QUANDO FINALMENTE CONSEGUIU DEIXAR O MUSEU, a fome de Serena era tanta que seria capaz de comer um cavalo inteiro.

Àquela altura, depois de todo o estresse com Erika e a conversa estranha com aquele senador, decidiu que estava precisando de uma comida que trouxesse um pouco mais de alegria do que a quiche de espinafre com legumes refogados que a esperava na cozinha dos funcionários. No mesmo instante, sua mente a fez pensar em um daqueles hamburgueres de frango empanado com molho teriyaki, acompanhado de uma sobremesa hipercalórica que provavelmente a deixaria com dor de estômago mais tarde, mas que certamente a faria se sentir melhor consigo mesma.

Sorte a dela, havia uma lanchonete ali perto com aquele exato hambúrguer e alguns milk-shakes deliciosos — e baratos — os quais poderia se refestelar.

Ela então foi andando pela octogésima sexta avenida em busca da pequena lanchonete de esquina pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo; a fome consumindo-a lentamente. Até que:

— Serena.

Seus pés fincaram no chão. Aquela voz...

— Serena — repetiu a voz, arfando — Serena é você mesmo?

Estava para se virar quando sentiu um par de braços apertando-a com a força de um urso selvagem. Ela piscou algumas vezes, processando a cena.

— Deus, faz tanto, tanto tempo — a voz continuou falando — e você está tão diferente. Cortou o cabelo? Ficou ótimo.

Serena inspirou devagar e sentiu um perfume familiar de jasmim e baunilha inundando suas narinas. Um aroma doce e reconfortante. Ela sentiu o coração acelerando.

Quem a abraçava era uma pessoa conhecida. Pele negra e cabelos encaracolados num lindo tom de dourado brilhante. A mulher a encarou e Serena viu o mesmo sorriso magnânimo e acolhedor que se lembrava, embora usasse um terno de alfaiataria bege chique e que lhe servia como uma luva, ao invés das camisetas — enormes — de bandas indie que tinha guardado na memória.

Ela exasperou.

A pessoa parada na sua frente era Íris Miller, uma antiga colega de quarto da época em que estudava na Universidade de Nova Iorque. Sua melhor — e única — amiga.

Só que, ao contrário de Íris, passaram-se apenas alguns meses desde a última vez que tinham se encontrado. E, pela segunda vez no dia, memórias arraigadas do passado voltaram para assombrá-la.

Vigas caindo... a poeira... os gritos... Íris...

— O que está fazendo aqui, Íris?

— Estou trabalhando na nova sede das indústrias Stark. Fica a duas quadras daqui — disse a amiga — ah, se eu soubesse que estava tão perto de mim todo esse tempo... teria me poupado meses de procura.

Serena apertou os olhos.

— Procura? Por que estava me procurando?

— Bem, foram mais de cinco anos. Eu senti sua falta — Íris respondeu, como se fosse óbvio — você não?

Serena não respondeu de cara. Não porque não sentia saudades daamiga, porque ela sentia. Muita. Mas vê-la daquele jeito... mais velha, mais madura... foi um choque de realidade o qual ainda não estava preparada para lidar.

A bem da verdade, talvez nunca estivesse.

— Claro que sim — disse Serena — é que tudo está tão...

— Confuso? Incompreensível? Sei bem como é.

Serena balançou a cabeça devagar.

— Não era minha intenção deixá-la de lado, Íris.

Mas aquilo não era bem a verdade.

Serena estava deliberadamente evitando-a sim. Em parte, porque não sabia direito o que dizer ou como agir perto de Íris depois de tudo que tinha acontecido em 2018; depois de ter voltado e ter se tornado... aquilo.

E vê-la daquela forma era tão... estranho.

Estranho porque, bem, Íris estava completamente diferente do que se lembrava. Sua melhor amiga agora exibia a aura de uma mulher adulta responsável.

A pele estava perfeita; os olhos brilhavam; céus, ela até parecia mais alta do que se lembrava. Não importava o quanto olhasse, Serena não conseguia encontrar nenhum traço da Íris que conhecia e amava. Aquela mulher que a encarava era outra pessoa. Uma pessoa ainda mais bela, confiante e imponente, pronta para conquistar o mundo.

Serena, por outro lado era... era...

— Então por que sumiu do mapa? — Íris perguntou.

— Eu sumi?

Íris acenou com a cabeça.

— Eu procurei por meses, mas não há nada sobre você em lugar nenhum Serena. Nem telefone; redes sociais; trabalho. Nada. Eu achei que você tivesse... naquele dia... — ela se interrompeu — bem, não importa mais.

Íris deu um olhar profundo para a amiga, que estremeceu.

— Eu sei — lamentou Serena — me desculpe por isso.

Fazia sentido que Íris não tivesse encontrado nada sobre ela.

Serena tinha perdido a maior parte dos pertences pessoais durante o estalo — tudo que tinha restado foram algumas poucas roupas e bugigangas, recuperadas da garagem de Isabel — e, por esse motivo, teve de recomeçar do zero. Instagram... Twitter — embora esse nem fosse mais o nome do aplicativo — contatos de telefone... tudo.

— Ei, não precisa ficar assim — disse Íris, com um sorriso polvoroso — o que importa é que nos encontramos. Senti tanta falta da minha colega de quarto barulhenta.

Serena, por sua vez, era a exata antítese de Íris. Estava entorpecida, como se a amiga fosse um fantasma voltando para assombrá-la.

— Senti sua falta também — ela respondeu, apesar disso, forçando um sorriso.

— E então... quais as novidades?

Sua cabeça começou a martelar, não conseguia pensar direito. Estava com fome e confusa. Precisava se sentar urgentemente.

— Que tal conversarmos enquanto tomamos um milk-shake? — murmurou.

Íris deu um sorriso de júbilo e concordou.

— Leu minha mente.

✧❄✧

Serena estava com tanta fome que não controlou o ímpeto de comprar aquele hambúrguer de frango com uma porção extra de molho teriyaki, além de meio litro de milk-shake de abóbora e especiarias e, céus, ela tinha exagerado. Aquilo tudo deveria conter calorias suficientes para alimentá-la pelo resto da semana.

Ao seu lado, Íris parecia estarrecida.

— Frango frito empanado? Molho teriyaki — murmurou ela — achei que tivesse pânico de frituras e de gordura.

Serena esticou os lábios, pegando o ketchup.

— Digamos que eu não preciso mais tabular meu consumo de calorias.

Íris estreitou os olhos.

— Como assim, Serena?

Serena fez uma pausa. Não queria voltar naquele assunto. Não se sentia pronta para ter aquela conversa com Íris. Com ninguém, a bem da verdade. Não estava pronta para lidar com os olhares ou repetir a explicação pela milésima vez, como se fosse uma coitadinha.

— Não sou mais atleta, Íris — ela, no entanto, se forçou a responder. Não adiantava muito mentir para amiga que a conhecia bem até demais.

Íris recuou um pouco, como se estivesse desconcertada.

— Por quê? Por que faria uma coisa dessas?

— Quando voltei do estalo, a NYU cortou os recursos em noventa por cento para os bolsistas de antes de 2018 — Serena explicou e pegou o milk-shake apoiado na mesa, como se não fosse grande coisa; como se aquilo não a tivesse esmigalhado por dentro — fui chutada do programa logo de cara.

— Cortaram o seu patrocínio? — Íris gorgolejou, batendo as mãos na mesa — isso não é justo, você ganhou aquele campeonato; você ganhou uma penca de campeonatos, se não fosse pelo estalo tenho certeza de que... isso não está certo.

— Foi o que eu disse — Serena respondeu, brincando com o canudinho de papel do milk-shake.

— E o que eles responderam?

Serena deu um sorriso amargo e colocou o canudo de volta no copo.

— Que a vida não é justa e que se eu quisesse voltar para o programa teria de arcar com as mensalidades como todo mundo.

— E você não pode...

Ela deu uma risada anasalada.

— Não sou rica, Íris. Cada mensalidade custa o dobro do que ganho trabalhando no museu — não que ganhasse muito, a bem da verdade.

Ah, a precarização das condições de trabalho após o estalo.

Muita mão de obra no mercado; poucas vagas disponíveis... era um verdadeiro milagre que Serena recebesse um salário-mínimo e algum auxílio para deslocamento. Bancar o resto de sua formação considerando sua atual situação financeira parecia até uma piada de mal gosto.

Íris soltou um palavrão.

— Foi o GRC, não foi?

Serena estreitou os olhos.

— Como assim?

— São eles que organizam esse tipo de coisa agora — Íris explicou — o Centro de Repatriação Global decide onde são investidas as verbas para a parcela da população que voltou do estalo. Acho que a maior parte das nossas colegas bolsistas estão em situação similar.

Serena a encarou, resignada. Íris continuou:

— E não são só as bolsas. Eles estão dificultando tudo. Crédito para microempresários, hipotecas, pensões e até benefícios trabalhistas. Milhares de pessoas estão perdendo tudo. Coincidentemente, os gastos da união com armamento subiram em mais de trezentos por cento — ela deu um sorriso amargo e insólito — mas quem precisa de comida na mesa ou um teto sobre a cabeça quando a maior necessidade do governo é comprar mais um tanque caro para alguma aberração super-humana explodir?

Serena olhou para além da sacada do restaurante, onde ficava o museu e torceu o nariz. Íris estava certa, nada daquilo era justo. Estudantes estavam perdendo suas bolsas. Pessoas estavam desalojadas. Desempregadas. Perdendo tudo... e a maior preocupação do governo era em como arranjar mais armas e uma exposição bonitinha para enfiar a porcaria do escudo do Capitão América.

E por que estava tão surpresa? Em algum momento pautas humanitárias foram prioridade para aquelas pessoas?

Ela então pensou nas palavras doces do Senador Orlov; em sua proposta.

Por um instante, por um lindo instante, Serena tinha se esquecido de tudo que homens como ele representavam e até pensou que...

Que podia voltar a treinar como se nada tivesse acontecido? Não, isso seria ridículo e você sabe disso, Serena.

— Desculpe — murmurou Íris, depois de um tempo, provavelmente porque o clima tinha ficado pesado demais — estou aqui para saber sobre você e não para deprimi-la com as políticas podres do GRC.

Serena encarou o sanduíche comido pela metade e o milk-shake que já começara a derreter com o sol das três e meia da tarde, desejando desesperadamente que outro assunto menos mórbido surgisse.

— Como está lidando com Isabel? — Íris perguntou, contraproducente às expectativas.

Aquele realmente não era o dia dela.

— Sei que partiu — emendou a amiga com um sorriso fraco — e sinto muito por você. O bolo de frutas vermelhas dela era o melhor do mundo.

Serena contraiu os lábios.

A cena de Isabel chegando com seu bolo no alojamento delas enquanto Íris a ajudava com a maquiagem antes de uma de suas competições a atingiu feito uma facada. O aperto em sua garganta só não era maior do que o de seu peito.

— É complicado — disse ela simplesmente e voltou a comer — alguns dias são melhores do que outros.

Talvez depois de todo aquele tempo sem nem ao menos tentar contato, Serena devesse algum tipo de explicação um pouco menos vaga a Íris. Mas não estava pronta para falar sobre o inferno que havia sido acordar no meio do nada e descobrir que cinco haviam se passado, Isabel tinha partido e que sua vida tinha perdido o sentido.

— Serena, você está bem? — Íris perguntou — parece meio pálida.

Ela levou uma das mãos as têmporas.

— Estou com um pouco de dor de cabeça — disse, taciturna. Não era mentira, sua cabeça de fato martelava — e como anda a sua vida? Já espantou a nova colega de quarto com seus roncos?

Íris deu um sorriso intrépido.

— Eu não ronco.

— Ronca sim — Serena esticou os lábios — alto pra caramba. E tem o péssimo hábito de roubar os snickers que a colega de quarto guardou para depois do jantar.

Íris fez uma careta.

— Fiz isso uma única vez. E foi só porque você me mandou comer, senhorita “não posso engordar cinquenta gramas antes da competição” — ela forçou uma voz aguda que nada lembrava a de Serena.

— Obviamente, eu não estava falando sério.

— Babaca — resmungou Íris, com uma risadinha — você é muito babaca, Valente.

Serena fez um gesto cheio de esgar e deu mais uma mordida em seu sanduíche.

— Não é bem uma colega de quarto, mas... — Íris ergueu a mão e exibiu uma aliança de ouro branco que contrastava perfeitamente com as unhas longas cor de pêssego e a pele negra — moramos juntas há um tempinho.

Serena quase se engasgou ao ver a joia brilhante.

— Está namorando? Quem? Quando exatamente isso aconteceu?

Era um choque imenso porque, até onde se lembrava, Íris era o tipo de espírito livre que tinha aversão a relacionamentos longos. Ou a relacionamentos de forma geral.

— Três anos — respondeu ela, com um sorriso de orelha a orelha — na verdade, é um anel de noivado. Amanda e eu pretendemos fazer a cerimônia de casamento na primavera do ano que vem, no hotel Pierre.

O chão sob os pés de Serena desapareceu.

Casar. Íris ia se casar. Cinco anos haviam se passado e sua melhor amiga estava prestes a se casar com alguém que Serena sequer conhecia.

Não sabia ao certo como processar a informação.

— Não faça essa cara — censurou Íris.

— Não estou com cara nenhuma.

— Ah está sim — a amiga retorquiu — está com aquela cara de quando acha que estou prestes a uma decisão ruim.

— Não, não é isso — Serena tratou de explicar — é só que... é muita coisa para assimilar de uma vez. Dá última vez que conversamos, você me disse que preferia enfiar uma faca na barriga a se apaixonar.

— Eu estava em outra fase.

— E torcer...

— As pessoas mudam com o passar dos anos, Serena — Íris retrucou, mas desviou o olhar em seguida, arrependida — desculpe. Não foi o que eu quis dizer.

Serena deu um sorriso triste.

— Eu sei. Fico feliz por você, Íris.

Íris olhou discretamente para a aliança brilhante e deu um sorriso bobo e apaixonado. As bochechas dela coraram um pouco. Nunca tinha visto a amiga tão extasiada como naquele instante. Quem quer que fosse Amanda, estava fazendo muito bem a ela.

— O que tem feito? — Íris tornou — algo em que eu possa ajudar?

Serena voltou a olhar para a amiga.

— Não tem muito o que saber — ela tamborilou os dedos no copo de milk-shake, vazio — arrumei um emprego medíocre; vivo minha vida medíocre e faço maratonas com os lançamentos de Star Wars dos últimos cinco anos.

Íris endireitou a postura e ergueu a sobrancelha, displicente.

— Fizeram mais um filme de Star Wars?

Serena fez uma careta.

— Como não sabe disso?

— Odeio Star Wars e não tenho Disney plus — justificou Íris — não pode me culpar por ignorar essa parte da cultura pop.

Serena revirou os olhos. Nem todos tinham bom gosto.

— Você está esse tempo todo vendo os filmes que saíram nos últimos cinco anos?

— Não. Isso seria ridículo — Serena respondeu — tem as séries também.

Íris exasperou.

— Me atrevo a perguntar quando foi a última vez que você saiu do seu apartamento?

Serena deu um estalido com a língua.

— Não estou no apartamento agora, estou?

— Trabalhar não conta — ralhou Íris — nem fazer compras. Ou qualquer coisa que envolva uma necessidade básica humana. Me refiro a sair de verdade; conversar com outras pessoas. Deixe-me adivinhar, você não tem saído de casa, tem?

Serena soltou um muxoxo que pode ter sido um sim.

— Quando foi a última vez que você interagiu com outro ser humano por livre e espontânea vontade? E não estou falando de ser educada; estou falando de relacionamentos.

Houve uma pausa. Serena limpou as mãos no papel que estava em cima da mesa e olhou bem ao redor, como se estivesse pensando em uma resposta.

Primeiro olhou para Íris, que a encarava, mordaz; para a televisão do restaurante, longe demais para que entendesse sobre o que a apresentadora dizia; para a rua, onde algumas pessoas passavam e, por fim, para suas mãos.

Bem, havia jantado com Bucky na semana anterior.

Obviamente não era um encontro nem nada do tipo — praticamente o tinha arrastado até seu apartamento por alguma razão que nem ela entendia direito — embora tivesse gostado daquilo bem mais do que admitiria para qualquer um. Mas contava, não contava? Bucky era um ser humano e ela tinha interagido com ele. De um jeito bom.

Tinham jantado, conversado como dois seres humanos civilizados e, no fim da noite tinham até assistido ao primeiro filme de Star Wars; devorado — ele, na verdade — uma travessa inteira de Brownie enquanto Serena explicava detalhadamente como a força agia naquele universo e porque era um absurdo que sabres de luz ainda não tivessem sido inventados em um mundo onde alienígenas andavam em naves em formato de rosquinhas.

— Três meses atrás, fui ao cinema. — Serena disse, ao invés.

Decidiu que não falaria sobre Bucky com Íris. Isso levaria a perguntas difíceis demais. Perguntas que não caberia a ela responder.

Íris, por sua vez, fez uma careta.

— Um filme? Com quem saiu? Era um encontro?

— Na verdade, não — Serena explicou, exasperada — mas era um filmemuito, muito bom.

Íris torceu o nariz.

— Sério, você sabe o quanto gosto de cinema— ela continuou, como se aquilo melhorasse a situação — acho que era um filme da Disney.

— Deus, Serena — censurou a amiga — quantos anos você tem? Onze? — Havia pena e repreensão em sua voz.

Serena, porém, não se importava.

— O que foi? — falou Serena, ríspida — sabe que esses lances casuais não funcionam para mim.

Íris suspirou.

— Não estou falando para você transar com todo mundo, mas podia pelo menos sair de casa de vez em quando — desta vez o olhar da amiga era cheio de preocupação. Serena odiou aquilo — ficar isolado não faz bem para ninguém.

— Estou com vinte e cinco anos agora, Íris — Serena a lembrou — não tenho mais paciência para esse tipo de coisa.

— Sem ofensa — começou Íris, complacente — mas você nunca teve muita paciência para esse tipo de coisa.

Talvez tivesse razão sobre aquilo. Ponto para ela.

— E o que sugere? Me recuso a baixar qualquer aplicativo de relacionamentos — da última vez, acabara mal. Muito mal.

Serena tinha um imã sobrenatural para atrair gente esquisita.

Os olhos de Íris se iluminaram do mesmo jeito que Serena se lembrava, um lampejo da Íris que tinha conhecido. Eram aqueles malditos olhos mordazes e sorriso lupino que a fazia segui-la e tomar decisões das quais se arrependeria depois. Mas por algum motivo imbecil, Serena até que sentira falta daquilo.

Íris então pegou a mão de Serena, com delicadeza.

— Lembra daquele barzinho das docas que íamos toda sexta-feira, o Shark’s? Não muito lotado, com música legal, salão grande e arejado — Serena concordou com a cabeça. Íris continuou falando: — vou encontrar um pessoal do trabalho hoje à noite. Amanda vai estar lá também. Você bem que poderia vir comigo. Eu adoraria apresentá-las.

Serena contraiu os lábios.

— Nem que me paguem.

O rosto de Íris se contorceu em uma expressão muito similar à de James quando queria mais ração. Serena tampouco se comoveu.

— Por favor. Juro que é um pessoal bacana. E Amanda vai adorá-la.

Um filme passou na cabeça de Serena. Todas as vezes que Íris havia repetido aquelas mesmas palavras.

Nunca acabava bem.

— É segunda-feira, Íris. Eu trabalho amanhã — Serena lembrou — cedo.

— Eu também— Íris retorquiu — não precisa ficar até tarde.

— É muito longe para ir de metrô e não vou largar minha caminhonete recém encerada nas docas — “dela” era um belo eufemismo, já que a caminhonete, tecnicamente, era de Isabel e estava guardada há meses naquela maldita garagem junto com as coisas da avó, mas Íris não precisava saber de nada daquilo.

— Tenho quase certeza de que existe uma série de aplicativos de corridas que resolveriam esse problema por você — cantarolou a amiga, com um sorriso estúpido na cara.

Serena suspirou.

Íris, pelo visto, encontraria uma solução para cada uma de suas desculpas esfarrapadas. Mas... ainda que não gostasse totalmente da ideia, não fazia ideia de quando fora última vez que saiu de casa apenas para se divertir.

Era patético, mas a bem da verdade, Serena não tinha feito muitas amizades nos últimos meses. A menos que as conversas casuais com o senhor Nakajima sobre o uso compartilhado das lixeiras do prédio contassem. Deus, ela torcia para que não.

E Bucky... será que eram amigos agora?

— Acho que não tem problema ficar um pouquinho e tomar um ou dois drinks — resmungou.

Íris bateu palmas.

— Perfeito — ela se levantou e Serena a seguiu. Precisava voltar para o trabalho — vejo você as oito e meia.

— Oito — murmurou Serena — e não tente empurrar pra mim seus amigos esquisitos.

— Isso nem passou pela minha cabeça — disse ela em um tom insidioso.

E se despediu com um aceno.

Era bem provável que Serena acabasse amargamente arrependida daquilo mais tarde, mas não pode evitar um sorrisinho em seu rosto enquanto Íris sumia no horizonte.

Era quase como se, pela primeira vez em muito tempo, o mundo estivesse voltando ao normal.

Notas finais
Olá! Eu não estou deixando notas, mas acredito que neste capítulo em especial seja algo válido. Primeiro, obrigada pelos últimos comentários (MayCastro, você é uma querida) gosto muito de ver a impressão de vocês. Este capítulo originalmente foi escrito junto com o anterior, apenas dividido para que não ficasse tão cansativo. É um pouquinho denso (e sem o Bucky), mas necessário para encarminharmos a história. Não se preocupem, logo mais ele volta. Por hoje é isso. Bom domingo. Beijos e até terça-feira!