Legacy | Bucky Barnes ︎
61 LXI
A BRISA SUAVE BAGUNÇAVA o cabelo solto de Serena enquanto encarava o horizonte pintado em tons de rosa e laranja. Ao longe, via-se barcos, os arranha-céus de Manhattan e a Brooklyn Bridge se estendendo à esquerda.
Ao se sentar em uma das pedras da orla, sentiu a energia das ondas tocando em sua pele, como se a cumprimentasse. Em resposta, tirou os sapatos e afundou os pés na água. Suspirou. Estava congelante, mas a sensação era boa. As pernas e os calcanhares formigavam um pouco depois de tanto zanzar pelo bairro, os pensamentos voando a quilômetros dali.
Precisaria fazer musculação, logo concluiu, encarando os pés doloridos.
Depois de todas aquelas semanas presa e incapacitada, a musculatura do corpo enfraquecera consideravelmente. Serena moveu os dedos devagar e franziu o rosto. Não estava tão ruim assim — seu fator de cura era uma mão na roda —, mas nunca havia passado tanto tempo sem se exercitar. Para os próprios parâmetros, estava fraca. Se quisesse continuar com a rotina de treinos, e certamente continuaria, era melhor que começasse o quanto antes.
Não fazia a menor ideia de como o faria, no entanto.
Isso porque, até aquele momento, não tivera presença de espírito — ou tempo, a bem da verdade — para voltar a treinar ou correr, a rotina de corridas matinais sendo deixada completamente de lado por um tempo. Em vez disso, suas energias estavam concentradas em terminar o que havia começado naquela noite.
Foram apenas dez dias que se seguiram desde a prisão preventiva do senador Orlov, mas parecia toda uma vida. E, depois de tardes e noites em claro com investigadores, médicos, advogados e políticos do comitê investigativo, organizando e reorganizando toda a burocracia que rodeava o sistema jurídico norte-americano, Serena mal via a hora do anúncio final: a condenação daquele homem detestável, embora soubesse que levaria meses — e muitas instâncias — até que a justiça fosse feita.
Mas ela não estava preocupada com o tempo que levaria até o julgamento quando, naquela tarde, escapou para ruas do Brooklyn com uma pequena urna em mãos e foi andando até a pequena baía de Pebble Beach. Estava colaborando nas investigações; cedera tempo, suor e sangue — literalmente — aos investigadores. Mais que isso, tinha se colocado à disposição, participara de mais cerimônias e audiências do que podia contar, então, aquela folga era merecida. Precisava de um tempo para digerir tudo que tinha acontecido.
Pelo menos, pensou ela nos minutos que se seguiram, era uma bela vista. As cores do pôr-do-sol refletiam nas águas tranquilas como uma aquarela, a brisa fresca soprando no rosto.
Estava prestes a se levantar quando sentiu, no bolso da bermuda, o telefone vibrando. Ela então pegou o aparelho e sorriu ao ver a mensagem do sargento pipocando na tela. Como você está? Perguntou ele, precisa de uma carona?
Serena olhou para a urna repousada nas pedras depois para o celular e respondeu: Estou bem.
O sorriso, porém, murchou um pouco.
Não havia dado muita explicação antes de sair, apenas disse que não queria ser seguida. Mas Bucky não era idiota, sabia o que estava planejando. Ela encarou tela com ternura. Era tão grata àquilo, as pessoas que a cercavam.
Sem que se desse conta, uma rede de apoio havia se formado ao seu redor. Uma pequena bolha de amor e cuidado. E, embora não soubesse os pormenores do que acontecera enquanto estava presa, Íris, Amanda, Bucky e — quem diria — Sam Wilson tinham formado uma espécie de acordo tácito, onde sempre um deles parecia estar por perto, escoltando-a como se fosse uma celebridade passeando pela cidade. Nunca ficava sozinha. Nunca.
Irritante e reconfortante ao mesmo tempo, era obrigada a admitir.
Mas nenhum deles — exceto Bucky, é claro — sabia por qual motivo decidira ir até aquela parte da cidade, sozinha ainda por cima. Os amava, sim. A sensação de ter tantas pessoas que se importavam com ela e que queriam seu bem-estar fazia o coração se encher de alegria, mas precisava fazer aquilo sem mais ninguém por perto. Ela então encarou o horizonte. Nenhuma sombra de drone ou rastreadores ou de Íris, tampouco a presença irreverente de Amanda. Bucky Barnes, no entanto, apesar de não estar ali, respondeu a mensagem dela com uma selfie na cozinha — sua cozinha —, a legenda dizendo: estou fazendo o jantar.
Não havia perguntas ou cobranças, apenas um lembrete de que ele estava em casa. Esperando-a. O peito se encheu de alegria. Ela sorriu outra vez. Serena tinha perdido a conta de quantas horas passaram juntos durante os depoimentos, com ele segurando sua mão, apoiando, orientando e até mesmo protegendo-a em determinados momentos. Francamente, só estava suportando aquilo tudo por causa dele.
Odiava aquele circo. Odiava o fato de que todos aqueles desconhecidos tivessem tanto conhecimento sobre ela e seu passado, mas não havia muito a se fazer a respeito. Depois que os piores anos de sua vida foram expostos no dossiê de Orlov com uma riqueza asquerosa de detalhes, foi impossível para Serena esconder sua origem inumana para o FBI — e o governo, por conseguinte.
Ainda assim, de alguma forma que nunca entenderia, Bucky — com a ajuda de Sam — negociou um acordo com a promotoria, garantindo o sigilo de sua identidade durante o processo. Sendo assim, a mídia e o público jamais saberiam que o aprimorado que causara um prejuízo milionário no Centro Poliesportivo era ela, o que, a bem da verdade era um alívio. Não sabia se teria sido capaz de lidar com tanta exposição e assédio naquele momento.
Então, na prática — segundo a promotoria, pelo menos —, Serena Valente continuava sendo uma civil.
Ela estalou a língua.
Civil, que piada. Não era civil coisa alguma, mas... aquilo já não a incomodava mais. Apesar de não se sentir apta — ou pronta — para assumir uma identidade pública como Bucky, o medo de ser descoberta já não existia mais em seu coração. Serena era o que era. Uma inumana. E, se alguém quisesse caçá-la por isso, que viesse. Daria conta.
Mesmo assim, refletiu, a forma como usaria seus poderes, o que faria dali em diante... bom, pensaria sobre o assunto mais tarde. Um problema de cada vez.
Serena deixou que os pensamentos se perdessem no ar conforme as ondas batiam nos pés, o céu lentamente sendo tingido em tons de rosa, depois, em azul. Não demorou muito até que amarelo das luzes da cidade colorissem a água cinzenta da baía de Nova Iorque.
— Acha que eu poderia fazer algo assim? — Serena murmurou, encarando o horizonte — quero dizer, sei que você sempre foi veemente contra a ideia, mas... as coisas mudaram. Eu mudei.
A maré estava aumentando, a água alcançando os tornozelos. Ao longe, ouvia-se barulho sutil dos carros na ponte e das embarcações atravessando a baía.
— Em partes por influência dele, é verdade — completou, sorrindo — mas o que posso dizer, vó? Eu o amo.
Ela olhou para o celular de novo. A foto do sargento ainda brilhava na tela. Era melhor terminar com aquilo de uma vez ou o deixaria preocupado. Bucky. Ah, Bucky... o sargento havia se tornado sua âncora naqueles dias, um porto seguro. E, naquele momento, a esperava em casa. e...não.
Bucky era sua casa.
Era ele a primeira pessoa que via quando acordava e última voz que ouvia antes de adormecer, abraçando-a e lembrando-a de que estava a salvo. Protegida. Bucky, no entanto, igualmente era a quem a enlouquecia diariamente enquanto a chamava de coisinha sempre que tinha a chance, usando aquele tom desnecessariamente complacente — e mesmo depois de todos aqueles meses, ainda não havia decidido se odiava ou amava o maldito apelido. Um pouco dos dois, provavelmente.
Fosse como fosse, desde que havia voltado ao apartamento e após ter sido recepcionada por um James extremamente furioso e, ao mesmo tempo, choroso — se é que poderia chamar a cacofonia de miados emitidos por ele nas horas que se passaram como choro — os quatro, incluindo Alpine, não tinham se separado mais. Passavam os dias e as noites espremidos na cama e no sofá de Serena; aproveitavam a companhia um do outro, sorrindo e conversando. Era como se fossem um... casal? Será que poderiam se considerar aquilo ou ainda estavam se conhecendo?
Sendo completamente sincera, Serena ainda não havia se incomodado em procurar um nome para definir o que ela e Bucky eram naquele momento, mas sabia o que sentia e sabia que era recíproco. O sargento tampouco se importava com rótulos, desde que pudessem ficar juntos. E, por ora, aquilo era o bastante para ela, todo o amor que sentiam um pelo outro.
— Acho que vocês se dariam bem — Serena murmurou, finalmente criando coragem para encarar a o vaso de cerâmica — ele ia adorar seus bolos.
Guardou o celular no bolso e pegou o vaso com cuidado.
Então, ali estava ela. Sozinha, com a urna funerária de Isabel, enquanto conversava com o nada. Mas precisava daquilo, da privacidade. Precisava se despedir. Definitivamente.
— Eu... queria ter dito mais coisas a você — ela continuou falando para Isabel — queria ter tido mais tempo com você..., mas não a condeno pelo que fez.
Serena tinha optado pela cremação por uma série de motivos, mas o principal era que Isabel como o espírito livre que outrora havia sido, detestaria passar a eternidade presa no túmulo de mármore preto e mórbido daquele memorial da S.H.I.E.L.D — apesar de terem feito uma lápide simbólica para ela de toda forma.
Não, Serena conhecia a avó. Ela queria ser livre. Mesmo após a morte e, faria aquilo por ela. Apertou a urna contra o peito, sentido as lágrimas escorrendo.
Depois de alguns minutos sem ouvir nada além do som das ondas batendo nas pedras da orla, Serena se levantou e a água recuou até os pés outra vez, permitindo que suas lágrimas se perdessem na imensidão do mar acinzentado de Nova Iorque sem ficar enxarcada.
— Sei que não é exatamente o que você queria, os holofotes — disse ela enquanto abria a urna — mas agora as pessoas sabem quem você foi. O que fez pelo mundo. Por mim.
Com a ampla divulgação dos crimes de Orlov, a mídia ficou ensandecida para descobrir quem havia sido o responsável por reunir aquele dossiê, quem havia sido a pessoa corajosa ao ponto de derrubar uma pessoa com a influência e o poder do senador. E, depois de muito ponderar, Serena decidiu que todos precisavam saber quem havia sido a agente IV, o que ela tinha feito durante todos aqueles anos dentro da S.H.I.E.L.D, a importância de seus serviços para o mundo...
Então, Isabel havia recebido uma medalha, uma cerimônia póstuma de condecoração e um espaço naquele memorial. Claro que todo aquele circo de aparências não significava porra nenhuma para Serena, mas... talvez fosse uma coisa boa. Talvez, aquilo servisse para manter o legado de sua avó vivo e, por que não, inspirar outras pessoas?
Era para isso que serviam os heróis, certo? Para inspirar. Trazer esperança ao mundo.
Serena sorriu.
— Obrigada por ter sido minha avó — ciciou, fechando os olhos.— Obrigada por ter me criado tão bem.
Uma pausa. A aragem da praia a envolveu em um abraço. Apenas o som de gaivotas, e buzinas ao longe a alcançavam. Passado um tempo, Serena abriu os olhos e, usando seu poder, uniu as cinzas com a água salgada do mar e as espalhou, a brisa marinha fazendo com que voassem e voassem em direção ao mar aberto até a última molécula. Quando terminou, colocou a urna no chão e fez com que a maré a arrastasse para longe, as pedrinhas fazendo cócegas nos pés.
— Obrigada Isabel... por ter me dado uma família e... por me amar — Serena olhou para o horizonte e limpou as lágrimas, a mão esquerda repousada sobre o medalhão que pendia por cima das roupas. — E eu sempre a amarei. Sempre.
E enquanto as cinzas desapareciam, Serena calçou os sapatos e deixou a praia, o peito quilos mais leve. Afinal de contas, Isabel Valente, sua avó, o centro de seu universo, estava livre.
Ainda sorria quando alcançou a orla, e continuou sorrindo enquanto caminhava pelo bairro, passando em frente ao Prospect Park, pela entrada da estação do metrô e, continuou sorrindo ao pegar o celular outra vez, digitando: chego em cinco minutos.
Então Serena Valente correu para casa.
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