Legado

3 Capítulo 3


Após algumas horas de conversa, Agnes acompanhou Nero até a casa do mesmo. Os dois conversavam sobre tudo, o que a surpreendeu, já que imaginava que não seria tão bem recebida quando encontrasse o filho. Assim que adentraram a simples casa, uma jovem de cabelos castanhos surgiu com um leve sorriso, a moça recebeu Nero com um abraço:

—Kirye, eu quero que conheça Agnes. Ao que tudo indica, ela é a minha mãe. — Nero apresentou.

—Olá Kirye, o Nero não parou de falar de você nem um minuto sequer. — Agnes se aproximou da moça e a abraçou.

—Ah meu Deus, Nero, você é bem mais parecido com a sua mãe do que com seu pai. — Kirye falou olhando para a morena a sua frente. — Espere aí, eu acho que estou te reconhecendo…

—Será que me conhece de algum lugar? — Agnes brincou.

—Agnes...Xanthos?

—É o meu nome de solteira, mas que uso no meio artístico.

—Ah nossa! A mãe do meu marido é uma cantora famosa! Não acredito!

—Não exagere, eu sou apenas eu. — Agnes segurou as mãos de Kirye. — Obrigada por cuidar do meu filho.

—Eu amo ele, e faria de tudo para vê — lo bem e feliz.

—Nossa, eu já adorei você, de cara. — Agnes sorriu. — Então, já que estou pagando pelos serviços do meu filho, eu convido vocês dois para passar alguns dias lá em casa.

—Mas isso não é longe? — Nero perguntou.

—Eu aluguei uma casa na área nobre da capital. Estou tirando alguns dias de férias, estou apenas eu e meus funcionários, em uma casa enorme com jardim e piscina. Não gostariam de me fazer compainha?

—Kirye, isso é por sua conta. — Nero olhou para esposa que abriu um largo sorriso.

—Acho que seria bom vocês passarem um tempo juntos. — A moça respondeu.

—Enquanto isso, posso providenciar um teste de DNA para excluirmos quaisquer dúvidas e claro, quero que herde tudo que eu tenho. — Agnes explicou.

—Por mim tudo bem.

Em pouco tempo o casal arrumou algumas malas e logo estavam em um táxi rumo a mansão de Agnes. A casa se destacava entre as outras, por ser de cor clara e ter um jardim de cores bem vivas. Como era longe do centro, o local era tranquilo e o ar era limpo e perfumado pelas flores dos canteiros cuidados pelos moradores.

Assim que o táxi parou à frente da enorme porta branca da entrada principal da casa, um mordomo de meia idade surgiu cumprimentando Agnes respeitosamente:

—Sebastian, esses são Nero e Kirye, eles vão passar alguns dias conosco. — A cantora falou indicando o casal ao seu lado.

—Sejam bem vindos. — O mordomo cumprimentou.

—Obrigado. — Nero cumprimentou sem jeito e Kirye sorriu, se agarrando mais ao braço do marido.

—Logo mais vocês irão conhecer a Scarlet, minha secretária. Ela deve cuidar da nossa burocracia, Nero. — Agnes passou a andar a direção da casa. — Entrem, a casa também é dos dois. — Ela falou animada e o casal a seguiu.

A morena levou o casal para fazer um tour pela casa, e só pararam quando Sebastian avisou que o almoço estava pronto. Agnes contou ao casal detalhes de como foi a gravidez de Nero e como ela foi atacada. O desespero da procura. Como ela acabou se casando e as tentativas frustradas de engravidar. Contou sobre a carreira, da banda onde estourou até a carreira solo e como atualmente ela se mantinha.

Nero estava encantado pela mulher que dizia ser sua mãe, e ele implorava as forças do destino para que nada daquilo fosse mentira. Havia muito tempo que ele havia desistido da ideia de ter uma família, mas agora ele tinha uma, e parte dela estava ali, sentada a uma mesa com ele, conversando sobre fatos que deveriam fazer parte da vida dele. Após muito conversar, ela fez a pergunta crucial:

—E onde se encontra o infeliz do seu pai?

—Preso no inferno. — Ele respondeu segurando a mão de Kirye, que apertou de volta. — Ele e o Dante ficaram lá para fechar o portal que o próprio idiota criou.

—É a cara dele fazer esse tipo de merda. — Ela tomou mais um gole do vinho que havia sido servido. — Quer tirar ele de lá?

—Hã?

—Eu gostaria de dar uma boa surra nele, não quer fazer isso também?

Nero passou a gargalhar deixando a esposa e a suposta mãe pasmas:

—Desculpe, é que, eu entendo o porquê ele ter gostado de você. — Nero falou. — Mas a minha resposta é sim, eu gostaria de trazer os dois de volta. Sinto falta do Dante…

—Não só você, querido, todos nós sentimos. — Kirye completou.

—Nós? — Agnes fitou o casal curiosa.

—Dante reuniu um grupo interessantes de pessoas ao redor dele, essas pessoas acabaram se tornando a nossa família. — A esposa de Nero respondeu.

—Esse Dante parece ser alguém interessante.

—E ele é seu fã. — Kirye sorriu.

—Já gostei dele.

—Vai querer matá — lo dois minutos depois de conhecê — lo. — Nero falou revirando os olhos.

—Não foi o que ocorreu com a Nico. — Kirye o empurrou de leve.

—Ela é doida, então não conta. Mas então, como podemos tirá — los de lá?

—Simples, vamos invocá — los, assim se abrirá um portal para que eles voltem. Só que tem que ser um belo portal, sólido o suficiente para os dois passarem. — Agnes explicou.

—Mas como vamos encontrá — los? Eles podem estar em qualquer lugar lá.

—Então, todo demônio é um ser etéreo que pode assumir uma forma física. Você é físico por ser mais humano que demônio, porém quando você entra no modo demônio já é outro tipo de matéria. Resumindo, assim como eu faço com meus outros seres, eu posso fazer com demônios também, desde que eu tenha o selo deles e uma forte ligação.

—Selo? Nós não temos selo.

—Ah, mas claro que tem. É como se fosse a digital dos outros mundos.

—Você falando assim, o que você é, Agnes? — Kirye perguntou.

—Hum...alguns dizem que sou bruxa, necromante, maga, mas prefiro médium. Minha especialidade é portais. Na verdade sou um catalisador. Consigo abrir caminhos entre os mundos, mas isso é limitado há alguns casos. — Ela estendeu uma mão com uma palma virada para baixo e imediatamente um homem com longos cabelos brancos, olhos sem pupilas e pele translúcida surgiu segurando a mão dela. — Esse é meu mentor, Kairos. Ele é um ser elevado que esta nesse mundo para transmitir a paz e o amor. Me tornei cantora por causa dele.

Kirye e Nero observavam a cena a sua frente pasmos, já que mesmo vendo tanta coisa estranha em suas vidas, aquilo era surreal:

—Continuando. — Ela estendeu a outra mão virada com a palma da mão virada para baixo e um outro homem de cabelos curtos e pretos, usando um uniforme militar de gala surgiu. — Esse é o Dan, meu finado marido que se tornou meu guardião após uma situação difícil que passei depois de sua morte. — Ambos os seres os cumprimentaram com um aceno de cabeça e desapareceram. — Então se por acaso me verem falando sozinha por aí, é com eles que estou conversando. Para finalizar, ela levantou da cadeira e ergueu a blusa para mostrar a tatuagem que tinha na cintura. — Esse círculo meio apagado é o selo do seu pai, surgiu quando você foi gerado.

—Mas ele esta desaparecendo. — Kirye reparou.

—Sim, isso porque ele deve estar me esquecendo. É como se nosso pacto caísse em desuso.

—Isso quer dizer que se a Kirye tiver um bebê, vai aparecer um selo meu no corpo dela? — Nero perguntou curioso.

—Não sei como já não apareceu… geralmente são geradas quando há um desejo intenso de ambas as partes e ao mesmo tempo. Mas na hora certa vai surgir.

—É como se fosse uma aliança… — Kirye observou.

—Por aí...Como eu já tinha a do Kairos, quando surgiu a do Vergil eu fiquei bem surpresa. Mas então Nero, vamos ter que tentar capturar o seu selo, juntar com o do seu pai, e vamos ter que encontrar uma forma de chamar o seu tio, caso ele não esteja próximo ao seu pai.

—Como podemos fazer isso?

—Vocês me disseram que estão aqui graças a ele, podemos juntar as pessoas que ele era mais apegado, algumas coisas pessoais para montar um canal, mas com isso eu irei precisar não só da ajuda de vocês, como de ajuda extra.

—Ajuda extra?

—Sim, além de você e meus mentores, vou precisar de mais alguém para fechar o portal caso algo ocorra comigo.

—Acho que conheço alguém, e esse alguém é bem ligado ao Dante.

—Então vamos chamar essa pessoa. — Agnes falou animada. — Agora que tal aproveitarmos o Sol e irmos para piscina?

—Só se for agora!

Nero estava encantando por Agnes, assim como Kirye também estava. Ela era doce e atenciosa, além de animada e muito ativa. A casa era enorme mas a presença da cantora ecoava em todos os cantos. Eles haviam conversado muito, feito programas juntos e até mesmo participaram de um show restrito que ela havia sido convidada a participar na cidade.

Ele a acompanhou em visitas em alguns dos projetos sociais que ela apoiava. E aparentemente ela parecia ser uma ótima pessoa, mas havia algo nela que deixava claro que ela ainda estava triste e aquilo o incomodava. O devil hunter já havia voltado para casa junto da esposa e depois de arrumarem as coisas, ele sentou ao lado dela:

—Kirye. — Nero chamou a esposa que deixou o bordado que fazia de lado para lhe dar atenção.

—Diga.

—O que achou da Agnes, seja sincera.

—Ela é uma boa pessoa.

—Algo nela me incomoda...ela é perfeita demais.

—Então você notou também? Eu a peguei umas duas vezes chorando, mas ela disfarçou, além de encontrá — la bebendo.

—Eu não vi isso, por que não me disse?

—Acho que isso deve ser normal de pessoas famosas, não?

—Eu não sei...Acha que eu a tratei bem?

—Claro que sim. Mas sei que ainda tem dúvidas.

—Sim Kirye, eu ainda tenho dúvidas e por isso não quero me entregar de uma só vez.

—Logo você terá a resposta do DNA, só assim você vai ter a certeza. E além disso, você vai saber se é mesmo filho do Vergil.

—Ela pensou em tudo. Talvez já tenha passado por momentos difíceis por causa dessa história.

—Não descarto essa possibilidade.

Agnes estava na sala de música sentada a frente do piano de cauda preto, onde já havia tocado umas três músicas seguidas para tentar aliviar a mente. Faltava algumas horas para o dia amanhecer para enfim aquele tormento terminar. A procura do filho perdido já durava uma vida, e várias vezes ela vinha sendo enganada por aproveitadores, e dessa vez ela queria acreditar que não estava errada. Mesmo Nero tendo dito que era sim filho do Vergil, ele poderia não ser o filho dela, mas de qualquer outra mulher.

Ela se levantou e tomou o resto do uísque que estava no copo que repousava sobre o piano ao lado da garrafa vazia. A cantora subiu até seu quarto, onde tomou alguns comprimidos para dormir. Daquela vez ela não queria saber a resposta imediatamente, preferia se iludir com o elo que estavam criando ou ela não suportaria mais uma perda.