O clima no castelo de Astúria havia mudado drasticamente, e não era apenas por causa do degelo da primavera. Havia algo no ar, uma cadência diferente nos passos de Arthur e uma suavidade inédita em seus traços.

​Nos corredores, quando ele e Siena se cruzavam, não havia mais o silêncio gélido ou as discussões acaloradas. O que restava era algo muito mais perigoso para quem tentava manter um segredo: o sorriso. Não era um riso aberto, mas aquele repuxar de lábios cúmplice, um brilho nos olhos que durava apenas um segundo antes de voltarem às suas obrigações.

​Naquela tarde, a reunião na sala de mapas era estritamente masculina. Caelum, Julian, Richard e Gaspar estavam debruçados sobre pergaminhos, mas a atenção deles desviava constantemente para o jovem oficial no canto da mesa.

​Arthur estava terminando de lacrar uma mensagem. Ele não estava carrancudo. Pelo contrário, parecia absorto em um pensamento distante, com um brilho no olhar que o tornava quase... humano.

​— Arthur — chamou Richard, com um sorriso malicioso e arqueando uma sobrancelha. — Você parece muito satisfeito com essas rotas comerciais. Ou será que o ar do Norte finalmente amoleceu esse seu coração de pedra?

​Arthur ergueu os olhos, recuperando a compostura instantaneamente, mas o brilho não desapareceu.

— Apenas eficiência, tio. É satisfatório ver os planos se concretizarem sem obstáculos.

​— Eficiência, sei... — ironizou Julian, cruzando os braços e trocando um olhar divertido com Caelum. — Eu conheço esse olhar, meu filho. É o mesmo olhar que eu tinha quando sua mãe dizia que ia "estudar botânica" nos jardins e eu sabia exatamente onde encontrá-la.

​Caelum soltou uma risada curta, observando o sobrinho com curiosidade renovada.

— Confesse, Arthur. Há uma nova luz em você. Alguma dama da corte tem enviado cartas para o quartel? Ou talvez alguma nobre das Terras do Sul chamou sua atenção durante o jantar?

​Arthur manteve a expressão firme, embora uma leve coloração tenha subido por seu pescoço, algo que ele tentou disfarçar ajustando a gola da túnica.

— Meus únicos compromissos são com o exército e com a proteção da coroa, Majestade. Não há nada a relatar além de dever e disciplina.

​— Ah, pare com isso! — exclamou Gaspar, o General Emérito, batendo na mesa com bom humor. — Nem o melhor soldado consegue esconder o rastro de uma batalha vencida no coração. Você está diferente, rapaz. Está mais... calmo. Menos "mármore" e mais "carne e osso". Quem é ela?

​Arthur deu um meio sorriso, um vislumbre daquela provocação que Siena tanto gostava.

— Um bom estrategista nunca revela suas posições antes da hora, General. O fator surpresa é a arma mais poderosa em qualquer campo.

​— Ele não vai contar — bufou Richard, rindo. — Ele é um Mackenzie puro. Teimoso como uma mula quando decide guardar um segredo.

​— Deixem o rapaz — disse Caelum, embora seus olhos estivessem semicerrados, analisando cada movimento de Arthur. — Se houver algo que ameace — ou fortaleça — este reino, ele nos dirá no momento certo. Mas cuidado, Arthur... as paredes deste castelo têm ouvidos, e os olhos da Rainha Catarina são mais afiados que qualquer espião inimigo.

​Arthur fez uma reverência curta, pegando seus mapas.

— Vou levar esses avisos em consideração, Majestade. Se me dão licença, preciso conferir o treinamento da guarda... e talvez respirar um pouco do "ar revigorante" dos jardins.

​Quando ele saiu, Richard virou-se para Julian.

— Eu aposto dez moedas de ouro que tem uma mulher envolvida. E aposto mais dez que ela é a razão de ele estar tão... "estratégico" ultimamente.

​Julian suspirou, um sorriso orgulhoso no rosto.

— Não importa quem seja, Richard. Pela primeira vez desde que voltou, meu filho parece que realmente encontrou um motivo para querer ficar em casa.

​Mal sabiam eles que a "razão" estava, naquele exato momento, observando o pátio de uma das janelas superiores, esperando apenas o cair da noite para testar novamente a tão aclamada "disciplina" do Falcão.