SERENA NÃO CONSEGUIA DORMIR, não importava o quanto se revirasse naquele maldito colchão de molas.

Ao longe, era possível ouvir os ruídos da cidade de Nova Iorque; os carros, ambulâncias e viaturas da polícia circulando pela avenida central que ficava apenas duas quadras dali, dos metrôs e aviões, das poucas pessoas que ousavam circular pelas ruas escuras do Brooklyn, apesar do horário. Nada daquilo não a incomodava, no entanto.

Por algum motivo, ela até que gostava do caos da cidade grande. Talvez fosse porque sempre que o mundo ao seu redor se calava, outros sons mais perturbadores invadissem sua cabeça. Seus pensamentos. Mesmo assim, Serena abriu os olhos e soltou um ruído exaurido que fez com que James se revirasse em seus pés, embora não tivesse feito mais que soltar um miado preguiçoso e voltar a dormir.

O reflexo vermelho das luzes de uma ambulância parada em algum lugar na rua a impedira de fechá-los de novo. Ela grunhiu. Que merda. Aquela, sem dúvidas, seria mais uma daquelas noites em que passaria horas e mais horas contando os vultos dos carros pela janela, até que fosse vencida pelo cansaço. No entanto, não havia vultos naquela noite, apenas a maldita luz escarlate cegando-a.

Serena jogou o travesseiro macio — e com aroma inebriante de loção pós barba e cedro — em cima do rosto, uma última tentativa para fazer seu cérebro ignorar os estímulos externos e o corpo enfim relaxasse.

Não funcionou, no entanto.

Ela não parava de se lembrar da expressão de Bucky na cozinha. E na forma como ela recuara naquela hora. Covarde, não passava de uma covarde de merda.

E egoísta.

Serena sabia que deveria ter insistido mais quando ele disse que não queria falar sobre o assunto, assim como sabia que não deveria tê-lo deixado na sala — com ou sem a droga do colchonete.

Mas, pensou ela, se Bucky não queria falar sobre aquilo, talvez fosse sensato não insistir. Não eram amigos. Tampouco colegas ou tinham qualquer intimidade maior que emprestar a cama por uma maldita noite. Serena era apenas a vizinha. A vizinha petulante e levemente enxerida, mas ainda assim... uma vizinha. Não cabia a ela intrometer-se na vida pessoal — e complicada demais — dele.

Serena então tirou o travesseiro da cara. Não tenho nada a dizer, uma voz muito semelhante à de Bucky sussurrou em seus ouvidos, para ninguém. Sim, ele tinha razão. E ela deveria deixar aquilo de lado. Mas por que... por que parecia tão difícil?

Arg.

Talvez estivesse precisando de uma distração para pegar no sono; algo que a fizesse parar de pensar em tantas coisas ao mesmo tempo; algo que diminuísse a tensão. Um livro, definitivamente. Um livro era o que precisava.

Contudo, sua linda estante, com aquela edição especial de o Hobbit que queria ler a tempos jazia no apartamento. Do outro lado do corredor, que estava interditado até a manhã seguinte.

Tão perto, mas tão longe. Ela suspirou pesadamente.

E levantou-se, de qualquer forma. Se passasse mais um minuto sentindo aquele cheiro, iria a loucura.

Com a iluminação fraca e avermelhada, tateou pela mesa de cabeceira, procurando pelo celular. Ao menos poderia passar o tempo abrindo a caixa de e-mails ou derretendo o cérebro enquanto assistia um daqueles vídeos idiotas de gatinhos gerados por inteligência artificial no Instagram. Mas, quando notou que a mesa estava vazia, soltou um palavrão.

Levou mais alguns instantes para que se lembrasse onde o aparelho estava. Na sala, onde Bucky dormia profundamente. Serena soltou outro palavrão. Não precisava tanto assim do celular; era melhor deitar-se na cama outra vez. O sono viria.

Eventualmente.

Mas quando estava a meio caminho de cobrir o corpo com o edredom, ouviu um ganido vindo do corredor. Era um som baixo e combalido que a arrepiou até os ossos.

Um ruído de sofrimento puro. E só podia ser...

Serena não pensou. Em passos apressados e pouco se importando com a escuridão do resto do apartamento, ela enveredou-se do quarto até a sala, onde Bucky dormia.

Um sono atormentado, logo percebeu. Ele sussurrava coisas que não conseguia entender. Nomes. Lugares. Coisas. Números. Nada que fizesse sentido. Palavras aleatórias, alternando-se entre inglês e russo, tão rápido, que mal conseguia acompanhar. O que a assombrara, no entanto, era a maneira como ele se contorcia no chão, como se o corpo estivesse em chamas; como se lutasse pela própria vida.

Sem saber direito como agir, ela se aproximou do sargento em passos leves. Bucky respirava com dificuldade, suor escorria de sua testa.

O que ele estaria vendo? Para onde sua mente o levara e quais horrores assombravam tanto um homem daquele tamanho?

Um herói. Um super soldado. Quase um semideus, na frente dela, indefeso feito um filhotinho. Agonizando.

Serena odiou aquilo, vê-lo sofrendo.

E se odiou também.

A consciência da própria impotência diante daquela situação a atingiu como um soco. Não sabia o que fazer; como tirá-lo daquele pesadelo.

— Sargento — ela chiou, quase uma prece.

Ao canto, Alpine observava a cena, com o olhar tão combalido quanto o de Serena, quase como se quisesse ajudá-lo também.

— Ei, sargento, acorde.

Mas ele continuou se debatendo e urrando feito um animal enjaulado. Serena o chamou, mais alto. Mais urgente. Ela então ousou se aproximar mais.

E se ele avançasse contra ela? Um fiapo de razão em seu cérebro soprou. Não, ela respondeu àquela voz imediatamente, Bucky jamais a machucaria.

Mas, e se a presença dela ali apenas piorasse tudo?

Mais um ganido.

Para o inferno, ela não poderia ficar apenas assistindo.

Serena então respirou fundo e o chamou de novo e de novo, quase gritando pelo sargento. E quando a angústia dele estava a um passo de consumi-la por completo, ela criou coragem para tocá-lo.

✧❄✧

Bucky estava naquele hotel em Genebra outra vez.

Mas não era ele quem controlava aquele corpo.

O Soldado Invernal olhava atentamente para a mulher que deveria estar em seus últimos suspiros, sufocada por seus dedos de metal. Em seu pescoço, aquele medalhão brilhava.

Ainda assim, ela não recuara. A mulher mantinha o olhar altivo grudado nele. Ela não o temia.

"Um dia" a voz ecoou em seus ouvidos "as coisas vão melhorar. Um dia..."

As palavras não saiam dos lábios dela — nem teria como — mas ele conseguia ouvir de toda forma. De novo. E de novo. Sussurros e gritos em simultâneo. E não era só aquela mulher. Enquanto a encarava, mais e mais vozes se juntavam ao coro de pessoas implorando por misericórdia.

Aquelas vozes, aquelas pessoas. O soldado se lembrava de cada uma delas.

"Não." Disse um homem.

"Eu tenho filhos, eles precisam de mim," implorou uma mulher.

"Por favor..." chorou um idoso.

"Ao menos poupe minha esposa," clamou um marido angustiado.

Tantas vozes. Tanto sangue derramado de formas tão insólitas. O coro aumentou. O soldado não aguentava mais, estava à beira da loucura. E a mulher mantinha o olhar mordaz, como se o desafiasse a matá-la, como se ele fosse um inseto.

Pela primeira vez em anos de serviço fiel e inquestionável à Hidra, o Soldado Invernal hesitou. Seus dedos de metal feitos para matar, afrouxaram.

— Um dia — ela chiou, desta vez, de verdade — as coisas vão melhorar. Um dia...

Então mulher sumiu, dissipando-se no ar.

Mas aquilo não era o bastante para calar as vozes. Ele gritou e se encolheu, cobrindo os ouvidos.

"Por favor..."

"Pare..."

"Não... eu não fiz nada...."

As vozes não se importavam aquilo estava dilacerando-o por dentro, estavam ali para reivindicá-lo. Uma punição por seus crimes.

E ele merecia aquilo, percebeu, quando um odor ferroso atingiu suas narinas e a textura gosmenta do sangue quente correu feito uma cascata por suas mãos. Sangue que não era o dele, mas das pessoas que havia matado.

Ele merecia ser punido por isso. Merecia se afogar naquele sangue.

"Sargento..."

A única coisa que o soldado enxergava era uma silhueta tão embaçada e confusa quanto a própria mente. Era aquela mulher, ele deduziu. Ela deveria estar encarando-o de cima, como o verme que era. Ele piscou algumas vezes, forçando a visão. A silhueta começou a tomar forma. Mas o rosto que encontrou, não era da mulher que o soldado tentara matar momentos atrás. Aquela era uma pessoa totalmente diferente.

Aquela mulher... quem era aquela mulher?

Ele arfou. Sua presença era como uma brisa refrescante no meio daquele mar de agonia. E havia algo de diferente em seu olhar, como se ela se importasse com ele, quase como se estivesse preocupada. Olhos amendoados brilhavam e os cabelos esvoaçantes ondulavam sob os ombros.

Ela continuou clamando, olhando na direção dele, ignorando as vozes que o acusavam e o sangue que escorria ao redor dele. O soldado se agitou e a mulher, sem o mínimo senso de autopreservação, ousou se aproximar ainda mais.

"Ei, sargento," acorde. Disse ela, com delicadeza, como se ele significasse alguma coisa.

E o cheiro dela era tão bom... tão familiar...

"Sargento," ela repetiu, mais perto.

Tão perto que conseguia sentir o calor de sua pele.

"Sargento, acorde," a mulher suplicou, tão perto que sua forma parecia algum tipo de luz divina, enviada para tirá-lo daquele inferno.

Mas ele não merecia aquilo.

O Soldado Invernal não merecia misericórdia.

✧❄✧

Serena estava prestes a encostar no ombro dele quando a interrompera, segurando seu pulso pequeno e frágil, como se tocasse em uma boneca delicada de porcelana. Ela engoliu em seco, esperando pelo que viria a seguir.

Um momento depois, Bucky abriu os olhos e encontrou aquele rostinho doce, encarando-o com um olhar preocupado.

— Não faça isso, coisinha — ele soprou, soltando-a.

E não precisou de mais que isso para que Serena recuasse um passo, acuda.

Ainda assim, ela continuava perscrutando-o, como se estivesse esperando pelo momento em que cairia no chão, o que era bem provável, visto que estava péssimo. Sentia o peito subindo e descendo rápido, como se tivesse acabado de sair de uma maratona, a cabeça doía feito um inferno e a garganta ardia como se tivesse bebido ácido.

Ele não conseguia se concentrar em nada ao seu redor.

Tudo parecia um borrão desfocado. Tudo, exceto pela coisinha e seus grandes olhos castanhos. Serena apertou os lábios.

— Você está quente — ela observou, se aproximando outra vez.

— Não estou não — mentira. Sua pele ardia em brasa.

Não era incomum, contudo. Ignorou aquilo, passaria em breve.

— E hiperventilando — Serena insistiu mesmo assim.

Desta vez, não disse nada. Em partes porque precisava reunir forças para encher os pulmões com o ar que parecia ter sumido da sala. Ela, por sua vez, se aproximou ainda mais.

— Um pesadelo — disse. Não era uma pergunta.

Levou um tempinho até que a respiração dele voltasse ao normal, mas quando o fez, Bucky fez que sim com a cabeça. Bem devagar, os sentidos aguçados gradativamente voltando a funcionar.

— Você está bem? — Serena perguntou.

Bucky acenou de novo. Ela contraiu o rosto como se não acreditasse nem por um instante que ele, de fato, estava bem.

— Quer falar sobre o assunto? — insistiu.

Ele fez que não. Definitivamente não queria conversar, seria vergonhoso demais. Aquilo — obviamente — não a impediria de tentar, no entanto.

— Tem certeza? — insistiu.

— Não foi nada demais — disse ele, a voz rouca depois de tanto gritar e se revirar no chão — apenas esqueça o que aconteceu e finja que eu não te acordei.

Serena esticou os lábios, tensa.

— Bem, certamente foi alguma coisa — contrapôs ela, dando a volta ao redor dele e, então se sentou. No chão. Bem. Ao. Lado. dele. Que merda era aquela? — e eu não estava dormindo, de qualquer forma.

Mais desperto, Bucky piscou algumas vezes.

— O que pensa que está fazendo, coisinha?

— Não vou forçá-lo a me contar nada sobre você, seu passado complicado ou seus pesadelos, sargento. Sei que não tenho esse direito — Serena respondeu, juntando as solas dos pés, com um olhar travesso — mas, se pensa que vou te largar desse jeito, só pode ter perdido a noção.

Ele trincou o maxilar.

— Já disse que estou bem — retrucou ele. Mais uma mentira. Ele ainda sentia o coração acelerado e os dedos da mão direita tremiam feito o inferno, mas preferia morrer a admitir qualquer coisa — volte para o quarto. Está tarde.

Mas Serena, maldita fosse, não moveu nenhum músculo. Ao invés disso, mordeu a bochecha, como se estivesse pensando. E, ficou em silêncio por um tempinho.

Até que:

— Sabe — ela começou a falar, sem olhá-lo diretamente — quando eu era mais nova e tinha um sonho ruim, minha avó costumava conversar comigo até que eu me acalmasse. Ela gostava de contar histórias. Sempre funcionou.

— Não sou um menino assustado — chiou Bucky, apertando os olhos — não preciso de uma história de ninar. E com certeza não preciso de você para afastar o bicho-papão da cama. — Santo Deus, era tão patético assim?

Ela ergueu um lábio para cima.

— Que bom que não estamos na cama.

— Estou falando sério, coisinha— ele retrucou, torcendo o nariz — pode voltar para o quarto.

— Você disse que aqui era mais confortável — ela observou — quero comprovar sua teoria.

Ele revirou os olhos. Xeque-mate.

— Faça o que quiser, então.

Serena levantou uma sobrancelha, segurando o riso. Ótimo agora ela estava debochando dele.

— Não seja tão rabugento — censurou. Em resposta, Bucky soltou um palavrão, mas aquilo não a desanimou (claro que não desanimou). Ela fez uma breve pausa como se estivesse pensando. Até que: — gosta do mágico de Oz?

Bucky a olhou, desacreditado.

Será que Serena tiraria um livro pop-up de dentro do bolso da bermuda e começaria uma canção de ninar? Talvez arrumasse um ursinho de pelúcia para ele também.

— É essa a história que escolheu para fazer com que me sinta melhor? — desdenhou, porque sinceramente, a humilhação era demais para alguém como ele — o Mágico de Oz?

Serena, no entanto, esticou os lábios.

— Era a história favorita dela. Isabel adorava ler para mim. Acho que virou minha favorita também — disse — depois de Star Wars, é claro. Mas acho que você não quer me ouvir narrar a trajetória de Luke Skywalker e dos rebeldes da resistência.

— Deus, não.

A coisinha riu.

— Ela dizia a mesma coisa.

— Uma mulher sábia — ele respondeu.

— Ela era — Serena respondeu, o sorriso diminuindo um pouco.

Bucky a encarou. Havia uma sombra de melancolia em seus olhos. Não precisou de mais do que isso para ligar os pontos.

— Faz muito tempo?

— Não. Sim. Quero dizer, mais ou menos — ela franziu o rosto — aconteceu durante o estalo. E, quando voltei, descobri que ela teve uma parada cardíaca quatro meses após o estalo. Tudo que me sobrou foi um túmulo no cemitério Calvary e uma garagem velha cheia de bugigangas.

— Sinto muito.

Serena abraçou as próprias pernas e desviou o olhar.

— Posso te contar um segredo? — murmurou, embora não tivesse esperado resposta da parte dele quando continuou: — ela não era minha avó biológica. Na verdade, nós não tínhamos ligação sanguínea alguma.

Bucky ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada.

— Estava com mais ou menos dez anos quando Isabel apareceu na minha vida — Serena continuou falando — na época, eu era só mais uma pobre criança órfã que ninguém se importava. Morando em um lugar terrível, com pessoas detestáveis que não gostavam de mim.

— Um orfanato? — arriscou ele.

Serena desviou o olhar. A postura ficou tensa.

— Não exatamente — respondeu — também não consigo lembrar de todos os detalhes — uma pausa. Ela suspirou, e: — eu era tão pequena... só tenho memórias vagas de um quartinho minúsculo e apertado.

Ele apoiou as costas na parede, embora continuasse olhando para Serena, que por sua vez encarava a janela de uma forma pragmática.

— Mas me lembro de Isabel entrando naquele mesmo quarto — ela continuou — e me lembro do sorriso dela. Eu estava com tanto medo naquele dia..., então ela olhou nos meus olhos e me pediu para confiar nela. Garantiu que tudo ficaria bem.

— E ficou? — Bucky perguntou.

Serena assentiu e olhou para as próprias as mãos, com um sorriso triste que fez com que Bucky se perguntasse o que passava em sua cabeça.

Porque estava contando aquilo a ele, afinal? Por que confiava tanto nele?

— Ficou — Serena respondeu depois um tempo. — Depois daquilo, Isabel me trouxe para Nova Iorque e, bem, cuidou de mim como se eu fosse da família dela. Ela sempre me apoiou em tudo que eu fazia. Com a ginástica principalmente. Ela assistiu a todas as minhas apresentações, me levava nos treinos, me incentivava... — ela deu um olhar terno para Bucky — devo tudo a ela.

— De onde você veio? — Ele se viu perguntando.

Há muito notara o sotaque que volta e meia a coisinha deixava transparecer, embora fosse muito sutil.

Ele sabia que conhecia aquele tipo de sotaque de algum lugar, mas não conseguia identificar. Serena desviou o olhar, como se estivesse refletindo sobre a pergunta. Ela piscou e respirou fundo algumas vezes, como se fosse realmente difícil de se lembrar daquilo.

— Eu morava em uma ilhazinha de águas pacíficas, em algum ponto entre a Romenia e Rússia. Não sei se nasci naquele lugar, mas passei anos por lá. Fui alfabetizada nos dois idiomas. O inglês foi Isabel quem me ensinou, anos depois.

Russo, aquele sotaque era russo, deveria ter suspeitado, embora fosse muito sutil, como se o idioma materno não passasse de uma lembrança distante. Ele apertou os olhos.

— Então seu nome...

— Não, não é Serena — ela completou — também não faço ideia de qual era meu nome de batismo e não me importo. Eu mal tinha cinco anos quando minha mãe biológica morreu, não me lembro de como ela era ou como me chamava e, as pessoas da ilha nunca se importaram em me dar um nome, simplesmente me chamavam de "devotchka."

— Menina — traduziu Bucky, do russo — não é muito criativo. Ou humano, a bem da verdade.

— Não, não é — ela concordou — por isso Isabel achou que seria melhor que eu tivesse um nome de verdade. O nome "Serena" veio da nonna dela. Também era uma piada interna.

Bucky riu.

— Por que "Serena" é a última palavra que usariam para descrevê-la? — arriscou.

Ela revirou os olhos, embora estivesse sorrindo também.

— Mais ou menos — resmungou — Isabel era fluente em latim e costumava dizer que minha energia era infinita.

Ele não poderia concordar mais, embora achasse que não seria de bom tom dizer aquilo em voz alta.

— Sinto falta dela — Serena admitiu, virando para ele — Isabel sempre parecia saber o que fazer ou dizer para me acalmar. Acho que as coisas seriam mais fáceis se ela estivesse comigo aqui agora.

— Sei como é — disse ele, antes que pudesse se conter.

Serena ergueu uma sobrancelha e o encarou, como se quisesse incentivá-lo a continuar.

— Steve Rogers — disse Bucky, o nome saindo arranhado de sua boca.

— O Capitão América — Serena completou — vocês são amigos de longa data, não são?

Ele acenou com a cabeça. Amizade não fazia justiça aos sentimentos dele. Bucky amava Steve como se fosse sangue de seu sangue; um irmão de alma. E, Deus, ele fazia tanta falta...

— Depois de enfrentarmos Thanos — disse — Steve... ele partiu.

Os olhos dela quase saltaram do rosto.

— Não, não desse jeito — Bucky esclareceu — Steve não está morto. Só está... em outro lugar.

— Como assim?

Ele fez uma pausa. Talvez não devesse dizer aquilo a ela. Não era do feitio do sargento falar de sentimentos com outras pessoas, um assunto tão delicado como Steve, sobretudo. Mas sabe Deus porque, continuou falando:

— Lembra quando disse a você que voltar ao passado não altera o futuro? Sabemos disso porque quando derrotamos Thanos, Steve precisou voltar para nosso tempo. E ficou por lá mesmo, com uma pessoa.

Serena fez uma careta.

— Quer dizer que existem dois dele por aí? — ela concluiu — não é uma espécie de paradoxo?

— Talvez seja, mas... — admitiu — pessoas mais espertas do que eu acreditam que nada disso afeta nossa linha do tempo ou nossas vidas de forma significativa. Às vezes tenho a impressão de que ele sequer está aqui — em nossa linha do tempo, ele quase emendou, mas achou que seria demais para a cabeça dela.

Serena anuiu devagar, talvez optando por ignorar aquele detalhe em especial. Bucky, ao menos fizera aquilo. E o fez porque, francamente, não gostava de pensar muito sobre linhas do tempo alternativas e multiverso.

— E isso te incomoda? — perguntou ela, ao invés.

— O quê?

— Saber que seu melhor amigo te abandonou para ter uma vida em outro lugar, com essa pessoa, como se o mundo não estivesse pegando fogo — havia uma expressão conflitante no rosto dela, como se estivesse pisando em ovos — quer dizer, como foi a conversa?

Bucky desviou o olhar.

A bem da verdade, não houve conversa alguma.

O que aconteceu naquela tarde foi uma breve troca de olhares antes de Steve entregar o escudo a Sam e assumir a missão de devolver as seis joias superpoderosas a seus devidos lugares e épocas.

Só que não foi preciso dizer nada.

Quando se despediram, Bucky sentiu que Steve estava tramando alguma coisa e, ao olhar nos olhos dele... simplesmente soube. O amigo escolhera Peggy.

Steve sempre escolheria Peggy.

— Steve não me abandonou — disse Bucky, contudo.

— Não?

— Não — o sargento garantiu — ele lutou por tempo demais. Merecia descanso. E estou feliz pela felicidade dele.

— Mas sente falta dele mesmo assim — ela tornou.

Bucky suspirou.

— Claro que sinto — confessou, virando para Serena outra vez — Steve era o único que me entendia. Era meu melhor amigo e a única pessoa no mundo que conhecia a sensação de viver constantemente fora de órbita, como se sua existência fosse um erro. Sem ele é um pouco...

— Solitário?

Ele acenou com a cabeça.

— Sabe por que eu não consigo dormir na cama? — Bucky murmurou, embora não tenha esperado que ela respondesse antes de continuar: — sempre que eu encosto a cabeça no travesseiro, algo me diz que eu não mereço estar ali. Ao me deitar, sempre acabo lembrando de tudo o que fiz e das pessoas que prejudiquei. Não é certo. E, se não fosse por Steve, eu com certeza não estaria aqui — ele fez uma pausa — e agora que ele se foi, parece ainda mais... errado.

Bucky esperou por alguma resposta por parte de Serena, mas por algum milagre, ela nada disse. Ao invés, a coisinha o encarava daquele jeito tranquilo, com os olhos castanhos brilhando. Não havia pena ou complacência naquele olhar, apenas compreensão.

Era como se, do jeito dela, soubesse exatamente o que passava na cabeça dele ou como era estar naquela situação. Serena então ofereceu um sorriso sincero e deu um tapinha no ombro dele. Ele por sua vez, não controlou o ímpeto e sorriu de volta. Algo dentro dele se aqueceu.

As batidas de seu coração enfim haviam voltado a uma frequência humanamente aceitável e já não se sentia mais a beira de um colapso nervoso.

E devia isso tudo a ela, percebeu.

Se não fosse por Serena, provavelmente ainda estaria preso naquele maldito pesadelo, se afogando em culpa e desespero.

— Obrigada pela conversa, coisinha. Isso... ajudou — ele admitiu.

Serena deu uma piscadela. O coração dela batia de um jeito reconfortante e seu sorriso doce seria capaz de iluminar a escuridão do apartamento.

— Se quiser, pode voltar para o quarto — Bucky emendou, embora uma partezinha muito egoísta de si, torcia para que ela não saísse de seu lado — acho que não vou ter mais pesadelos essa noite.

Ela, contudo, levantou uma sobrancelha.

— Ah é? Como pode ter tanta certeza?

— Eu demoro para voltar a dormir depois de um desses. E você tem que que trabalhar amanhã— disse ele, combalido — pode ir. Vou ficar bem.

Houve uma pausa. Serena encostou na parede e encarou o relógio da cozinha. Pela primeira vez na noite, parecia realmente cansada. Bucky se sentiu culpado por aquilo.

— Fico feliz em ouvir isso — Serena murmurou, ajeitando o corpo na parede gelada — mas, se você não se importa, vou ficar aqui. Só mais um pouquinho.

— Por quê?

— Seu chão é mais confortável.

Dito isso, Serena fechou os olhos, relaxando o corpo. Bucky tentou retrucar, mas ela apenas o ignorou e encostou a cabeça em seu ombro esquerdo. Não demorou muito para que a coisinha caísse no sono.

E Bucky não pode fazer nada além de observar sua respiração tranquila até dormir também.


Notas finais
Feliz dia dos namorados aos que namoram. Aos solteiros espero que, assim como eu, passem a noite lendo romances fofos e tomando uma boa taça de vinho. Boa noite!