A manhã começou diferente antes mesmo de Bella perceber.

Não por causa do clima, Forks continuava exatamente como sempre, coberta por um céu cinzento e pesado, com a chuva fina caindo de maneira constante como se o tempo nunca realmente mudasse , mas por causa da sensação incômoda que se instalava lentamente dentro dela desde o momento em que abriu os olhos. Era aquela inquietação silenciosa, difícil de nomear, que fazia tudo parecer um pouco mais intenso do que deveria.

Bella estava na casa de Alice.

O quarto era o oposto completo do dela: cores suaves, organização cuidadosa e pequenos detalhes espalhados por todos os lados, como se cada objeto tivesse sido escolhido com intenção. Alice já estava acordada há algum tempo, andando de um lado para o outro com energia demais para aquela hora, enquanto Bella ainda estava sentada na cama, tentando entender por que tinha aceitado dormir ali.

— Você não vai com esse moletom — disse Alice, puxando a porta do armário com determinação.

Bella soltou um suspiro.

— Eu sempre vou com esse moletom.

— Exatamente o problema.

Alice virou-se com duas opções nas mãos, analisando a amiga como se estivesse diante de um projeto importante demais para ser tratado com descuido.

— Você precisa existir mais.

Bella franziu levemente a testa.

— Eu já existo.

— Não do jeito certo — Alice respondeu, caminhando até ela e praticamente empurrando as roupas em sua direção.

— Alice…

— Sem discussão.

Houve um momento de resistência,pequeno, mas Alice sempre vencia esse tipo de batalha e minutos depois, Bella estava parada diante do espelho, completamente imóvel.

A blusa era simples, mas não escondia, o jeans era o mesmo,mas parecia diferente e o cabelo, solto, caía de forma mais natural.

Ela não se reconheceu imediatamente.

— Pronto — disse Alice, satisfeita — agora você parece alguém que merece ser olhada.

Bella engoliu em seco e , por algum motivo isso a deixou nervosa.

Forks High estava mais barulhenta do que o normal naquela manhã.

Os corredores pareciam mais cheios, as conversas mais altas, os olhares mais atentos, como se alguma coisa estivesse prestes a acontecer e todo mundo, de alguma forma, soubesse.

Edward e Jasper estavam encostados perto dos armários quando Bella entrou.

E Edward…Parou completamente.

O olhar dele encontrou o dela de imediato e não saiu mais.

Havia algo diferente, não era só a roupa, era o jeito como ela caminhava, como ela aparecia.

— Nossa, é a Swan? — murmurou Jasper, olhando de lado.

Edward não respondeu, porque ainda estava olhando.

E, dessa vez não havia nada de calculado, nada de jogo, era puro impacto.

A escada principal estava cheia.

Movimento constante.

Gente subindo, descendo, conversando.

Bella subia com Alice ao lado quando a voz surgiu.

— Então é verdade.

Ela parou, não precisava virar para saber.

— O quê? — perguntou, calma.

Tanya estava alguns degraus acima, cercada pelas amigas, o sorriso carregado de veneno.

— Você e o Cullen.

O nome caiu no ar ficando completamente pesado e Alice tensionou ao lado dela.

— Isso não é da sua conta — Bella respondeu, tentando continuar.

Mas Tanya não saiu, pelo contrário.

Ela deu um passo à frente e a empurrou, forte e direto, fazendo Bella perder o equilíbrio.

O corpo inclinando para trás, o coração disparando em um segundo que pareceu longo demais.

Ela segurou o corrimão, e por pouco o pior não acontece.

Algumas pessoas gritaram, fazendo o barulho explodiu ao redor.

Alice avançou imediatamente.

— Você enlouqueceu?!

Tanya apenas sorriu, como se aquilo tivesse sido divertido.

No fundo da escada, Edward já estava se movendo rápido, sem pensar, sem medir e Jasper foi atrás para evitar que ele fizesse alguma besteira.

A sala de literatura estava mais silenciosa do que o normal quando Bella entrou, mas a tensão veio junto com ela, como se ainda estivesse grudada na pele.

Ela sentou na primeira fileira, tentando ignorar tudo e voltar ao normal.

Mas o corpo ainda estava tenso e em alerta quando a porta se abriu e Edward entrou indo direto até ela.

— Você está bem? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de algo diferente.

Bella levantou os olhos.

— Estou.

— Ela te empurrou.

—Ta tudo bem— Ela mentiu como fazia a anos.

— Você podia ter se machucado.

— Mas não me machuquei.

Ele não gostou da resposta.

Nem um pouco.

— Isso não muda...

— Cullen — ela interrompeu, mais firme — Eu disse que estou bem.

E então veio a voz, irritante.

Tanya Denali, estava no fundo da sala, com um sorriso enorme e malicioso que zombava de tudo e todos ao redor.

— Que cena bonita.— ela provocou fazendo as amiguinhas rirem com ela.— A nerd ganhou um guarda-costas.

A sala foi tomada por risadas cruéis, o que fez Edward ficar imóvel, por alguns segundos e então ele despertou do pequeno transe com fúria no olhar.

Levantou devagar, mas a cadeira arrastando no chão com um som seco que cortou o ar da sala.

Transformando os risos em silêncio assustador.

Ele caminhou, cada passo mais firme que o anterior, direto, sem desviar ou hesitar. Seus olhos verdes, quase azuis, agora estavam negros de ódio, que o consumia com seu coração batendo rápido demais mais.

Edward parou diante da mesa de Tanya, a olhando com uma expressão diferente e então com um movimento brusco, violento, empurrou todos os livros dela para o chão.

O som foi alto, que ecoou pela sala e algumas pessoas recuaram.

— Você ficou maluco, Cullen? — Tanya disse, levantando-se.

Edward não respondeu, apenas segurou a lateral da mesa, com os dedos tensionados e virou.

A mesa caiu com um estrondo brutal no chão, espalhando tudo ao redor.

O barulho reverberou pela sala inteira.

Alguém gritou, a professora ficou imóvel, mas Edward ainda não tinha terminado.

Ele virou o rosto lentamente, os olhos encontraram o extintor preso na parede e então ele foi, rápido e arrancou o objeto com força, fazendo o metal ranger ao sair suporte e lançou com tudo contra a porta, fazendo o vidro estilhaçar em dezenas de pedaços que se espalharam pelo chão com um som seco e cortante.

Silêncio absoluto tomou conta do ambiente. Todos com os olhos arregalados, assustado, sem se mexer, muito menos respir direito.

Edward voltou a olhar para Tanya.

E, dessa vez não havia nada contido ali.

— Se você encostar nela de novo… — disse, a voz baixa, mas carregada de uma ameaça tão real que parecia ocupar o espaço inteiro da sala — Eu acabo com você.

Ele deu um passo à frente e Tanya recuou na cadeira assustada, pela primeira vez sem resposta afiada, sem sorriso maldoso e sem controle.

— Senhor Cullen! — a professora gritou, finalmente reagindo — FORA DA SALA. AGORA!

Mas ninguém se moveu imediatamente, porque todos ainda estavam olhando para ele.

Para a forma como ele parecia perigoso.

Bella estava em pé, parada com coração disparado, mas não de medo. Era outra coisa, mais confusa e intensa.

Ela olhava para ele e Edward Cullen não parecia só problema.

Ele parecia algo que ela não sabia lidar.

E aquilo era muito mais perigoso.


O caminho até a diretoria foi feito em silêncio, mas não em um silêncio comum, era aquele tipo de ausência de som que pesa, que ocupa espaço, que parece empurrar o ar contra os pulmões e dificultar até mesmo a respiração. Bella caminhava à frente, os passos firmes demais para alguém que, poucos minutos antes, havia sentido o próprio corpo perder o equilíbrio no alto de uma escada. Os braços estavam cruzados contra o peito, não por frio, mas como uma tentativa instintiva de se manter centrada, de impedir que tudo aquilo ,o empurrão, as risadas, o barulho da mesa virando, o vidro estilhaçando, se transformasse em algo maior dentro dela.

Atrás, Edward não dizia uma palavra.

Mas a presença dele era impossível de ignorar.

Havia algo diferente no jeito como ele caminhava agora, menos descuidado, menos provocativo, e mais… contido. Como se toda a explosão de minutos atrás ainda estivesse ali, viva, mas presa sob uma camada fina de controle que poderia se romper a qualquer instante. O maxilar ainda estava tensionado, os dedos abrindo e fechando de leve ao lado do corpo, como se o impulso de quebrar algo ainda não tivesse passado completamente.

Tanya vinha alguns passos atrás, acompanhada pela professora.

E, pela primeira vez desde que Bella a conhecia…Ela estava em silêncio, sem sorriso, comentários maldoso ou controle absoluto de abelha rainha e aquilo, por si só, já era estranho o suficiente para deixar o ambiente ainda mais pesado.

Quando entraram na sala da diretoria, a mudança foi imediata.

O ambiente era claro demais, organizado demais, calmo demais, quase artificial diante do caos que ainda pulsava sob a pele de todos ali. A diretora levantou os olhos lentamente, analisando cada um deles com um olhar calculado, como se estivesse tentando entender a situação antes mesmo de ouvir qualquer explicação.

— Sentem-se — disse ela, com firmeza.

Bella foi a primeira a obedecer.

Edward demorou um segundo a mais, depois dois.

Só então puxou a cadeira, o som seco do metal contra o chão ecoando mais alto do que deveria naquele espaço silencioso, antes de se sentar sem olhar diretamente para ninguém.

Tanya se acomodou do outro lado.

A professora fechou a porta e o silêncio voltou, mais pesado e definitivo.

— Eu recebi um relato extremamente grave — começou a diretora, apoiando as mãos sobre a mesa com uma calma que parecia treinada — Destruição de propriedade escolar, comportamento agressivo e ameaça direta entre alunos.

O olhar dela foi direto para Edward.

— Senhor Cullen… o que você tem a dizer sobre isso?

Edward não respondeu imediatamente.

Na verdade, ele não parecia ter qualquer pressa em responder.

Os olhos dele estavam baixos por um segundo, depois se levantaram lentamente, encontrando o olhar da diretora sem qualquer sinal de arrependimento evidente.

— Nada Senhora Salvatore— disse, por fim.

Simples.

Direto.

E perigosamente vazio.

A diretora franziu levemente a testa.

— Nada?

Tanya se inclinou para frente, como se estivesse esperando exatamente aquele momento.

— Ele surtou, senhora Salvatore— disse rapidamente, apontando para Edward — Eu não fiz nada, ele simplesmente...

Edward virou o rosto na direção dela.

Devagar.

Sem pressa.

Mas o olhar…O olhar foi suficiente e Tanya parou.

A frase morreu antes de terminar.

Porque havia algo ali que ela não esperava, algo que, pela primeira vez não parecia brincadeira.

— Senhor Cullen — a diretora interveio, mais firme — Isso não vai ajudar em nada.

Mas Edward não respondeu, apenas desviou o olhar novamente, como se aquilo não importasse, como se nada daquilo importasse.

A porta se abriu e o ar mudou.

O xerife Charlie Swan entrou com passos rápidos, o olhar imediatamente encontrando Bella como se todo o resto simplesmente deixasse de existir no momento em que ele a viu.

— Bells, você está bem? — perguntou, aproximando-se.

Bella assentiu.

— Estou.

Mas Charlie já estava analisando.

Já estava avaliando.

Já tinha visto Edward o rosto dele endureceu na mesma hora.

— Cullen.

Uma palavra só, mas carregada de tudo que já existia antes mesmo daquela situação.

Logo atrás, Carlisle entrou, mais contido, silencioso e igualmente atento.

— Diretora Salvatore— disse ele, em um tom controlado.

O ambiente ficou menor, mais tenso e carregado.

A diretora respirou fundo antes de continuar.

— Senhor Cullen — disse, olhando diretamente para Carlisle — Devido à gravidade da situação, esta escola considera a expulsão como medida disciplinar adequada.

O silêncio foi imediato, denso e irreversível.

Edward não reagiu, nenhum movimento, defesa ou tentativa.

Como se aquilo fosse esperado.

Como se fosse apenas mais um resultado inevitável.

Charlie cruzou os braços.

— Parece justo.

Carlisle permaneceu em silêncio.

Mas o olhar dele se desviou para o filho e havia ali algo que não precisava de palavras.

Cansaço, decepção e preocupação.

Foi então que Bella se levantou, sem pressa, mas sem hesitação.

— Não— A palavra cortou o ambiente, limpa, firme, inesperada e todos olharam para ela.

— Bella—Charlie franziu a testa.

Mas ela não parou.

— Isso não está certo — continuou, agora olhando diretamente para a diretora, mesmo com o coração batendo forte demais contra o peito.

A diretora estreitou os olhos.

— Senhorita Swan, sente-se...

— Não, Senhora Salvatore — repetiu Bella, a voz mais firme agora — O Edward não fez isso sem motivo.

— Isso é mentira—Tanya se mexeu na cadeira.

— Cala a boca, Tanya— disse Bella, sem sequer olhar para ela.— Eu já tô de saco cheio de você!

E aquilo foi novo, até para ela mesma.

O silêncio ficou ainda mais pesado.

— Ela faz isso há anos — Bella continuou, respirando fundo antes de seguir — Implicância, humilhação, agressão, comentários… todo santo dia.

Charlie a olhou, surpreso.

— Bells…

Mas ela continuou.

— E hoje de manhã — a voz falhou por um segundo, mas ela se manteve firme — Ela tentou me empurrar da escada.

O impacto foi imediato.

— O quê? — Charlie virou-se completamente para ela.

Bella assentiu.

— Eu quase caí.

A diretora ficou imóvel por um instante.

— Isso é uma acusação séria—

— É a verdade, a senhora pode confirmar com a Alice Brandon — Bella respondeu, sem desviar o olhar.

Tanya se levantou.

— Isso é absurdo...

— Sente-se, senhorita Denali— a diretora ordenou.

E, dessa vez…Tanya obedeceu.

Bella respirou fundo, as mãos tremiam levemente, mas a voz não.

— O Edward não tem nada a ver com isso — disse — Ele só me defendeu.

Ela olhou para ele por um segundo e havia algo ali, algo que não existia antes.

— E se ele for expulso por isso… — continuou, voltando-se para a diretora — Isso vai ser injusto e eu não vou ficar calada.

O ar pareceu travar.

— Eu abro uma reclamação formal contra a escola — completou — Por punir um aluno que só reagiu depois que ninguém fez nada por anos.

Silêncio.

Pesado.

Irrefutável.

Charlie passou a mão pelo rosto.

— Bella…

Ela virou para ele, os olhos firmes.

— Pai… eu sei que você não gosta dele.— disse firme e Charlie travou.— Mas ele foi a única pessoa… além da Alice… que me defendeu nessa escola.

A frase ficou, pesada, honesta e difícil de ignorar.

Edward estava imóvel, mas não distante e pela primeira vez ele estava ali de verdade, e não sabia o que fazer com isso.

Porque ninguém,nunca, tinha ficado do lado dele daquela forma.

A diretora respirou fundo, mais lenta dessa vez.

— Isso muda a situação — disse, por fim.

Ela olhou para Tanya, depois para Edward.

— Senhor Cullen, você não será expulso.

Pausa.

— Mas será suspenso por conduta agressiva.

Equilíbrio, consequência e decisão final.

Quando Bella saiu da sala, o corredor parecia mais silencioso do que antes ou talvez fosse ela que estivesse diferente.

Ela caminhou alguns passos...

— Swan.

Ela parou, fechou os olhos por um segundo e virou.

Edward estava encostado na parede, mas não era o mesmo de antes.

Havia algo quebrado...algo novo.

— Você não precisava fazer isso… — disse ele, a voz mais baixa, menos defensiva.

Bella soltou um pequeno suspiro.

— Eu sei, mas eu quis...

Ele a observou com atenção real.

— Por quê?

Bella hesitou, mas respondeu.

— Porque você não merecia aquilo.

Simples,sem enfeite ou defesa.

Edward deu um pequeno passo à frente.

— Você confia em mim?

Erro, ela travou os olhos nos dele.

— Não.— respondeu honesta.

— Justo.—Ele sorriu de leve.

Mas o silêncio que veio depois, não era mais o mesmo.

Porque, pela primeira vez, não era só um jogo para nenhum dos dois.

E isso era o verdadeiro problema.

Notas finais
E me diz… você também sentiu isso? Porque, em algum momento, deixou de ser só uma aposta. Deixou de ser só implicância, de ser só defesa. Agora tem algo ali, algo que nenhum dos dois sabe controlar. E talvez… nem queira. Mas a pergunta que fica é: quando a verdade vier à tona… quem vai sair inteiro disso? Nos vemos no próximo capítulo. 💔