Lembranças de Porto Venere
22 Capítulo 22
Notas iniciais
O rei despertou a rainha do mar,
No barco a acorrentou;
Por onde andares são teus os mares...
Quem ouviu remou!
Uns já morreram, outros vivos estão.
Outros navegam o mar;
Com as chaves da prisão e o diabo de prontidão,
Remando sem cessar.
Da fossa profunda, sobe o sino a tocar;
Ouço um som sepulcral;
Vem convocar pra retornar,
Ao destino final.
Yo ho, todos juntos, nossas cores erguer!
Ladrões e mendigos,
Não aceitam morrer!
Ao destino restava a reles trivialidade, se comparado à pungência das águas cruzadas. Esfriara; e o perfume glacial cortaria os pulmões da tripulação, que acompanhava saudosa os últimos relances violáceos das sombras do sol sobre a água, conforme o anoitecer abria seu caminho e os escondia em uma nuvem de névoa. Gibbs não possuía uma bela voz. Porém, a crueza envolvida nela assentia ao sentido sacro de seu significado. As palavras de Morgan e Bartolomeu em salutar reverência aos feitos dos primeiros transgressores da ordem; embora Elizabeth não fosse capaz de entender a gravidade de seus crimes, ainda. Conquanto, estabeleceu-se que ela entoaria o chamado quando estivessem transitando pelo canal. Uma mulher fora a causa de tudo aquilo... e talvez isso justificasse a perturbação àqueles que as ouviam cantá-la. Não era justo.
Mas não cabia a reles Mia Barbieri julgar. O que quer que tenha acontecido aos homens para torná-los supersticiosos não lhe despertava nenhuma curiosidade, restando apenas o ônus de lidar com seu lado lógico, quando gentilmente concediam tal graça. Braços cruzados e apoiada junto aos cabos de amura, retinha seus olhos no horizonte; Berto e Barbossa ao seu lado, igualmente atentos. Elizabeth, então, uniu-se ao mestre dos contos do mar, sobressaindo-se em afinação, quando, ao quinto verso, calou-se perante o assobio agudo vindo da gávea; o som rasgando o céu tal qual o lamentar de um pássaro.
Sofia acompanhou a expressão de Antonieta se condoer numa carranca, à medida que seu marido e Hector Barbossa punham-se de cócoras à cavidade de entrada. Discreto, o jovem cigno afastou-se de Gibbs em direção ao parapeito para assistir ao retorno dos dois desconhecidos. Sussurravam para Alberto e seu companheiro agora, sem dar pela falta da terceira presença. Foi Hector quem se levantou primeiro, satisfeito, Elizabeth percebeu, pondo-se ao lado de Mia – ainda em silêncio. O segundo homem, prontamente, estendeu um pequeno pacote para Alberto, que o ergueu para a irmã.
— E o chapéu? – indagou Antonieta, após abri-lo e analisar seu conteúdo, desgostosa.
— Não devemos abusar... – mediou Alberto.
— Eu quero o chapéu dele. – acrescentou, ignorando-o, graciosa, por despeito. Alberto suspirou, virando-se à contragosto para o homem de pé.
— Kita perlukan topi[1]. – explicou. O rapaz mirou-o confuso, apontando para seu próprio chapéu em seguida, recebendo a aquiescência de Berto, que sorriu-lhe contrafeito.
— Akan berada di jambatan.[2]— concluiu o rapaz, após entregá-lo a ele. O Barbieri agradeceu solenemente, por fim tornando a ficar de pé.
— Luigi, para o porto. – anunciou a Capitã, mais alto do que o normal, à medida que os visitantes se afastavam deles. – Milady, isso é pra você. – disse entregando o conteúdo do pacote e o chapéu a Elizabeth. – Pode se trocar na minha cabine; Diana, ajude-a com você sabe o que. – o pedido elevou o sorriso nos lábios da mulher Murphy; dúvida e desconforto instigando a jovem enquanto acompanhava-a.
Peixe, notou a Barbieri ao vislumbre das primeiras cabanas. A cidade detinha o aroma natural dos pescadores, pais de seu oficio; porém, longe de casa, lembravam-na apenas da imundice nas docas. Sem bandeira, nenhum alarde fez-se acerca da atracação de sua estrela e o silêncio, salvo pelo sopro raso da neblina movimentando-se através do casco, pesava em seus ombros, tencionando-os. Alertando-a para fatos irrefutáveis como a pouca luz emanada da cidade, o aproximar de uma situação em que estariam à mercê de alguma sorte e a falta de qualquer sinal do jovem mestre Turner.
— Então, prontos? – conseguiu entreouvir da conversa que Barbossa mantivera até então com seu grupo. Assentiram; sua dúvida quanto aquela empreitada ainda clara.
— Boa sorte. – cedeu Mia, ao que Gibbs anuiu cordialmente com a cabeça. – Não vejo o meu bote em lugar algum e nem Turner. Ele não está aqui. – declarou, sussurrando para Barbossa, os olhos vagando pelos arredores.
— Então falaremos com Sao Feng; quando a audiência for encerrada, o filhote provavelmente estará nos esperando. – conjecturou o lorde pirata.
— E se não estiver? – ela insistiu. Hector pareceu considerar a possibilidade por um instante, sem respondê-la. – O que dizemos a Elizabeth? – perguntou, logo, afoita.
— Não precisamos dizer nada a Elizabeth. – retrucou Barbossa, os olhos apertados com desprezo.
— Está apaixonada por ele. Ela vai perguntar. – reiterou Antonieta, as mãos presas à cintura.
— Não temos tempo pra isso. – dispensou ele, afastando-se dela para ir ter com o objeto da conversa que acabara de retornar para o deck, disfarçada. Mia bufou, cruzando os braços ao caminhar em direção a Gibbs.
— Memorizou meus mapas, não memorizou? – quis averiguar.
— Sim, senhora. – assentiu o primeiro de Jack Sparrow.
— Muito bem. – acenou positivamente, batendo os pés no chão em uníssono, ansiosa. Ele a encarou, esperando por mais alguma coisa, mas ela parecia hesitar por algum motivo. Até finalmente retirar sua espada da bainha em seu cinto. – Vou estar lá dentro com o resto deles... cuide dela, mestre Gibbs. – advertiu entregando-a a ele; o grupo responsável em garantir que eles tivessem como se defender, caso nada corresse como planejado. – Minha acompanhante já...?
— Está tudo pronto, senhora. – assegurou a ela, apontando para a malha em linho que escondia o pequeno arsenal reunido pelos homens, cortesia de Olívia.
— Não morra, Gibbs. – desejou baixinho, com a voz rouca, fitando sua espada uma última vez antes de deixá-lo. O velho pirata analisou a arma em suas mãos, manejando-a levemente, constatando sua própria fluidez. Realmente, seria uma perda, refletiu ao separá-la das outras dentro da malha.
— Vamos descer. – anunciou Barbossa, levando Elizabeth pelo braço. A jovem lançou seu último aceno aos membros da tripulação do Stella De La Sera. Os italianos acompanharam a partida daqueles a quem passariam a chamar de amigos com os semblantes taciturnos, mascarando suas preocupações e tristeza; quando Antonieta deu um passo à frente para segui-los cais adentro. Barbieris se entreolharam. Irmão e irmã trocando um último sinal de concordância: “sigam o código”, ela definira. Diana veio logo depois, munida apenas de uma pistola, bagunçando o cabelo de Federica ao passar por ela. E então viu Sofia parada ao lado da capitã.
— Sua maldita puta. – disse para Antonieta.
— Sofia não esteve envolvida na tramoia contra Sao Feng; é melhor assim. – a Barbieri tentou contornar, branda. Acidália encarando Diana com súplica.
— Sofia ainda tem que tomar uma bala por você pra ficarmos quites, eu aceito. – disse em visível frustração, acenando para que sumissem dali. As duas outras graças nada disseram, indo com o grupo do Pérola.
Elizabeth subiu em uma canoa atada ao ancoradouro, o chapéu escondendo seu rosto e a noite encobrindo o mergulho dos rapazes na água – pequenas zarabatanas emergindo de cada um deles – e Tia Dalma seguia com os outros três pelas pontes, camuflados entre a sombra das casas. Foi Sofia quem os avistou, apertando a mão de Antonieta para alertá-la. Homens da Companhia. A Barbieri puxou o braço de Hector até o ponto cego mais próximo, apontando a causa da brutalidade de seu movimento. Sem esperar um plano, a bruxa transitou por eles para uma barraca de fogos de artifício, cobrindo suas feições do mesmo modo empregado pela senhorita Swann, e chamou a atenção dos soldados com palavras incompreendidas pelos outros três – que aproveitaram a distração para continuar a subida até a ponte antes que o cisne a alcançasse sozinha.
Antonieta ouviu o entoar da canção, seus passos apertando ao ritmo dos dois ao seu lado. Os sons de crianças brincando e anciãos fora de suas casas conversando serviam como abafadores de suas presenças. Jack, por fim, deixou o ombro de Barbossa, bamboleando-se por um dos varais de roupas acima de suas cabeças; Sofia reparou, a fim de distrair outro grupo de soldados que vinha na ponte da avenida que cruzavam agora. Reconheceu o homem com o casaco preto que vinha à frente. Mercer, o irrefutável braço direito de Beckett. Ford deveria tê-los entregado, como previra Alberto. Antonieta distraiu-se ao vê-lo e, por sua vez, tropeçou em meio ao escuro, se agarrando a sua irmã; conseguindo serem salvas pelas mãos firmes de Barbossa à puxá-las pelos cotovelos. A ponte a poucos metros, finalmente.
— Canção perigosa para se cantar, por alguém que desconhece o significado. – ouviram a voz de um homem dizer, Mia e Hector trocando olhadelas rápidas ao reconhecê-la. – Principalmente uma mulher. Principalmente uma mulher sozinha. – acrescentou em aviso.
— E quem disse que ela está sozinha? – apressou-se Barbossa, descendo a ponte com Antonieta e Sofia em seu encalço, reconhecidas por Tai Huang.
— Você as protege? – inquiriu, fazendo Mia rir com escárnio.
— O que o faz pensar que preciso de proteção? – respondeu Elizabeth laçando sua garganta com uma faca. Os outros guardas de Sao Feng brandiram as próprias armas na direção dela.
— O seu patrão nos aguarda. – Hector interveio. – E uma morte inesperada, não seria de bom tom para o encontro. – acrescentou para Elizabeth, que o soltou.
— Você é o Capitão Barbossa. – falou Huang. – Não fomos avisados da presença delas. – apontou para Sofia e Antonieta.
— Sim, a audiência foi solicitada em nome do Capitão Barbossa pelos seus honoráveis batedores. Porém, a escolta foi feita por mim e meus homens, e permanecerá sendo feita por mim e meus homens, a não ser que Capitão Barbossa diga o contrário. – pontuou Antonieta, descendo mais alguns degraus, fitando os dois homens – Huang e Hector – desafiando-os.
— A presença dela não vai ajudá-lo, capitão. – insistiu o primeiro.
— É mais arriscado sem ela. – ponderou o segundo. – E Sao Feng nos garantiu passagem segura; a todos.
— Enquanto for proveitoso para ele. – cortou novamente o primeiro, seus olhos cortando Antonieta.
— A missão não é minha, Huang. Prometo me comportar. – disse a capitã, com falsa meiguice, interrompida por passos sobre a ponte. O grupo correu para a orla que abria espaço aos esgotos; sendo então conduzidos a contragosto para a casa de banho de Sao Feng. Sofia e Elizabeth com dois dos soldados do Lorde de Singapura seguiam atrás, enquanto Antonieta e Hector se viam guiados por Tai Huang.
A companhia parecia se concentrar no porto, ou a multidão do centro a dissolvia à medida que adentravam a cidade; demasiado difícil, contudo, tornava-se ignorar a mão iminente que se sobrepunha a eles. Mia caminhava com os olhos atentos à sua frente, evitando a culpa de olhar para os lados, buscando quaisquer sinais de que Sao Feng fosse traí-los.
— Teve alguma notícia de Will? – perguntou Elizabeth, chamando a atenção de Antonieta de volta a situação, sorrindo pretensiosamente de lado, ignorada pelo outro.
— O jovem Turner é capaz de cuidar de si mesmo. – respondeu a contragosto. – E você deverá lembrar de seu lugar na presença de Sao Feng. – acrescentou à oportunidade.
— Ele é assim tão assustador? – desdenhou a loira.
— É parecido comigo, mas sem o senso de decência ou jogo limpo. – rebateu o Lorde do Mar Cáspio, um sorriso convencido aquecendo a expressão indiferente, ao que Elizabeth revirou os olhos em descrente graça. Ele apertou o passo à frente dela, deixando-a com Antonieta ao seu lado.
— Diana cuidou direitinho de você? – indagou a capitã, numa medida de impedi-la de perguntar-lhe a mesma coisa. O jovem cigno riu baixinho.
— Ela prendeu alguma coisa na minha bunda. – murmurou como resposta.
— O ponto alto na vida de um ladrão. – brincou Mia, piscando para Sofia atrás dela, que retribuiu. – Olá, olá... – sussurrou quando Tai Huang cruzou a rua para um antigo prédio, reconhecendo alguns dos indivíduos que se mantinham sentados às escadas da porta. Títulos e templos. Nenhum outro clã divertia-se tanto com a opulência dos mistérios de sua linhagem; e Sao Feng um dia ousou compará-los aos dela. A paralisia advinda de tal adoração exacerbada, no entanto, em nada assentia ao espírito inventivo de um italiano.
Tudo permanecia exatamente o mesmo. Aquiescendo ao palpite de Barbossa, inclusive as regras mais complacentes. Eles deveriam despir-se de todas as armas, ao que normalmente Barbieri teria se recusado, mas a imagem de uma malha de linho reluzia tranquilizadora aos seus ânimos. Elizabeth, por sua vez, foi avaliada como uma comodidade. Rosto estranho entre aqueles velhos combatentes e que, tão jovem, se passaria facilmente por uma peça fora de lugar, uma aposta de mau gosto para os experientes capitães. Tai Huang, por outro lado, jamais esquecer-se-ia de suas experiências com os demônios italianos.
— Achou que por ela ser mulher não suspeitaríamos de traição? – debateu com Hector, permitindo que seus olhos atingissem Mia por segundos.
— É verdade, quando colocado dessa forma... – soltou meio a um sorriso amarelo, seus olhos furtivos para sua companheira, que ergueu levemente os ombros.
— Remova. – disse, imperioso. Irritada, mais por lembrar-se do custo que fora ajeitar tudo o que carregava consigo, a jovem Swann desamarrou o chapéu de seu pescoço, abrindo o colete para revelar outro, em linho, guardando duas pistolas e duas espadas rapidamente depositadas junto as outras; e então outro dos frutos do trabalho primoroso de Diana, uma pequena granada de um dos bolsos e um modelo antigo de bacamarte – cortesia de Ilaria – que estivera atada no alto da curvatura de sua bunda – fato que arrancou olhares estupefatos dos cavalheiros, para grande diversão das duas Barbieri.
— Podemos? – indagou Antonieta, abrindo caminho, parada por um dos piratas mais velhos da corja de Sao Feng; maciço e alto, a vítima favorita de Diana em outras luas.
— Remova. – continuou Tai Huang mirando as calças de Elizabeth com um sorriso ordinário. Sofia encarou Mia surpresa.
— Você é nojento. – pontuou ela simplesmente, seus olhos em busca da intervenção de Barbossa.
— Se quiserem passar, ela remove. – demandou novamente o pirata. Barbossa acenou para Elizabeth.
— Eu tenho que remover também? – Mia desdenhou, com as mãos sobre o cinto.
— Você capitã. – disse o outro simplesmente.
— Eu não sou capitã. – interveio Sofia, ao lado de Elizabeth e Tai Huang sorriu para ela. – Meu marido souber, você morto. Mas, por você Elizabeth... – anuiu a senhora Barbieri, solidária, livrando-se das calças e permitindo que a camisa caísse para mais que um palmo e meio abaixo de sua virilha.
A corja do Lorde de Singapura se reunia entre as várias banheiras e os observavam serem guiados pelo guarda maciço até a banheira principal, onde o dono de todo aquele império os aguardava. Tanto Sofia quanto Elizabeth revolvendo-se para se esconderem dentro dos resquícios de roupas. A segunda notando a coincidência das tatuagens entre eles; o mesmo dragão negro acompanhado com os dizeres em malaio. O perfume de sais raros de banho anunciou a presença de Sao Feng, rodeado por uma cortina densa de vapor e suas duas concubinas, Lian e Park, que terminavam de vesti-lo com seus robes oficiais.
— Capitão Sao Feng, obrigado por me conceder esta audiência. – Hector convidou-as a se curvarem, quando seu anfitrião se virou em reconhecimento a sua presença. Ele viu primeiro Antonieta.
— Capitão Barbossa, bem-vindo a Singapura. – cumprimentou-o de volta, na mesma cordialidade. – Capitã Barbieri...
— É uma honra vê-lo outra vez, capitão. – interpôs Antonieta, o rosto torcido em prazerosa malícia.
— Mais vapor. – o lorde pediu a Lian. – Eu não antevi a sua presença. – continuou, alisando o lenço vermelho atado ao anel em seu mindinho. O anel de Liang Dao.
— Eu não antevi minha vinda. – respondeu a italiana simplesmente. – Não sobra nenhum ressentimento, espero. – disse analisando as barras de sua saia, confeccionada com a seda advinda da carga que roubara dele, e de novo para seu algoz. São Feng desceu as escadas que os separavam, parando a frente dela, analisando, desafiador, sua calma.
— É do meu entendimento que este encontro não foi requisitado por você, Barbieri. – comentou significativamente, voltando-se para Barbossa. – E me parece que você tinha um pedido para me fazer...? – prosseguiu parando diante dele.
— É mais uma proposta do que um pedido. – Hector corrigiu-o, manipulador. – Estou a caminho de uma pequena aventura e me encontro precisado de tripulação e navio. – detalhou sem rodeios.
— E você me considera apto à tamanha honraria? – riu Feng. – Mais apto do que a Capitã Barbieri? – troçou desdenhoso na direção dela.
— Minha generosidade é limitada, você sabe. – desdenhou Mia, risonha, brincando com o anel que representava tanto poder quanto o dele.
— Sim. – e de fato sabia. – É mesmo uma coincidência notável... – ele começou ponderador, com toda a atenção de seus visitantes sobre seus passos.
— Porque você tem um navio com tripulação sobrando? – soltou Elizabeth, censurada por Sofia e um relance do olhar frio de Barbossa.
— Não. – suspirou Sao, teatralmente. – Porque há alguns dias, não muito longe daqui, um ladrão invadiu o templo de um tio muito reverenciado meu... e tentou escapar com isso... – Antonieta sentiu Hector fraquejar por um segundo, engolindo em seco, seu sorriso vacilante frente a visão do emaranhado de mapas sendo atirados ao Lorde de Singapura. – As cartas de navegação. A rota para o mais distante portão. Não seria coincidência, se a sua aventura o levasse para um mundo além deste?
— Seria desafiar a lógica, não é? – Hector zombou. Mia sentiu-se em sua pele, anos antes, sob aquele mesmo olhar que nivelava cada torção no rosto mentiroso de seu amante e, por isso, tanto ela quanto Sofia sabiam exatamente o que viria a seguir, quando o lorde acenou para um de seus homens na banheira mais próxima, de onde foi erguido um corpo. Will.
— Este é o ladrão. – revelou, repuxando a cabeça do filhote para trás, bruto. – O rosto dele é familiar a algum de vocês? – indaga. Para a surpresa das irmãs, Elizabeth ainda se mantém calma. – Não? Então eu suponho... que ele não precisa mais de um... – pondera, alcançando uma faca de suas vestes, prestes a cortá-lo. O pequeno cigno tenta abafar um grito, levando as mãos à boca; em vão. Estava acabado. – Vocês vêm à minha cidade, buscam a minha indulgência e generosidade; traindo a minha hospitalidade... me traindo? – ele não carregava mais sinal algum de diplomacia e zombava mais de Antonieta por tê-lo subestimado.
— Sao Feng, eu lhe asseguro, eu não fazia ideia... – Hector interpôs, em vias de chamar a atenção para ele.
— De que ele seria pego! – completou o outro, em irritação descrente ante aquela parca segunda tentativa de enganá-lo. – O que você pretende é uma viagem até o baú de Davy Jones; e eu não consigo deixar de me perguntar... por quê? – sem delongas, abandonando um pouco da máscara cortês, Hector lançou uma das peças de oito a ele. Antonieta conhecia o ritual. Soprá-las e retê-las ao ouvido para que emitissem o som dos sinos. A gravidade de seu som daquela vez, contudo, propagou-se a todos.
— A canção foi cantada. – Barbossa repetiu; a mesma solenidade com a qual as proferira a italiana meses antes. Ainda doía ouvi-las. – A hora chegou. Devemos reunir a Corte da Irmandade.
— Mais vapor! – ordenou Sao Feng, Mia entendendo o motivo de sua irritação. Segundo as lendas, a corte reunira-se apenas uma vez; e fora antes de todos eles; e não acabara bem. – Há um preço sobre nossas cabeças, é verdade. Parece que a única maneira de um pirata auferir lucro hoje em dia é... traindo outros piratas – observou contra Will – mas, piratas são apenas capitão e tripulação. Nove capitães traçando um mesmo curso ainda é pouco. Contra a companhia, que valor tem a corte? O que qualquer um de nós pode fazer? – falou em descrédito.
— Podem lutar! – interveio Elizabeth, antes que alguém a parasse. – Você é Sao Feng, o famoso pirata de Singapura. Vivendo em uma era onde os mais valentes navegam águas livres e as ondas são medidas no medo que atiçam e aqueles que superam-no tornam-se lendas! Deixaria essa era morrer diante dos seus olhos? Os maiores nomes do mundo vão se reunir e você se acovardando aqui na sua casa de banho! – Ao lado de Sofia, Antonieta assentiu, aprovando; ela realmente havia estado tempo demais sob seus cuidados. Hector analisava Sao Feng; como ele escolheria interpretar tais palavras. Ante o silêncio, Elizabeth fraquejou levemente.
— Elizabeth Swann... há mais em você do que a mera aparência, não é? E a aparência, também não deixa nada a desejar. – ele sorriu, galanteador. Ao fundo, Antonieta viu apenas Will se remexer em sua prisão. – Mas, não posso deixar de notar que você não respondeu a minha pergunta, — tornou a encarar Barbossa, — procura o quê, no baú de Davy Jones?
— Jack Sparrow. – respondeu Will. Mais uma vez, silêncio. A não ser pelos risinhos infantis de Lin e Park, que inundou a mente de Mia com possibilidades. – Ele é um dos lordes piratas. – insistiu apologético.
— A única razão para eu querer Jack Sparrow retornando vivo do mundo dos mortos, é para que eu possa mandá-lo de volta eu mesmo! – bradou Sao Feng, chutando uma pequena caldeira de água quente, virando-se na direção de Will.
— Jack Sparrow possui uma das nove peças de oito. Ele não conseguiu transferi-la a um sucessor antes de morrer; por isso, precisamos ir até lá pegá-lo. – explicou-se Barbossa rapidamente, esperando que a revelação abrupta de Will não acabasse com tudo. Seu interlocutor, porém, deixou de acompanhá-lo ao perceber a tatuagem de um de seus homens escorrer.
— Então, você admite; que me traiu. – pontuou lentamente, encarando-o com despeito. Não houve reação de Barbossa, apenas seu sorriso fraquejando uma terceira vez naquela noite. – Armas! – urrou Feng, forçando o velho pirata a se afastar para junto de seu grupo, enquanto cada qual na corja erguia-se de sua banheira, portando diferentes tipos de espadas imperiais. Antonieta encarou o chão demoradamente.
— Sao Feng, eu lhe asseguro, nossas intenções são muito nobres... – ia dizendo Barbossa, ao ser interrompido por um jorro de espadas fluindo do chão até eles. Mia agarrou a sua mais rápido, sentindo-se segura pela primeira vez; averiguando Sofia também armada e Elizabeth com as duas mãos ocupadas.
Súbito, um rebuliço facilitou para que o Lorde de Singapura puxasse o homem cuja tatuagem o enganara para seus braços.
— Mato esse homem, se não soltarem as armas! – exclamou em advertência.
— Mate-o, não é um dos nossos. – aquiesceu Barbossa após checar com a Barbieri. Os olhos de Will se anuviaram.
— Se não é dos nossos. E não é do deles... de quem ele é? – foi sua pergunta.
A resposta veio em meio a explosão do tiro de um grupo de mosquetes, seguida pela entrada iminente dos responsáveis por ela. Sem que suspeitassem, a vista adquiria o súbito avermelhado que inundara céu e ruas de Porto Venere meses antes, e mais tiros estouraram à medida que as paredes da casa de banho ruíam diante de seus olhos. Caso antes estivessem forçados a evitar o ódio da alforra, agora recebiam-na como muito bem-vinda. Por todos os lados, pelo menos vinte homens das Índias Orientais partiam para cima deles com mosquetes e espadas. As irmãs Barbieri foram as primeiras a se virar, usando os homens desatentos de Sao Feng como escudo para as balas que tentavam acertá-las.
Logo, os tiros foram substituídos pelo tilintar dos corpos das lâminas; quando ficou claro que nenhum desregrado aceitaria a força final da forca sem sangrar um pouco. Will lutava com os braços amarrados junto a tora de madeira que o suspendera da água, munindo-se dela para acertar seus oponentes, requintado. Os lordes piratas batalhando lado a lado, cada qual com mais homens em seus braços do que ver-se-iam obrigados usualmente. Antonieta cortava estômagos e pescoços com Sofia, numa coreografia já familiar a ambas, trocando de combatentes conforme iam se cansando, curiosas para os números daquele exército; lembrando-se de que não existiam limites palpáveis para quantos jovens daquela nação enredariam em tal caminho a fim de combatê-los, os monstros que tornavam suas vidas menos tediosas. Elizabeth finalmente entendia várias das lições de suas professoras, mantendo seus olhos igualmente atentos ao andamento na luta de Will, para quando ele finalmente precisasse da espada extra que tinha agora em uso.
Após o final de uma briga, poucos recordariam o engate de seu início. Toda aquela matança fria, porém, acontecia justamente pela graça daqueles que não iriam esquecer. Sofia agora duelava ombro a ombro com Barbossa, aliviando-o de alguns fardos, enquanto Mia saudaria seu débito com Sao Feng para justificar futuras trapaças. Will, já munido da espada extra que Swann lhe cedera, foi o primeiro a avistar a entrada de Mercer, junto a uma nova leva de soldados, e a arma que apontou na direção da loira; foi inatento a qualquer rusga que ainda poderiam ter, que correu a fim de afastá-la de sua mira. Hector começou a se questionar o que diabos estaria fazendo o grupo com Gibbs, que avistaram uma janela para a necessidade deles, no entanto agora permaneciam aparentemente aquém de interferir.
Antes que mais números diminuíssem, Mercer reorganizou os batedores, e os seis se viram emboscados, enquanto outros tentavam fugir pelas laterais. Feita a mira, a explosão, por outro lado, veio abaixo deles, lançando os corpos dos membros da companhia para longe.
— Pra fora! – Sao Feng acenou para que o seguissem e, ainda assim, a chacina ganhara prumo na cidade, aumentada pela balbúrdia da fuga de cidadãos tentando escusar-se de pagar por crimes que não lhe diziam respeito. Will mantinha Elizabeth junto a ele, com Sofia e Antonieta atrás dos passos dos lordes piratas. A segunda reparando, em meio a fumaça dos tiros, que Tai Huang ainda tinha as cartas e as atirara para seu mestre; que correu a frente de todos, com o outro em seu encalço para, se necessário, lutar por elas.
— Nossos pescoços primeiro! – exclamou Antonieta para Hector, entrando na mesma avenida que ele. – Vá ajudar Elizabeth! – virou-se para Sofia. O jovem cigno se separara, por fim, de Turner e enfrentava quatro homens sozinha, tentando abrir seu caminho de volta para o navio. Acidália assentiu, batendo com a lâmina de sua espada contra a ponta do chapéu, gesto copiado por sua capitã.
Barbossa seguiu os passos de Sao Feng, com Antonieta a proteger seus flancos esquerdo e direito. O lorde pirata seguia, claramente, para o mesmo destino deles: os navios. A única maneira de sair dali àquela altura. Contudo, de súbito viram-se todos detidos pela quantidade de homens que se aprumavam contra eles. Hector esquivou-se do avanço de um cadete que corria ao seu encontro, abaixando-se para que ele caísse direto na água. Outros dois vindo logo atrás parados por dois cortes certeiros da Barbieri. O assalto fazendo-os perder Sao Feng de vista em meio a escuridão.
— Precisamos chegar ao porto. – disse Barbossa, reagrupando-se a ela.
— Isso ainda não te garante os mapas, caro mio. – observou séria, seus olhos abrindo-se em terror, quando a lâmina dele cortou próximo a seus ombros. Um rapaz caiu na água, morto. – Obrigada. Minha vez. – falou, girando para que ficassem ombro a ombro com outros dois. Ao fundo, ouvia-se mais duas explosões. Tia Dalma afundara outro grupo de soldados, mas os remanescentes se aglomeraram em outra ponte, determinados em sua expurga. Mia e Hector ainda lutavam, incapazes de encontrar brechas nos movimentos de seus atuais combatentes.
Um fio de luz, porém, cortou o céu sobre eles e forçou-os a parar, observando o percurso. Correu até um dos paióis, que explodiu primeiro em tons avermelhados e depois consumiu todos os outros mais próximos e que, em lógica crua, deveriam guardar a munição que vinha equipando as barcas de Sao Feng; a explosão foi massiva, atingindo todo o centro e principais antros de batalha; e abriu espaço para que Antonieta e Hector desferissem os golpes finais. Ao longe, avistaram o pequeno Jack e o papagaio de Cotton.
— Obrigado, Jack. – disse ao seu fiel companheiro, que pulou extasiado. – Vamos. – acrescentou a Mia, que fez sinal para o pequeno subir em seu ombro quando os alcançaram. À descida do rio, Will encontrou-os junto ao resto do pessoal. Os mapas em sua mão. – Pegou os mapas? – inquiriu Barbossa em confusa surpresa.
— Melhor. – respondeu Turner, entregando-os a ele. – Navio e tripulação. – só então repararam na presença de Tai Huang e mais alguns homens.
— Cadê Sao Feng? – comentou Elizabeth vasculhando os destroços com os olhos.
— Vai encobrir nossa fuga e nos encontra na Baía Naufrágio. – disse Will, parecendo ter todas as respostas, ao que Barbossa arqueou as sobrancelhas ainda contrafeito com o filhote. Antonieta e Sofia trocaram olhares ansiosos.
— Por aqui. – chamou Tai Huang, guiando-os para o porto. Ainda ouviam sons de luta, conforme Singapura ardia. Mia correu os olhos pelas avenidas; a memória de Cádiz demasiado recente. Encobri-los, imaginava que Turner não soubesse, envolveria despistar a atenção de Mercer sobre qual caminho eles tomariam; significava que Sao Feng os deteria no porto... onde a sua estrela também as aguardava. Eles vão precisar zarpar...
— Vamos. – murmurou para Sofia, puxando-a para longe do grupo liderado por Tai Huang, à medida que se aproximavam do cais. Mesmo à frente, ela sentia os olhares ardentes do grupo se prendendo sobre elas; ainda que as despedidas já estivessem feitas. Ao longe, Sao Feng fazia sinal a seus homens para dentro da Imperatriz, outro grupo da Companhia das Índias Orientais correndo armados ao seu encontro. Dois navios desviavam a atenção de sua estrela e um deles as ajudaria a escapar.
Antonieta emitiu um assovio agudo, empurrando Sofia para que corresse à sua frente. O Stella De La Sera despertou, movendo-se para sudoeste, para perto de onde a Imperatriz impetrava sua própria rota de fuga, as chamas da cidade fazendo empecilho para que continuassem a se mover no escuro. Três rostos uniformizados viram-nas, abrindo fogo. Sofia sentiu outro empurrão forte de Antonieta, nenhuma das duas capaz de correr muito mais. Eram os últimos golpes duros de sua respiração contra os pulmões cansados, pensaram. Mais um pouco para, sãs e salvas, ouvirem as reclamações de Diana, mentalizava Mia, forçando-se para frente.
— Pra dentro, vai! – exclamou, a secura de sua garganta contorcendo-a de dor, subindo com sua irmã em um dos navios que permanecia inteiro; sem parar de correr até a ponte. O Stella vinha baixo ao seu encontro e Sofia finalmente entendeu a ideia maluca de Antonieta. – Quando eles estiverem no nosso alcance, nós pulamos.
— Mas e se...
— Pulamos, Soff! – impediu-a, com o coração na boca, orando furiosa para Luigi, Tristan ou Alberto; a mão de Sofia alcançou a sua. À sombra do mastro da proa, a estrela começou a tomar forma e ambas avistaram que era Luigi – imperador de sua função – quem a guiara até ali. Alberto chamou pela esposa e pela irmã, gritando uma segunda vez, quando um segundo tiro quase as acertou. Um desertor da formação de agrupamento seguira-as e tinha Acidália na mira de seu rifle. Antonieta não pensou, puxando-as para baixo, para o mar; sentindo algo zunir sobre sua cabeça.
Foram mil facas lançadas ao longo de seus corpos, cortando pungentes, antes que emergissem, arrebatadas pela falta de ar e pelo frio. Sofia apressou-se, sem olhar para trás, até as escadas do Stella, agarrando-se a segunda barra com furor suplicante, certa de que Antonieta vinha em seu encalço e que seu quase assassino achava-se ainda sobre elas. Os olhos da capitã, no entanto, vagavam longe, a mão escorregando lentamente de sua cabeça nua, conforme a vista de seu chapéu se afastava com a brisa. Alberto chamou-a, furioso, já com Sofia ao seu lado. A Barbieri bufou, respirando fundo como se lutasse para não se afogar e olhou para cima, onde o soldado preparava sua arma com outro tiro.
Alberto chamou-a pelo que parecia ser a quarta vez, mas sua irmã permaneceu imóvel. Piratas são capitão e tripulação; e pela lei de interesse, um não valia sem o outro.
— ANTONIETA! – urrou o Capitão Barbieri mais uma vez. Então ele a viu segurar uma barra e depois outra, mas quando seus olhos se encontraram, Alberto também viu que ela não subiria. Ao seu lado, Sofia soluçou baixinho. – Fratella... – ele insistiu. Antonieta engoliu em seco.
— Vão. – disse, resolvida, saltando de encontro às mil facas antes que o tiro a acertasse.
[1] Precisamos de um chapéu.
[2] Estarão na ponte.
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