Lembranças de Nós Dois
23 The Manuscript
Notas iniciais
🌙 Capítulo 23 — The Manuscript
A rodovia 101 tornara-se um cenário de guerra banhado por uma chuva inclemente. Bella corria, os pulmões ardendo, os pés descalços feridos pelo asfalto áspero, até que as luzes de um caminhão que se aproximava a cegaram. O motorista freou bruscamente, o som do ar comprimido ecoando como um suspiro de terror.
— Ajuda! — ela gritou, a voz falhando. — Meu marido... o carro... vai explodir!
No instante em que o motorista saltou da cabine com um extintor, o Volvo soltou um rugido abafado. Uma labareda de fogo subiu pelo capô retorcido. Bella sentiu o mundo inclinar por um segundo, mas a adrenalina da maternidade e o pavor de perder Edward a mantiveram de pé, rígida como ferro. Ela viu os bombeiros chegarem, viu as ferramentas hidráulicas rasgarem o metal, e cada centímetro de aço retorcido parecia ser arrancado de sua própria carne.
Dentro do que restara do cockpit, Edward não tinha o luxo da inconsciência. A dor era uma entidade viva, um fogo que consumia seus ossos e perfurava seu pulmão a cada tentativa de respirar. O som das ferramentas ,a "tesoura da vida", vibrava diretamente em seus dentes.
— Não apaga, rapaz! Olha pra mim! — um bombeiro gritava, tentando manter Edward focado enquanto a espuma do extintor cobria o para-brisa.
Edward não sentia as pernas. Suas pálpebras pesavam toneladas, mas ele as mantinha abertas por pura força de vontade. Ele precisava saber.
— Minha esposa... — ele tossiu, um gosto metálico inundando sua boca. — Onde está a Bella?
— Eu estou aqui, Edward! Eu estou aqui! — A voz dela cortou o caos.
Ela estava parada logo atrás da linha de isolamento, amparada por um paramédico. Estava suja de cinzas, com o rosto arranhado e o vestido manchado, mas estava de pé. Ela mantinha uma mão firme sobre a barriga, um gesto instintivo de proteção que Edward registrou com o último resquício de lucidez.
— O bebê... Anthony... — Edward sibilou, as lágrimas se misturando ao suor e ao sangue.
— Ele está bem, meu amor! Nós dois estamos bem! — ela gritou, a voz embargada pela urgência. — Só sai daí, por favor!
O resgate foi brutal. Cada movimento para extraí-lo das ferragens era um convite ao desmaio, mas Edward se recusava. Ele revivia cada página do manuscrito de sua vida, entendendo agora que o sonho de seis anos atrás era o destino preparando o terreno para esse sacrifício final.
No hospital geral de Forks, o caos se transformou em uma espera agonizante. Charlie Swan chegara minutos antes, o rosto pálido de terror, encontrando a filha no corredor da emergência. Bella se recusava a sentar, se recusava a ser examinada até que Edward entrasse. Ela caminhava de um lado para o outro, a mão na barriga, imaginando sentir o bebê depois de ter ouvido o forte coracao dele.
Quando a maca de Edward entrou, o cenário era de horror. Carlisle, vestindo o jaleco branco que costumava ser um símbolo de cura, estava parado na baia de trauma, as mãos tremendo de uma forma que ele nunca permitira em décadas de medicina.
— Pai... — Edward sussurrou quando viu Carlisle. — Salva eles... não se preocupa comigo.
— Eu vou salvar todos vocês, Edward. Eu prometo.
Antes de ser levado para o bloco cirúrgico, os enfermeiros pararam a maca por um segundo para estabilizar o oxigênio. Bella correu para o lado dele. Ela não estava em uma maca; ela era a força que o mantinha ancorado à vida. Ela segurou a mão gelada de Edward, beijando seus dedos sujos de sangue.
Edward estava no limite. O choque hemorrágico estava vencendo, mas ele usou sua última reserva de energia para focar no rosto dela.
— Bella... — ele pediu, a voz falhando sob a máscara. — Você está bem mesmo? Nada dói?
— Nada dói, Edward. Só o meu coração por te ver assim. O Anthony está perfeito, eu escutei o coração...é forte. Você salvou a gente.
Edward sorriu debilmente. Foi um sorriso de vitória, mesmo com a morte batendo à porta. Ele esticou os dedos trêmulos, tocando o ventre de Bella uma última vez.
— Obrigado por me dar uma família... por me deixar ser o homem que eu sonhei ser ao seu lado — ele sussurrou. — Escuta... se eu não voltar... eu preciso que você sobreviva. Promete que vai ser feliz. Promete que vai contar pra ele que eu o amei antes mesmo de conhecer o rosto dele.
— Não se despede de mim, Edwardn Anthony Masen Cullen! — Bella disse, a voz subindo de tom, desesperada. — Você prometeu que sempre voltaria para casa! Você não ousa me deixar agora que o nosso manuscrito finalmente ficou bonito!
— Eu te amo, Isabella Marie Swan Cullen... — foram as últimas palavras dele antes que os enfermeiros começassem a correr com a maca em direção às portas duplas.
Bella ficou ali, parada no meio do corredor, as mãos manchadas com o sangue do marido e o anel de noivado brilhando sob a luz fria do hospital. Ela observou as portas se fecharem, sentindo Anthony chutar em seu ventre, enquanto o manuscrito de suas vidas ficava suspenso em uma página em branco, aguardando para saber se o próximo parágrafo traria o recomeço ou o fim definitivo.
Aquelas portas duplas não eram apenas metal e vidro; para Bella, elas eram a fronteira entre a vida que ela construiu e o vazio absoluto. O som do clique metálico ao fecharem pareceu uma sentença. Ela permaneceu estática, com os pés descalços sentindo o frio do piso hospitalar, enquanto o rastro de sangue das rodas da maca de Edward desenhava um caminho escuro no chão branco.
— Bella, por favor, sente-se. Preciso verificar sua pressão, o bebê... — A voz de uma enfermeira soava distante, como se viesse debaixo d'água.
— Ele se despediu de mim, pai. — Bella virou-se para Charlie, que estava parado a poucos metros, parecendo ter envelhecido décadas em minutos. — Ele falou como se estivesse indo embora. Ele não pode ir embora. Anthony nem conheceu a voz dele sem o filtro da minha pele.
Charlie aproximou-se e envolveu a filha em um abraço protetor. Ele podia sentir o tremor violento que percorria o corpo dela, uma tremedeira que não era de frio, mas de choque.
— O Edward é um lutador, Bells. E ele tem o melhor médico do estado lá dentro — Charlie murmurou, embora seus próprios olhos estivessem fixos na luz vermelha acima da porta da cirurgia.
Dentro da sala de operação, o cenário era uma dança coreografada de desespero e precisão. Carlisle Cullen não era mais o pai que abraçara o filho no final de semana; ele era uma máquina de salvar vidas. Suas mãos, que haviam tremido no corredor, agora estavam firmes, embora seu coração martelasse contra as costelas a cada queda na pressão arterial de Edward.
— Ele está entrando em choque hipovolêmico! — gritou um dos assistentes. — Mais duas unidades de O negativo, agora!
Carlisle olhou para o rosto pálido de Edward sob a luz ofuscante do refletor. O filho que ele resgatara da rebeldia, o homem que aprendera a amar de forma tão altruísta, estava escorregando por entre seus dedos.
— Não hoje, Edward — Carlisle sussurrou, a voz firme apenas pela força da disciplina médica. — Você tem uma vida para viver em Seattle. Você tem um filho para carregar. Lute, meu filho... por favor...
No corredor, Alice e Jasper chegaram como um furacão de angústia. Alice estava em estado de choque, as mãos cobrindo a boca, os olhos vidrados. Ela não tivera uma visão; ela apenas sentira o mundo mudar de eixo, como se uma peça fundamental do seu universo estivesse prestes a ser arrancada.
Esme estava sentada em um banco de espera, as mãos entrelaçadas em uma oração silenciosa, o rosto escondido no ombro de Rosalie,esposa de emmett, que chegara logo atrás, Jasper encarava o nada enquanto emmett andava de um lado para o outro. O silêncio da sala de espera era interrompido apenas pelo som do relógio na parede e pelos soluços baixos de Bella, que agora estava sentada, abraçando os próprios joelhos, protegendo o ventre como se seu próprio corpo pudesse filtrar a dor que o mundo estava jogando sobre eles.
— O manuscrito... — Bella sussurrou, lembrando-se das palavras dele.
Ela olhou para o anel em seu dedo, o diamante manchado com uma pequena gota do sangue de Edward. Ela o limpou contra o moletom, polindo-o até que ele voltasse a brilhar.
— Você prometeu, Edward Anthony Masen Cullen — ela disse baixinho, fechando os olhos e tentando enviar cada grama de sua força através daquelas paredes. — Você prometeu que sempre voltaria para casa. E Anthony e eu somos a sua casa agora. Não ouse nos deixar no escuro.
A luz vermelha da sala de cirurgia continuava acesa, um farol cruel no meio da noite de Forks, enquanto o destino decidia se o manuscrito dos Cullen terminaria em uma tragédia de asfalto e chuva ou se ganharia o capítulo mais milagroso de todos.
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