumprimentar Antonieta e Diana.
— Onde está Sao Feng? – a primeira lhe perguntou, ignorando qualquer outra palavra. O olhar da senhorita Swann endureceu.
— Morto.
— Você o matou? – inquiriu Diana, um quê de impressionada em sua voz.
— Não, foi trabalho do Holandês. – respondeu brandamente, seus olhos presos na Capitã Barbieri.
— Ele a machucou? – perguntou de pronto.
— Não. Ele me fez capitã. – disse, mostrando a sua peça de oito, ao que os ombros de Mia relaxaram por um milímetro.
— Nem todas as notícias são ruins, então. – murmurou com um sorriso cálido.
— O que foi? – a loira lhe devolveu.
— Precisamos ir. – Tai Huang as interrompeu. – A reunião não deve começar até que todos os lordes estejam reunidos. – explicou a Elizabeth, que assentiu de soslaio, mas ainda interessada em Mia.
— Vá. – disse-lhe ela. – Eu os alcanço em pouco tempo. Tente me esperar para que o mais divertido tome forma. – pediu, forçando-se a um tom jocoso. Elizabeth assentiu, apertando-lhe o ombro ao passar. Mia acompanhou seus passos, voltando-se então para seu irmão e Sofia, acenando para que a levasse até o Stella.
Matteo e Ilaria estavam mortos; e seu irmão fora aleijado. Seu navio, porém, permaneceu sem quaisquer daquelas marcas, o que demonstrava a ela que a abordagem da Companhia das Índias Ocidentais não fora violenta, provavelmente em terra na ilha, enquanto abasteciam; antes da água ser envenenada pela morte. Sua tripulação reuniu-se ao deque. Cabeças baixas, mãos cruzadas à frente do corpo, sem chapéus. Cientes de que ela já detinha conhecimento. Foram pequenos murmúrios de pêsames, enquanto ela caminhava até o mastro principal a fim de acender a vela principal.
— Como aconteceu? – perguntou quando Luigi, seu timoneiro, foi a última voz a proferir as condolências. Todos os olhos se voltaram para Alberto e Sofia, parados ao centro do círculo.
— Pouco após a nossa fuga de Singapura, quando paramos para abastecer, encontramos Sao Feng, – seu irmão começou, confirmando a suspeita dela. – Ele estava com o agente de Beckett a bordo – aquele que age como se fosse sua sombra...
— Mercer. – Diana complementou.
— Aparentemente, discutiam a rota que vocês seguiriam, uma vez que estivessem fora do baú. Mercer nos deu voz de prisão. Lutamos para voltar até o navio e zarpar. Havíamos descido eu, Giulia, Bea, Angello, Matteo e Ilaria, pelas provisões; Sao Feng me atingiu, e então alguém atirou. – uma sombra passou por seus olhos. – Vimos o corpo de Matteo estirado na praia e a arma ainda quente na mão de Mercer. Ilaria correu na direção dele, e então disparou novamente. – concluiu solene.
Antonieta se resumiu a assentir.
— Onde eles estão? – inquiriu baixinho.
— Na cozinha. – foi Cínzia quem respondeu. – Limpei os ferimentos. – acrescentou. Mia entendeu-a: não queria que ela visse o sangue. Seguiu, por fim, para a cozinha sem olhar para trás. Sofia mirou Diana, mas a irmã acenou tranquilizadora; preferia que Antonieta aproveitasse sua vez sozinha primeiro.
A capitã parou à entrada da cozinha, segurando-se na balaustrada da porta. O navio estava em silêncio, que pela primeira vez possuía valor. Um valor pesado demais. Mais do que a ameaça de um motim ou a insatisfação de Sofia. Era morte. Levada até o coração de seu navio para arrancá-lo dela. E, todavia, ela ainda sentia alívio; felicidade por seu irmão estar vivo; por sua irmã, seu sobrinho e cada membro de sua família; por finalmente sentir que conhecia o chão sobre o qual pisava. Embora não fosse Porto Venere, ainda era casa; pela qual tanto ansiara. Se fechasse os olhos, nada teria mudado; nem mesmo o braço de Alberto, pois o que era um membro contra o coração pulsando de seu fratello? Porém, nenhum sonho sobreviveria dentro daquela sala.
Cada corpo ocupava uma mesa. Dois túmulos de mogno entalhados há muito por outros marceneiros tão habilidosos quanto os seus. O assoalho ressoou sob seus passos lentos, enquanto decidia entre Ilaria ou Matteo – como se fizesse diferença. Por fim, parou ao centro entre ambas as mesas, fitando a cada um sem se aproximar, absorvendo o silêncio; permitindo que se abatesse sobre ela. “Somos seus anjos da guarda; nos perca e perca todos eles”, a voz de Ilaria correu pelo aposento vazio. Algo cheirava bem ao fundo, próximo a dispensa, Antonieta seguiu o perfume. Bruschettas.
Ela cambaleou para trás, de volta ao centro. Então, se pôs ao lado de Matteo, respirando fundo a fim de afastar o choro que há meia década continha. Sua mão correu pelas rugas junto aos olhos de seu cozinheiro; mais até, o pai com quem contara por longos anos, por vastas batalhas. Ele sempre sorrira demais. Amistoso demais para a profissão, disse Cícero uma vez, mas tanto ele quanto Allegra o amavam por isso. Acolhendo-o não apenas como um de sua tripulação, mas um dos seus, ao descobrirem sobre a morte de sua esposa, com a pequena infanta nos braços. Ilaria trazia uma expressão retorcida no rosto. O rigor mortis endurecendo o choque em seus lábios, mas sem apagar a juventude de seu semblante por completo.
Juventude roubada. Ilaria sequer teve a chance de fazer as mesmas escolhas que Mia, embora esta soubesse que os resultados seriam melhores. Mais forte que ela; melhor. Párea apenas a Sofia. Dedicada ao homem que amara até a morte, como tantos falsos cristãos apenas almejavam ser. E fiel a Antonieta, como ela jamais merecera. Arfando, respirando suas lágrimas pulmões adentro, a capitã sentiu seu peito queimar em frustração; em agonia; e abriu a boca para que liberasse um pouco dela, num grito que não proferira som algum. Apenas em seu coração.
— Eu vi o corpo de Matteo, enquanto atravessávamos o mar de mortos àquela noite. – Diana estava parada a poucos passos dela, sua voz reprimindo o mesmo que sua irmã. Antonieta cedeu para o chão, abraçando-se ao seu estômago. – Por isso não quis acreditar quando encontramos o braço de Alberto... o que apenas serviu para que não tivesse certeza se deveria lhe contar ou não... – contou-lhe. A Barbieri mantinha os olhos fechados, respirando fundo, tentando entender o que Diana falava. – Fiz mal?
— Não. – assegurou-a de pronto, mirando-a de soslaio. – Só teria piorado tudo... e agora não importa. – disse se colocando de pé, repousando suas mãos sobre os ombros da outra. – Está feito.
— Nós podemos morrer, mas ele também irá. – Diana sentenciou com os olhos fixos em Ilaria.
Sofia e Alberto desceram, Téo em seu encalço. Antonieta correu para o sobrinho, abraçando-o.
— Escolhi bem o nome. – Sofia murmurou, fazendo-a sorrir um pouco. Ela entrara em um terrível trabalho de parto; conturbado o bastante para que as únicas mãos de um médico não fossem suficientes. Foi como Matteo conseguiu provar ser dotado com mãos abençoadas para mais do que o famoso Spaghetti Di Vitale, mas trazer o pequeno Matteo Barbieri ao mundo.
— Estamos aqui. – lembrou-os o Téo Barbieri. – E agora? – indagou para sua tia, que, à chance, encarou Alberto.
— Me acompanha? – pediu brandamente. Ele assentiu. Diana pôs-se a segui-los, mas Mia a parou com gentileza. – Fomos ao inferno e voltamos; ganhou uma noite de folga antes de nos encontrarmos lá novamente. – falou com os olhos brilhando em gratidão. A irlandesa sorriu, assentindo.
Antonieta tornou a subir para o deque, pedindo que Berto esperasse ao avistar sua cabine. Estava como a deixou, porém o reflexo em seu espelho mudara consideravelmente. Com seu sorriso característico, alcançou a escova de cabelos ao toucador e penteou-se, lavando o rosto com a água em sua bacia – sorriu ao imaginar Federica fiel aos seus afazeres mesmo que ela não estivesse ali – e, por fim, trocando suas vestes puídas, pelas saias aveludadas que a distinguiam do resto. Berto sorriu, revirando os olhos num gracejo, ao vê-la. Ainda era uma ladra; dona de seu próprio nariz e cheia de vaidade.
E a filha de Cícero e Allegra Barbieri jamais se apresentaria às portas da corte, prestes a barganhar um favor com homens que desprezava, em vestes de mendiga.
[1] Berto está...?
[2] Estou aqui, irmã.
[3] Onde está Téo? E os outros?
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