Notas iniciais
Boa Leitura!

O prenúncio do vento leste de que a estrela se aproximava de seu destino vinha pelo intermédio de seus sussurros frios a embalar os sonhos daquela tripulação saudosa, mantendo-os apáticos à mitologia. A criança, porém, ouviu o canto da gaivota a sobrevoa-lo, aprumando-a para fora de seu próprio ninho. As velas balançavam e Luigi mantinha o lenço azul mais alto em seu pescoço, usufruindo do calor do rum para aquecer-se contra o maldoso deus dos ventos; assim lhe ensinara sua mãe. Federica acostumou-se a aquela rotina e o deleitoso privilégio de obter as primeiras notícias sobre o céu tornar-se-iam caras ao coração jovem; desejoso pelos braços de sua mãe. Ela sentia o cheiro da chuva, rezando de antemão – em prol da capitã – para que reles salseiro fosse; não uma tempestade.

Cumprimentaram-se. O timoneiro e a pequena copeira. A menina passou pela porta sem emitir qualquer ruído, pondo-se em cumprir rapidamente com sua missão. Embora soubesse que sua capitã se esforçava ao máximo para dar-lhe menos trabalho possível. Seu caminho entrecortou-se, contudo. Federica reconhecia o chapéu a seus pés e suas sobrancelhas arquearam-se ao passo que pulava sobre ele, erguendo-se em choque ao vislumbre das pistolas que não guardavam nenhuma semelhança com as de Mia; também o pente e dois casacos deixados para trás a alertaram para as possibilidades de passar por um segundo constrangimento durante aquela viagem. Respirando fundo, empurrou pouco a porta dos aposentos da capitã.

Via-se primeiro os pés de sua cama; e a presença de mais de um par junto aos dela sobre o colchão. Em resposta ao seu único reflexo, a copeira puxou a porta para trás cortando o ar com o ruído do leste. Antonieta despertou a tempo de verificar apenas o espectro do corpo da pequena zunindo para longe da cena e suspirou um impropério sonolento, enquanto batia com o punho sobre seu colchão. Sua cabeça zunia com os relances da noite anterior relembrando-a do motivo de estar nua, naquela manhã em particular. Prazerosa preguiça inundou-a junto a um delicado sorriso; tateando seus arredores até encontrar o corpo inerte de seu companheiro para aninhar-se a ele mais uma vez.

— Suponho que isso crie algum empecilho na relação entre mãe e filha. – Barbossa conseguiu dizer com a voz ainda carregada pelo sono, apenas no desejo de não deixar o momento passar independentemente se Antonieta já estivesse acordada o bastante para seu inglês ou não. Aquilo, claro, forçou-a a abrir os olhos, averiguando que ele ainda os mantinha fechados, com um sorriso igualmente satisfeito no rosto.

Ela poderia facilmente retomar de onde pararam. Não fosse o desejo mais forte, inerente a toda manhã, de permanecer dormindo pelo resto da eternidade.

— Lembro que você mencionou sono pesado... e estou tendo relances de uma leve ameaça, caso eu te acordasse... – murmurou em seguida.

— Talvez eu não tenha sido bastante convincente. – rebateu o lorde pirata, remexendo-se para acomodá-la melhor. Antonieta abriu mais seu sorriso, se recostando junto ao ombro dele ao passo que sentia-o acariciar os seus. Forçou seu despertar uma segunda vez, consciente de que não poderiam ficar ali para sempre; por mais que a ideia lhe aprouvesse.

— Após três rodadas; foi um ato nada mais que afrontoso, encontrar forças pra me ameaçar. – observou, deitada de bruços ao seu lado, com as pontas dos dedos passeando pela parte que o lençol não cobria.

— Mais de uma afronta; eu cometi com você, Antonieta, ontem à noite. – ele respondeu abrindo um pouco mais seu sorriso. – E você me recompensou em cada uma delas. – disse, ao que ela o beliscou de leve junto à cintura, fazendo-o abrir os olhos para encontrá-la com a boca contorcida em riso contido. Ela estava satisfeita; e ainda brilhante.

Antonieta... já? – provocou com os olhos verdes escuros. – Esteve tão à vontade com Mia ontem à noite. – constatou baixinho. Hector riu, afastando uma mexa de seu cabelo por sobre seus ombros.

— Estou preocupado com o seu ego. – zombou jocosamente. Antonieta riu, deitando seu peito junto ao dele.

— É tarde demais pra isso. – murmurou cruzando a ponta de sua cicatriz no olho esquerdo com os dedos, se permitindo ser puxada para um beijo morno; preguiçoso.

Dentro do silêncio, era possível compreender toda a paz que a Barbieri havia lhe prometido; tão próxima daquela que se distanciara impreterivelmente. Sem qualquer cerimônia, a simplicidade encontrando caminho em meio a opulência com as duas personas que se aninhavam mesmo despidas de ânsia. Ele definitivamente gostava dela assim. Antonieta ouviu os ruídos de sua tripulação desperta. Reflexos incontrolados da mãe que era sem assumir ser. Seu sorriso ampliado pela recordação de consequências pelos seus atos.

— Vamos ser o assunto matinal. – comentou virando-se para se espreguiçar pela cama.

— Culpe seu navegador, não a criança. – rebateu Barbossa dando de ombros, sentando-se junto a cabeceira.

— A criança possui uma honra moral que nunca alcançaremos, meu caro. – pontuou Mia com ares de superioridade, analítica sobre as pontas de seus cabelos. – O choque, mesmo a essa altura do campeonato, a fará falar. Tristan, porém...

— O que me diz sobre a recepção calorosa de seus irmãos quando em situação semelhante? – Hector interrompeu-a.

— Você verá. – respondeu Antonieta simplesmente, de pé. Passou a rodear o quarto em busca de suas peças de roupa e arremessando as de Barbossa contra seu rosto em nítida troça. Ele as pegou no ar, a tempo do vislumbre da cicatriz – obra sua – no braço da capitã ser coberto pela musselina de sua camisa. – Remorso? – ela o flagrara, mas a visão de seus pulinhos no lugar para que a calça assentasse, tornou impossível para que ele sentisse algum. Tampouco sua voz denunciava seu desejo para um pedido de perdão... era, sem dúvidas, tarde demais para isso.

A trilha de roupas guiou-os de volta para o centro de sua cabine, completamente iluminada pelo céu azul, limpo.

— Talvez ainda sejamos agraciados com uma tempestade. – murmurou a Barbieri, enquanto seu acompanhante atava a faixa ocre de volta em seu cinto. O lorde pirata fechou o nó, olhos fixos no mesmo ponto azulado que ela e suspirou, abaixando-se para lhe entregar o corpete. Tal gesto afastou Antonieta dos sons de seu passado e reabriram o delicado sorriso malicioso, ao passo que erguia os braços para que ele fizesse as honras. – Já que sabe que Sao Feng dificilmente vai facilitar as coisas pra você, se estiver comigo... gostaria de elaborar como espera que eu conclua nosso negócio?

— Ansiosa para que sua estrela deixe de ser uma hospedaria? – ponderou o capitão, subindo para o último nó. – Ansiosa para se livrar de mim?

— Um pouco para a primeira; Nosso histórico mostra o quanto isso é impossível para a segunda. – retrucou a capitã terminando de prender o cabelo. Hector a encarou, à medida que realocava seu chapéu. Se entreolharam. Ambos conscientes da gravidade presente em gestos tão pequenos, quando o inverso os guiara para a noite anterior. Verem-se de tal maneira, por si só, já era uma forma de despedida. – Eu sei que você não passou seis meses apenas se desviando de mim. Não acha que é uma boa ideia me pôr a par dos próximos passos?

— Lá embaixo. – cortou Barbossa aproximando-se para pegar suas armas. – Todos a par dos próximos passos ao mesmo tempo; assim não preciso me repetir. – acrescentou. Antonieta ergueu as sobrancelhas, em nítido choque. Aqueles realmente foram longos seis meses.

— Muito bem. – assentiu reprimindo um sorriso sabichão. – Todos os próximos passos que você considerar direito deles saberem, pelo menos. – não resistiu pontuar, indo em direção à segunda estante próxima à mesa. – A ideia de te largar na porta de Sao e não dar um alô, porém... me parece tão mal educado...

— Você também fingiu comigo, Antonieta?

— Tamanha falta de confiança não é nem um pouco atraente, Hector. – reprimiu zombeteira, batendo com dois rolos de papel amarelado contra a ponta do nariz dele; displicente em direção à porta.

Foi Diana quem entoou o primeiro urro de boas-vindas, seu direito como precursora da aposta, batendo com as mãos contra a parede ao lado de seu assento imitando o rufar de um tambor. Seguiram-se as canecas erguidas por todo o espectro feminino presente no Stella De La Sera, fazendo com que a cena muito se assemelhasse a manhã seguinte para Sofia e Alberto; a primeira limitada a um aceno elegante, em trégua, de cabeça para Barbossa. Não obstante a exaltação, surpreendeu – numa mistura de sentimentos – o velho lorde pirata o silêncio de seus conterrâneos de sexo. Cada um dos homens resumia-se em continuar com o respectivo desjejum, sem qualquer sinal de envolvimento com as ações de sua capitã.

— Bom dia, senhor Parisi. – iniciou Mia, servindo-se de um caneco de água à mesa de onde se sentava seu navegador.

— Bom dia, capitã. – respondeu após engolir o pedaço de queijo que vinha mastigando calmamente. Antonieta assentiu, feliz, virando-se para Barbossa com inquestionável olhar vitorioso, antes de tomar seu lugar junto aos seus familiares.

— Ele não vai se sentar conosco? – murmurou Diana para a Barbieri, abaixando-se para falar ao seu ombro. – Bhí camach a coileach?[1]— Mia respirou fundo. Sua segunda imediata a fitava como se em sua vida nada fosse mais interessante do que o prospecto de colocá-la contra a parede dentro de sua vida íntima. Assuntos que nunca foram tabu entre elas e sobre os quais discutiriam abertamente; se não conseguisse ouvir nitidamente o barulho das moedas tilintando ao bolso do furacão Murphy.

— Más amhlaidh, go dtiocfadh leath do bhrabús? – retorquiu a capitã, arrancando o miolo do pão com violência. Diana deu de ombros, tornando a comer. Sofia pigarreou ao lado de Berto, visivelmente ofendida por estarem excluindo-a da conversa; usando o Irlandês – língua que ela falhara em aperfeiçoar, ainda que seu grego fosse melhor do que o de ambas – ao invés do italiano para fazerem suas piadas internas. – Duas semanas e estaremos em Singapura. – lembrou-os em voz alta.

— Certo. – Sofia anuiu em reticencias, esperando que seu raciocínio se completasse.

— Hora de discutir os planos. – continuou após terminar sua água, batendo o caneco na mesa audivelmente. “Quais planos?” balbuciou Sofia para Alberto, já antevendo que Antonieta decidira envolver-se mais na trama de Barbossa do que constava inicialmente.

A Barbieri sinalizou para que Nicola carregasse uma mesa com os outros rapazes para o centro da cozinha e em seguida acenou para que Barbossa se aprumasse. Sentindo que era o certo a ser feito, a tripulação do Pérola Negra o seguiu; Elizabeth ousando olhar para Will em busca de apoio. O jovem Turner, porém, manteve sua atenção instalada sobre os dois rolos de papel que Antonieta abria sobre a mesa, prendendo-os com taças e pratos. Eram desenhos bastantes detalhados de dois locais desconhecidos para aquele pequeno grupo. A filha do governador, por sua vez, todavia, reparou os olhares trocados entre suas mestras de armas e os homens do Stella; eles sabiam exatamente do que se tratava e, para sua surpresa, Diana parecia reprovar a ideia silenciosa mais do que qualquer outro.

— Você começa. – Mia determinou, cruzando as mãos diante de seu corpo ao sentar-se à ponta. Hector veio juntar-se a ela pela esquerda, abrindo os olhos num ímpeto de choque ao verificar o conteúdo sobre a mesa.

— Onde conseguiu isso? – inquiriu sobrepondo Sofia ao seu lado direito.

— Você quer dizer como. – corrigiu Antonieta, pois ele sabia melhor do que ninguém de onde eles vinham. – Pirata. – acrescentou em resposta, dando de ombros. – Pensei que fosse ajudá-lo a elaborar seu argumento. De acordo com o relato que nos prestou antes, Jack Sparrow está no baú de Davy Jones. E vocês estão indo requisitar navio e tripulação adjacente para Sao Feng a fim de chegarem até lá...

— Disse alguma coisa sobre precisarmos dos mapas certos – começou Will, interpondo-se ao discurso de Mia.

— As cartas de navegação. – a capitã assentiu, correndo as mãos sobre um dos desenhos; uma construção milenar em colunas orientais. Do outro lado, Diana grasnou em desdém.

— As cartas de navegação... você quer invadir o templo de Yun Feng; guardado por mais guarnição do que a cabeça de um rei; com armadilhas de cem dinastias atrás? – a cada palavra ela aproximava seu rosto do dele, a voz baixa, neutra, contando com seus olhos para denunciar seu descrédito. – Você é um idiota! – exclamou, finalmente. – Como conseguiu foder um idiota? – inquiriu para Antonieta, atravessando para o meio da pequena multidão aglomerada junto à mesa.

— Supomos que eu não espero ser apanhado. – retrucou sobre o ombro, na direção dela.

— O otimismo é o escudo dos tolos. – continuou o furacão Murphy. Barbossa respirou alto, preparado para discutir; no entanto, demasiados olhares contando com seu direcionamento, mesmo interessados em sua louca empreitada, impediram.

— Sao Feng não vai suspeitar da coincidência? – interpôs Alberto. – Um navio chega em seu porto e o templo é invadido?

— Não deverá acontecer ao mesmo tempo. – Hector começou a explicar, calmamente. – Além disso, carrego uma carta de boa-fé com ele.

— Ajudou a matar Liang Dao? – conjecturou Mia, mencionando o nome do irmão mais velho do lorde de Singapura com um sorriso amarelo.

— O avô deles me salvou em circunstâncias que não veem ao caso agora. Sao Feng e eu nos respeitamos há mais tempo do que você é capitã. – comentou com escárnio.

— O que, dentro dos negócios, não quer dizer absolutamente nada. Ele ainda pode liga-lo ao roubo. – ela insistiu, sabiamente, sem se ofender.

— Não se preocupe, – troçou maliciosamente – como disse: nenhum dos dois, nossa chegada e o sumiço dos mapas, deverá acontecer ao mesmo tempo. Aqui temos ladrões por necessidade e vocação...

— Alguns mais prováveis a não serem pegos do que os outros. – anuiu Mia, tentando seguir o raciocínio dele.

— Sim, e qual dos dois venderia melhor a nossa imagem a Sao Feng para enganá-lo?

Sofia apertou o ombro de Antonieta, apreensiva com a possibilidade da outra concordar com a venda da vida de algum de seus tripulantes, quando cada um se fazia necessário para a batalha que desbravariam a seguir. A capitã assegurou-a do contrário, apertando rapidamente sua mão de volta, retirando-a com gentileza. Seus olhos, então, correram por entre a tripulação do Pérola.

— Nós três. – definiu vidrada na figura de Will. – Posso?

— Divertimi[2]. – aquiesceu ele. Os olhos dela brilharam sutilmente ao uso de sua língua materna.

— Na verdade, é bem sério. – observou, levantando-se para olhar dos desenhos para Will. – É isso o que vai acontecer: mestre Turner será o nosso ladrão; é o melhor espadachim em seu pequeno grupo e os olhinhos de filhote podem funcionar ao nosso favor; e, claro, ele tem alguma inteligência, não apenas um rosto bonito. – disse apenas para provocar Will; inabalado por ela. Mia admirou-o por isso. – E irei com você para falar com Sao Feng. – o final, acrescentado rapidamente, fez com que Barbossa sorrisse, ao passo que Diana retornou das profundezas de seu desdém.

— Se ele é o melhor espadachim, deveria levá-lo para proteger o seu traseiro imbecil. – pontuou gesticulando amplamente para os dois homens. Mia a encarava encantada com a oportunidade de vê-la tão fora da sua zona de conforto emocional. – Caso as negociações deem errado, vai precisar de alguém que garanta que saia de lá vivo, se pretende completar essa missão maluca de alguma outra maneira. E que merda é essa “eu vou com você”? – argumentou exasperada.

— Não estou nas boas graças de Sao Feng... – a Barbieri tornou a elaborar prontamente.

— Também não estava nas de Lucena... – cortou Diana cruzando o ar com seu indicador.

— Sao Feng succhia il cazzo, non cazzi[3]. – declamou poeticamente a outra, impaciente. – E quando homens assim se sentem ameaçados... – retomou, lacunosa, esperando que sua segunda imediata entendesse.

— Dificilmente conseguem pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo. – completou Alberto, compreendendo. – Ele vai estar muito ocupado com a afronta da sua presença para ligar um e um. – disse.

— Supondo que isso seja apenas mais uma estupidez e ele seja exceção, vai se colocar na linha de frente do ódio dele e arriscar uma faca no seu pescoço? Ou espera que eu seja seu escudo humano duas vezes em menos de dois meses? – desdenhou a irlandesa, com as mãos nos quadris. Sofia concordou silenciosamente.

— Se chegar a esse ponto, eu abro o bico. – decidiu Antonieta simplesmente, verificando o olhar taciturno de Barbossa contra si. – Aliás, não é traição se eu estou te avisando de antemão que vou te trair, é? Eu acho que não. – ponderou sem ligar.

— Sobre fugir com meu traseiro imbecil intacto, – Hector continuou também sem prestar atenção a última divagação dela – acredito que a senhorita Swann está apta para o serviço.

— Isso é sensato? – inquiriu Beatrice, sem pensar, enquanto Elizabeth se decidia por qual reação esboçar. Apesar de qualquer risco, aquilo significava que Barbossa realmente aprendera a respeitar suas habilidades dentro daquele período de tempo. Ela evitou olhá-lo, mas sorriu de lado, contenciosamente; Antonieta se viu com vinte anos, com aquele brilho nos olhos e se misturou internamente entre a simpatia e a aflição.

— Duvida do seu treinamento? – ele perguntou para Olívia e Beatrice.

Vecchio bastardo. – Olívia murmurou entre dentes, após uma breve troca de olhares com sua parceira. – Me deixe orgulhosa, Cigno. – disse sem olhar para a loira.

— Prometo trapacear. – Elizabeth brincou. Sua atenção voltou-se para Will, em seguida. A periculosidade da tarefa atribuída a ele.

— Digamos que eu concorde com estes termos, Barbossa. – interpôs o próprio filhote Turner. Hector voltou-se para ele com lento desmerecimento. – Qual seria exatamente o período de diferença entre a sua chegada e o meu roubo?

— Mestre Turner, o senhor faz parte desta organização; não é uma questão de “se”. – elucidou o velho pirata, frisando que a escolha não pertencia a ele. – Considerando que estaremos em águas protegidas por Sao Feng em duas semanas, o senhor parte em três dias. Você me poupa um bote? – pediu polidamente a Antonieta, que assentiu displicente.

— Um bote? – indagou Elizabeth, tentando parecer calma. – Ele vai... remar daqui até Singapura?

— Ele é jovem e foi bem alimentado; e já é crescidinho. – cortou Mia pragmaticamente. – Porém, mestre Turner, seu destino não é exatamente Singapura. O templo de Yun Feng fica em uma ilha a sudoeste, não muito distante; inconfundível, acredite.

— Quando eu tiver os mapas...? – Will continuou, frio.

— Daí o senhor deverá remar até Singapura, para o norte – não se preocupe, você terá mapas e uma bússola, algumas provisões – e, imagino, – virou-se para Hector buscando confirmação, ele anuiu de pronto – nos aguardar junto ao Stella. Ou até que o avistemos no porto. – avaliou por um instante.

— O que? – quis saber Sofia.

— Eles podem estar em Singapura. – deduziu Alberto. Os olhos voltaram-se para ele. – A Companhia. Afinal, eu mencionei uma missão até lá. Se nosso plano falhou, eles podem estar nos esperando à essa altura. Não precisam se preocupar em nos caçar, se estamos indo até eles. Due gocce d'acqua, vero? [4]— explicou categoricamente.

— E o que acontece nesse cenário? – quis saber Sofia, de cócoras ao lado de Antonieta. Ambos os capitães se entreolharam. Barbossa sem precisar ir tão longe para descobrir qual seria o plano de ação da outra. Ela apenas suspirou, apertando as mãos com força.

— Sigam o código. – disse baixinho. Silêncio.

Elizabeth correu os olhos pelos rostos daqueles a quem passara a chamar de amigos. Estava na cabana de Tia Dalma outra vez; o agouro de morte empesteando o ar. Àquela altura, entendia. Qualquer homem que é deixado para trás, fica pra trás. E a Swann imaginou que eles já sentiam que foi Antonieta quem ficara para trás desta vez. Desta vez, se eles fossem atacados e ela estivesse em terra, nenhuma estratégia de atraso seria posta em prática para garantir que conseguisse alcançá-los. Eles teriam que partir sem ela; e fariam isso, em respeito às suas ordens. Esse era o valor da palavra final da capitã.

— Eu vou com você. – Diana baixou as duas mãos sobre a mesa, virando a cabeça para Mia.

— Se algo acontecer, vocês pegam o navio e vão para a Baía Naufrágio...

— Barbossa vai levar a cigno, você vai me levar. – era inútil discutir.

— Como assim, vão para a Baía Naufrágio? – interpôs Carlo. – Não vamos para casa?

— Vamos. – assegurou-o, Mia. – Mas, não de mãos vazias. Seria improvável, conseguir ir contra uma horda da Companhia com um único navio.

— Improvável não é impossível. – comentou Cínzia.

— Eu só estava sendo educada. – retrucou a capitã. – O caso é: nós precisamos de alguém para garantir os nossos traseiros e todos os piratas com quem poderíamos negociar esse tipo de aliança estão na Baía Naufrágio. O pirata, na verdade... eu vou fazer com que Armand me ceda um navio. – jurou consigo mesma.

— Não do jeito habitual, imagino. – Sofia supôs, esforçando-se para não zombar.

— Oh, não. – riu Antonieta, vendo onde ela não queria que fosse. – Não, a situação pede uma barganha mais efetiva; no único lugar onde o corsário sem dinheiro sente dor.

— Então, você vai cortar o pau dele. – interveio Téo, que estivera visualizando um cenário completamente diverso do de sua mãe.

— Não. – Mia riu pelo nariz outra vez, mas piscou para o sobrinho sem recusar a ideia de todo. – Muitos aqui ignoram isso, mas existe outra razão para eu amar minha cidade, além de ser a minha cidade. Ela se estabelece no único ponto onde Armand podia cuidar de seus negócios sujos, sem qualquer concorrência com Villanueva... sem mim, ele realmente não teria nenhum dinheiro. Se recuperarmos qualquer senso de liberdade outra vez, ele seria o único a não lucrar nada com ela.

— Sinto falta de casa. – brincou Angello, conseguindo que todos rissem. – Então, para a Baía Naufrágio. – disse erguendo seu caneco no ar.

Consolidado o argumento naquilo que, de fato, os à provinha, o grupo de italianos se dispersou para cima, ao trabalho, deixando apenas a pequena família Barbieri para trás com os hóspedes de seu navio.

— E o resto de nós? – inquiriu Gibbs. Antonieta se prontificou a entregá-lo o segundo desenho.

— Com um preço sobre nossas cabeças, é pouco provável que Sao Feng permaneça em sua base habitual. – começou Hector. – Em tempos como esse, ele costuma se retirar para uma das suas casas de banho dentro da cidade.

— E o que o senhor tem em mãos, mestre Gibbs, é o desenho das instalações em todos os seus detalhes. – pontuou Mia, com orgulho.

— Caso as negociações não saiam conforme planejado, – Hector encarou-os longamente. – os senhores deverão garantir para que não seja pior do que o possível.

O velho amigo de Jack Sparrow assentiu nervosamente, erguendo a planta da casa de banho do Lorde de Singapura para analisa-lo atentamente, conforme indicação implícita de seu temporário capitão. Cotton, Martin, Pintel e Ragetti, acompanharam seu olhar, ansiosos; esperando que a própria figura os presenteasse com uma alternativa para algo que ouviram de fonte que julgavam ser confiável ser uma estupidez. Em verdade, Ragetti sentiu uma das mãos de Diana pesando sobre seu ombro, reconfortando-o contra a dúvida. O otimismo poderia ser o escudo dos tolos, mas a irlandesa reconhecia sua imprescindibilidade ali.

Tendo falado o suficiente, incorporado o necessário de seus insights na estratégia de seu amante, Antonieta ergueu-se, com um último olhar encorajador para o grupo de homens e Elizabeth, subindo ao deque para encontrar cena por demasiado antagônica à angústia deles. Seus homens cantavam à medida que realizavam suas tarefas, rindo entre si e fitando o céu – ainda com indícios de chuva – sem dúvidas. Obtiveram a resposta para todas elas, aparentemente, ao verificá-la com aquela confiança ante seu plano; seu poder para garantir a Armand Chevalle a importância da sobrevivência de sua comuna. Antonieta, de fato, possuía o melhor grupo de homens ao seu lado; a certeza deles em si espantava suas próprias dúvidas quanto ao futuro. Ela os manteria seguros.

— Vai ser bom tê-la de volta. – Elizabeth disse enquanto se aproximava de mansinho dela, seguindo seus olhos entre os tripulantes; parando com um sorriso especial na direção de Olivia discutindo com Carlo – aparentemente sobre um nó. Mia pensou em refutar sobre como ela nunca deixou de pertence-lhe, mas deteve-se ao conceder mais crédito ao significado da jovem lady.

— Mudanças rápidas demais não me fazem bem; nem despedidas. – respondeu gentilmente, sorrindo-lhe maternalmente. A outra concordou. Pouco a pouco, os restos de seu grupo surgiram atrás dela, fazendo-se úteis. – Eu realmente não acho que deva perder meu tempo dizendo isso, mas, não deixe que eles a intimidem quando voltar a ser a única garota no grupo. – aconselhou brandamente. Elizabeth riu baixinho.

— Foi, de fato, uma experiência e tanto; não ser um peixe fora d’água, pra variar. – afirmou em tom de confissão, um tanto abatida.

— Você é uma mulher e tanto, senhorita Elizabeth Swann. – Antonieta observou, orgulhosa. – Conquistou seu espaço entre nós. Você é um pirata; no melhor senso da palavra.

— Ouso saber qual? – inquiriu baixinho, estática com o elogio.

— Irmão. – respondeu Mia com a mesma profundidade de entonação, apertando a mão dela. Elizabeth sorriu de lado, sentindo qualquer coisa em sua garganta arranhar. – Respire fundo; acredito que Olívia pode se beneficiar da sua ajuda. – a capitã ajudou, dispensando-a com gentileza. O cisne assentiu, mexendo a boca num inaudível obrigada conforme se afastava.

Acompanhando-a, a Barbieri avistou Calipso. A feiticeira passara tanto da viagem confinada aos seus aposentos, que a mulher considerou sua presença ali como uma quebra do quadro ao qual tanto se acostumara e apreciava. Conversavam, Hector e ela. Antonieta limitando-se a apenas imaginar o teor de suas palavras. Por fim, ele voltou-se para ela. Calmo em sua direção. Já fazia parte do seu recém reconstruído relacionamento; ela se viraria e eles permaneceriam em silêncio, lado a lado, admirando o horizonte até que sua voz o rasgasse. Não parecia ritual tão fácil agora, no entanto.

— Tenha cuidado. – sussurrou com os braços cruzados. Intimidada pela presença da deusa. – Não sei o quanto podemos confiar nela, mas eu não confio de toda forma. – confidenciou a ele após outra pausa definindo o que dizer.

— Estive em situações complicadas antes. – retrucou ele, dispensando a aflição dela; tentando abafá-la. – Neste mesmo navio, aliás; mais de uma vez, somente nesta viagem. – acrescentou, fazendo-a rir.

— Minhas habilidades com flerte podem realmente se tornar abrasivas, às vezes; perdão. – brincou em resposta, rindo com ele. Ao fundo, a voz de Alessandra blasfemando contra Nicola em italiano chamou a atenção por um momento. – As ruínas de São Pedro não são mais ruínas, sabe? Ajudei a erguê-la; a torre é a primeira visão que se tem da cidade ao longe. Nada mal para alguém que ainda se recusa a acreditar num Deus de vez em quando.

A velha catedral de São Pedro. Uma pena que as ruínas não estivessem exatamente como ele se lembrava; o lugar onde a conhecera. Nada era impassível de um recomeço, talvez.

— Você deveria vê-la um dia. – acrescentou sem olhá-lo, sorrindo para o mar. “Não faço convites formais” ele riu baixinho ao se lembrar. – Vai ficar me devendo um bote. – constatou em seguida, então encarando.

— O pagamento da maneira que julgar melhor. – aquiesceu prontamente com malícia.

— Eu quero outro bote. – respondeu séria, ao que ele tomou como um elogio.

— Muito bem. – falou virando-se para deixar de encará-la, também sorrindo ao mar. – Entregarei pessoalmente. – acrescentou jocosamente.

— Tenha cuidado e sobreviva. Não desejo perder mais nenhum dos meus por essa causa. – murmurou olhando para trás sobre os ombros, vendo Téo rindo com um dos gêmeos Ferretti.

Hector assentiu, rapidamente pressionando um de seus ombros com leveza. O sol começava a fazer seu caminho para girar sobre eles, escaldante em suas cabeças. Todavia, antes que ali chegasse, ainda era capaz de ressaltar os tons de azul esverdeado e azul profundo sobre a água, tão infinita em suas dimensões. Euro soprou dentre as velas e Antonieta ouviu-o como Federica ouvia, percebendo os primeiros pingos da garoa. Certamente, eles não poderiam ter feito uma passagem sem isso; o cerco de todos os lados daquilo que era casa e prisão ao mesmo tempo. Fechando os olhos, ela jogou a cabeça para trás, sentindo a chuva tépida, realizando uma pequena prece para que assim permanecesse... uma tempestade já fora suficiente.

O chapéu caíra de sua cabeça, pego por Barbossa antes que alcançasse o chão, e ele devolveu-o a ela. Mia verificou um quê de carinho em seus olhos, ao passo que se prontificava às suas próximas palavras, como se já houvessem sido proferidas antes.

— Achei que não viveria para ver Antonieta Barbieri acuada. – disse como se ainda estivessem deitados em sua cama.

— Por que viver, então? – interpôs junto a um novo sorriso, virando-se para correr os olhos por sua família. Ela os manteria seguros.

[1] O pau dele era torto?

Se fosse, o seu lucro ia cair pela metade?

[2] Divirta-me; tradução parca do Amuse me do inglês.

[3] São Feng chupa bucetas, não paus.

[4] Dois coelhos com uma cajadada só.

Notas finais
Aqui estamos, amiguinhos. 21 capítulos depois. Fechando o primeiro ciclo; o primeiro arco. Aqueles que já estão familiarizados com o roteiro do terceiro filme desta franquia sabem o que virá a seguir, o que pode tornar tudo muito previsível a partir de agora. Contudo, prometo investir ainda mais nas relações dos personagens a fim de estabelecê-los mais profundamente; bem como pensar na forma mais natural de envolver meus originais dentro de algo "pronto", o que é um grande desafio. Dito isso. Entraremos em hiatus. YAY. Tanto porque eu precisarei de tempo para planejar, quanto porque vou prestar minha prova da OAB esse semestre... é, I could be Marshall Erikssen next time you hear from me!! Agradeço a todos que me acompanharam até aqui!! Cada comentário, favorito, acompanhante, leitor fantasma, vocês significam O MUNDO!!! Me fazem querer melhorar sempre!!! Bjos da Ana ♥ até a próxima.