O corredor que levava aos aposentos da princesa estava mergulhado em um silêncio opressor. Os guardas, sob ordens anteriores, apenas assentiram quando Arthur se aproximou. Ele não trazia relatórios ou espadas; trazia apenas o peso de uma decisão que sua mãe o ajudara a tomar.

​Ele parou diante da porta de carvalho entalhada com o brasão da loba. Por um momento, sua mão hesitou no ar. O Capitão de Mármore sentia as rachaduras aumentando. Ele respirou fundo e bateu. Três vezes. Firmes.

​Não houve resposta. Ele girou a maçaneta e entrou.

​O quarto estava na penumbra. O cheiro de incenso queimado e o ar parado denunciavam o isolamento de Siena. Ela estava encolhida no divã perto da janela fechada, envolta em uma manta pesada, olhando para o vazio. Ao ouvir os passos, ela não se virou. Achou que era apenas mais uma criada com uma bandeja de comida que seria ignorada.

​— Você precisa comer, Siena — a voz de Arthur ecoou, baixa mas cortante.

​Siena estremeceu. Aquela voz, que ela não ouvia direcionada a si há dias, agiu como um choque elétrico. Ela se virou lentamente, os olhos inchados e a pele pálida, encontrando o primo parado no centro do quarto.

​— Veio conferir se a loba finalmente morreu de fome? — ela sussurrou, a voz falha e sem a ironia habitual.

​Arthur caminhou até a janela e, com um movimento decidido, abriu as pesadas cortinas. A luz do fim da tarde inundou o quarto, fazendo Siena cobrir os olhos.

​— Vim conferir se você finalmente parou de ter pena de si mesma — ele rebateu, aproximando-se dela. Ele não se sentou; permaneceu de pé, imponente. — O silêncio parece ter feito o que meus gritos não conseguiram: te fez pensar.

​Siena baixou a manta, revelando o quanto parecia pequena e vulnerável naquela imensidão de seda.

— Eu pensei. Pensei em cada palavra que você me disse no estábulo. E pensei no que eu fiz. Eu sinto... eu sinto tanto nojo de mim mesma, Arthur.

​Arthur sentiu um aperto no peito que sua disciplina tentou sufocar. Ele se ajoelhou diante dela, não por submissão, mas para ficar na altura de seus olhos.

​— Me olhe — ordenou ele.

​Siena hesitou, mas obedeceu.

​— O que você fez foi perigoso, Siena. Não só para a sua reputação, mas para nós — ele começou, a voz perdendo a aspereza e ganhando uma honestidade crua. — Você invadiu meu espaço, testou minha honra e me tratou como se eu fosse um objeto para o seu entretenimento. Eu tive raiva. Muita. Mas o meu silêncio não foi só punição. Foi medo.

​— Medo? — ela repetiu, confusa. — Você não tem medo de nada.

​— Eu tive medo do que eu quase fiz — Arthur confessou, os olhos escuros fixos nos dela. — Quando você estava ali, sobre mim... eu tive que lutar contra cada instinto meu para não corresponder. Porque se eu correspondesse, eu estaria selando o seu destino e o meu de uma forma que não haveria volta. Eu te protegi de mim mesmo, Siena.

​Siena sentiu as lágrimas transbordarem. Ela estendeu a mão, hesitante, e tocou o braço de Arthur. Desta vez, ele não recuou.

​— Eu não queria ser um fardo, Arthur. Eu só... eu me sinto tão sozinha nesta coroa. E você era a única coisa que parecia real.

​— Eu sou real — disse ele, segurando a mão dela com firmeza. — Mas se você quer que eu esteja ao seu lado, precisa parar de agir como uma criança que incendeia a própria casa para ver o fogo brilhar. Uma rainha não invade; ela conquista. Uma rainha não se embriaga de vinho; ela se embriaga de propósito.

​Siena assentiu, as lágrimas lavando parte da culpa.

— Você ainda me odeia?

​Arthur soltou um suspiro longo, e pela primeira vez em dias, um pequeno e quase imperceptível sorriso de canto apareceu.

​— Eu nunca odiei você, Siena. Eu só odiei o que você estava fazendo consigo mesma.

​Ele se levantou e estendeu a mão para ela.

— Agora, levante-se. Lave esse rosto e coma. Seus pais estão lá embaixo fingindo que não sabem de nada porque minha mãe os proibiu de intervir, mas Caelum está a um passo de derrubar esta porta.

​Siena segurou a mão dele e se levantou, sentindo as pernas ainda um pouco fracas, mas a alma mais leve.

— Arthur?

​Ele parou na porta e olhou para trás.

​— Eu vou tentar ser a rainha que você espera — ela prometeu.

​— Não seja a rainha que eu espero — ele respondeu, com o brilho de desafio voltando aos olhos. — Seja a rainha que Astúria teme que você se torne: indomável, mas justa. E, Siena... — ele fez uma pausa — da próxima vez que quiser me visitar à noite, tente usar a porta. E esteja sóbria. Eu prefiro a sua companhia quando você sabe exatamente o que está me dizendo.

​Ele saiu, fechando a porta silenciosamente. Siena respirou fundo, o ar do quarto agora parecendo limpo. O Falcão tinha dado o mapa; agora cabia à Loba decidir se seguiria a trilha ou se criaria o seu próprio caminho. Mas, pela primeira vez, ela sabia que não caminharia sozinha.