Notas iniciais
Boa Leitura! Bia, meu amor; este é seu.

Antonieta acordou com o peso do vazio de seu estômago, conforme seus dedos corriam sobre a madeira ao lado de seus quadris; úmida pelo gelo que escorrera de suas vestes. Diana, apoiada em seu ombro esquerdo, jazia ainda em sono profundo e a capitã hesitou para se levantar, preferindo deixá-la dormir um pouco mais. Logo o sol desapareceria, e o frio da tarde, fundido à brisa noturna, em tão ermo local, acabaria com qualquer chance deles para uma noite confortável de sono. No entanto, àquela distância do resto do mundo, a visão do céu pintado em sua forma mais primitiva, a promessa trazida pelas primeiras estrelas colorindo o horizonte, serviu-lhe como consolo suficiente; e num rompante natural, virou seus olhos até a figura de Barbossa junto ao leme. Ele mantinha-se atento ao horizonte, e ao permitir-se um vislumbre inocente do céu acima de sua cabeça, elevou sorriso demasiado íntimo aos lábios dela – que então voltou os seus para baixo, repensando sua discussão anterior.

— Está correndo uma conversa sobre um jantar. – disse Elizabeth, interrompendo seus pensamentos. Antonieta suspirou, pega de surpresa e forçou-se um sorriso amistoso. – Não está com fome? – a outra inquiriu, lendo-a. O estômago da capitã roncou à pergunta.

— Não poderia mentir pra você, mesmo que quisesse. – brincou erguendo as sobrancelhas num gesto gracioso de rendição. Elizabeth soltou um riso abafado; “tente”, dizia. – Desculpe, cigno... estava pensativa. – desculpou-se, mantendo a voz baixa a fim de não acordar Diana.

— Está tudo bem, você está preocupada. – observou Elizabeth, reparando em Diana e seguindo o exemplo de Mia, abaixando seu tom e o corpo para que ficassem de frente uma para a outra. – Não é a única. – acrescentou, cabisbaixa. Antonieta sentiu por ela; tão jovem...

— Já está perdendo seu entusiasmo pelo nosso estilo de vida? – supôs, branda e mais gentil do que Elizabeth se lembrava; ou talvez fosse apenas a falta do chapéu opulente a esconder o verdadeiro brilho em seus olhos.

— Não é sempre assim, é? – constatou em resposta, e Antonieta teve que sorrir ante a sua perspicácia.

— Então, ainda pensa em encontrar seu lugar na nossa pequena organização. – rebateu ela, encarando o jovem cigno, expressiva. Elizabeth baixou os olhos novamente, reerguendo-os a fim de corrê-los pela tripulação; parando em Will ao assisti-lo adentrar o pequeno círculo de marujos que comiam. – Ou Mestre Turner possui um plano diferente? – prosseguiu Mia, vendo-a contrair-se, ainda que o tivesse feito com sutileza.

Elizabeth sentiu algo cortar de seu estômago até a altura do peito, e de repente o vento tornou-se frio demais para que conseguisse suportar. Ela não sabia mais nada sobre os planos de Will, seus pensamentos ou se ela ainda era parte significativa em meio a eles.

— Sofia sempre foi melhor com conselhos amorosos. – interpôs a capitã, respirando profundamente. A senhorita Swann sorriu, lembrando-se de sua conversa com a senhora Barbieri; “siga o conselho de Antonieta por mais alguns meses”, lhe sugerira.

— E o que faria se estivesse no meu lugar? – perguntou, uma pontada quase imperceptível de desespero escondida em sua cortesia. Antonieta abriu mais os olhos, surpresa. Não estava exatamente na posição de aconselhar moçoilas.

— Eu nunca amei da maneira que você ama o Will. – nem mesmo Lorenzo, pensou. Sobre seu ombro, Diana se remexeu, mas não acordou. Antonieta riu, então. Baixinho, voltando-se para a jovem à sua frente. – Mas o que eu posso lhe dizer, não varia muito entre relacionamentos. – ponderou, passando a mão por seus joelhos. – Não existe muita confiança em nosso mundo, além daquela que depositamos em nós mesmos. E encontrá-la em outra pessoa, é reconfortante; é o que faz tudo isso valer a pena. – e acenou para Pintel e Ragetti à distância, e em seguida para Diana em seus ombros. Elizabeth anuiu, sorrindo um pouco. – Se continuarem agindo pelas costas um do outro... se torna um fardo. – por um segundo, seus olhos desejaram encontrar os de Hector ao longe. – Vocês precisam confiar um no outro. Eu suponho que fosse fácil, antes do...

— Se eu tivesse contado sobre Jack, Will... – Elizabeth iniciou, aflita.

— E outra coisa, milady. – interrompeu Mia, erguendo uma das mãos, parando-a. – Você não pode pensar pelo jovem Turner. Por ninguém. – concluiu. A loira apenas a fitou, taciturna; e se levantou, deixando-a.

— Você fica tão poética quando está com fome. – comentou Diana, abrindo os olhos com um sorriso travesso nos lábios. Antonieta não respondeu. – Ah, eu também estou faminta! – prosseguiu a mulher Murphy, percebendo que não conseguira provocá-la.

— Por que não vai comer? Eles estão jantando. – disse Mia, massageando o ombro onde ela estivera deitada. Diana emitiu um som desgostoso.

— Eu não quero comida chinesa. – protestou como se fosse o fim do mundo. – Eu quero a comida do Matteo! – tornou a protestar. Antonieta sorriu de lado frente as memórias que tal comentário evocava; Diana recém-chegada a Porto Venere, recusando-se a comer, até provar o nhoque que Matteo costumava preparar para Ilaria, quando ela adoecia. A mera lembrança elevava o cheiro imaginário até suas narinas. – O que acha que eles estão fazendo agora? – perguntou de repente.

— Alberto provavelmente está lidando com tudo; mas o comando, de fato, pertence à Sofia. – começou Antonieta, sussurrando sem saber exatamente o motivo.

— Conforme a vontade de Deus, sim. – acrescentou Diana, em tom de uma piada interna entre ambas. Antonieta anuiu, rindo baixinho. – Olivia e Beatrice estariam sozinhas sob o convés...

— E nós respeitamos a privacidade delas. – Mia cortou, olhando-a de soslaio. Diana deu de ombros, sem se importar. – Matteo está assoviando com Ilaria na cozinha, e Cínzia interrompe perguntando se ela pode ceder um pouco do gim em seu cantil para desinfetar outro corte na mão de Marco ou Angello; ou os dois. – interrompeu-se rindo, acompanhada de Diana. – Carlo estaria ajudando Alexandra com o enjoo.

— Nicola e Luigi estariam deixando Tristan desconfortável com suas piadas de mau gosto. – continuou Diana, enumerando-os nos dedos.

— Téo estaria distraindo Federica. – e então as próximas conclusões levaram a Barbieri a procurar seu pente junto ao bolso, fechando sua mão sobre ele com veemência. – E durante o jantar, eles estariam se perguntando o que vai acontecer, se nós não voltarmos. – murmurou pendendo a cabeça para trás, sentindo-se não pela primeira vez em sua vida, totalmente impotente.

— Mas nós vamos voltar. – interpôs Diana, incerta ante a fraqueza de sua irmã. Antonieta bufou, colocando-se de pé.

— Vamos. – respondeu. – E eu não vou jejuar até lá. Nem você. – acrescentou, ordenando. O furacão Murphy se ergueu, à contragosto caminhando para junto do grupo. Antonieta se espelhou em Ragetti, que parecia comer uma espécie de frango fatiado em cubinhos, se adaptando valentemente aos hashi. Diana serviu-se de uma porção de macarrão com legumes, o mais próximo da culinária de Matteo que obteria ali, e não era suficiente.

Estava tudo muito quieto. Solitário, apesar da vastidão da água que os cercava. Os primeiros marinheiros àquela distância de suas casas, após anos de aprisionamento das cartas de navegação. E junto ao leme, Barbossa mantinha a mesma postura austera e tranquila, inexpressivo para as incertezas do resto de sua tripulação. “Exercemos capitania de formas diferentes” e ainda assim, ela gostaria de convencê-lo a se retratar para as suas maneiras; quando, no fundo, conseguia entender suas escolhas completamente e, talvez, até mesmo se enxergasse nelas. Sem alarde, ela deu a volta pelo convés, para fora da pequena cobertura até o tombadilho – mais baixo do que em seu navio. O que significava ser um espetáculo aos outros, os seus próximos passos.

Ela parou ao lado dele, e Hector limitou-se ao movimento mínimo de seus olhos na direção dela, logo retornando-os à proa. A capitã terminou de mastigar, sentindo a comida rasgar sua garganta, antes de limpá-la num pigarro forte.

— Eu reconheço, não foi uma mentira. – disse em voz tenra, sem olhá-lo. – Você precisava da minha ajuda; então me contou somente o que eu estava disposta a ouvir e o que você estava preparado para admitir que não sabia. – que existia uma saída contra Beckett; e que os meios envolviam o sobrenatural com o qual nenhum dos dois detivera sorte no passado; e falar sobre Calipso fora a carta de boa-fé. – Porque eu não teria seguido uma meia promessa... à época. – completou. Ele havia baixado os olhos, semicerrados, e encontrado os dela, resignados. – Eu não quero mais discutir, Hector. – ela admitiu, vendo-o afastar-se de seu olhar.

— Aquela é a favorita de seu sobrinho, não? – indagou, então. Antonieta só então percebeu sua ignorância acerca do que previra mais cedo; eles navegavam por um mar de estrelas. O céu emaranhado delas e a água negra concedendo seu perfeito reflexo. Então, voltando ao que Barbossa lhe chamou atenção, encontrou-a facilmente. A constelação do Argo; e a mais brilhante dentre elas, Carina. A Barbieri sorriu para o céu, soltando o ar com gosto. Ele sorria sutilmente, quando ela tornou a fitá-lo.

— Você comeu? – perguntou prontamente, remexendo sua tigela com os hashi. Hector riu pelo nariz.

— Não sou um adepto da cozinha ancestral de Sao Feng. – respondeu simplesmente.

— Nem eu... mas poderia ser pior. – ela contornou, prendendo um dos pedaços de carne em seus hashi, elevando-os até a boca de Barbossa. – Prove.

— Antonieta, realmente... – ele repreendeu, afastando o rosto para trás.

— Prove! – ela insistiu, reprimindo sua risada, sendo atendida à contragosto. Satisfeita quando ele anuiu, concordando que o gosto não era ruim.

— Barbossa! À frente! – ouviram Will gritar da proa, correndo até eles.

O lorde do Mar Cáspio se adiantou, tornando a fixar os olhos ao horizonte. Nada além de névoa à sua frente. Antonieta encarou a ambos, aproximando-se de Hector a fim de conseguir uma visão melhor da proa, engolindo em seco ao constatar o mesmo que Will; atingiram o fim.

— Sim, estas são as águas... Perdidos de vez agora. – anunciou o capitão, num rompante de divertido prazer.

— Perdidos? – exclamou Elizabeth, procurando por auxílio em Antonieta, mas a capitã mantinha seus olhos na cortina de neblina que se aproximava cada vez mais.

— Por certo, tem que se estar perdido para encontrar lugares que não se acham; se não, todos saberiam onde eles ficam. – retrucou Barbossa simplesmente, seus olhos voltando-se para Antonieta, que finalmente saíra de seu transe.

— Estamos ganhando velocidade. – Gibbs ponderou, apoiado ao anteparo.

— Eu notei. – murmurou Hector em resposta, impaciente. Will encarou-o longamente, esperando que desse uma ordem e em seguida para Antonieta, aguardando por qualquer comentário sarcástico dela que forçasse uma atitude de Barbossa. No entanto, a capitã se pôs ao lado do velho pirata, sem qualquer menção de palavra.

— Todos em suas posições! – esbravejou Will, entendendo. – Tudo a bombordo, controlar curso! – ordenou passando pela cabine onde todos ainda jantavam, dispersando-os. Ao fundo, ouvia-se o rugido furioso da água.

— Não! – cortou Barbossa, dando um passo à frente para o convés. – Deixem que siga a corrente!

A tripulação de Sao Feng, junto aos homens do Pérola, por sua vez, escolheu ignorá-lo para seguir os comandos de Will. Todos os braços trabalhando a fim de afastar o navio do grande abismo que se abria à frente deles, e no entanto, o rugido da água apenas elevava-se aos seus ouvidos, conforme a corrente puxava-os; era inútil, Diana e Elizabeth perceberam, olhando de uma para outra. Logo, mais desistentes reuniram-se junto a elas à proa, dividindo o primeiro vislumbre do fim do mundo.

— Você nos condenou. – sentenciou a senhorita Swann, entre dentes, na direção da figura de Barbossa que vinha reunir-se a eles.

— Não seja indelicada. – rebateu o lorde pirata, segurando-se em uma das cordas. – Talvez não sobreviva para voltar a este lado, e estas seriam as últimas palavras amigáveis que ouviria. – provocou, tomando o queixo dela entre os dedos. Elizabeth se afastou com repulsa, trocando olhares rápidos com Antonieta, atrás deles. A Barbieri assentiu para Diana ao vê-la passar atrás da jovem cigno.

— O que quer fazer? – inquiriu para Barbossa, segurando-o pelo ombro. Ele se virou, parando por um instante, como se quisesse memorizá-la – uma das mãos correndo por entre o cabelo à curvatura de seu pescoço, embora ela fosse incapaz de sentir qualquer coisa naquele momento – e analisou sua expressão; os olhos verdes muito abertos.

— Você confia em mim? – indagou, com mais calma do que realmente sentia.

— Confio. – ela respondeu de pronto.

— Então agarre em alguma coisa firme. – disse passando uma corda para ela, mas Antonieta já avançava com os olhos pelos lados, à procura de Diana. Will havia assumido o leme agora e dava ordens de sua posição ao tombadilho.

— Prender as velas! – disse ao pequeno grupo que se apressava ao centro junto ao mastro central. A atenção da Barbieri recaiu primeiro sobre a figura tranquila de Tia Dalma, que, curvada sobre um barril, sussurrava algumas palavras conforme liberava pequenas formas de suas mãos – runas – como se estivesse fazendo alguma espécie de encantamento. Antonieta apertou os olhos, fechando-os por um milésimo de segundo.

— O que está fazendo? – Diana chamou-a, aparecendo ao seu lado.

— Rezando, eu acho. – respondeu, sem querer. – Vamos. – acrescentou puxando-a para a proa. À frente de Barbossa, ainda restavam dois cabos. Antonieta segurou o primeiro, amarrando-o ao balaústre com as mãos trêmulas e cedendo o outro para Diana, que fez seu próprio nó. O rugido da água diminuíra de repente.

— Tudo a bombordo! – foi a última tentativa de Elizabeth, mas os homens já haviam começado a se dispersar.

— Segurem-se! – Will bradou soltando o leme para procurar algo em que se apoiar, seguido pela senhorita Swann.

Antonieta olhou para trás, acompanhando o frenesi de seus companheiros em busca de abrigo seguro. Contou um a um, conforme acreditava que estivessem em segurança; e então, o barco começou a virar. Atrás dela, Hector respirava calmo, mesmo régio – pronto para morrer outra vez, se fosse necessário; ao seu lado, Diana esfregava os calcanhares um no outro e Antonieta fechou uma mão ao redor do pente em seu bolso. Ao primeiro baque, ouviram-se os gritos daqueles que caíam pelo convés, incapazes de se segurar, dada a força do vento e da água. Se antes não possuía um motivo palpável para tratar o mundo somente como aquilo que era, sem abraçar as explicações sobrenaturais que tanto encantavam outros marinheiros, a experiência serviria como professora valiosa. O que os levou até ali? E era o melhor caminho simplesmente por ser ou porque Calipso assim desejara... de toda forma, não conseguiu encontrar coragem para olhar para trás e verificar se algum daqueles gritos pertencia à corpos que lhe eram caros.

Finalmente, o casco do Hai Peng começou a ser empurrado pela água, inclinando-o para o ar até que caísse. Ao fundo, Mia ouviu o grito de Elizabeth e a risada delirante de Barbossa; então, viu Diana. A incorrigível dentre as três graças de Allegra se abraçara ao seu cabo e sua irmã vislumbrou o lampejo sutil do medo em seus olhos muito azuis, à medida que ela se forçava a reprimir tais sentimentos.

Em Porto Venere, quando duas meninas ainda eram modestas o bastante para se chamarem assim sentiam medo, a mão dourada de Allegra Barbieri se estendia à ambas; prometendo que tudo logo passaria. Os tempos, porém, eram outros; e embora fosse verdade da qual não pudesse mais duvidar, Antonieta estendeu sua mão para Diana, que a segurou de pronto. Outro baque seguiu-se, empurrando o navio; enquanto a mão de Diana lhe servia como apoio mais latente, até sentir sua corda correr mais leve por seus dedos, lentamente assistindo o seu laço afrouxar. O choque percorreu o rosto da irlandesa; o aperto de suas mãos incapaz de manter Antonieta erguida no ar.

— Não... não... – balbuciava, inaudível, conforme vislumbrava o corpo da Barbieri se afastar de seu alcance uma segunda vez. Logo, o grito de Mia se fundiu ao som pungente da água e seu peito retorceu numa dor desconhecida, à medida que sentia uma força puxando-a para baixo, afastando-a de Diana.

Outra mão, afinal, substituiu a sensação de derrocada. Firme, passando por sua cintura e trazendo-a para perto. “Hector”, ela murmurou, embora o barulho não o deixasse ouvir. O lorde pirata apenas se realojou ao cabo de amura, segurando-a com mais força. Antonieta agarrou-se a ele a tempo de vislumbrar a escuridão que os abraçava agora. Virando o rosto, esperou que batessem ou fossem puxados para algum lugar; no entanto, nada os abalroou...

Apenas o silêncio.

Notas finais
Bom dia, queridos!!! Terminei esta beleza ontem à noite e estou demasiadamente satisfeita com os resultados. Sinto como se o novo ciclo realmente comece a partir do próximo, pois finalmente teremos a presença do personagem favorito para a maioria de vocês! Jack Sparrow. Confesso, estou morrendo de medo kkkkkkk mas prometo que estou estudando muito para trazer a vocês a melhor versão possível do infame pirata no universo de Porto Venere. Obrigada a todos os leitores; nos vemos na caixinha dos comentários!!! xoxo Ana