Legacy | Bucky Barnes ︎
55 LV
POR UM TORTUOSO MOMENTO, SERENA NÃO FEZ NADA.
O corpo pendia para frente, mole como se fosse ela uma boneca de pano inanimada. A única coisa que o fazia ter certeza de ainda estava viva, era o movimento letárgico dos pulmões puxando ar.
Então, Serena moveu os dedos outra vez. Sutilmente. Ela sempre fazia aquilo quando estava nervosa. A dor veio em seguida.
Ele grunhiu e a soltou por puro reflexo.
—Cacete.
Sangue jorrou no chão. Sangue dele, no caso.
Havia um pedaço de gelo em um formato muito similar ao da adaga que tinha lançado contra Orlov fincado em sua coxa esquerda. Tirou aquilo. Merda,por muito pouco não tinha pegado na artéria femoral.
Ela aproveitou a distração dele e agiu: deu um passo para trás, afastando as pernas em uma postura de luta improvisada e invocou algo que parecia com um par de lanças de gelo. O ar ao redor condensou.
— Pare com isso, Serena — fumaça saia de seus lábios. — Você vai acabar se machucando.
Ela, contudo, não recuou. Os olhos estavam ocos e sem vida, sequer parecia ouvi-lo. Em resposta, o sargento contraiu o braço de vibranium e arfou.
Precisava de um plano e rápido.
Serena não tinha treinamento militar ou dominava técnicas de luta corporal; tampouco sabia manusear armas brancas como ele. Não, era apenas uma aprimorada extremamente poderosa e sem controle do próprio corpo. No que lhe dizia respeito, representava ameaça a si mesma e ao resto da população de Nova Iorque. Precisava fazer alguma coisa, tinha que pará-la antes que alguém menos empático a situação aparecesse.
Mas...como diabos faria aquilo sem machucá-la?
Bucky então disparou, mantendo a respiração calma. Imobilizar. Era capaz de fazer aquilo. Suas adagas, no entanto, eram inúteis. Não se atreveria a erguer qualquer arma contra ela.
Apesar de ter certeza de que Serena podia se curar rapidamente — considerando a velocidade em que o corte no braço estava fechando — machucá-la, ainda que fosse para o próprio bem... não, ele apenas se lançou contra a arma de gelo e a estilhaçou usando o braço esquerdo, e tentou agarrá-la outra vez.
Ela, porém, desviou com uma agilidade que não tinha previsto e saltou para longe de seu alcance. Bucky tentou outra vez.
O resultado foi o mesmo.
Porra, aquele corpo magricela e gracioso de ginasta a tornava mais escorregadia do que tinha previsto. E, talvez, não fosse tão irracional quanto imaginara. Apesar de tudo, Serena parecia ter noção da disparidade de força e experiência em combate entre eles e se esforçava para mantê-lo afastado.
No fundo, o senador assistia a luta como se fosse um jogo de futebol. Perscrutando e rindo das tentativas de Bucky de tentar pará-la. Ignorou aquilo e continuou tentando se aproximar, abrindo caminho por entre as pilastras de gelo que ela volta e meia erguia em uma tentativa de mantê-lo longe.
Precisava ganhar tempo. Precisava cansá-la.
Outra pilastra se chocou contra ele, desta vez se desfazendo em água ao seu redor, serpenteando feito uma víbora. Bucky estacou no lugar, não conseguia se afastar da água ou tocá-la. Então, no intervalo de uma piscada, a água o cercou por todos os lados e se fechou, prendendo-o em uma bolha.
O sargento tentou se mover, mas aquela coisa exercia uma força gravitacional própria, jogando-o para todos os lados enquanto se esforçava para manter o ar dentro dos pulmões, mas parecia que estava em uma máquina de lavar. Girando e girando.
Bucky resfolegou. A água fria entrava em seus pulmões e queimava feito o inferno, mas aquilo não o mataria, ao menos não tão depressa. Seria esse o plano de Orlov, ponderou enquanto tentava retomar o controle, torturá-lo enquanto Serena era forçada a assistir? E depois, ela... não.
Não aceitaria aquilo.
O braço de vibranium tiniu, as linhas douradas reluzindo.
Então, sem saber se daria certo, reuniu o restante da energia armazenada no braço esquerdo e a liberou de uma vez, criando um pulso energético pequeno, mas intenso o bastante para romper a tensão superficial da bolha, que se desfez pelo saguão.
O corpo dele imediatamente estatelou no chão com um baque surdo.
Serena, atenta a movimentação, apertou os olhos e recuou como se estivesse travando os próximos passos. Bucky por outro lado, arfou várias vezes, puxando ar e vomitando toda a água que havia engolido, o ar ao redor deles condensando ainda mais. Àquela altura, névoa densa cobria o saguão.
Merda, pensou ele, não deveria tê-la subestimado.
Mesmo assim, um jeito esquisito — e ligeiramente masoquista — estava orgulhoso. Aquela coisinha, mais uma vez, tinha demonstrado o quanto era forte. Resiliente. Uma estrategista nata. Não seria tão simples assim pará-la.
Mas ter de lutar contra ela...
Que Deus o protegesse.
✧❄✧
Íris não conseguia desviar o olhar de Isabel Valente.
A mulher que, em sua concepção, era a apenas a avó de sua melhor amiga; aquela cuja maior aptidão consistia em fazer bolos caseiros, na verdade, era a porra de uma espiã da S.H.I.E.L.D.
Como aquilo tinha passado batido por todos aqueles anos? Como era possível que nunca tivesse... arg. Suspirou. Claro que não tinha como Íris saber sobre aquilo.
Que tipo de espiã Isabel Valente seria caso saísse por aí entregando seu disfarce para qualquer um?
Ela piscou. Seria por essa razão que Serena nunca tinha deixado transparecer as próprias habilidades? Não por medo do governo em si, mas uma forma de proteger a identidade de Isabel? Teria ela sido, inconscientemente, treinada como espiã também? Se fosse o caso...
É, talvez fosse melhor nem pensar muito sobre o assunto.
— Como assim não teve escolha? — Íris decidiu perguntar, ignorando as outras dúvidas que ecoavam em sua mente.
Isabel não respondeu de cara, mas ela sustentou o olhar até que a agente cedesse.
— Depois que Serena e eu chegamos a Nova Iorque, a vida continuou. — disse ela, uma das mãos apertando o bolso esquerdo do casaco. — Não posso reclamar, foram quinze anos de paz e tranquilidade. Pelo menos até o dia que aquele demônio roxo pousou aqui e acabou com metade da vida no universo.
— O estalo — Sam Wilson murmurou.
Isabel aquiesceu.
— Então, pouco tempo depois daquilo, um dos advogados do setor jurídico Universidade de Nova Iorque me procurou. Queria saber mais sobre Serena. De onde tinha vindo, onde estudou, suas amizades, histórico médico... usou a desculpa de que queriam dar apoio para as famílias atingidas pelo estalo, mas aquele papinho de ajuda humanitária não me enganou nem por um instante.
— Por que diz isso? — Inquiriu Íris, os olhos estreitos.
Não fazia sentido. A Universidade de Nova Iorque de fato tinha prestado algum apoio aos familiares dos alunos que tinham desaparecido com o estalo. A própria Íris frequentara por um bom tempo a ala de assistência psicológica enquanto tentava lidar com toda a merda que tinha acontecido naquele ginásio, superar a perda.
Mas Isabel a encarou como se fosse uma criança ingênua.
— Porque, minha querida — disse, calmamente — o homem parado na minha soleira tinha sido enviado pelo então candidato ao senado, Nikolai Orlov.
Íris engoliu em seco.
— E o que ele queria?
Isabel estreitou os olhos.
— Na época eu não fazia ideia, mas senti que havia algo de estranho naquela história. Orlov nunca foi de agir sem propósito.
— Então você resolveu que a melhor forma de lidar com isso seria forjando a própria morte? Fugir? — Fugir dele, no caso, Íris não precisou dizer.
A agente IV torceu os lábios. Não era bem uma resposta, muito embora o olhar anuviado a entregasse.
— Foi a única coisa em que consegui pensar naquela hora — ela admitiu. — Orlov não teria sido capaz de reconhecer Serena apenas pela aparência, tampouco tinha me visto, mas... mesmo assim, não dava para arriscar. Para todos os efeitos, a agente quatro precisava continuar morta.
Uma pausa. Isabel olhou para a janela.
— Apenas por isso, para não manchar a memória de tudo que construí durante aqueles anos com Serena — emendou, a voz melancólica — dei um fim em Isabel Valente e saí de Nova Iorque.
Íris fez uma careta.
— E onde você esteve pelos últimos cinco anos?
— Orlov — ela franziu o rosto. — Aquele demônio tinha tirado tudo de mim. De novo. Tudo que eu queria era uma aposentadoria tranquila, passar o resto de meus dias no Brooklyn com minha neta e deixar toda essa merda de lado, mas... ele teve que se intrometer.
Isabel continuou olhando para além do apartamento, como se pensasse em várias coisas ao mesmo tempo.
— E sem minha neta eu já não tinha mais nada a perder. Orlov, por sua vez, continuava a solta, se beneficiando da dor e do sofrimento das pessoas, como o parasita que era. Então, enquanto forjava meu segundo atestado de óbito, decidi que o desgraçado não poderia continuar fazendo o que bem entendia.
Não porque se importava com o que ele estava fazendo, não para proteger inocentes, mas por pura e simples vingança. Aquela era a verdade implícita na explicação de Isabel Valente. Ela queria fazê-lo pagar por tudo que tinha feito. Ponto. Não havia empatia ou nobreza alguma em suas ações.
Íris não sabia se a achava corajosa ou covarde, se estava certa ou não, mas parecia injusto demais julgar quando aquela mulher tinha passado por tanta coisa sozinha. Além disso, perder Serena, que era o mais perto de uma família que tinha... não deve ter sido fácil.
Ela continuou falando:
— Passei anos investigando até descobrir o novo esquema — mais uma pausa e um triscar de lábios. — Orlov estava financiando Igor Vronsky, o mesmo cientista de antes; mais um desgraçado com complexo de Deus. Ele acreditava ser capaz de criar um soro com as mesmas propriedades do soro de super soldado a partir das moléculas do sangue inumano.
— E isso é possível? — Sam Wilson se intrometeu, a voz afetada.
Isabel fez que não com a cabeça.
— Somente um cristal terrígeno pode desencadear a mutação inumana de forma plena. Usar o sangue de um inumano com o gene ativo, pegar os resquícios da terrigênese e transformar em um soro... nunca daria certo. No melhor dos cenários, em uma pessoa com o gene inumano inativo, não faria nada.
— E se a pessoa não tiver o gene? — Sam quis saber.
Isabel torceu os lábios.
— Nesse cenário, em uma pessoa comum, seria praticamente uma sentença de morte. E as pessoas que tomaram aquele soro, as cobaias de Vronsky... — ela não precisou dizer mais nada.
Um silêncio fúnebre tomou conta do espaço.
Para o bem da própria sanidade, Íris não se atreveu a perguntar o que tinha acontecido ou quantas pessoas haviam passado por aquele procedimento.
Mas a agente prosseguiu com a explicação:
— Eles sabiam daquilo, sabiam que as chances de sucesso eram praticamente nulas e continuaram com os testes mesmo assim. Nenhuma cobaia sobreviveu aos testes. Zero. — A expressão perturbada de Isabel fez Íris estremecer. — Por isso, para não levantar suspeitas, Vronsky precisava mudar a localização do laboratório com certa frequência. Londres. Seoul. Bogotá. Madripoor... eu atravessei meio mundo caçando aquele homem, precisava dele para incriminar Orlov. Precisava do laboratório.
— Devo supor que, durante esse meio tempo, os Vingadores acabaram desfazendo o estalo — concluiu Íris — não é?
Isabel aquiesceu.
Então ela estava caçando aqueles homens detestáveis, por isso não estava presente quando Serena voltou, o que até poderia ser justificável, mas... ainda não conseguia entender por que aquilo a impedira de voltar para casa. Isabel obviamente amava Serena. Era nítido o carinho e a admiração escondidos dentro daqueles olhos acinzentados. Serena igualmente a amava, ficaria mais que feliz em vê-la. Nada daquilo deveria ter impedido que se reencontrassem.
Então... por quê? Era o que ecoava em sua mente.
— Eu estava muito longe quando aconteceu, Íris — a agente explicou, encarando-a. — Deus, levou um bom tempo até que minha ficha caísse, para que a compreensão de que Serena estava viva e bem me alcançasse. Quando o fiz, retornei de imediato até Nova Iorque, mas a merda já estava feita. — uma pausa. — Minha garotinha estava convencida de que eu tinha morrido durante o estalo e Vronsky continuava agindo, desta vez em um galpão abandonado nas docas do Brooklyn.
Íris apertou os olhos. Ao seu lado, Sam Wilson encarava Isabel de forma pragmática.
— Naquele momento tive que fazer uma escolha difícil — ela continuou falando. — Prosseguir com a investigação, prender Vronsky e Orlov por tabela... ou voltar a minha antiga vida e esquecer aquela história toda. Mas, se eu voltasse naquele instante... não, eu não suportaria.
— Como assim? — A pergunta veio de Sam.
— Serena passou anos acreditando que estava fora do alcance de Vronsky e da Hidra. Eu disse aquilo a ela. Trouxe-a até o Brooklyn com a promessa de que estaria segura e permiti que se esquecesse da maior parte dos horrores que tinha passado durante a infância. Como, em sã consciência, poderia olhar em seus olhos e dizer que aqueles homens terríveis continuavam a solta, tão próximos dela? Que corria perigo?
Íris não saberia dizer se era ou não uma pergunta. Mesmo assim, Isabel completou:
— Não, eu não podia encontrá-la. Ainda não. Não enquanto Orlov estivesse na espreita, não enquanto Vronsky estivesse solto. Por isso me mantive longe, para protegê-la, para mantê-los longe dela.
— Chama isso de proteção? — disse Sam, a voz rouca. — Privá-la da verdade, como se fosse uma criança?
— Foi uma medida temporária — Isabel se justificou — e eu não a deixei desamparada. Assim que soube sobre a bolsa, convenci Erika a contratá-la. Imaginei que enquanto Serena estivesse trabalhando dentro museu, com a tutela de Erika, estaria em segurança.
— Mas você se enganou — Sam observou.
Isabel apertou os olhos.
— Apenas porque Orlov assumiu o comando do GRC. Um movimento que nem eu nem Erika poderíamos ter previsto. — Lamentou. — Ele estava mais poderoso, mais influente. Tinha perdido completamente o medo de ser descoberto. E, depois, quando o escudo de Steve Rogers acabou no museu... a coisa descambou.
Sam Wilson fez um barulho com a boca.
— Acha mesmo que isso foi o problema?
— Por algum motivo, Orlov queria que o escudo ficasse naquele museu em específico. — Isabel revelou, os olhos faiscando. — Erika e eu acreditávamos que era uma medida estratégica, pela localização. Levamos tempo demais até entender as verdadeiras intenções dele e, quando Erika ligou os pontos...
— Orlov a matou — Sam completou por ela — porque ele sabia que Erika estava protegendo Serena. Não é?
Isabel abaixou a cabeça.
— Não é? — Repetiu ele.
Mesmo resignada, a agente aquiesceu.
— Erika Jones foi minha única amiga de verdade em todos esses anos, ainda não consigo acreditar que Orlov foi capaz de... — ela se interrompeu. — Sou a culpada por isso. Se eu não a tivesse envolvido nessa bagunça, ainda estaria viva.
Um vislumbre através da janela expressão perturbada da agente, os olhos cansados e anuviados pela dor.
— E qual era o papel de Orlov nisso tudo, afinal? — Íris perguntou.
— O centro poliesportivo do Brooklyn, desde o começo, era um projeto de fachada — Isabel revelou. — Toda aquela estrutura espalhafatosa foi pensada para acobertar as pesquisas de Vronsky e, enquanto Orlov estivesse comandando o GRC, ninguém questionaria o que realmente acontecia nos andares do subsolo.
Apesar de se manter firme, Íris sentiu o corpo estremecer. Tudo que estava ouvindo... aquelas pessoas.... eram monstros.
— Quando descobri aquilo — disse Isabel, a voz fria — Vronsky estava a um dia de mudar o laboratório de lugar. A última mudança. Mas... no fim tudo foi para os ares. Literalmente.
Íris piscou.
Uma explosão nas docas... se lembrava daquilo, de uma explosão no mesmo dia em que estava no Shark's com Serena e do anúncio da morte de Igor Vronsky no jornal no dia seguinte. Então tinha sido ela? Santo Deus.
Isabel continuou falando:
— Confesso que quando entrei naquele laboratório, tão parecido com o do mar negro, com aquela cobaia... as memórias falaram mais forte. Não pensei muito a respeito. Olhando em retrospecto, talvez não tenha sido meu melhor momento. Eu tive que mudar os planos depois disso.
— Por que diz isso, agente? — Sam perguntou, estreitando os olhos.
A agente encarou o Falcão.
— A ideia era prender Orlov — disse Isabel pacientemente. — Com o laboratório e Vronsky, seria fácil ligá-lo aos crimes. Fácil demais. Tanto que, até então, Erika e eu estávamos convencidas que o soro de Vronsky era o grande trunfo. Nem sonhávamos que aquilo era o plano B.
Sam disse a Isabel:
— Devo supor que àquela altura, o senador já sabia sobre Serena?
Ela aquiesceu.
— O desgraçado estava cercando-a feito uma víbora e não vimos aquilo — ela replicou. — Eu, por pura arrogância. Achei que fosse coincidência. Erika estava convencida de que ele estava puxando o saco de Serena para conseguir informações sobre a estrutura do museu. Nós o subestimamos.
— E agora — Íris concluiu — Erika Jones está morta e Serena está presa no centro poliesportivo, certo?
Isabel esticou os lábios.
— Garota esperta.
— O que faremos agora? — Sam prosseguiu, cáustico.
— Vista o traje — Isabel ordenou enquanto arrumava o casaco de forma que permitia com que Íris visse parte do coldre. Ela tinha todo um plano arquitetado, por isso estava ali. — Estamos de saída.
— O quê?
— Já faz alguns dias que estou de olho no perímetro — ela revelou. — Orlov costuma passar duas horas sozinho em algum andar no subsolo. Há apenas dois guardas circulando. Sem câmeras ou alarmes. Se agirmos agora, podemos pegá-lo no ato. Prendê-lo sem chance de escapatória.
Sam deu um suspiro resignado.
— Bucky deve voltar em breve — anunciou, já erguendo o corpo — vamos esperá-lo para discutir os pormenores.
— Não.
— Não? — ele repetiu.
Isabel encarou a janela outra vez. O que havia de tão importante do lado de fora, pelo amor de Deus?
— Talvez seja melhor mantê-lo fora disso, Wilson.
Sam cruzou os braços.
— Por quê?
Ela não respondeu. Em vez disso, enfiou a mão no bolso, apertando o quer que estivesse ali dentro.
— Não preciso ler mentes para saber que está escondendo alguma coisa — ele avisou, o olhar estreito — desembuche.
— Faz um tempo que tenho a suspeita de que Serena não é a única pessoa que Orlov deseja — Isabel revelou.
Sam e Isabel se entreolharam, como se tivessem uma conversa tácita. Ficaram assim por alguns instantes. Minutos. Até que o Falcão arfou.
— Isso não faz sentido. Orlov não pode querer nada com ele.
— Pense, Wilson — Isabel respondeu. — Orlov o quer. Por isso fez tanta questão que o escudo viesse para cá e montou todo esse circo. O desgraçado queria chamar a atenção... dele. Pretende usá-lo também.
A expressão do Falcão ficou sombria.
— Não vai funcionar.
Íris alternou o olhar entre Sam e Isabel, odiando o fato de estar tão perdida na conversa e perguntou:
— Estão falando de Bucky Barnes? O que o senador quer dele?
— Um assassino treinado — supôs Sam. — Alguém para sujar as mãos por ele.
Mas Isabel fez que não com a cabeça.
— Orlov quer controle. Poder. Mas precisa de apoio. Um símbolo para validá-lo — ela explicou. — Assassinos e mercenários existem aos montes por aí, mas o que Orlov está buscando... não, ele não quer o Soldado Invernal. Ele quer o Capitão América. E quem melhor que o melhor amigo de Steve Rogers assumindo o manto? Quem questionaria?
— Bucky jamais faria algo do tipo — Sam soprou, o olhar vacilando. — Quase me bateu quando insinuei isso a ele.
— Talvez não por vontade própria — Isabel pontuou — mas Orlov tem seus meios.
— A programação do Soldado Invernal não existe mais. — Sam insistiu, transtornado. — Bucky quebraria o pescoço de Orlov antes de obedecê-lo.
Então Isabel suspirou, tirando a mão do bolso daquele casaco. Íris apertou os olhos, mas não conseguiu ver o que tinha no punho cerrado dela.
— Ainda não entendeu o que está acontecendo, não é mesmo?
Sam não disse nada. Em vez disso, franziu o rosto, como se estivesse pensando.
— James... ele já deveria estar aqui, não acha? — Ela completou.
O Falcão olhou para o relógio na parede e apertou os olhos. Em seguida, tirou o celular do bolso da calça e começou a discar. Poucos segundos depois, no entanto, soltou um palavrão e o jogou no sofá, frustrado.
— Desligado — anunciou para ninguém em particular. — Onde aquele idiota se meteu?
Isabel fechou os olhos e ficou em silêncio por alguns segundos.
Toda a sala se calou também, tomada por uma aura estranha. Íris sentiu cada pelo do corpo se eriçando.
— Demoramos muito — a agente anunciou, abrindo os olhos. Um brilho esbranquiçado preenchia as írises. — James recuperou as memórias e foi até o centro poliesportivo. Sozinho. Temos que ir também antes que uma tragédia aconteça.
Sam soltou outro palavrão.
— Se sabia que Bucky estava lá, por que não disse de uma vez?
— Eu não sabia — ela disse.
Sam ignorou aquilo. Em vez disso, avançou um passo na direção dela, como se nada no mundo pudesse abalá-lo.
— Aliás, pra quê tanto segredo, agente? Percebe se que Bucky soubesse de tudo desde o começo, jamais teria deixado sua neta desprotegida?
A expressão altiva de Isabel se partiu por um instante. O brilho nos olhos se extinguiu, como se nunca tivesse existido.
— James — murmurou, como se fosse um impropério. — Não, eu não podia deixar que me visse ou que soubesse quem eu era.
— Por que não?
Isabel não respondeu à pergunta.
— Porque, agente? — O Falcão a pressionou. — Por que não contou a verdade?
— Eu tentei — a voz dela era pura raiva e resignação. — Eu realmente tentei avisá-lo sobre Orlov, mas não podia ser direta.
— E por que não poderia ser direta? — Íris perguntou, igualmente irritada.
— Como eu disse antes, querida — Isabel apertou a mão, os olhos faiscando — o cérebro humano é complicado. Forçar as memórias de uma mente tão fragilizada poderia matá-lo. James tinha que descobrir a verdade sozinho.
Sam trincou o maxilar.
— E se ele não tivesse descoberto? Ia permitir que passasse a vida acreditando em uma mentira?
— Ele descobriria... eventualmente. —Isabel garantiu, a voz fria. — E, naquele momento, era melhor que não soubesse. James tende a perder a razão em situações que envolvem interesses pessoais. Ele teria ido atrás de Orlov e isso colocaria todo o meu plano em cheque.
— Não tem como você saber uma coisa dessas.
— Não? — ela repetiu. — Então por que ele não está aqui? Por que ele não o procurou? Por que decidiu ir atrás de Orlov sozinho?
Sam ficou em silêncio.
— Sabe que estou certa — ela insistiu. — Você entende que se Orlov descobrir que o cerco está se fechando, o demônio vai arrumar um jeito de fugir como fez no passado, Wilson? Não vou colocar tudo a perder por uma decisão impulsiva, não quando falta tão pouco para colocar aquele homem atrás das grades.
Sam, no entanto, deu outro passo na direção de Isabel e apontou um dedo na cara dela.
— Porra nenhuma, agente.
E estava certo, Íris percebeu.
Isabel Valente não estava agindo de forma racional.
Havia uma série de furos e decisões questionáveis no "plano". Mais que isso, Íris já não estava mais comprando o discursinho "para proteger Serena" dela. Era como se, deliberadamente, não quisesse vê-los; como se fosse incapaz de encarar Bucky e, pior ainda, a própria neta.
Então para o inferno ela e suas histórias tristes do passado.
— Perdão?
— Tudo que eu vejo é ódio — Sam continuou falando. — Sede de vingança. E isso a cegou.
O ar ao redor deles ficou pesado.
— Mas não é só ódio — o Falcão observou, antes que Isabel se atrevesse a abrir a boca. — Você também sente vergonha. Não quer encarar Bucky depois de tudo o que ele passou por sua conivência. E, graças a isso, Orlov pode continuar com seus planos.
Isabel ajeitou a postura, como se estivesse se preparando para uma briga, mas Sam sustentou o olhar e continuou falando:
— Por sua culpa, Orlov chegou onde está. Por sua culpa, Erika Jones está morta. Graças a você, sua neta foi sequestrada. E, como se não bastasse, por sua culpa, Bucky vai foder com a condicional dele, isso se não fizer uma burrada e acabar matando Orlov no processo.
— E isso é ruim? — Íris se viu murmurando. — Todos concordamos que o senador é podre. Bucky estaria fazendo um favor ao mundo em matá-lo.
Mas Sam fez uma careta.
— Não é assim que funciona, Íris — o olhar dele era cansado, triste. — Apesar de não ser mais o Soldado Invernal, Bucky não é nenhum monge. Esse é o problema. Que tipo de mensagem o assassinato de um político como Orlov passaria? Acha mesmo que a justiça vai entender como autodefesa, que a opinião pública será favorável a Bucky nesse cenário?
Silêncio sepulcral. Íris não se atreveria a contradizê-lo.
— Não vai e isso tudo é culpa sua — Sam completou, apontando para Isabel. — Se você não tivesse fugido, se tivesse sido honesta desde o começo, não estaríamos nessa situação de merda.
A agente IV repentinamente virou o corpo na direção dele, os olhos brilhando em um tom assombroso de branco. Sam Wilson congelou no lugar. Íris e Amanda — sisuda ao seu lado por todo aquele tempo — ficaram igualmente imóveis.
— Acha que eu queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto, Wilson? — ela soprou, a voz assustadoramente calma — acha que em algum momento eu desejei que isso acontecesse? Que James sofresse tanto? Que Erika fosse morta? Que minha neta caísse nas mãos daquele mostro? É por isso que estou aqui, seu heroizinho de...
Isabel se interrompeu e olhou para a janela outra vez.
— Serena.
Então, houve um estrondo.
Íris sentiu o corpo relaxando.
— O traje — disse Isabel, sustentando o olhar em Sam. — Vista-o.
Sam Wilson abriu a boca, mas um segundo barulho o interrompeu. O hidrante que ficava na frente do apartamento tinha estourado.
Isabel torceu os lábios. Íris sentiu a atmosfera mudando novamente, mas de um jeito diferente. Uma brisa fria, como se estivessem em dezembro.
— Agora — ela entoou, olhando para o horizonte.
Como se se tivesse percebido a mesma coisa, Sam acenou com a cabeça e saiu da sala. Íris, aproveitou a distração e encarou a janela. Ao que parecia, todos os hidrantes do quarteirão tinham estourado e jorravam água com a força de um gêiser.
Não era natural, ela sabia. E estava prestes a se levantar, quando algo a empurrou para baixo.
— Você. Fica. — ordenou apontando para Íris. — Vocês duas.
— Nem pensar — Íris respondeu, tentando (em vão) se mover. — Serena precisa de mim. Vou com vocês.
Isabel suspirou.
— Lamento querida, mas o tempo de explicações acabou.
— O que você...
Os olhos de Isabel brilharam de novo. Brancos, como um farol. Era hipnótico, não tinha como desviar daquilo. Íris então sentiu o braço esquerdo se movendo, a mão aberta e estendida na direção de Isabel que, por sua vez, repousou o objeto que segurava em sua mão. A agente então olhou dentro de seus olhos.
Um calor imediatamente lhe preencheu o corpo. Era... bom.
— Durma — Isabel Valente murmurou.
Íris não pode resistir àquele pedido.
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