Lembranças Translúcidas
1 Lembranças Translúcidas
Notas iniciais
Enjoy! *-*
Ele parou de caminhar.
O motivo, no entanto, não foi por ter encontrado um obstáculo físico a sua frente, e também ninguém o impedia de passar — quem o faria, de qualquer maneira? Quem seria insano o suficiente para se meter com o eterno gênio japonês? O gênio japonês que, inclusive, não escondia de ninguém que sabia karatê. A única coisa que poderia vir a contradizer o fato era a postura pacífica. Os seus olhos, também.
Olhos azuis escuros acinzentados. Olhos calmos, gentis e serenos — e, à cima de tudo, olhos repletos de bondade.
De certa forma, o adolescente esbelto, com cabelos negros, lisos, e um tanto mais compridos que os dos outros garotos, trajando roupas cinza, transmitia segurança. Não era, porém, a rasa segurança habitual para alguém de doze anos.
Era a segurança de alguém que já dominara um mundo com um chicote em mãos.
Alguém que já havia se autodenominado Imperador.
Sim, aquele era Ken Ichijouji.
Então, eis a questão: o que faria Ken Ichijouji interromper seu andar de volta à sua casa, após uma visita ao seu melhor amigo? A resposta: Uma cena. Encarou-a, saudoso, com um pequeno sorriso triste no rosto pálido. Uma simples cena, que, vista por qualquer outra pessoa passaria despercebida, seria insignificante, irrelevante, invisível. Mas, não pra ele. Aquela simples cena rotineira que se desenrolava em um parquinho infantil qualquer o havia feito parar pelos significados que ela continha para ele — suas lembranças.
Duas crianças faziam bolhas de sabão.
E, com isso, veio aquele nome. Aquele nome sofrido. O nome que ele tentava evitar, por ser doloroso demais recordá-lo. Mas a angustia que o tomava não o impediu de pronunciá-lo num sussurro.
–Osamu.
Osamu Ichijouji, o gênio morto.
Por mais banal que a cena das bolhas de sabão fosse, era impossível não vê-la sem que recordações o tomassem. Uma delas, era a sua alegria ao contemplá-las, belas e translúcidas, com suas bordas refletindo as cores do arco-íris, indo em direção ao céu — isso o encantava quando menor, e o irmão ria ao seu lado, igualmente maravilhado.
“Minha infância não foi das melhores, mas não foi tão ruim...”.
Na verdade, não era apenas às boas memórias de sua infância solitária que Ken relacionava as bolhas de sabão. Ele as relacionava, também, à verdadeira face do irmão mais velho, que ele apenas podia ver naqueles momentos em que os dois se reuniam para desfrutar de um passatempo inocente e agradável. Osamu podia ser muito gentil, quando queria. Mas, quando não queria...
Na época que antecedeu sua morte, Ken não tinha idade o suficiente para compreender que, apesar de todos os elogios alheios e as notas exemplares, Osamu não era feliz. Ele não gostava de estudar, mas era parabenizado e adorado por isso, forçado pelos pais. Ser pais de um gênio aparentava ser uma ideia atraente.
Sua própria voz, muito infantilizada, ecoou em sua mente:
“Osamu tem tudo e eu não tenho nada. Seria melhor se Osamu fosse embora! Pra sempre!”
E ele realmente foi.
Pra sempre.
Ken viu que a culpa era dele quando, em seu enterro, viu o próprio reflexo na foto de seu irmão em cima de seu túmulo. Ambos pareciam tristes, apesar de Osamu estar sorrindo para ele na fotografia.
Seria aquele um sorriso de ressentimento?
A culpa da morte de seu irmão, no entanto, fora esquecida, por um tempo, graças ao email de Yukio Oikawa, que o lançou naquela aventura fatídica em que foi contaminado pela escuridão anos antes. Algumas das linhas permaneceram em sua mente:
“A morte libertou seu irmão de sua dor...” Oikawa escrevera. “Ao morrer fisicamente, seu irmão foi literalmente libertado, pois conseguiu liberdade eterna para seu espírito, enquanto você tem que continuar vivendo uma longa rotina no seu mundo... Devo dizer que isso significa a morte do seu espírito livre...”.
O resto do e-mail, contava-lhe sobre o mundo onde seu próprio espírito podia ser livre. O mundo que, com o poder concedido por uma terceira realidade, podia ser facilmente controlado... Com as Trevas. Ken, iludido — não, enganado — tomara esse poder para si e o usara para seu contentamento egoísta, mesquinho e cruel. O e-mail do homem continuava, mórbido:
“Pobre humano...”
Às vezes, parecia-lhe que sua vida era repleta de ciclos interrompidos; Osamu morreu, e o Imperador nasceu; Wormmon morreu, e o Imperador morreu junto.
Do luto, nascera o Imperador Digimon, e foi também o luto que o fez morrer.
“... Sinto pena de você.”
É, ele também sentia.
Anos após o enterro do primogênito da família Ichijouji, meses atrás quando ele tinha onze anos, a idade em que o outro sofrera o acidente fatal (e, por ironia, acabara por se tornar o fantasma vivo de seu irmão, a sombra do gênio morto), e Ken deixou de ser o Imperador para se tornar um Digiescolhido, ele teve que lidar um dilema agonizante que agora se repetia:
“Pra onde foi meu coração?”
Sim, pra onde?
Havia ficado no Oceano? Havia o coração do portador da Bondade sucumbido pelo poder das Trevas?
Não...
Na sua última batalha, ele vivera um pesadelo. Ele viu a si mesmo acorrentado em uma Torre Negra, recebendo inúmeras chicotadas dolorosas de todos os digimons que torturou sem dó nem piedade num passado obscuro. O Imperador gritava de agonia, e o Ken, de culpa. Uma culpa tão imensa que ameaçava consumi-lo. O Imperador, após ser castigado, desintegrou-se em dados na sua frente.
Então, de súbito, ele apareceu. Ele disse que Ken já havia sido perdoado por seus erros. Ele afirmou que não havia mais necessidade de se culpar. Ele restaurou, por um bom tempo, a paz no coração do portador da bondade. Ele lhe disse para seguir em frente. Ele sorria.
Osamu sorria, rodeado de bolhas de sabão.
“Mesmo sendo uma ilusão, ele não poderia tê-las feito...”
As bolhas apenas saíam se Ken as soprasse. Osamu não conseguia fazê-las durar por mais que uns segundos, antes delas estourarem perante seu rosto desiludido. Mas, Ken conseguia; sim, Ken era bom em algo que seu irmão gênio não era...E isso o orgulhava. E, quase como um esforço desesperado, convencia-se de que não fora seu orgulho que assassinara seu irmão. Não, não. Seus amigos diziam que não foi por culpa de Ken que Osamu morreu. Não foi Ken que o matou. Quem o fez foi o carro. Sim, foi o carro que o matou. Aquele carro...
Maldito carro.
Maldito motorista desatento.
Humano miserável.
–VERME!
Engasgou, horrorizado com a palavra que saíra de sua boca. Tentou convencer a si mesmo de que não havia falado.
E, então, pôs-se a andar.
***
Seus pés levaram-no para a varanda.
Aonde ele costumava... Sim, sim, era ali mesmo... Com ele...
“Na infância, eu fazia bolhas de sabão...”
Antes, as memórias eram quase meio enevoadas, desbotadas nas bordas como miragens, e tremeluziam fracamente em seus pensamentos. Agora, por causa daquela cena no parquinho, estavam nítidas e vivas. Porém, estranhamente, também estavam mais vulneráveis, como se o fato de elas se distanciarem cada vez mais dele, qualquer coisa pudesse atravessá-las. Isso quase o divertia, pois o lembrava como os feixes de luz conseguiam atravessar as bolhas de sabão facilmente, tão translúcidas quanto suas lembranças.
Antes que Ken pudesse notar, ele já havia ido à cozinha pegar um canudo e um copo. Encheu o segundo com água, para, então, com mãos trêmulas, misturá-la com sabão. Pegou uma tesoura, cortando a ponta do canudo calmamente. Era uma tarefa fácil, mas, ao mesmo tempo, matava-o por dentro. Antes, o encarregado disso era Osamu, por Ken ser pequeno demais para utilizar qualquer tipo de objeto cortante.
Mas Osamu estava morto, e ele, crescido.
Lentamente, tomou coragem para o que ia fazer, retornando logo em seguida para o local tão docemente povoado de memórias de infância. Memórias contentes. Memórias ensaboadas.
Memórias partilhadas a dois.
“Bloop” — Foi o barulho que a primeira bolha fez ao estourar. Em seguida, a segunda fez a mesma coisa. E a terceira, e a quarta; não davam certo. Ele soprava com pressa e exaspero, como se estivesse cometendo um crime imperdoável. Elas estouravam muito rápido, como pôde constatar. Ken piscou, confuso e frustrado, pois ele costumava ser muito bom naquilo.
“Por que não consigo soprar direito? Por quê?”
Novamente naquela tarde, uma voz despertou em seus pensamentos, uma lembrança:
“Você sopra com calma e gentilmente... É por isso que você consegue...”
– Osamu... — Gemeu, agoniado. Aquela voz pertencia a ele, foi o que seu irmão tinha dito quando lhe questionou se havia algo em que ele não era bom. Há quantos anos havia sido isso? Parecia quase outra vida... Sentiu algo molhado em suas bochechas. Pensou ter sido o resultado da quinta bolha estourada, seu quinto fracasso. Mas, não.
Eram lágrimas.
Por que, caramba, por quê? O quanto ele era impotente sobre o assunto... Aquilo o irritava de tal forma que ele não conseguia nem ao menos descrever. Consternado, Ken quase atirou o copo de plástico nos ladrilhos azulados da varanda, mas desistiu da ideia de pôr sua casa abaixo por aquela ira que apenas crescia — e ele dava seu máximo para aquietar seus pensamentos raivosos. Raiva não fazia bem a ele. E não fazia bem às pessoas à sua volta, principalmente se ele obtivesse acesso a um chicote. Ou ao poder das trevas. Ou a qualquer coisa que pudesse despertar seu desejo psicótico de escravizar alguém de novo ou ir dominar um mundo caso ele ficasse entediado.
Droga, seria melhor mesmo se acalmar.
Mas ele sabia que não era assim — o Imperador estava morto.
E o garoto que um dia já fora ele chorava como se provasse do próprio chicote.
***
Ele voltou ao parquinho onde as duas crianças faziam bolhas de sabão.
Um impulso incompreensível e inútil — ou seja, humano.
Sentou-se num dos bancos verdes simpáticos. Permitiu-se observá-las, numa caixa de areia.
Elas pareciam felizes.
***
Alimentado pelas ironias macabras do destino e pelo senso de humor sádico do mesmo, algo estava prestes a se repetir, e poderia ser evitado, caso alguém fosse rápido o suficiente.
Um homem dirigia um veículo, distraído, numa rua não muito movimentada. Por coincidência assombrosa, ou mesmo dando uma chance de amenizar um coração perdido na culpa, sua distração aumentou bastante em certo trecho, exatamente ao lado de um parque infantil. O homem ouvia uma música e, por um pequeno momento, sua atenção foi completamente arrancada da rua à sua frente.
E uma criança pequena surgiu na frente do carro, perseguindo uma bolha de sabão.
***
–NÃO!
Ken nunca pensou que fosse reviver a cena, e muito menos daquela forma brusca e repentina. Tudo quase ocorreu em câmera lenta, e os únicos sons dos quais se recordaria se um dia ele fosse contar isso a alguém seriam as batidas frenéticas de seu coração e pingos d’água com sabão caindo no asfalto. A maior das crianças, de uns sete anos, contente, perseguiu uma das bolhas. Ela ia em direção à rua. A mais nova, talvez de cinco ou seis anos, não percebeu o carro que vinha na sua direção.
Mas Ken percebeu. E correu, em desespero.
E atirou-se para ela, salvando-a como se salvasse seu próprio irmão dos braços da morte.
***
–Você é bondoso.
Foi o que a criança salva disse-lhe, após romper em prantos e se acalmar devido a voz tranquila de Ken. Ela tinha razão, evidentemente. Ken deu uma risada leve, sorrindo. Agachou-se e falou para ela ter mais cuidado quanto a rua, carros podiam atropelá-la se não prestasse atenção. A criança assentiu, grata pelo conselho, enquanto a outra mais nova recolhia as coisas das duas na caixa de areia do parquinho.
–Ei. — A criança mais velha puxou a manga de sua camisa, tímida.
–Sim? — Perguntou Ken suavemente.
–Você quer... — Começou, encabulada de forma infantil. Em seguida, estendeu-lhe duas coisas em sua mão. — Quer soprar bolhas de sabão?
Ken piscou para a oferta inocente, perplexo. Tentando decidir se seria estranho demais recusá-la, seus olhos desviaram-se da mão que continha um pequeno pote junto com um aro para soprar, e se encontraram com os olhos da criança mais nova. Uma felicidade e um orgulho genuínos tomaram conta de sua alma, agora mais leve.
Ah, como aqueles olhos estavam agradecidos.
“Teria eu ficado assim se alguém tivesse salvado Osamu...?”
–Quero, sim. Obrigado. — Sorriu. As duas crianças devolveram o gesto, e olhavam-no bastante ansiosas quando ele pegou tanto o pote quanto o aro, como se aquilo fosse um acontecimento monumental. Quase nervoso, não apenas pelos dois pares de pequenos olhos fitando-o com uma intensidade perturbadora, mas também se perguntando se seria capaz de fazer aquilo, Ken levou o aro ensaboado próximo aos lábios.
E soprou gentilmente; as bolhas saíram, leves, e o encantaram como há muito não faziam.
As bolhas de sabão de Ken Ichijouji, cada vez mais e maiores, sobrevoaram boa parte do céu de Tamachi e de Odaíba, como se houvesse mãos fantasmas as empurrando.
Notas finais
Notei uma coisa: Eu sou exagerada. Não está tão carregada assim, está? Está realmente angustiante como eu imaginei que estava? Eu preferia que dissessem que "não", mas, sei lá, eu tenho (muitaaaa) dificuldade em avaliar o que eu escrevo, mas acredito que não esteja tão pesada assim. (Até porque eu não conseguiria escrever algo a ponto de traumatizar ninguém nem nada do tipo kkkkkk) Eu até pensei em aumentar a classificação para +16 ou inserir o gênero "Dark Fic" mas foi exatamente ESSE o momento em que eu vi o quanto eu estava REALMENTE exagerando kkkkkkkkk. (né? :3 I need to know )
Anyways, o aviso de "Spoilers" foi por causa do episódio 23 de Digimon Adventure Zero Two que fala muito sobre a história trágica do Osamu e a relação dele com o Ken, etc, além de eu ter citado a última batalha, contra MaloMyotimon/ BelialVandemon e um trecho do e-mail do Oikawa.
Acabadas as explicações "técnicas", vamos às minhas divagações que eu sei que ninguém quer ler ;) --> Eu queria tentar enganá-los quanto o enredo e fazê-los achar que "Ken Ichijouji lembra-se de momentos compartilhados com alguém, definitivamente, muito especial" tratava-se da Miyako. Mas eu não resisti e coloquei a capa da fic sendo as bolhas de sabão do Ken e do irmão, então, não deve ter dado certo kkkkkk. Eu quis muito mesmo escrever essa fic porque não vejo muito aqui no Nyah! as pessoas explorando a relação interrompida do Ken e do Osamu, algo que eu acho muito interessante. Osamu poderia ter sido um irmão incrível... E eu gostei muito do final.
A ideia dessa one-shot (que eu sinceramente ESPERO que esteja, pelo menos, decente) veio-me quando vi meu cachorro ( ♥ ) perseguindo bolhas de sabão. De imediato, lembrou-me do Ken e do seu passatempo da infância, que também era um dos meus!!*-*
Finalizando essas notas colossais, algo me preocupa. Quando eu estava procurando saber como se escreve "Oikawa" certo - podia ser com "y", sei lá - eu fui na Wikipedia em inglês (pois ela costuma conter mais informações que a na nossa língua) e vi que existe um CD-Drama em que o Ken divaga sobre momentos com o irmão Osamu e vê o quanto está agradecido à ele. Então eu pensei "Ahhh, e se a minha fic estiver parecida demais com esse CD-Drama?" Eu pensei em escutá-lo antes de publicar, mas eu poderia acabar não publicando, então fiz isso logo mesmo. Caso queiram saber, eu NÃO me inspirei nesse tal CD-Drama, mas estou muito curiosa para ouvi-lo! Alguém sabe onde poderia ter o link, por gentiliza?
(Nossa, como isso ficou IMENSO!) Enfim, até loguinho pessoal, espero mesmo que tenham gostado! :*
B. Star Fic =)
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