Lembranças de Nós Dois
4 Treacherous
Notas iniciais
🌧️ Capítulo 4
O som do giz riscando o quadro negro preenchia a sala de física com uma regularidade quase hipnótica, criando um contraste curioso com o silêncio disperso dos alunos que, em sua maioria, fingiam prestar atenção enquanto aguardavam o fim da explicação. Do lado de fora, o céu permanecia carregado, com nuvens densas que filtravam a luz do dia em um tom acinzentado e constante, típico de Forks, como se o tempo tivesse decidido permanecer suspenso entre uma chuva e outra. Dentro da sala, o ar era levemente abafado, misturado ao cheiro de papel, tinta de caneta e madeira antiga, e, ainda assim, Bella Swan conseguia encontrar ali um certo tipo de estabilidade, não conforto, exatamente, mas algo próximo disso. Era previsível. E previsibilidade, para ela, era uma forma silenciosa de segurança.
Sentada na terceira fileira, próxima à janela, Bella mantinha o corpo levemente inclinado sobre o caderno, a caneta deslizando com precisão enquanto copiava cada detalhe do que estava sendo explicado, mesmo já sabendo que não precisaria rever aquilo depois. Não era esforço. Era hábito. Era a forma como mantinha a mente ocupada o suficiente para não se perder em pensamentos que, frequentemente, insistiam em aparecer nos momentos mais inconvenientes. Seus cabelos castanhos estavam presos de maneira despretensiosa, alguns fios escapando ao redor do rosto, e a expressão concentrada dava a ela um ar quase distante, como se estivesse ali apenas fisicamente, enquanto o resto permanecia em outro lugar.
Mas, naquela manhã, havia algo que quebrava essa rotina cuidadosamente construída.
Edward Cullen.
Duas fileiras atrás.
O olhar dele… constante.
Bella não precisou virar para confirmar. Ela sentia. Era uma percepção incômoda, sutil, mas persistente — como se alguém tivesse acendido uma luz exatamente onde ela tentava manter sombra. Ela girou a caneta entre os dedos, apoiando o rosto na mão, tentando ignorar aquilo com a mesma disciplina com que ignorava o resto do mundo ao seu redor.
Não funcionou completamente.
— Muito bem — a voz do professor atravessou a sala, firme o suficiente para capturar a atenção de alguns alunos dispersos — Vamos fazer algo um pouco diferente hoje.
Algumas cadeiras rangeram. Cabeças se ergueram.
— Trabalho em grupo — continuou ele, apoiando o giz e cruzando os braços — Vocês vão construir uma maquete que represente um experimento das leis da física. Quero algo funcional. Quero ver conceito sendo aplicado, não só algo bonito de se olhar.
Um murmúrio percorreu a sala.
Bella levantou os olhos.
Aquilo… era interessante.
— Vou dividir vocês.
O silêncio veio em seguida, mais atento agora.
— Swan… Cullen… Hale.
O mundo pareceu desacelerar por um instante.
Bella ergueu o olhar lentamente.
Claro.
— Vocês três.
Antes que qualquer reação se formasse completamente—
— Professor!— A voz de Alice Brandon surgiu com energia suficiente para quebrar qualquer tensão acumulada, atraindo olhares e algumas risadas espontâneas.— Pode ser grupo de quatro? — perguntou ela, inclinando-se levemente sobre a mesa, já com um sorriso pronto.
O professor ergueu uma sobrancelha.
— Por quê?
Alice apontou discretamente para Bella, depois para Edward e Jasper.
— Porque eu me recuso a deixar a Bella sozinha com esses dois — disse, em um tom quase teatral.
As risadas aumentaram e o professor suspirou.
— Tudo bem. Grupo de quatro.
— Obrigada! — respondeu Alice, satisfeita.
Bella fechou os olhos por um breve segundo, sabia.
Simplesmente sabia, aquilo não terminaria bem.
A biblioteca estava silenciosa no período da tarde, com a luz filtrada pelas janelas criando uma atmosfera mais suave, quase acolhedora, contrastando com o frio que insistia em se infiltrar pelas frestas do prédio. O som distante de páginas sendo viradas e o leve arrastar de cadeiras criavam um ambiente onde o tempo parecia passar mais devagar, e, talvez por isso, Bella se sentisse ligeiramente mais confortável ali do que em qualquer outro lugar da escola.
Ela já estava sentada quando os outros chegaram.
O caderno aberto.
A caneta pronta.
Como se já soubesse que teria que conduzir aquilo.
E conduziu.
— A gente pode fazer um experimento de energia potencial e cinética — disse, sem hesitar, enquanto começava a desenhar no papel.
Jasper se inclinou, interessado.
— Como?
Bella girou o caderno na direção deles.
— Uma montanha-russa em miniatura — explicou, apontando os traços que começavam a tomar forma — a gente usa altura para acumular energia potencial… e transforma em cinética conforme o carrinho desce. Dá pra medir velocidade, impacto… tudo.
Alice abriu um sorriso imediato.
— Eu amei isso.
— Faz sentido — Jasper concordou, sincero.
Edward permaneceu em silêncio.
Mas observava.
Com atenção.
Não era só o que ela dizia.
Era como dizia.
Sem esforço.
Sem intenção de impressionar.
E, ainda assim… impressionando.
— Você tem alguma ideia melhor? — Bella perguntou, levantando o olhar para ele.
Houve um breve silêncio.
— Não — respondeu Edward, finalmente.
Alice bateu palminhas leves.
— Então decidido. Bella manda.
Bella revirou os olhos.
Mas não negou.
Mais tarde, já no estacionamento, o ar parecia mais frio, carregando consigo o cheiro úmido da cidade. Edward estava encostado no carro, os braços cruzados, enquanto Jasper permanecia ao lado, em silêncio por alguns segundos antes de falar.
— Você não devia fazer isso — disse ele, com calma.
Edward soltou um suspiro.
— Fazer o quê?
Jasper virou o rosto.
— Você sabe.
Silêncio.
— Ela não é como as outras.
Edward riu baixo.
— Todo mundo diz isso.
— Eu tô falando sério — insistiu Jasper, firme — ela é boa, Edward. E você vai machucar ela.
Edward desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos.
— Você tá exagerando.
— Não tô.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Não vai na corda do Emmett.
Edward respirou fundo.
— Eu sei o que eu tô fazendo.
Jasper balançou a cabeça.
— É isso que me preocupa.
No dia seguinte, Edward não pensou duas vezes.
— Swan — chamou, aproximando-se.
Bella parou.
Devagar.
— O quê? — perguntou, virando-se.
— Vamos sair.
Direto.
Sem rodeios.
Ela cruzou os braços.
— Por quê?
— Porque eu quero.
— Não é um bom argumento.
Edward inclinou levemente a cabeça.
— Se você aceitar… eu paro de te incomodar.
Bella o analisou.
Silenciosamente.
— Promete?
— Prometo.
Ela assentiu.
— Então tá.
A cafeteria de Sue Clearwater era pequena, aconchegante, com o cheiro constante de café e açúcar criando uma sensação estranhamente confortável. Bella estava sentada de frente para Edward, os dedos brincando com o guardanapo enquanto ele a observava com uma atenção que começava a fugir do controle que ele acreditava ter.
— Você sempre aceita sair com caras estranhos assim? — perguntou ele.
— Só quando eles prometem me deixar em paz depois — respondeu ela, com naturalidade.
Ele sorriu.
Sue apareceu com os pratos.
— Torta de morango.
Bella levou a primeira garfada à boca.
E, por um segundo…
Tudo desapareceu.
Edward percebeu.
— É boa?
— Muito.
Então ele viu.
O glacê.
No canto da boca.
E, sem pensar…
Limpou.
Com o polegar.
O gesto foi simples.
Mas o efeito…
Imediato.
Os olhos se encontraram.
Próximos demais.
O ar ficou denso.
Pesado.
Quase palpável.
— Edward… — Bella começou, a voz mais baixa, incerta, os olhos presos nos dele, o corpo imóvel como se qualquer movimento pudesse quebrar algo invisível que se formava entre os dois.
Mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer...
— BELLA!
A voz de Alice atravessou o momento como um choque.
Bella se afastou imediatamente, respirando fundo.
Alice sorria.
Jasper observava.
Edward recostou na cadeira.
Mas algo nele tinha mudado e, pela primeira vez, aquilo não parecia mais um jogo.
O silêncio que se instalou depois da interrupção não era o mesmo de antes.
Havia algo quebrado ali.
Algo que, poucos segundos atrás, parecia prestes a acontecer com uma naturalidade quase perigosa e que agora… simplesmente não existia mais da mesma forma.
Bella desviou o olhar primeiro.
Sempre ela.
Como se fosse um reflexo aprendido ao longo dos anos, como se olhar por muito tempo significasse se expor demais, se permitir demais ,e isso não era algo que ela fazia. Não ali. Não com ele.
Ela passou a mão pelos cabelos de maneira sutil, tentando reorganizar algo que não estava visível, mas que ela sentia completamente desorganizado por dentro. O coração ainda batia rápido demais para uma situação que, tecnicamente, não tinha sido nada.
Nada.
Edward, por outro lado, não desviou imediatamente.
Ele permaneceu observando por mais um segundo do que deveria, como se tentasse entender exatamente o que havia mudado naquele espaço mínimo entre o toque e a interrupção. Havia uma sensação estranha no peito, incômoda e nova, algo que não se encaixava no tipo de controle que ele estava acostumado a ter sobre qualquer situação.
Aquilo não fazia sentido e ainda assim, estava ali.
— Vocês chegaram cedo — disse Alice, deslizando até a mesa com naturalidade, como se não tivesse acabado de interromper algo evidente para qualquer pessoa minimamente atenta.
Bella limpou a garganta antes de responder, tentando recuperar o tom neutro.
— A gente só… veio comer.
— Claro que veio — Alice respondeu com um sorriso que dizia exatamente o contrário.
Jasper permaneceu em silêncio por um instante, os olhos passando de Bella para Edward com uma atenção discreta, mas cuidadosa, como se estivesse avaliando não o que estava sendo dito, mas o que tinha ficado não dito entre eles.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
— A gente não quis atrapalhar — disse ele, a voz baixa, mas firme, puxando uma cadeira ao lado de Alice.
— Não atrapalhou — Bella respondeu rápido demais, pegando o garfo novamente como se aquilo fosse suficiente para encerrar o assunto.
Edward soltou um pequeno riso nasal, apoiando o cotovelo na mesa e inclinando levemente o corpo para trás na cadeira, assumindo uma postura mais relaxada do que realmente se sentia.
— Tá tudo sob controle — disse ele, dando de ombros, mas o olhar ainda voltava para Bella com uma frequência que ele não controlava completamente.
Alice apoiou o queixo nas mãos, observando os dois com um brilho divertido nos olhos.
— Hm.
Bella ignorou.
Ou tentou.
Mas ignorar Edward Cullen, naquele momento, era significativamente mais difícil do que havia sido no corredor da escola.
Talvez fosse o ambiente.
Talvez fosse o fato de que ali, longe do barulho constante e dos olhares de outras pessoas, tudo parecia mais… concentrado, mais real ou talvez fosse simplesmente o fato de que ele não estava agindo como ela esperava.
E isso a deixava desconfortável.
— Então — Alice começou, quebrando o silêncio com facilidade — vocês já decidiram como vão fazer a maquete?
Bella aproveitou a oportunidade.
— A gente vai usar uma estrutura de trilho com variação de altura — explicou, retomando o controle com a familiaridade do assunto — tipo uma montanha-russa, mas focando na conversão de energia.
Jasper assentiu.
— Faz sentido.
— Eu posso ajudar na parte estrutural — acrescentou ele, apoiando os braços na mesa — madeira, base… essas coisas.
Alice sorriu.
— Eu fico com a estética.
— Claro que fica — Bella murmurou, quase sorrindo.
Edward observava.
Mais quieto agora.
Mas não distante.
Pelo contrário.
Cada palavra, cada pequeno gesto, cada troca de olhar — tudo parecia chamar atenção dele de uma forma que ele ainda não sabia explicar.
Não era só a aposta.
Já não era.
E isso… incomodava.
— E você? — Bella perguntou de repente, olhando diretamente para ele — vai fazer o quê?
A pergunta o pegou desprevenido por meio segundo.
— Eu… — ele começou, passando a mão pela nuca, um gesto raro de leve desconforto — posso cuidar da parte mecânica.
— Ótimo — respondeu Bella, simples.
Sem elogio.
Sem dúvida.
Só… aceitação.
E, estranhamente, aquilo foi suficiente.
O encontro terminou mais rápido do que Edward gostaria de admitir para si mesmo.
Quando Bella se levantou, ajeitando a mochila no ombro, ele observou o movimento com uma atenção que já não conseguia disfarçar completamente.
— Eu te levo — disse, levantando-se quase ao mesmo tempo.
Bella parou.
Virou-se.
— Não precisa.
— Eu sei.
Silêncio.
Curto.
— Mas eu quero — completou ele, dando um passo à frente, mantendo o tom leve, mas com algo mais por trás que nem ele identificava completamente.
Bella hesitou.
Por um segundo, talvez dois...
— Eu vim de carro.
— Então eu só te acompanho até lá.
Aquilo não fazia sentido nenhum, mas, ainda assim…
— Tanto faz — respondeu ela, desviando o olhar.
Alice sorriu discretamente.
Jasper observou.
De novo.
O estacionamento estava mais vazio naquele horário, o céu começando a escurecer lentamente, anunciando mais uma noite de chuva que provavelmente cairia sem pressa sobre a cidade. O ar estava frio o suficiente para fazer Bella encolher levemente os ombros enquanto caminhava, os braços cruzados de forma quase automática, como se tentasse manter o próprio calor.
Edward caminhava ao lado dela.
Silencioso.
O que, por si só, já era incomum.
— Você sempre anda assim? — ele perguntou depois de alguns segundos.
— Assim como?
— Como se estivesse tentando não ser vista.
Bella não respondeu imediatamente.
Os passos continuaram.
— Funciona na maioria das vezes — disse por fim.
Edward soltou um pequeno riso.
— Não hoje.
Ela virou o rosto na direção dele.
— Por quê?
Ele sustentou o olhar.
— Porque eu tô vendo.
Silêncio.
Diferente.
Mais pesado.
Bella desviou o olhar primeiro.
— Problema seu.
Mas o tom… não tinha a mesma firmeza de antes.
E ele percebeu.
Claro que percebeu.
Quando chegaram à caminhonete, Bella parou ao lado da porta, puxando a chave do bolso.
— Você já pode me deixar em paz agora — disse, sem olhar diretamente para ele.
Edward inclinou levemente a cabeça.
— Eu disse que ia tentar.
— Não foi isso que você prometeu.
— Eu menti — respondeu ele, com um meio sorriso.
Bella fechou os olhos por um segundo.
— Claro que mentiu.
Mas, dessa vez…
Ela não parecia surpresa.
Nem completamente irritada, e isso era pior.
Porque significava que, de alguma forma, ela já esperava.
— Boa noite, Swan — disse ele, dando um passo para trás.
Bella abriu a porta.
Entrou.
Mas antes de fechar...
— Edward…
Ele parou.
— O quê?
Ela hesitou, por um segundo.
— Não faz isso.
Simples e direto, mas carregado de algo que ele não conseguiu nomear imediatamente.
Então ela fechou a porta e foi embora.
Edward ficou parado por alguns segundos no estacionamento vazio, observando a caminhonete desaparecer lentamente pela saída, as luzes traseiras sumindo na estrada úmida como se nunca tivessem estado ali.
O sorriso que surgiu no rosto dele não era o mesmo de antes.
Não era provocação.
Não era jogo.
Era… outra coisa.
Algo mais lento.
Mais perigoso.
Ele passou a mão pelos cabelos, soltando um suspiro baixo, quase imperceptível.
— Droga… — murmurou para si mesmo.
Porque, pela primeira vez em muito tempo…
Edward Cullen não tinha certeza se estava jogando , ou se já tinha começado a perder.
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