Notas iniciais
Não estou muito de papo hoje. ASGDUY
Só quero agradecer por todas que apareceram. Adoro muito vocês, ok? ♥

2.

Quem é mais mau? Você que compra ou eu que vendo?

I

Duas batidas na porta interromperam sua sessão de penteado.

Abriu a porta abatido porque o lado direito parecia não ter respeito pelos pentes e parecia querer ficar bagunçado para sempre.

Ao abrir a porta branca estava esse sujeito que o aterrorizava, e mais uma vez sorria. Não disse nada e voltou para o espelho continuar a se pentear.

-Já são nove. -Anunciou Gerard entrando no lugar. O de cabelos negros se surpreendeu de encontrar um apartamento muito pequeno, em comparação ao seu. Frank não respondeu, continuou trabalhando com seu cabelo.

Por tal ignorância Gerard se sentiu com o direito de se ver através do espelho.

-Perfeito. -Sussurrou, mas ainda sim Frank lhe ouviu. Se virou rapidamente com notável chateação.

-Cara, o que você quer comigo?

Gerard se sentiu aterrorizado por esse olhar, então abaixou a cabeça e, nervoso, começou a folhear o caderno que sempre estava em baixo de seu braço esquerdo.

-Olha. -Murmurou com uma voz tremula. Estava muito vulnerável e assustado. Frank sentiu por um instante um grande arrependimento, mas pegou o livrinho e observou.

Abriu os olhos com surpresa ao encontrar um desenho que era idêntico a ele, simplesmente em cor preta. Seus olhos estavam brilhando e seus lábios mostravam um ligeiro sorriso, tinha seu piercing e até a tatuagem em seu pescoço, que era vista graças á posição em que seu pescoço estava.

-Você que fez? -Deixou de olhar o desenho para observar Gerard. Este assentiu com a cabeça.

-Você... Gostou?

-Bom -Frank sorriu. -Sinto medo por seus instintos de perseguidor, mas é muito bom. Sou Frank Iero. -Estendeu a mão direita.

-Gerard Way. -Respondeu estendendo a mão e sorrindo apenas.

-De quanto Obat você precisa, Gerard? -Perguntou interrompendo o contato das mãos e indo até o banheiro, onde escondia a mercadoria.

-Um pouco.

Quando saiu do banheiro trazia uma desses pequenos saquinhos com conteúdo vermelho. Lhe entregou esta e o caderno de desenho.

-Bom, imagino que você saiba quanto é. -Gerard assentiu com a cabeça. -Faz muito tempo que consome?

-Estou deixando.

-Está deixando? -Perguntou entre surpreso e sarcástico. -Não está fazendo um bom trabalho.

-É a ultima. -Assegurou cerrando o punho que segurava a mercadoria escarlate.

Frank sorriu. Conhecia os viciados e sempre haviam "ultimas". Todas eram as ultimas.

-Não me olhe assim. -Disse Gerard chateado, começando a se lembrar dos sermões de sua mãe, seu irmão, e começando a se sentir um lixo humano, outra vez.

-Não te olho de nenhum modo em especial.

-Você quer me repreender, como minha mãe faz. Me olha com reprovação, me vê com desprezo, como se eu fosse... Mau.

Frank sorriu simples.

-Olha Gerard, o que você deixa de fazer com sua vida é só um problema seu. Você morrerá e será infeliz. E não acredito que seja mau. Porque, de nós dois, quem é mais mau? Você que compra ou eu que vendo?

Gerard abaixou a cabeça e se deixou cair sobre o sofá, sem ser convidado.

-É que preciso tanto dela... -Murmurou com tristeza. Seu caderno caiu no chão, assim como o pequeno pacote em sua mão. -Sou muito mau. Muito mau com minha família, eu os prometi que a deixaria, mas é tão difícil. -Levantou o olhar. -Não me repreenda. -Suplicou.

-Quem sou eu pra te repreender se estou numa situação igual? -O vendedor se sentou ao lado do estranho. -Você depende do Obat para viver, eu também. Sem ela não tem paz, sem ela não tenho o que comer. No final somos dependentes das drogas.

Gerard ficou em silencio. Então deixou de pensar e ficou com a tranquilidade de estar sobre um sofá que não era o seu, ao lado do fascinante vendedor de Obat.

-Não posso me permitir te presentear o pacote, Gerard. Preciso do dinheiro.

Finalmente o de cabelos negros despertou. Tirou de seu bolso a quantidade necessária e a entregou antes de pegar o pacote e seu livro, se sentiu muito incomodado com o olhar desses olhos de cor indescritível. Pôs-se de pé e se aproximou da porta, sem se despedir, estava disposto a voltar ao seu apartamento, afinal de contas em pouco tempo sua mãe voltaria. Mas um braço sobre seu ombro fez com que se detivesse para escutar, mas sem olhar em seu rosto.

-Você tem sorte, Gerard. Tem uma família que te apoia e se preocupa contigo, mas sobre tudo, você tem opções, e essa é a magia da vida.

Logo deixou de sentir aquela mão e a voz se extinguiu. Os olhos verdes começaram a sentir a pressão das lagrimas que, rebeldes, desejavam sair. Não respondeu nada e empurrou a porta do apartamento, fechando com força, sem se importar que o olhar de Frank lhe seguia em cada um de seus movimentos.

II

Frank Iero era um excelente trabalhador, isso Big Jay sabia. Estava a poucas semanas trabalhando, mas era o mais honesto que havia conhecido. Estava, inclusive, disposto a promove-lo. Queria que vende-se Mayag, estenderia seu território e talvez o consideraria parte de sua "equipe interna". Sim, Frank Iero era um cachorro fiel.

III

-Você conhece as regras, linda. -Disse para uma ruiva com problemas alcoólicos. -Já são mais de seis da manha.

-Por favor, Frankie... -Sussurrou, se colocando em seu pescoço. -Te pagarei o dobro. -Sussurrou ao seu ouvido. -Te pagarei como quiser...

Quando a ruiva aproximou seus peitos em Frank este não pode evitar rir.

-Me dê o dobro e eu me esqueço do horário.

A ruiva lhe entregou o dinheiro e ele a entregou o pó vermelho. Era divertido negociar com viciados desse tipo, era divertido iludi-los. Era divertido até que conheceu ele.

Já tinha dois dias sem o ver e estava preocupado. Conhecer o louco da frente (como o havia denominado) havia sido o mais emocionante e reconfortante que havia acontecido. Sentiu, por um momento, a agradável sensação de ter alguém para cuidar. E era agradável porque era um de seus sonhos ter um motivo para viver, mais do que a inércia e a respiração.

Subiu á seu apartamento, fechou as cortinas e se dispôs a dormir, não sem antes colocar o alarme para despertar as 7 da tarde, era dia de suprir a dispensa.

IV

Novamente as batidas contra sua porta o acordaram e isso já estava se tornando um odioso costume. Seu relógio marcava apenas três da tarde.

Abriu a porta e sorriu ao ver ao outro lado o louco vizinho.

-Olá Gerard.

-Olá Frank...

-Quer entrar? -E se colocou de lado. Gerard entrou sem dar uma resposta. -Está bem?

-Não fumei o Obat. -Disse imediatamente.

Frank lhe fez um sinal para que se sentasse no desgastado sofá.

-Oh, vamos... Porque não o fez?

-Não sei... Eu só... Não quis fazer. Não quero ser mau.

-E lá vamos nós com o bom e mau...

-Você não entende Frank. Quando não faz feliz as pessoas que ama, e que te amam, está sendo mau.

-Você tem razão, Gerard. -Respondeu depois de uns segundos em silêncio. -Não o entendo, porque sempre estive só, mas me alegra que não tenha consumido, ainda que isso possa significar uma perda para mim. -E sorriu.

Gerard finalmente relaxou.

Depois de sair do apartamento do vendedor teve um forte debate mental entre seguir seus impulsos, ou pensar. Colocou tudo em uma balança, em que, aparentemente, pesava mais sua necessidade por Obat, sua vontade crescente e a dor de cabeça constante. Por outro lado estava sua mãe e seu irmão, que trabalhavam desde o amanhecer até que o sol se ocultasse, só por ele. Nunca reclamaram por ter sido dependente de drogas, nem o menosprezaram, o apoiaram, aconselharam e lhe deram a confiança para deixa-lo só. Ainda que lhe dissessem que de nada adiantaria se martirizar, era inevitável fazê-lo, sabendo a grande família que tinha. Foi nesses momentos que o entendeu. Supôs que sua opção era se deixar arruinar toda a luta ou tentar ser bom e fazê-los se sentir felizes e orgulhosos.

Quando as opções se apresentaram tão claras perante ele já não foi tão difícil se decidir.

Guardou a droga em uma caixa e pegou de novo o caderno. Subiu para até a cobertura do edifício e pintou o céu sem estrelas, o céu nublado do meio dia e o alaranjado de um amanhecer. Nunca havia desenhado tanto, e jamais havia sentido tão feliz sem estar intoxicado pelo Obat quando Mikey chegou e lhe mostrou seus desenhos. Seu irmão o abraçou e lhe deu beijos no cabelo. Sua mãe até cantava, definitivamente Gerard gostava de ser bom. (Por agora).

-Gerard... -Chamou pela quarta vez até que o citado decidiu voltar a vê-lo. -Você ficou muito pensativo.

-Sim, desculpe.

Frank o olhava e não entendia. Onde estava o sorriso maníaco?

-Quer ir ao supermercado comigo? -Perguntou tratando de conhecer o louquinho em uma situação normal. Havia algo se revoltando em suas extremidades, em seu pescoço e tórax, que lhe dizia: não o deixe ir até saber um pouco mais e se arrepender, ou se encantar. Essas eram as opções.

-Porque?

-Porque o que?

-Porque quer ir ao supermercado comigo?

-Te dou uma opção. A outra é voltar ao seu apartamento.

Gerard sorriu ao homem das opções e assentiu com a cabeça.

-Vamos ao supermercado.

V

Havia muito tempo que Gerard não visitava um lugar assim.

Um lugar mais adiante da esquina de seu edifício e com mais pessoas que seu irmão e sua mãe.

No estacionamento pode reconhecer dois rostos. Atirados sobre o asfalto e apoiados um no outro Gerard reconheceu seus antigos amigos, Liam e Christian. Dois jovens de sua idade que o acompanharam nos últimos meses de diversão. Frank lhe seguia, apesar de que Gerard se dirigia a parte central do estacionamento.

-Liam, Chris... -Disse e os garotos abriram os olhos para vê-lo. Mostraram enormes sorrisos e Gerard pode ver linhas vermelhas no branco de seus olhos. -O que aconteceu com vocês?

-Gee! -Gritou Liam que era um loiro e de olhos azuis. -Onde você estava? Nós tivemos uma noite... Grandiosa!

O loiro soltou uma gargalhada e Chris, que tinha cabelos castanhos e olhos escuros, começou a gritar sem motivo aparente.

Uma mão em seu ombro o tirou de seu sonho.

-Gerard, -Disse Frank. -vamos, temos que continuar.

O de cabelo negro assentiu e deixou seus "amigos" sem se despedir. Agora só podia pensar se quando fumava Obat se estaria tão patético. Logo se perguntava o que haveria acontecido se tivesse fumado o pó vermelho que tinha comprado.

-É triste. -Disse Frank. -Muitas pessoas aqui consomem drogas. Quase todas, na verdade, mas não pode continuar quando isso pode te provocar ficar tão afetado como aqueles estão. São boas pessoas, que não tem nada porque lutar.

-Você tem? -Perguntou Gerard.

Frank só pode desviar o olhar, como se buscasse um carrinho para fazer compras. Uma vez dentro da loja e com meio carrinho cheio o vendedor de Obat continuou sem responder.

Como Gerard conseguiu penetrar em sua capa de indiferença? Como uma pergunta não brusca, e com a voz suave, pode lhe remoer tantos sentimentos?

Sua pequena vida vazia estava bem. Mas, se tudo estava bem, porque queria chorar?

"Viver por viver, fazer por fazer, respirar por respirar. Isto é uma vida?"

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Pagou ao caixa e Gerard o ajudou com as sacolas. Ao chegar ao apartamento deixou as sacolas sobre a mesa e saiu. Tinha muito que pensar e a presença de Frank o asfixiava, seus olhos lhe incomodavam, eram tão transparentes que parecia que havia adquirido a habilidade de ler a mente, como Mikey. E agora seus olhos só diziam uma coisa: Deixe-me só.

VI

Talvez seu trabalho estivesse na corda bamba, mas ele não tinha vontade de sair.

Havia ficado a noite inteira abraçando o travesseiro, sua única companhia, e ao que parece, seu único motivo para lutar.

-Você sofreu como eu sofro agora, Gerard? -Sussurrou com uma voz rouca e apertada, resistindo para não chorar. -Te fiz bem em abrir os olhos? Doeu em você como em mim?

"Nós estamos nos salvando ou nos destruindo?".

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No próximo...

3.

Você não é mau, só está sozinho.

-Gerard... –Fechou a porta e se aproximou dele. Tomou, entre as mãos, seu rosto e lhe lançou um olhar melancólico. –Você fumou Obat. –Assegurou.

-Sim. –Assentiu com a cabeça. –E foi maravilhoso, e estou voando!

Notas finais
E então? Reviews?