Lembranças de Nós Dois
3 I Did Something Bad
Notas iniciais
A chuva havia diminuído naquela manhã em Forks, mas o céu permanecia carregado, como se as nuvens pesadas ainda se recusassem a ir embora completamente. A luz que atravessava aquele manto cinzento era fraca, difusa, espalhando-se pela cidade sem força, deixando tudo com um aspecto opaco, silencioso demais para uma manhã de dia letivo. Era o tipo de clima que parecia convidar as pessoas a ficarem em casa, mas em Forks ninguém tinha esse luxo.
Bella Swan, como sempre, chegou cedo.
A caminhonete vermelha parou no mesmo lugar de sempre no estacionamento da Forks High School, o motor desligando com um som conhecido que parecia marcar o início de mais um dia exatamente igual aos outros. Por alguns segundos, Bella permaneceu sentada ali, com as mãos ainda apoiadas no volante, observando o movimento ao redor através do para-brisa levemente embaçado. Havia grupos de estudantes atravessando o estacionamento, alguns rindo alto demais, outros reclamando do frio, outros simplesmente existindo com uma facilidade que Bella nunca entendeu completamente.
Ela respirou fundo, como fazia todas as manhãs, como se precisasse se preparar para entrar naquele ambiente.
Então saiu do carro.
O moletom cinza largo cobria o corpo quase completamente, os punhos levemente puxados para dentro das mangas, o jeans simples e os tênis gastos completando uma aparência que não chamava atenção, e esse sempre foi o objetivo. Bella nunca teve interesse em ser notada. Na verdade, boa parte da sua rotina parecia construída exatamente para evitar isso.
O corredor principal da escola a recebeu com o som habitual: portas de armários batendo, vozes sobrepostas, passos apressados ecoando pelo piso. Era um caos organizado, e Bella já sabia como se mover dentro dele sem se destacar, mantendo o olhar baixo, desviando de contatos desnecessários, passando quase despercebida.
— Bella!— A voz de Alice surgiu ao lado dela como um contraste imediato à monotonia daquele ambiente.
Alice Brandon parecia sempre deslocada daquele cenário cinza, não porque não pertencesse ali, mas porque levava consigo uma energia que quebrava qualquer tentativa de normalidade. O sorriso fácil, o brilho nos olhos, o jeito rápido de falar, tudo nela parecia mais vivo.
— Você viu o trabalho de literatura? — perguntou, já acompanhando o passo de Bella.
Bella fez uma leve careta.
— Vi.
— Eu não acredito que ele quer análise de personagem — disse Alice, revirando os olhos enquanto gesticulava. — Eu mal entendi a história.
Bella soltou um pequeno suspiro pelo nariz, quase um riso contido.
— É Shakespeare, Alice. Não é pra ser fácil.
— Ela morre afogada — retrucou Alice, franzindo o cenho. — Isso não é normal.
Bella desacelerou levemente, os olhos se perdendo por um segundo no corredor à frente.
— Não é sobre ser normal — respondeu com calma. — É sobre perder tudo. Ophelia não tinha mais ninguém que realmente estivesse ali por ela… e quando isso acontece, às vezes as pessoas só… param.
Alice ficou em silêncio por um instante, observando o perfil da amiga.
— Você fala como se entendesse.
Bella deu de ombros.
— Eu só leio.
Mas havia algo ali, sempre havia e Alice sabia.
Elas continuaram andando, e foi nesse momento que a atmosfera mudou de forma sutil, quase imperceptível para quem não estivesse atento. Não foi um silêncio repentino, nem um gesto exagerado, foi apenas a presença de um grupo específico ocupando espaço demais no corredor.
Tanya Denali.
Jessica.
Lauren.
Elas estavam posicionadas próximas à entrada da quadra, como se aquele fosse um território marcado, e Bella percebeu antes mesmo de olhar diretamente. Era uma sensação, uma antecipação que vinha de experiências repetidas demais para serem ignoradas.
Ainda assim, ela não parou.
Continuou andando.
Como sempre fazia.
— Swan — chamou Tanya, o sorriso surgindo lentamente.
Bella não respondeu, mas também não conseguiu evitar.
O movimento foi rápido.
Preciso.
Um passo atravessado.
Um leve empurrão.
O suficiente.
O corpo perdeu o equilíbrio antes que ela pudesse reagir, o pé escorregando no chão liso, e o impacto veio seco, o som ecoando pela quadra aberta enquanto o corpo encontrava o chão.
Por um segundo, tudo pareceu suspenso.
Então vieram as risadas.
Baixas.
Cortantes.
Familiar demais.
Bella permaneceu ali por um instante, sentindo o impacto não só no corpo, mas em algo mais fundo, mais difícil de nomear.
— Nossa, você é muito desastrada — disse Tanya, cruzando os braços, com uma expressão que fingia preocupação.
Alice se moveu imediatamente.
— Você fez isso de propósito! — disse, indignada, dando um passo à frente.
Tanya deu de ombros.
— Foi um acidente.
Bella respirou fundo, se levantou.
Ignorou os olhares.
Ignorou as risadas.
— Tá tudo bem — disse, mais para encerrar aquilo do que por acreditar.
E seguiu.
Porque sempre seguia.
Atrás do ginásio, o mundo parecia funcionar em outro ritmo.
O som da escola chegava abafado, distante, como se aquele espaço tivesse sido criado para escapar de qualquer tipo de regra. O cheiro da fumaça se misturava com o ar úmido, e Edward Cullen permanecia encostado na parede de concreto, observando a fumaça escapar lentamente entre seus dedos com uma calma que contrastava completamente com o ambiente da escola.
Emmett estava sentado no chão, relaxado demais para alguém que claramente vivia em constante movimento, enquanto Jasper permanecia de pé, os braços cruzados, o olhar atento, como se estivesse sempre um passo à frente de qualquer decisão ruim.
— Você tá estranho — disse Emmett, quebrando o silêncio.
Edward não respondeu de imediato.
— Tô normal.
— Você nunca é normal.—Emmett riu.
Jasper soltou um suspiro.
— Ele só não tá com paciência pra você hoje.
Mas Emmett já estava inclinado para frente.
— É a Swan.
O nome caiu entre eles.
— Não.—Edward desviou o olhar.
— Eu vi você olhando.— provocou o grandão.
— Você vê coisa demais.
— Eu vejo o óbvio.— Emmett continuou.
Jasper passou a mão pelo rosto.
— Isso não vai acabar bem.
Mas já estava acontecendo.
— Dois mil dólares — disse Emmett.
— Pelo quê?—Edward olhou para ele.
O sorriso surgiu.
— Você não consegue namorar a filha do xerife Swan… — disse ele devagar.
E então:
— …e levar ela pra cama.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
Edward pensou nela e odiou isso.
— Fechado.
E naquele momento, sem perceber, tudo mudou.
Naquela noite, Bella estava sentada no sofá ao lado de Charlie, o brilho da televisão iluminando o ambiente enquanto o som do jogo preenchia o espaço entre eles. A caixa de pizza aberta sobre a mesa exalava um cheiro familiar, e havia algo confortável naquela rotina simples, mesmo que temporária.
— Como foi a escola? — perguntou Charlie.
Bella deu de ombros.
— Normal.
Ele não acreditou, mas não insistiu.
— Se alguém estiver te incomodando…
— Eu sei.
Silêncio.
Mas não vazio.
E no dia seguinte, quando Edward decidiu colocar o plano em prática, ele percebeu algo que não esperava.
Bella Swan não era fácil.
E isso…Só tornava tudo mais interessante.
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