Lembranças de Porto Venere
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Antonieta abriu os olhos ao som do canhão que retumbava pela costa, a mão automaticamente alcançando a pistola sob o travesseiro. Ironicamente, em desafio aos seus últimos pensamentos antes de cair no sono aquela noite, o mundo parecia ter acordado muito diferente. A paisagem era alaranjada e até um pouco turva, fruto do súbito despertar após o que deveriam ter sido quatro horas de sono profundo. Manchava a madrugada, o ecoar de vozes das pessoas de Porto Venere, seus gritos e preces; a rapidez com a qual tentavam se deslanchar pelo cais. Só havia um caminho. A água. À bordo do Stella de La Sera, apenas a sua capitã achava-se fora daquele cataclisma; capaz de ter visão completa do todo...
“Maledetto”
Dois navios com a bandeira da Companhia das Índias Orientais aprumavam-se contra o litoral, sua artilharia à prumo. Eram seus canhões e seus homens contra a sua cidade... e por culpa sua. Sofia conseguia estar irritantemente certa na maioria das vezes. Não tinha medo da coroa inglesa e seus corsários, tampouco das exigências e ameaças de um homem que encontrara apenas uma vez e que batia à altura de seus seios – fato que ainda lhe faria rir, apesar das circunstâncias –. Como conseguiram que o império da renascença assinasse um acordo delegando o controle daquelas águas aos bebedores de chá, eternamente lhe soaria impossível. O resultado de sua teimosia e ceticismo, no entanto, delongava-se à sua frente.
Rotas. O Stella estava fora do alcance dos canhões e suas velas o tornavam tão rápido quanto o lendário Pérola Negra. Havia uma chance e para isso precisava de diligência. Para isso precisava de sua tripulação. Estes alegremente acampados na cidade, após pilhagem bem-sucedida, divertindo-se com seus ganhos. Todos menos ela que, agora considerava uma felicidade, permanecera no navio com indigestão. A ansiedade, aliás, fê-la tornar a vomitar assim que colocou os pés no píer. “Respirare profondo”. Os pés assentaram-se dentro das botas à medida que ela corria para dentro da balbúrdia gritando por nomes conhecidos.
— SOFIA! DIANA! LUIGI! ALBERTO! TRISTAN! MATTEO! OLIVIA!... – a pior noite de sua vida, não restaria dúvidas para admitir futuramente. Sua cabeça pesada, o estômago revirando e ardendo, falhando com suas pernas e até mesmo seu raciocínio. Milhares de rostos passavam pela Capitã Barbieri. Nenhum dos malditos que saberia manobrar seu precioso navio para fora daquele massacre. “Seguirei il codice”. Claro, se antes não conseguisse fazer a coisa certa e manter sua promessa à Allegra, por certo que os mandaria para o inferno e seguiria para fora da tempestade sozinha... vomitando ou não.
Homens de uniforme tentavam abordá-la. Suas balas eram as únicas respostas que ouviam, a vista turva impedindo-a de identificar civis de subordinados do maldito diabo... provavelmente matara um ou outro conhecido, o que tornava a perspectiva de sair muito mais sedutora. A audição era o único sentido que nunca lhe falhara. Conseguia discernir os choros de meninas e meninos das crianças de colo, os pedidos de clemência das respectivas mães. Bêbados mandando a todos para o baú de Davy Jones, e Antonieta já sentia que alcançava o limite ao qual se dispusera a ir. A fumaça lhe sufocava e ainda vomitara mais duas vezes, uma delas sobre um cadáver. Promessas eram muito belas. Viver o bastante para se pôr à prova de cumpri-las, um desafio. Ter de tentar quando seu próprio corpo implorava uma morte limpa, nada agradável.
Que seja, então. Se a porra dos deuses desejava que fosse assim... morrer imbuída de seu próprio vômito... que fosse...
— MIA! – a voz de sua irmã soou como o cantar do coro da igreja de Santa Luna. Pela primeira vez em sua vida, ela poderia pensar em acreditar em Deus novamente. Ao voltar-se para o som, num súbito desesperado, foi o limite por um instante, e ela sentiu-se cair nos braços de alguém em um semi desmaio.
— Qual o problema?! Ela está morrendo?! – indagou uma voz feminina se aproximando pelo lado direito.
— Fraca demais, mas não morta. Nunca morta. Foram as ostras. – explicou a voz vinda de cima dela. A pessoa que a tinha nos braços.
— Bem, eu avisei... – murmurou alguém com a voz pastosa, mas alerta, vinda de seu lado esquerdo. – E agora temos dois Barbieris para carregar...
— O que fazemos? – indagou novamente a primeira voz feminina. De repente, houve silêncio.
— Ora e porquê estão olhando para mim?! – Antonieta ouviu uma de suas irmãs exclamar irritada, fraca demais para deixar de ser um fardo. – Diana é quem pensa mais rápido quando tem rum nas veias! – acrescentou, pontuando o óbvio.
— Onde ancoraram o Sogno D’Oro? – perguntou a voz pastosa.
— Do outro lado do ancoradouro... vai levar mui...
— A Capitã Barbieri atiraria em qualquer um de nós se acordasse em outro navio, sem que tenha sido ideia sua. – comentou a voz acima dela. Houveram murmúrios de concordância.
— E estamos sem tempo. VAMOS! – chamou outra voz emergindo da multidão e então Antonieta sentiu seu corpo se elevando, mexendo-se em uma corrida.
Canhões ainda disparavam noite adentro com a companhia claramente disposta a não poupar a cidade que a desafiara. Dentre tantas, escolheu justamente a sua para fazer de exemplo ao oriente... como se a História já não ensinasse o suficiente. A costa italiana fora assaltada durante anos pelos maiores nomes da pirataria até que finalmente começasse a produzir os seus. O que restava ali para matar, além dos espíritos remanescentes daquelas famílias?
— OLÍVIA! – o grito de seu navegador fora assombrado o suficiente para quase conseguir retirá-la de seu estado de zumbificação.
— Confie em mim! Vão! – por sorte, não estava morta. Olívia Tiziana era uma boa pirata e jogadora de cartas. Caso não seguisse o protocolo, significava que conhecia todos os ases e dispunha-se a apostar com cada um. Mesmo desacordada, Antonieta confiava fielmente naquela mão e no que ela jogaria à seguir.
Finalmente, sentiu-se sendo colocada sobre uma superfície macia. Acima de sua cabeça, a voz de Sofia Acidália, sua primeira primeira, discutia com Diana Murphy, sua segunda primeira. Houve o estupor da âncora desgarrando-se das profundezas da Ligúria e a felicidade de um de seus tripulantes sobre sua mania de sempre estar pronta para zarpar quando quisesse. O navio começou a se mover, mas àquela altura ainda não conseguiriam ganhar muita velocidade. Mais uma vez tomada pelo anseio de expelir o que quer que a tivesse colocado naquele estado de seu corpo, a capitã finalmente tornou a abrir os olhos, virando-se bruscamente para o chão. Ao seu lado, percebeu em seguida, sobre a cama de casal, jazia seu irmão. Inconsciente. “Ubriaco”.
— O que você quer que eu faça? A única pessoa que poderia nos arrancar daqui está DE CAMA COM INDIGESTÃO! – Diana raramente se irritava fácil, o que significou à Antonieta que a situação somada às provocações de Sofia havia colocado-a em seu limite. O navio gemeu com um zunido passando próximo ao tombadilho. Os malditos queriam afundar a herança de sua mãe...
Cambaleando, ela se forçou para fora da cama. Seu estômago parecendo estar finalmente vazio. As pernas, apesar de bambas, conheciam demasiadamente o caminho para desapontarem-na justamente agora. Não houve nenhum comentário à sua visão subindo para o tombadilho, apenas olhares indagadores frente ao seu estado e a raiva contida de Sofia – que reconhecia tê-la avisado de tudo aquilo e não a deixaria se esquecer tão cedo. Fortuitamente, as atenções voltaram-se para estibordo. Um dos dois navios da Companhia das Índias Orientais jazia em chamas; os estilhaços se dividindo pela costa.
— Olívia...? – os olhos então recaíram sobre a figura ensopada que acabava de retornar à bordo, ofegante. Luigi foi o primeiro a alcançá-la e lhe oferecer o casaco.
— Acordei Vincenzo... eles vão nos dar... cobertura enquanto... – sua voz soava como um miado fino noite adentro, ao passo que o barco virava bruscamente. Todos admiravam a Capitã Antonieta Barbieri completamente fora de seus padrões, de braços finos, manejando o timão com a fúria de cinco de suas gerações; todas filhas do mar.
— Vamos deixar Porto Venere para eles? – indagou Luigi na direção de Sofia, sem obter desta uma resposta.
Houveram mais explosões e um pedaço da popa passou voando diante dos olhos da tripulação. O navegador, Tristan Parisi, soltou um assovio alto, apoiando-se em um dos brandais para analisar a visão que deixavam para trás... os dois navios, amigo e inimigo, destruídos. A cidade em chamas. Antonieta se recusou a olhar. Quando finalmente estavam longe o suficiente do porto para respirarem, o sol já se achava alto. As irmãs não se falaram. Tristan designou como a melhor opção tentarem auxílio com o velho amigo da mãe de Mia, Villanueva na Espanha. Unanimidade trazida pelo desejo comum de esquecer o ocorrido e pelas cabeças pesadas pela ressaca.
— Por que não assinou as malditas cartas? – indagou Sofia a uma derrotada Antonieta, com a cabeça apoiada ao timão.
— Porque eu sou uma maldita puta. – murmurou a capitã em resposta com a voz embargada, ao passo que a outra apenas assentia, deixando-a só para ir checar o estado de seu marido. Diana, ao lado de Antonieta também assentiu. Sim. Capitã Barbieri era uma maldita teimosa filha da puta.
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