Legado
9 Capítulo 9
Os dias se passaram rápidos na opinião de Nero. Já havia um mês que Dante e Vergil haviam voltado do inferno. O que eles não diziam era porque ambos decidiram voltar para o mundo humano e isso o incomodava um pouco. Mas tirando isso a vida dele havia tomado o rumo da normalidade, claro, se não fosse por ter Vergil sentado em sua garagem observando ele e Nico a cuidarem do carro que usavam para o trabalho.
Nico, a artesã de armas, não acreditava que Nero havia ganhado de volta uma família meio que do nada. A morena de cabelos rebeldes e pele repleta de tatuagens não disfarçava seus olhares para Vergil e aquilo já incomodava Nero:
—Nico, não é melhor você subir e ficar um pouco com a Kirye? — Nero sugeriu.
—Mas não é hoje que sua mãe vem aqui? Eu tenho que conhecê — la de qualquer maneira.
—Cara, para de se meter na minha vida!
—Desculpe grandão, mas nada aplaca mais a minha curiosidade. Vou ficar aqui até ela chegar. — Ela se virou para Vergil. — Ei pai do Nero, manda essa chave que esta em cima da sua cabeça pra cá.
Nero viu a irritação passar pelo rosto de Vergil que pegou a chave e jogou a direção da garota:
—Meu nome é Vergil. — Ele repetiu pela décima vez naquele dia.
—Nome difícil, não vou lembrar. Aliás, por que você vem pra cá, sendo que não ajuda em nada?
—Eu fico em casa sozinho com o mordomo da Agnes e não é muito agradável. Ao menos posso sair daqui para trabalhar com Dante ou com Nero, quando necessário. Sem falar que Agnes me mata se souber que estou longe do Nero. — Vergil respondeu sério.
—Vocês não precisam exagerar. — Nero falou sem graça.
—Diga isso a ela.
—Então...vocês dois se acertaram?
—Não estamos tendo tempo de conversar.
—Se não fosse esse problema nas gravações, ela estaria aqui conosco agora.
—Ela garantiu que vai dar um tempo para se cuidar.
—Assim espero. Mudando de assunto, o Dante te chamou para o trabalho da semana que vem?
—Chamou, mas não sei se devo...vai ser no último dia de gravação da Agnes.
—Já entendi. — Nero sorriu de canto.
—Então você gosta da mãe do Nero? — Nico se intrometeu na conversa.
—Nico, não seja enxerida. — Nero repreendeu a amiga.
—Deixe ele responder Nero, seu pai tem boca e fala muito bem, que eu sei.
—Olá pessoas. — Agnes surgiu com um semblante cansado, segurando uma bolsa em uma mão e um casaco dobrado no outro. Ela usava um vestido leve vinho e um scarpin preto. Os cabelos longos e negros estavam presos em uma trança lateral e o rosto tinha um resquício de uma leve maquiagem.
Assim que a viu, Vergil se levantou e foi até ela para tomar — lhe o casaco e a bolsa, mas assim que deu o primeiro passo, ele sentiu a presença do irmão mais novo que surgiu logo atrás da morena. Agnes continuou caminhando até ele com um leve sorriso:
—Encontrei o Dante no caminho para cá e viemos juntos. — Agnes falou.
—Mãe, não deveria recolher lixo na rua. — Nero brincou indo até a mãe para abraçá — la.
—É um lixo bonitinho, não resisti e peguei. — A morena brincou abraçando e beijando o rosto do filho.
—Um lixo bonitinho? — Vergil repetiu as palavras de Agnes.
—A Agnes é encantadora. — Dante falou entrando na garagem. — Olá irmão, Nero e Nico.
—Ih...acho que vamos ter problemas. — Nico observou como Vergil olhava para Dante com ódio.
—Dante, não sou nada encantadora. — Agnes deixou o filho e se voltou para Dante. — Você que sabe tornar uma viagem divertida, deviamos sair algum dia desses para conversar.
—Quando quiser. Eu vou adorar ter a sua companhia. — Dante sorriu de volta.
—Onde vocês se encontraram, e Dante, porque esta arrumado assim? — Nero estranhou o fato do tio estar com roupas mais formais, cabelos limpos e penteados.
—Fui a um encontro. — Dante respondeu simples.
—Olha só, ele todo todo. — Nico brincou. — E aí? Ela vale a pena?
—Me dá um pouco de trabalho, mas vale a pena.
—Olha, pela sua cara, imagino que seja algo bom mesmo. — Nico sorriu. — Mas cara, a mãe do Nero é linda para caralho! — Nico se aproximou de Agnes.
—Para tudo! Você é a Nico? A Kirye me falou de você. — Agnes a cumprimentou com um abraço.
—Eu mesma! Mas cara, você é muito linda. O grandão ali tem sorte de ter você como mulher.
—Seria sortudo mesmo se estivéssemos juntos, mas não estamos. — Agnes confessou.
—Ah, então eu posso me candidatar? Acho que me apaixonei por você. — Nico tinha um tom de brincadeira.
—Entre na fila Nico, eu estou na fila também. — Dante passou por Vergil e se aproximou de Agnes e Nico. — E eu tenho prioridade. — Ele brincou.
—Não sei que prioridade. — Nero falou fazendo o trio rir.
Sem saber como agir e como foi totalmente ignorado por Agnes, Vergil resolveu sair dali para voltar para a casa que dividia com ela. Mesmo interessado nela, ele não havia conseguido se aproximar mais. Ela estava trabalhando muito e os horários deles não estavam batendo. O pouco que se viam, o tempo era compartilhado com Nero ou com as pessoas que ela trabalhava. Não que fosse ruim, mas eles não tinham tempo juntos, ele não era necessário na vida dela.
Assim que ganhou a rua, ele ouviu o som dos saltos dela atrás de si:
—Onde você pensa que vai?
Ele parou e olhou para a mulher que estava parada no meio da rua o encarando com os belos olhos âmbar que povoava seus pensamentos:
—Já que esta aqui eu vou voltar para casa. — Vergil falou friamente.
—Achei que poderíamos passar um tempo juntos: eu, você, o Nero e a Kirye
—Você pode fazer isso com o Dante. Ele foi mais pai do seu filho do que eu.
—Vergil, deixe de ser idiota! — Agnes se aproximou até ficar frente a frente com o antigo amante. — Eu cancelei um monte de compromissos para ter tempo para vocês dois. Ponha na sua cabeça, você é importante para mim! — Com essas palavras, ela o puxou pelo colarinho do sobretudo e o beijou.
O beijo tímido se tornou profundo e cheio de paixão. Desde que haviam se encontrado em Fortuna, nunca mais haviam tido aquele tipo de contato. Ele enlaçou a cintura dela, colando os corpos. Ao longe, Nero, Nico e Dante observavam o casal:
—O lance do ciúmes deu certo. — Nero comentou.
—Se ele continuar sendo lerdo desse jeito, vou aprontar bem mais. — Dante sorriu travesso.
—Então aquilo tudo era armação? — Nico perguntou.
—Eu, Dante e Kirye decidimos mexer um pouco com a cabeça do meu velho carrancudo. — Nero sorriu. — Ele e minha mãe se gostam muito mas ela tem pouco tempo e ele é devagar demais para perceber as coisas.
—Vou contar para Kirye. — Nico entrou para casa correndo.
—Vamos entrar também. — Nero chamou Dante que o seguiu.
Agnes se afastou dos lábios de Vergil e pode se perder nos olhos azuis gelo que ele possuía:
—Vamos voltar?
—Vamos, mas com uma condição. — Ele pediu.
—Pode pedir.
—Hoje eu quero um tempo para nós dois. Só nós, sem ninguém por perto.
—Eu estava com isso em mente. Temos muito o que conversar.
—Agnes. — A voz dele soou calma e suave.
—Sim.
—Seja minha. Eu não quero ficar sozinho…
—Você não vai mais ficar sozinho, eu estarei ao seu lado para sempre.
O casal voltou para casa de Nero, onde almoçaram e passaram algumas horas juntos do grupo para depois tomarem um rumo sozinhos. Eles tiraram a tarde daquele dia para fazerem as coisas que gostavam, como ler juntos, tomar um café em um local agradável, assistir um bom filme. Eles só não imaginava que aquele momento iria gerar um grande problema para Agnes.
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