Legado

8 Capítulo 8


Já era quase hora do almoço e Nero caminhava de um lado para o outro dentro de casa, tendo Dante, Lucia, Trish e Lady como expectadores. Kirye já havia surgido na sala umas três vezes pedindo para ele se acalmar mas fora em vão. Cada vez que ele se aproximava da arma, um dos quatro que o observava gritava um sonoro “não” e ele desistia:

—Agora é sério, não vou esperar mais. — O jovem ia se aproximando novamente da arma e dessa vez Dante se levantou e foi até ele.

—Nero, põe uma coisa na sua cabeça: eles são adultos e devem estar transando loucamente agora, dá para deixar eles em paz? — Dante falou sério fazendo o mais novo corar violentamente.

—Acha mesmo que eles podem...é...não quero imaginar… — Nero falou envergonhado.

—Nero, tirando a Trish e a Lúcia todos nós somos frutos de uma boa transa. E não fique envergonhado porque sabemos que você faz isso e tem muito tempo.

Eles vêem a porta de entrada se abrir e Agnes surgiu com Vergil atrás dela. Assim que percebeu que o filho estava vermelho como um tomate, a morena se desesperou, ela se aproximou rapidamente do mais jovem:

—Nero, esta tudo bem? — Ela perguntou colocando uma mão sobre a testa dele, o fazendo fitá — la, porém os olhos dele também foram parar em Vergil que ainda estava de pé próximo a porta.

—Não mãe...é quer dizer...estou bem sim, estava preocupado com você.

—Eu estou bem, e o cão ali atrás também. — Ela apontou para Vergil. — Tem certeza de que esta bem? Ainda esta tão vermelho…- Agnes falou preocupada fazendo o grupo desatar a rir.

Dante ria tanto que já tinha se jogado no chão, Lady e Trish se apoiavam uma na outra e Lúcia ria contida:

—O que esta acontecendo aqui? — Vergil se aproximou de Agnes e estendeu a espada de Nero. — Pega.

—Entrega você. É seu filho também. — Agnes sentenciou brava. — Mas do que eles tanto riem?

—Nada não! — Nero pegou a espada da mão do pai e saiu arrastando a mãe pela mão para cozinha.

Vergil aproveitou que os dois que separavam ele de Dante saíram para se aproximar do irmão e chutá — lo:

—Fala logo o que ocorreu aqui ou vou te dar uma surra. — O gêmeo mais velho ameaçou.

—Desde ontem o Nero estava louco para ir atrás da mãe e nós aqui tentando contê — lo, daí eu fui obrigado a falar o motivo para ele não ir até lá. — Dante começou a falar recuperando o fôlego.

—Que seria?

—Que vocês provavelmente estavam matando a saudade um do outro.

—E por isso ele ficou vermelho daquele jeito? Ele não é casado?

—Pois é irmão, nosso garoto é um tanto tímido para algumas coisas.

—Não me lembro de ter lhe engravidado. — Com essa frase, Vergil seguiu o caminho por onde Nero e Agnes haviam seguido.

Dante ficou pasmo com a audácia do irmão, enquanto o trio de mulheres a sua frente desandou a gargalhar novamente. Ao que parecia, a proximidade com Agnes fez o mais velho soltar — se um pouco para se permitir aquele tipo de brincadeira. O mais novo sorriu imaginando o quanto seria divertido dali para frente.

Vergil entrou no cômodo da sala de jantar e logo ouviu a voz de Agnes mais a frente, ele seguiu o som e chegou a cozinha, onde ela e Nero estavam conversando com uma moça de cabelos castanhos, que pela maneira que agia estava preparando o almoço. Assim que percebeu a presença dele, Nero se virou chamando a atenção das duas mulheres:

—É...estamos preparando o almoço, não quer esperar lá fora? — Nero perguntou ainda sentindo — se embaraçado por ter que lidar com o pai.

—É...acho que pode ser…

—Ah não, fique conosco. — Agnes puxou Vergil pela mão. — Aqui, essa é a Kirye. Ela cuida muito bem do Nero. Se o Nero é apaixonado por ela, eu admito que também sou.

—Olá. — Kirye estendeu uma mão a direção de Vergil, que a observou interrogativo, mas logo a cumprimento. — Seja bem vindo. — A moça sorriu gentil.

—Obrigado, eu acho. E desculpe o trabalho. — Vergil suavizou o semblante, acalmando Nero e Agnes.

—Não precisa agradecer, eu gosto de casa cheia. — Kirye falou gentil.

—Viu só, não tem como não gostar dela. — Agnes se agarrou ao braço de Vergil. — Eu vou ajudá — la aqui. O que acha de providenciar as bebidas com o Nero?

—Mas nós já não compramos o suficiente ontem? — Nero perguntou confuso e ganhou um beliscão de Kirye.

—Só vão, sim? — Agnes sorriu gentil. — Quando voltarem o almoço estará pronto. Nero, vai precisar de ajuda para comprar?

—Acho que não…

Agnes puxou o filho pela mão e ainda agarrada ao braço de Vergil, ela os guiou até a porta:

—Refrigerantes, café e sucos variados. Não se matem no caminho. — Ela os empurrou porta a fora e fechou a mesma em seguida. — Dante. — Ela chamou o gêmeo mais novo que a atendeu de prontidão.

—Pode falar minha musa. — Dante se ergueu e foi até a morena.

—Poderia passar os olhos naqueles dois, por favor? Posso recompensá — lo depois.

—Posso fazer isso o resto da minha vida desde que possa assistir seus shows de graça.

—Poderá frequentar meu camarote sempre que desejar. — Agnes sorriu. — Aqueles dois são os homens que amo, quero os dois vivos e bem.

—Vou garantir que eles não se matem.

Nero andava lado a lado com Vergil. O mais novo sentia — se deslocado e completamente sem graça com o mais velho. Ele era o seu pai, mas era como se não fosse, pois ele nunca havia sequer cogitado na vida ter um. Mesmo que com a mãe as coisas fossem parecidas, ao conhecer Agnes e todo seu carinho, ele se viu agradecido e apaixonado por ter ela em sua vida. Como Agnes era comunicativa, doce e gentil era mais fácil de se aproximar. Mas o homem ao seu lado era frio, calado e não dava brechas para aproximação. Tanto que ele estranhou o fato da mãe agir tão naturalmente ao lado daquele ser.

Vergil olhou algumas vezes para Nero. Ele ainda não podia acreditar que o homem ao seu lado era seu filho, por mais que a biologia provasse com toda certeza que ele era mesmo pai dele. Ele amaldiçoou Agnes por tê — lo colocado naquela situação já que ele não sabia como agir ao lado de alguém que apenas havia lutado brevemente. A única maneira que ele sabia de se aproximar das pessoas era um confronto, mas no momento ele sabia que não seria apropriado, eles tinham que criar um laço fazendo coisas normais de pai e filho. Tinham de se conhecer, mas como deixar a timidez de lado para dar o primeiro passo? Foi então que ele lembrou de uma coisa:

—O que o Dante falou não é verdade, eu e sua mãe não fizemos nada e nem reatamos. — Vergil falou sério.

Nero ouviu aquilo e desatou a rir. De todas as maneiras de se iniciar uma conversa, o mais velho tinha mesmo de começar com o mais estranhos dos assuntos:

—Desculpe, é que é hilário você falar isso para mim. — Nero falou entre risos.

—Achei que gostaria de saber que respeitei a sua mãe.

—Admito que fiquei com ciúmes de saber que ela preferiu ficar com você do que passar mais tempo comigo e com a Kirye. — Nero admitiu sem jeito. — Mas sabe, você tiveram algo juntos e acho que tem muito a alinhar.

—Eu não vejo dessa forma, mas depois de ontem eu me sinto culpado por ela está do jeito que esta.

—Do jeito que está?

—Ontem ela se embriagou e teve um surto, acho que essa é a melhor maneira de definir o que aconteceu. Eu cuidei dela e ela se acalmou.

—Deveria ter nos chamado. Scarlet ensinou a mim e a Kirye a lidar com as crises dela.

—Eu já lidei com ela tendo crises antes, já tenho experiência nisso. Nunca imaginei que ela se afundaria tanto…

—Então desde que a conheceu que ela é alcoólatra?

—Infelizmente sim. Ela fumava também, mas eu a fiz parar no tempo que ficamos juntos. — Vergil confessou. — No momento eu resolvi ir morar na casa dela para cuidar dela.

—Isso seria importante pra mim.

—Eu tenho total ciencia disso, por isso eu me comprometi a fazer isso mesmo não sendo alguém indicado.

—Por que acha isso?

—Ela nutre sentimentos por mim e eu não sei se tenho o direito de correspondê — la.

Nero deu alguns passos e parou a frente de Vergil:

—Pode parecer extremamente idiota o que vou dizer agora, mas você e somente você pode se permitir ser feliz ao lado das pessoas que querem te fazer feliz. Sei que começamos do jeito errado, cara, eu sou mandão, um cara se irrita fácil, mas a minha família é tudo pra mim. Até mesmo o idiota do Dante, eu admito que amo aquele babaca, e não vai ser diferente com você. — Vergil ouviu as palavras do filho calado. — Quando o V estava conosco, ele parecia um cara legal, se ele faz parte de você, faça ele se mostrar.

—Eu gostei de você também. — Vergil sorriu discreto. — Obrigado por ter mostrado a mim que era bom ser humano.

—Minha mãe disse que se conheceram em uma livraria. — Nero voltou a caminhar como um garotinho animado por estar próximo ao pai, ele não conseguia conter o sorriso.

—Sim. Para mim, Agnes foi a mulher mais bela que já conheci em toda minha vida. Eu me encantei por ela assim que a vi olhando aqueles livros...eu tive que me aproximar e a cortejei. — Vergil tinha um ar nostálgico. — Fiz coisas que nunca fiz com nenhuma outra mulher por ela.

—E mesmo assim foi embora…

—Porque eu considerava os meus sentimentos por ela, uma fraqueza. Agora eu percebo o quanto eu fui fraco. Mas me diga, onde aprendeu a arte da esgrima?

—Eu sai do orfanato para ser cuidado pelo irmão mais velho da Kirye, ele me inseriu na ordem da espada e foi lá que aprendi a maioria das coisas que uso no trabalho.

—Então esta mesmo trabalhando que o Dante?

—É o que sei fazer e dá um bom dinheiro. Assim pode dar uma vida tranquila para Kirye e os meninos.

—Você tem...filhos?

—Não, nós adotamos três órfãos depois do incidente que teve aqui.

—Entendo.

Nero sentiu — se um pouco mais a vontade para conversar com o pai, e o mesmo ocorreu com Vergil, que estava intimamente feliz por saber que o filho havia se tornado uma boa pessoa, mesmo tendo um inicio de vida complicado. Diferente dele, Nero e Dante tinham algo incomum, eles tinham amor dentro de si. Diferente dele que acabou se afundando na escuridão.

Dante observava o irmão e o sobrinho caminhando mais a frente. Ao que parecia, eles tinham quebrado o gelo e agora conversavam, o que era um grande avanço, já que Vergil era um bicho do mato e não gostava de falar com ninguém, nem mesmo durante as lutas. Talvez agora com a influência de Nero e Agnes, o mais velho pudesse se tornar uma pessoa mais acessível.

Foi quando eles saíram do pequeno mercado, que o lendário devil hunter os abordou com um sorriso satisfeito:

—Parecem que estão se dando bem. — Dante falou chamando a atenção do irmão e do sobrinho.

—Tirando o fato dele arrancar braços alheios e abrir portas para o inferno, ele pode ser um cara suportável. — Nero respondeu se aproximando de Dante lhe entregando algumas sacolas. — Cerveja para você.

Dante pegou a sacola e olhou o conteúdo percebendo que era a cerveja de sua marca favorita:

—Cara, como eu gosto desse moleque! Vem dá um abraço no titio! — O Sparda mais novo abriu os braços chamando o sobrinho para um abraço.

—Vá passar vergonha em outro! — Nero andou depressa deixando os irmão para trás.

—Ele sempre te mima assim? — Vergil perguntou observando o filho indo mais a frente.

—Sei lá se é mimo, mas ele sempre me dá coisas. Tipo comida, roupas, às vezes leva doces que ele não pode comer em casa porque a Kirye não deixa, e bebidas que ele ganha de clientes.

—Então você é o depósito de lixo dele. — Vergil brincou.

—Se um depósito de lixo for tratado tão bem assim...Eu quero continuar sendo um. — Dante sorriu. — Já sabe onde vai ficar?

—Vou morar na casa da Agnes. Segundo ela é para casa não ficar sozinha enquanto ela estiver fora. E quanto a sua oferta de trabalho, eu vou aceitar.

—Diz o Nero que é um casarão. Vai ficar bem por lá.

—Ela disse que era simples.

—Se simples para você tem seis quartos, piscina e jardim…

—Ela não mudou a mania de grandeza. — Vergil sorriu de lado.

—As bonecas vão ficar fazendo ponto aí agora? — Nero gritou alguns metros a frente.

—Ele sempre foi assim ou foi sua influência que o deixou mal educado? — Vergil perguntou começando a caminhar a direção do filho.

—Desde que eu o conheci ele nunca foi fácil. Agora é problema seu e de Agnes. — Dante respondeu seguindo o irmão.

—Você estragou meu filho, seu idiota.

—Ele já veio pronto. Tão retardado quanto você, seu babaca!

Os irmãos seguiram discutindo até chegar a casa de Nero, que naquela altura Nero já havia desistido de tentar fazer os dois pararem de discutir por coisas fúteis. Mesmo não entendo bem o porque, ele sentia — se feliz por ter aqueles dois por perto, afinal, aquelas pragas que não haviam parado de brigar um minuto sequer eram a sua família.

Nero entrou na cozinha e deixou as sacolas que carregava sobre uma bancada:

—Aqui esta, podemos almoçar antes daqueles dois se matarem? — O jovem devil hunter falou chamando a atenção da mãe e da esposa.

—Eles ainda estão brigando? — Agnes perguntou colocando uma travessa na bancada onde Nero havia deixado a sacola com as bebidas.

—Eles enchem o saco, tudo disputam.

—Provável problema é o individualismo do Vergil. Não sei como ele não escreveu o nome dele em você para dizer para Deus e o mundo que você é filho dele.

—Vou carregar o nome dele de qualquer forma.

—Tenho certeza que seria Vergil júnior se ele tivesse presente quando nasceu. Ajude a Kirye a colocar a mesa, eu vou tentar um jeito naqueles dois.

Agnes saiu da cozinha e rumou para sala, onde encontrou Dante e Vergil em uma acalorada discussão. Enquanto Lady, Trish e Lúcia tentavam fazer algo para acalmá — lo antes que a casa pudesse ser destruída. Ela caminhou até os irmãos tomando um lugar entre eles. Ela ergueu ambas as mãos e invocou pequenas adagas brancas que com um impulso de um dedo acertaram as testas de ambos os gêmeos em cheio:

—Vocês dois não tem mais cinco anos de idade para ficar brigando desse jeito. — Agnes falou determinada, fazendo os irmãos cessarem a discussão. — Do contrário, terei de tratar vocês como tal. Vão já lavar as mãos para almoçarmos.

Ambos iam retrucar, mas bastou apenas um olhar de Agnes e eles fecharam a boca e seguiram para o lavatório para lavarem as mãos. Lady observou a cena pasma:

—Como conseguiu isso? — A morena de cabelos curtos perguntou.

—Apenas fiz. — Agnes respondeu como se não fosse nada demais.

—Você fez o Dante te obedecer sem retrucar e não fez nada demais? — Trish estava surpresa.

—Existe uma habilidade em meu meio chamado presença. Eles tem sangue demoníaco então é mais fácil de utilizar neles. Deve ser por isso que você esta encantada por mim, assim como a Lúcia. — Agnes sorriu para loira. — Só que eu já tenho compromisso.

—É uma pena. — A loira deu de ombros.

—Eu posso usar essa habilidade? — Lady perguntou animada.

—Claro que pode. É necessário alguns truques, mas nada que seja difícil.