Lei de Murphy
1 Capítulo Único - Lei de Murphy
Notas iniciais
Bem-vindos à um passeio pela minha mente louca e levemente interessante.
Devo um agradecimento especial para minha amiga Ylla por me desafiar a sair da minha zona de conforto e escrever uma Angst, o que foi bem difícil, mas é sempre bom ter experiências diferentes...
Espero que... Mas uma vez, não sei se "gostar" é o verbo certo, então... Espero que sintam.
Enfim, boa leitura.
16 de julho de 2015
Olá diário.
Eu acabei de te comprar no caminho entre a escola em que estudo e a minha casa. Há tempos estou precisando de alguém pra conversar. Alguém que não me ache maluca.
Considerando que estou fazendo isso com um caderno branco com a estampa cheia de florzinhas e um cadeado que uma criança de sete anos pode quebrar se quiser, acho que talvez eu possa ser meio doida mesmo. Mas você tá aqui pra me ajudar a não ficar ainda mais. Sem julgamentos.
Pra começar, vou te dar um nome. É esquisito falar como se você fosse uma pessoa de verdade e ficar te chamar de “diário”. Mas a dúvida é: que nome escolher?
Levei bastante tempo pra pensar até decidir. Sério! Mas acho que Murphy vai encaixar como uma luva. Afinal, eu vou escrever sobre a minha vida que é a prova definitiva da Lei de Murphy.
Bom, Murphy... O meu nome é Thalita Emmanuelle de Assis Mourão, tenho 17 anos e faço o primeiro ano do Ensino Médio (sim, sou repetente). Não sei exatamente quando tudo começou a ir por agua a baixo, talvez tenha sido no mesmo dia em que parei de me importar, sei lá. Só sei que não consigo fazer nada dar certo e me sinto realmente estranha sobre isso.
Na verdade, eu não me sinto nem feliz, nem triste. Sinto apenas que existo. Parada no tempo. A cabeça um caos, mas o corpo não faz nada. É horrível.
Nunca disse isso pra ninguém e estava meio que me consumindo. Valeu por me ouvir, Murphy. Ajudou muito.
Atenciosamente, Lita.
3 de agosto de 2015
Oi, Murphy.
Eu disse que sempre me sentia estranha e que nada na minha vida dá certo tantas vezes que você já estaria cansado de ouvir se fosse uma pessoa de verdade, mas hoje fui um pouco mais além que o normal.
Pra ser mais específica, pela primeira vez pensei sobre suicídio.
Na verdade não foi exatamente pensar sobre. É que eu estava no ônibus voltando da casa de uma amiga e tinha uma garota que estuda alguma coisa envolvendo anatomia humana e uma outra guria conversando (o porque delas estarem falando disso, eu não faço a mínima ideia), então eu acabei ouvindo a garota falar que era bem mais prático se matar enforcado se atirando de algum lugar com a corda no pescoço do que se pendurando nela porque quando o suicida se joga, o peso do corpo e a velocidade do impacto faz com que o pescoço quebre e a pessoa morra de uma vez ou ao menos perca a consciência. Já quando a pessoa se pendura, demora vários minutos pra pessoa sufocar e por fim morrer, sendo extremamente doloroso e dando a possibilidade maior de ser salva antes que a luz se apague pela eternidade.
Enquanto eu ouvia aquilo, comecei a meio que gostar de saber sobre essa informação. Quando percebi isso, tentei ignorar a conversa delas, mas simplesmente não consegui.
Estou muito assustada até agora. Juro pra você, Murphy, minhas mãos estão tremendo sem parar há mais de uma hora.
Espero de coração nunca mais pensar em algo do tipo. Vamos cruzar os dedos. Opa. Que insensível eu fui agora. Você não tem dedos, né amigão? Me desculpa. Por um segundo eu me esqueci desse detalhe. Esquece o que acabei de dizer, só... Vamos torcer juntos.
Eu to começando a achar que devo ser doida de verdade. Tipo, é bem provável que eu tenha algum problema mental, uma doença psicológica e tals.
Mas obrigada por me ouvir, Murphy. Ajuda muito.
Atenciosamente, Lita.
21 de agosto de 2015
Hello, Murphy.
Desculpa por passar alguns dias sem te visitar. Andei bem ocupada por causa da porra das provas e mais uma vez tá tudo uma merda.
Já perdi as contas de quantas vezes minha mãe gritou comigo essa semana e meu pai mal olha na minha cara. Não só me sinto um lixo agora, eu provei de novo pra mim, pros meus professores e pra minha família que não passo de um saco de bosta mesmo.
Comecei a pensar outra vez naquela conversa daquelas duas garotas no ônibus umas semanas atrás. A ideia me pareceu tentadora mais de uma vez.
Eu tenho 17 anos, Murphy. E uma vida inteira pela frente. Porque fico pensando nisso, cara? P-O-R-Q-U-E?
Isso nem deveria me passar pela cabeça, eu tinha que estar focada na faculdade, em arrumar um emprego ou algo assim, mas tudo que consigo pensar é em dormir. A maior parte do tempo, eu não me sinto feliz. Eu não me sinto nem triste. Na verdade, eu não sinto nada.
Eu só existo, Murphy. Existo sem nem saber o porquê. Eu não sinto vontade de existir.
12 de novembro de 2015
Yo, Murphy.
Hoje eu deveria estar triste porque recebi algumas notas desse bimestre e não estão das melhores, falando de um jeito bem gentil ainda, mas, na verdade, eu ri durante quase todo o caminho de volta pra casa. Sabe por quê? To rindo alto até agora, mas relaxa, ainda consigo te contar. Preparado?
A minha professora de Biologia, Ana Júlia Nunes, veio só hoje conversar comigo, após vários bimestres com minhas notas uma desgraça, pra dizer que eu sou ótima, quietinha e comportadinha e que ela não entende porque meu rendimento tá tão baixo ULTIMAMENTE (sim, ela usou mesmo a palavra “ultimamente” na frase) sendo que posso ser muito melhor do que isso e bla e bla, etc. e tal.
PORRA! É ou não é uma lerda, Murphy? kkkkkkkkkkk
Sorte que essa retardada é gata pra caralho. Acho que ela deve ter uns trinta anos por aí, tem um cabelão preto que passa da cintura, quase chegando na bunda (e que bunda), olhos cor de esmeralda, pele da cor de caramelo e um belo par de peitos que me faz duvidar e muito da minha heterossexualidade.
Vou parar por aqui porque isso já tá ficando meio esquisito. Mas pelo menos foi bom rir um pouco nessa minha vidinha de merda.
Te vejo amanhã, Murphy.
Atenciosamente, Lita.
20 de novembro de 2015
Murphy, cara! Você não vai acreditar!
Eu te falei daquela professora retardada, a Ana Júlia, e agora eu entendi porque ela fez questão de falar comigo tarde demais.
Fui a única que ficou de recuperação em Biologia, então a prof liberou todo mundo pra ir pra quadra e trancou a porta quando ficamos sozinhas. Os vidros das janelas quebraram (na verdade foram quebrados) logo no começo do ano e por falta de grana, substituíram tudo por um monte de pedaços de papelão colados com durex, então não dava pra ninguém ver a gente lá dentro.
Aí do nada, a mulher começa a passar a mão em mim e dizer que era realmente triste uma garota tão bonita quanto eu (acho que ela usa droga, só pode) perdesse um ano inteiro da vida por reprovar e que ela poderia me ajudar aplicando uma prova de anatomia.
PRÁTICA!!!
Murphy, eu to chocada até agora. Mas pelo menos o meu nível subiu, né? Saí de casa de manhã sendo um saco de lixo e voltei sendo um pedaço de carne.
Eu não aceitei, é óbvio, e agora tenho três dias pra estudar a porra da matéria que não aprendi em dois caralhos de meses. To fodida nessa merda.
Vou nessa porque, evidentemente, eu preciso estudar. Pra caralho.
Atenciosamente, Lita.
23 de novembro de 2015
Murphy, eu acabei de voltar da escola, to até de farda ainda e não to nada bem, sério. Quando chegou a hora de fazer a porra da prova de Biologia hoje, a professora trancou a porta e me entregou aquele maldito papel, olhei bem pras perguntas e não tinha um caralho de uma questão sequer que eu soubesse responder.
Levantei a mão e a Ana Júlia disse “Sim, Thalita?” e eu falei “Bom, eu... Queria saber se ainda posso optar por fazer a prova prática?”, então ela sorriu de um jeito safado e respondeu “Claro que pode. Se assim desejar.” Foi aí que eu engoli a minha dignidade a seco e disse “Eu quero, por favor.” Ela levantou da cadeira dela e veio até a minha já abrindo a blusa “Vou te dar uma aulinha primeiro e então você pode fazer sua prova”.
Nunca pensei que ia perder minha virgindade assim. E eu nem to falando só de transar com alguém, to falando de perder o cabaço mesmo. Ela meteu fundo os dedos em mim, chega eu voltei pra casa andando com as perna um pouco separadas.
Foi estranho sentir o gosto e a textura de... Tipo assim... Uma outra mulher em contato direto com a minha língua. Não diria que chegou a ser ruim, exatamente, mas... Que foi bem estranho, isso com certeza foi.
Você tem noção do que acebei de contar, Murphy? Deixei uma professora me comer por nota. Eu literalmente me prostituí.
EU ME PROSTITUÍ POR UMA PORRA DE OITENTA EM BIOLOGIA, MURPHY!!!
E ainda por cima, meio que gostei. Argh! Que tipo de doente eu sou? Quando foi que me tornei essa decepção pra minha família? Realmente acho que fui um erro do universo ou algo assim porque não é possível que alguém nasça pra ser um pedaço de carne.
Vou tomar um banho com agua bem quente e bastante sabonete, me jogar na cama e tentar apagar essa tarde da minha mente. Te aviso se eu tiver algum sucesso.
Atenciosamente, Lita.
30 de novembro de 2015
Descobri que, na verdade, eu precisava de oitenta e três, não de oitenta, pra passar de ano em Biologia.
A professora Ana Júlia passou outra prova prática e oral de anatomia feminina como recuperação final. Tirei 95, mas estou me sentindo péssima, Murphy. Estou com um tremendo nojo de mim mesma.
Mas quem liga? Eu passei. Finalmente saí da merda do primeiro ano. Agora é só passar a merda do segundo ano, depois a merda do terceiro, aí ir pra merda da faculdade, arrumar a merda de um emprego e vender a alma todo dia pro Diabo por uma merda de salário. Eba!
5 de fevereiro de 2016
Oi, Murphy.
Depois de meses pensando em suicídio várias vezes ao dia todos os dias, decidi pedir ajuda pros meus pais. No auge do meu desespero, pedi pra eles me pagarem um psicólogo ou alguma coisa do tipo, mas advinha se deu certo ou não? Como absolutamente tudo na minha vida, é claro que não deu, né?
Sabe o que o meu pai fez? Me deu um tapão ao pé do ouvido e mandou eu parar de frescura e preguiça porque eu já sou quase de maior e “não tenho mais idade pra fazer birra e ficar de corpo mole”. Claro, porque eu adoro ter péssimas notas, me sentir um lixo e desejar ardentemente um date bem gostosinho com a morte.
Minha mãe só ficou sentada lá, me encarando com aquela cara de decepção.
Eu não sei mais o que fazer, Murphy. Não sei mesmo.
14 de abril de 2016
Oi, Murphy, sentiu saudades?
Desculpa não ter falado com você durante as duas últimas semanas. Estive no hospital me recuperando da minha primeira tentativa de suicídio. Eu não podia dizer pra pegarem você e te levarem pra mim porque teria que contar onde te escondo e é bem provável que depois de eu quase morrer, alguém iria querer te abrir pra descobrir os pensamentos mais obscuros da minha mente perturbada. Você sabe todos e é o único guardião deles, Murphy.
Bom, você e os outros você que não tinham mais páginas pra continuar nossos “papos” íntimos. Mas todos os outros são partes suas também, então você é o único.
Enfim, pelo menos agora eu finalmente consegui um acompanhamento psicológico e receitas de antidepressivos tarja preta, fortíssimos, pesados e cheios de possíveis e até mesmo prováveis efeitos colaterais. Yeeeeeeeey!
Me deseje sorte nessa nova jornada da minha vida, Murphy.
Atenciosamente, Lita.
11 de janeiro de 2017
MURPHY!
Eu to muito desesperada, cara. Meus pais disseram que eu já estou bem e que eles não precisam mais gastar dinheiro com psicólogo, psiquiatra e nem remédio.
Juro que tentei argumentar, dizer que depressão precisa de tratamento constante e o meu pai disse “Isso é papo furado de médico ladrão querendo empurrar remédio nos outros pra manter os acordos com as indústrias farmacêuticas, filha. Relaxa.”.
Eu não quero voltar a ser como eu era antes. Não quero me sentir daquele jeito outra vez, Murphy.
3 de março de 2017
Acabei de tomar minha última pílula do meu último frasco. Não tenho mais receitas e nem como conseguir mais. Não sei o que esperar daqui pra frente, Murphy. Na verdade eu sei, né? Mas preferia não saber.
20 de março de 2017
Não aguento mais me sentir uma casca vazia e sem emoção. Nada no mundo parece ter cor ou sentido quando estou acordada. Só quero ficar na minha cama o dia todo e dormir, mas não consigo porque sei que tenho mil e uma coisas pra fazer e a culpa por não fazer nada me consome dia e noite, o tempo inteiro.
1 de maio de 2017
Hoje decidi chamar a garota mais bonita da minha sala, a Victoria Guimarães, pra sair por que se ela aceitar o meu convite, eu vou ter algo pra me deixar feliz e se não aceitar (o que é bem provável), eu vou ter um motivo pra ficar triste. Eu só quero sentir alguma coisa.
Me deseje sorte, Murphy.
Atenciosamente, Lita.
...
Voltei, amigão.
Por incrível que pareça, ela aceitou. Na hora eu até me animei, mas depois voltei a não sentir absolutamente nada. Não me entendo, na moral.
Atenciosamente, Lita.
8 de junho de 2017
Eu e a Vic transamos pela primeira vez. Ela é muito boa nisso, mas as vezes me vinham flash’s da Ana Júlia e eu me sentia nojenta. Você sabe que nunca falei disso pra ninguém, nem pro psicólogo nem pra psiquiatra, então é meio difícil de superar. Mas você também sabe que eu meio que gostei de fazer aquilo e não seria justo acabar com a vida dela por causa disso.
Atenciosamente, Lita.
19 de agosto de 2017
A Vic começou a namorar com um cara da nossa escola que é um tipo de “famosinho do facebook”, o tal do Miguel Cantas. E sabe o que ela me disse quando perguntei se ela tinha medo de sair do armário e como nós vamos ficar daqui pra frente?
“Olha, Lita, meus pais até que são de boas, mas nós ainda estamos no ensino médio. Eu sei que é uma droga e ridículo agir desse jeito superficial, só que não dá pra negar que aqui status é uma coisa importante. Você sabe que eu gosto de você pra caralho, mas... Não posso abrir não disso. Se quiser continuar comigo, vai ter que ser nesses termos, entende?” Depois colocou os fones e ficou lá, cantarolando Save Myself do Ed Sheeran como se não tivesse dito nada de mais, como se meus sentimentos fossem nada.
Dá pra acreditar, Murphy?!
Mas acabei topando porque depois de tanto tempo eu estou... Alguma coisa próxima de “feliz” porque finalmente estou sentindo alguma coisa. Uma coisa muito forte, muito mais forte do que qualquer coisa que eu já senti antes.
RAIVA!!!
Não é bem isso que eu queria sentir, né amigão? Mas é bem melhor do que não sentir nada além de um sono sem fim e uma vontade monstruosa de morrer.
Até mais, Murphy.
Atenciosamente, Lita.
Notas finais
xoxo
Atenciosamente, Leonardo Guedes.
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