Lembranças de Porto Venere
29 Capítulo 29
Notas iniciais
Sofia gritou. E então os olhos de Antonieta se abriram, encontrando apenas Diana deitada ao seu lado sobre o emaranhado de lençóis que cobriam a cama na cabine do capitão. O mar era apenas um murmúrio em meio a escuridão que as cercava; dormira por toda a tarde. Cortesia de Jack, sorriu ao lembrar-se. Oferecera-lhes a cabine – disse – para que sentissem seu luto como desejassem. Sua irmã observou-a enquanto passava os dedos pela esmeralda no anel de Alberto; como se acariciasse seu rosto moreno, marcado pelo mar e por inesgotável juventude; nada dizendo quando Mia fechou os olhos permitindo que as lágrimas escorressem pelos cantos. Esperou até que caísse no sono, imaginou a Barbieri, para prestar sua própria homenagem. No entanto, ainda dormindo, Diana não oferecia sinais de que o houvesse feito.
A mente de Mia, por sua vez, permanecia demasiado ocupada com lembranças de seu irmão, para que a possível falta de reação de Diana a chateasse. Alberto tocando o alaúde de seu finado pai sendo a mais proeminente delas. Tocando-o para cortejar Sofia, ou mesmo quando fazê-lo atraía apenas olhares de outras italianinhas desavisadas; as noites em que fizera-o para afastar os maus agouros de viajantes que visitavam Porto Venere e escolhiam a taverna da família para fugir de seus passados. Os memoriais de seu pai e sua mãe, ao final de ambos, quando apenas o príncipe e a princesa da ilha permaneciam juntos ao altar; os últimos a apagarem as velas, encarando-se com sorrisos tristes fruto da constatação de que seus pais, como sempre fizeram, não permitiram que vivessem além de suas heranças até que o fardo se tornasse uma escolha.
Sem sombra de ruído, deixou que Diana descansasse mais um pouco, saindo para a sala principal. Barbossa estava sentado à sua mesa com os mapas; mapas que seria capaz de ler, finalmente, ela pensou. Ao vê-la, resumiu-se a um aceno condolente de cabeça, ao que ela fechou os olhos em meio a um suspiro de entristecida resignação. Havia uma cadeira ao outro lado da mesa, na qual se sentou ainda silenciosa. Hector jamais soubera o que oferecer ante o pesar de um rosto conhecido, porém convinha a sua companhia que permanecesse calado. O silêncio, afinal, detinha algum valor; quando oferecido pois qualquer outra palavra parecia rasa demais.
— Posso lhe fazer uma pergunta? – a voz dela ressoou mansa pela cabine e Barbossa voltou sua atenção para os olhos abatidos de Mia, aquiescendo. – O que o fez olhar para uma garota, mimada como era, e considerar que ela se encaixaria no seu mundo?
— Isso é sobre Elizabeth? – ele sugeriu, se retesando sobre a cadeira.
— Não, é sobre mim. – corrigiu, duramente.
Ela nunca requereu validação. Não a sua. Seus olhos desviaram dela por um instante, enquanto suspirava. À morte de seu irmão, gostaria de encontrar as palavras que ela gostaria de ouvir.
— Esse não é o momento para duvidar de si mesma.
— Não?
— Não. – repetiu ele, sério, consciente de que não sanara o desejo dela. – Em meio a guerra, não importa.
— Certo. – ela vociferou, ao passo que os olhos dele se estreitaram, aguardando o próximo movimento dela. – Então falemos sobre algo que importe. Elizabeth. – Hector quase riu; era preciso admitir quão previsível Antonieta conseguia ser em sua fúria. – Como pôde?
— Assim como ela lhe assegurou, Antonieta, a escolha foi dela. – respondeu o lorde pirata sem delongas.
— Que escolha? Não há escolha quando você sabia que Sao Feng não aceitaria outro acordo. – condenou a Barbieri, corando pela raiva. – Ela está agora sozinha em um navio cheio de homens que – devo lembrá-lo – tentaram nos matar mais de uma vez.
Hector soltou um muxoxo desacreditado.
— Sao Feng acredita que ela seja Calipso. Não vai machucá-la, nem permitir que a machuquem.
— Você se atreveria a olhar nos meus olhos e afirmar, sem dúvida, de que ela não corre nenhum risco de ser estuprada?
Outro momento de silêncio. Antonieta não escondia seu desgosto ou o fogo em seus olhos, e quanto a isso ele não detinha desculpas.
— Não creio que você duvide do treinamento dela; eu não duvido. – disse na defensiva.
— Eu não duvido de Olívia ou Beatrice, tem razão. – respondeu friamente. – O que me perturba é a facilidade com que ela se tornou uma moeda de troca nas suas mãos. – acrescentou. As sobrancelhas de Barbossa se ergueram minimamente.
— E você nunca usou de meios para os seus fins? – desdenhou ele como se precisasse lembrá-la de quem eram.
— Eu nunca permiti que outros se prostituíssem no meu lugar. – falou se levantando a fim de deixar a cabine, sem interesse por seu refute. Barbossa observou-a, acompanhando seus passos pesados até se dar conta de Diana parada ao vão da porta que separava as cabines. O furacão Murphy fungou com escárnio, a cabeça a balançar em negativa e as mãos batendo gentilmente na madeira à medida que retornava para seu sono.
A noite trouxera neblina. Mia correu as mãos por seus cabelos, puxando-os para trás, soltando o ar com violência enquanto se aproximava do mastro principal. Barbossa talvez estivesse certo, e questionar-se naquele momento não levasse a nada. Sua dúvida provinha da máxima de que o luto jamais lhe ensinara a ser realista e, dessa forma, buscava formas de se convencer de que Alberto ainda estaria ao seu lado, não fosse o caminho que seguiram. Não fosse Barbossa forçando-a a encarar a verdade de que manter-se acuada em Tortuga não resolveria seus problemas.
— E como a sua doce enamorada se sente sobre o seu plano? – Mia ouviu Jack dizer, embora não houvesse sinal de tripulação no deque. Ao som da resposta de Will, as orelhas da Barbieri se aguçaram e seus passos aproximaram-se silenciosamente da direção deles, parando próximo ao castelo da proa. – Se escolher trancar seu coração para sempre, vai perde-la com certeza. Mas se posso sugerir algo mais simples: não salve seu pai. – Sparrow continuou.
— Eu preciso, não posso dar as costas a ele.
— Poder é uma questão de ponto de vista. Você pode se quiser, mas não quer e então se torna uma escolha. Isso é a vida, rapaz: escolhas. Dentre todas as coisas que pode fazer, o que você vai fazer? – Antonieta aguardou, mas não houve retórica de Turner. – Se posso oferecer luz a sua confusão intelectual: não escolha. Mude os fatos. Deixe que outra pessoa despache Jones.
— Quem? – Will finalmente voltou a falar. – Você? – Antonieta silenciou um sobressalto.
— A morte tem seu jeito de rearranjar prioridades. Eu entro a bordo do Holandês, encontro o coração e apunhalo a coisa pulsante. Seu pai fica livre do débito, e você para viver com sua charmosa assassina. – ele falava como se já houvesse considerado todos os ângulos de sua ideia, Mia observou, ciente de que ele viera pensando nisso, talvez, desde o baú.
— E você preso ao Holandês... para sempre. – Will chamou sua atenção.
— Não, livre para sempre, meu amigo. – Jack apressou-se a corrigi-lo, e Mia ouviu o sorriso em sua voz. – Livre para velejar além dos limites de qualquer mapa; livre da própria morte. Tripulante do Holandês Voador é uma coisa, mas Capitão? Onde eu assino? – brincou, sereno.
— Mas vai ter que trabalhar, Jack. – Will outra vez sabiamente interveio. – Vai ter que levar as almas até o outro lado ou acabar como Jones...
— Eu não combino com tentáculos... Então eu cumpro com o encargo e não serei completamente livre, mas imortal tem que contar para alguma coisa. Agora, pegue aqui. – ele passou alguma coisa para Will; da sua posição, não conseguiu distinguir exatamente o quê.
— Pra que isso?
— Pense como eu e vai entender. – respondeu a andorinha, meio segundo depois Antonieta ouviu o corpo de Will batendo contra a água, finalmente tomando ciência da trilha de barris que circundavam o Pérola. A Barbieri sorriu. – Mande lembranças à Davy Jones! – gritou o lorde do mar caribenho, despreocupado.
— Costumam dizer que quando duas pessoas não se bicam, no fundo elas têm mais em comum do que imaginam... finalmente acredito que seja verdade.
Jack sobressaltou-se ao saltar do castelo da proa de volta para o deque, encontrando-a onde estivera escutando toda a conversa com um sorriso presunçoso erguido em seus lábios. A capitã imaginara que sua guerra deveria ser travada entre a civilização e os renegados piratas, no entanto descobriria que a guerra tivera seu início há muito tempo dentre a tripulação do Pérola. Aparentemente, William Turner não era o único homem com o desejo de comprar uma chance para si mesmo naquela aventura. Em sua conversa com o pequeno filhote, Sparrow lhe pareceu confiante de seu sucesso; despreocupado com as possibilidades de falha em seu plano – a mesma autoconfiança que custou-lhe o Pérola uma vez, ousava dizer.
Conquanto ela indubitavelmente ter descoberto seu plano de apunhalar o coração de Jones, e a possibilidade de contar tudo a Barbossa, ele ainda fitou-a como se nada houvesse de fato mudado.
— Aproveitando a brisa? – inquiriu a andorinha, aproximando-se. Antonieta apenas aquiesceu. Jack encarou-a por um instante, escorado ao parapeito do navio ao seu lado. – O nobre Hector não veio juntar-se a sua senhora? – perguntou com o mesmo sorriso que ouvira-o despender a Will antes.
Mia riu pelo nariz.
— Ele deveria me seguir como um cãozinho bem treinado? – retrucou arqueando as sobrancelhas jocosamente.
— Dificilmente ele teve outras oportunidades de desfrutar de companhia tão encantadora em alto mar; somos homens solitários. – Jack respondeu brandamente.
— Ouso dizer que ele prefere assim. – Mia sorriu, gargalhando em seguida. – Deixe disso, Sparrow. Não vou falar com Barbossa sobre seu pequeno combinado com William. – disse jogando o corpo para frente, deixando-o.
Às suas costas, Jack sorriu largamente.
— Eu sabia que no final veria as coisas ao meu modo, italianinha.
Antonieta parou, rindo com desdém.
— Não pela bondade de meu coração, Sparrow. – falou virando-se em sua direção. – Mas porque não tenho qualquer interesse em tomar partido nessa pequena disputa de egos entre vocês.
— O que aconteceu com “na alegria e na tristeza”? – Jack brincou.
— Não somos casados. – Mia apontou simplesmente. – Então, você planeja levar Lorde Beckett direto à nossa porta? – continuou, mudando o rumo da conversa.
— Figuradamente. – concordou o lorde do mar caribenho, fitando-a de soslaio. Sua companhia, no entanto, não demonstrou nenhum sinal de frustração.
— Todas as nossas cabeças em troca da sua meia liberdade, como você a chamou . – concluiu por fim.
— Acredite, querida, seu namorado faria a mesma coisa no meu lugar. – rebateu um pouco na defensiva e Mia soltou o ar com desdém. – Não vai mesmo contar a ele?
— Não.
— Tem tanta fé assim no meu fracasso?
— Ou no sucesso dele.
Ambos se entreolharam com sorrisos sórdidos em seus lábios. Antonieta gostaria de rir, confidenciar a Jack o quanto ele e Hector assemelhavam-se ao depositar suas vidas às mãos de entidades a quem eles nada significavam. Contudo, conforme seus históricos, logo descobririam sem a interferência dela. Parando por um segundo, Mia considerou o sucesso de Sparrow. Beckett saindo vitorioso do embate na Baía Naufrágio sem que nenhum canhão precisasse ser disparado. Todos os lordes e ladies, assim como ela e sua família, descabeçados e aquém de reverem sua amada Porto Venere uma última vez. À incerteza do que mais Sao Feng poderia ter feito ao seu grupo, a ideia de morte já não a assustava tanto. E com a morte de Alberto – talvez de Sofia e Téo – o prospecto de assinar sua lealdade a Companhia das Índias Ocidentais soou menos humilhante.
— Não precisa se preocupar, italianinha. – o capitão propôs, aproximando-se de onde ela havia parado. – Seu amigo Jack tem tudo sobre controle.
Aquilo foi suficiente para acordá-la de seus devaneios.
— Meu amigo Jack está morto. – murmurou dando-lhe as costas uma segunda vez.
— Rackham? – ele insistiu. Antonieta respirou fundo.
— Ouvi muitas histórias sobre seu pai. – cortou-o friamente. Jack emudeceu. – Você deve ser uma enorme decepção. – acrescentou cuspindo no chão.
— E isso é algo que nós dois entendemos, não é? – a andorinha devolveu com a mesma frieza. Antonieta emudeceu.
— Você e Barbossa se merecem. – sentenciou por fim. – Tentando resolver seus problemas como se o mundo ainda fosse um conto de fadas e a palavra de um inglês valesse alguma coisa. Muito me surpreende... um encontro com o baú de Davy Jones não o ensinou nada!
— E o que uma vida sendo a sombra de sua mãe lhe ensinou, amor? – a voz de Sparrow destilava veneno e Antonieta finalmente gargalhou. “Que Sofia sempre teve razão...”
— O senhor vê o Pérola e enxerga liberdade; sente a aproximação do momento em que poderia agarrar a imortalidade e enxerga liberdade. – disse com um gesto amplo, abraçando tudo o que os cercava. – Não existe liberdade, se o seu próximo passo é escolhido para aumentar sua distância da forca. O desconhecido que seduziu tantos de nós nunca existiu; e se existiu provou-se decepcionante ou outra maneira de nos aproximar da morte. – ponderou.
Jack a encarava com certa apreensão, imaginando se o baú ou a perda recente de seu irmão não a tivessem enlouquecido.
— Você começa a soar como Beckett. – observou ao final. Antonieta sorriu de lado, e o capitão se convenceu de que ela era tão louca quanto ele.
— Se existe mais de um tipo de tesouro, Capitão Sparrow, deve haver mais de uma maneira de liberdade.
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