APESAR DE TUDO, BUCKY GOSTAVA DE MEDITAR. Por mais difícil que fosse ficar parado, a ideia de esvaziar a mente e não ter que pensar por cinquenta minutos inteiros era o paraíso para ele.

Claro, estaria mentindo se dissesse que não tinha achado a coisa toda extremamente idiota no começo.

O conceito todo de ficar parado por mais de dois minutos para alguém cujo status quo consistia em nunca ficar no mesmo lugar por muito tempo era — para dizer o mínimo — absurdo, mas alguns meses de prática o fizeram mudar de ideia. Aqueles exercícios o faziam relaxar e ver o mundo ao seu redor com mais de clareza. Um pouco.

Além disso, até que era útil aprimorar sua habilidade de concentração. Era muito grato a Ayo e Shuri por convencê-lo a começar com aquilo. Elas disseram que meditar o ajudaria a dormir melhor.

E, bem, ajudou.

Não acabava com os pesadelos — porque isso já seria demais —, mas até havia algo de reconfortante naquilo. Era muito bom ter um respiro de vez em quando. Ele quase sorriu. Às vezes sentia falta da paz que Wakanda proporcionava.

Ah, Wakanda. Provavelmente havia sido o único lugar no mundo em que Bucky tinha conseguido se sentir seguro de verdade em muito tempo. Um breve respiro depois de mais de setenta malditos anos de turbulência e caos. Provavelmente aquele havia sido o lugar mais pacífico e diverso que teve a oportunidade de conhecer em toda a vida. Sentia falta dos campos verdes. Da tecnologia. Das pessoas...

Mesmo assim, não gostaria de voltar para lá tão cedo.

Não porque o povo de Wakanda não tinha sido hospitaleiro com ele, porque eles foram. T’challa tinha oferecido asilo político a ele numa época em que metade do mundo queria sua cabeça e a outra queria fazê-lo de marionete — as duas opções eram igualmente tenebrosas — e, mais que isso, o Rei de Wakanda o tinha acolhido, o ajudara a curar o corpo e, principalmente, a mente. Devia muito a ele.

A todos eles.

Só que...depois de todo aquele tempo, Bucky sabia que era a hora de voltar para casa. O Brooklyn.

Ele ajeitou a postura e esvaziou a cabeça. Sua mente estava em branco, como se todos os seus problemas tivessem sido varridos para debaixo do tapete.

Nada de Soldado Invernal; nada de discussões com Sam ou com Raynor, a terapeuta. Naquele momento só exista Bucky Barnes naquela sala.

Relaxando.

Era difícil saber quanto tempo tinha ficado daquele jeito. Poderiam ser segundos. Poderiam ser minutos ou horas. Ele perdia a noção do tempo com muita facilidade durante as sessões, mas até que estava funcionando. Bucky conseguia sentir boa parte da tensão acumulada daquela semana de merda se dissipando. Com um pouco de sorte, até poderia ter uma noite de sono tranquila. Ele então inspirou. E expirou.

Um.

Toc, toc

Dois.

Toc, toc

Três.

Toc, toc

Quatro...

— Abre logo essa porta, sargento. Sei que está aí. Estou vendo a luz ligada.

Bucky resmungou um palavrão, abrindo os olhos.

Não tinha mais motivos para insistir com a meditação, não enquanto aquela coisinha pedante insistia em bater na maldita porta com sua postura altiva e irritante. Porra, estava ouvindo os pés dela batendo no chão outra vez.

Será que se a ignorasse, ela desistiria e simplesmente iria embora?

Toc, toc

Não, não iria.

Santo Deus, Serena era a pessoa mais insistente que conhecera na vida.

Mesmo sem muita paciência, Bucky foi direto até a porta, se martirizando se tinha sido uma boa ideia deixá-la pensar que ele tinha o menor interesse em fazer amizade ou qualquer merda parecida. Era óbvio que não tinha pensado direito antes de abrir a boca.

Mesmo que tivesse sido um alívio a última conversa.

Poderia ter sido pior, pensou. Muito, muito pior.

Quando Serena juntou as peças e descobriu que ele e o Soldado Invernal eram a mesma pessoa, Bucky achou que teria de procurar outro lugar para morar — como já tinha acontecido em um passado recente — o que, francamente, seria um saco. Ele esperou o olhar de julgamento. Gritos. Um pedido formal de despejo, talvez. Não complacência. Muito menos empatia.

Era... estranho.

Pela primeira em muito tempo, ele havia sido tratado como um ser humano comum por um civil. Era como se ela não visse — ou apenas ignorasse— o Soldado Invernal. E Bucky não fazia ideia sobre como deveria se sentir em relação a isso, mas não era de todo ruim.

—Algum problema? — O sargento murmurou ao abrir a porta.

Na soleira, Serena o encarou no que parecia um misto de confusão e irritação. Ela tinha comentado alguma coisa sobre jantar, horas antes, embora tivesse dito aquilo tão rápido que suas palavras formaram um gigantesco borrão na mente dele.

Ela estreitou os olhos.

— Como assim problema? — retrucou — você já se esqueceu do que falei de manhã?

A coisinha estava com roupas novas.

Usava uma camiseta grande demais em comparação ao corpo miúdo, com uma estampa esquisita de gatos segurando espadas brilhantes espaciais; uma bermuda preta que mal cobria as pernas curtas; o cabelo estava preso no que em algum momento deveria ter sido um coque, mas bagunçado, como se ela tivesse acabado de sair de uma briga de bar; a boca estava pintada com batom cor de ameixa brilhante, tão brilhante que até parecia um piso lustrado. Para completar, em seus pés jaziam o mesmo par de sapatos de palhaço que estava usando pela manhã.

Ele a encarou. Por que a moda do século vinte um tinha que ser tão esquisita? Ou seria ela a esquisita? De qualquer forma, Serena não parecia se importar com a própria aparência.

— Não consigo acreditar que você é tão distraído assim — emendou. Ela falava rápido e tinha um sotaque sutil que Bucky não conseguira identificar até o momento.

Meio Oeste? Definitivamente não. Texano? Também não.

— Achei que não estivesse falando sério — ele respondeu.

Seria estrangeiro? Pensou. Sim, definitivamente estrangeiro.

Mas... de onde?

— E porque eu não... — ela pigarreou — falaria... sério...

Bucky a encarou outra vez. O olhar da coisinha repentinamente se esquivou para esquerda, como se o elevador do outro lado do corredor fosse a coisa mais interessante do mundo. Suas então bochechas mudaram de cor para um tom interessante de carmim.

— Foi uma pergunta? — o sargento devolveu, o corpo apoiado contra o batente da porta.

Ele exibiu um sorriso indecoroso com a postura desconfortável dela. Sabia o que estava acontecendo. Tinha aberto a porta tão afoito — graças as incansáveis batidas dela — que se esquecera de vestir a camiseta, portanto, estava completamente nu da cintura para cima.

Mas não se desculparia por aquilo.

— Não. Sim. Eu não acredito que você... Eu não...— ela até tentou continuar, mas toda vez que olhava na direção dele, seu rosto redondo ficava mais e mais vermelho. Bucky quis rir com a reação pudica dela — mas que droga cara, será que não dá para você colocar uma camiseta, não?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Oh, me desculpe, o jeito como me visto na minha própria casa deixa você desconfortável, coisinha?

Serena arfou.

— De maneira nenhuma, é só que isso... uau... — disse ela apontando para o peito dele — Santo Deus, isso é de verdade?

— Quer descobrir? — ele devolveu, esticando os lábios.

Ela abriu a boca. Depois fechou. E depois abriu outra vez.

Mas Serena, normalmente tão petulante, não pareceu encontrar uma resposta plausível. Ao fim, desistiu e cruzou os braços, olhando fixamente para a sala, mudando de assunto descaradamente com um pigarro.

— Engraçado — chiou — eu imaginava que seu apartamento seria um pouco diferente.

Bucky torceu o nariz. E como deveria ser afinal?

Ele sabia que todos os apartamentos do prédio tinham o mesmo padrão e formato. A mobília, porém, por via de regra era trazida pelos próprios inquilinos.

Só que desde que havia se mudado, Bucky não se deu ao trabalho de comprar nada. E, por esse motivo, na sala jaziam apenas os poucos móveis deixados pelos antigos moradores.

Uma poltrona velha e rasgada; uma pequena estante que servia de apoio para a televisão — não tão velha, mas também não muito nova — e algumas cadeiras que ficavam espalhadas pelo cômodo. O suficiente para sobreviver, embora deixasse o apartamento com aquela impressão de abandono e melancolia e que combinava muito bem com seu estado de espírito.

— E como você imaginava meu apartamento? — quis saber, no entanto.

Serena apoiou a mão no queixo, como se ponderasse.

— Algo mais patriótico, talvez. Você sabe, paredes em azul e vermelho, uma bandeira bem grande atrás da televisão — ela apontou para o canto da sala — algumas estrelas, posters e quem sabe um Capitão América de papelão em tamanho real. Essas breguices patrióticas que caras como você adoram.

Bucky contraiu o rosto.

— Um Capitão América de papelão? Por que eu teria um Capitão América de papelão?

— Amor à pátria? — ela, que parecia adorar rir da cara dele, ergueu os lábios antes de continuar:— uma lembrança dos bons tempos?

— Isso é perturbador.

— Com certeza — Serena concordou e franziu a testa — mas não foi por isso que eu vim aqui. Está com fome?

Ele ousou abrir a boca, mas ela conseguiu ser mais rápida, disparando:

— Tenho certeza de que você vai adorar minha comida — a voz dela tinha um tom mais prepotente que o usual, embora também houvesse confiança, como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo — já faz um bom tempo que não faço a receita de lasanha da minha avó, mas tenho certeza de que é bem melhor que aquela porcaria congelada do mercado.

Bucky piscou.

Era como se Serena realmente estivesse feliz por cozinhar para ele, o que não fazia o menor sentido. Por que ela cozinharia para um semi-conhecido sem razão aparente? Ele, ainda por cima.

— Você não precisava ter feito isso. Não é como se você estivesse em dívida comigo.

— Eu sei — ela concordou, revirando os olhos — e não se acostume. Convidei você para jantar porque queria comer lasanha e odeio desperdício. Sua presença é um bônus. Não pense que estou fazendo isso porque você é homem, sargento.

Ele sentiu o rosto esquentar.

— Não foi o que eu quis dizer.

— Mas pensou, não pensou? — disse ela, com a altivez digna de uma rainha — certamente achou que eu estava pensando que poderia consertar seus traumas de infância com lasanha e pensamentos positivos.

— Seria preciso muita lasanha — ele resmungou.

— Que tal se fossemos mais devagar? — sugeriu — pense nisso como um jantar de boas-vindas atrasado.

E ergueu os lábios carnudos.

O batom roxo reluziu tanto quanto seus olhos castanhos. Uma combinação exótica, mas muito bela, tinha de admitir.

— O que foi? — ela perguntou — por que está me encarando agora?

— Não me lembro de ter concordado em jantar com você — ele pontuou.

O sorriso dela se contorceu em uma careta.

— Ora, e por que você não quer jantar comigo? — Serena cruzou os braços e empinou o nariz, como se soubesse de tudo — eu sei que você não tem nada melhor para fazer mesmo.

Ele bufou.

— Como você sabe se eu não tenho nada para fazer?

O nariz dela empinou ainda mais e ele nem sabia como aquilo era possível.

— Oh, me perdoe, sargento — disse ela, complacente — você tem alguma coisa melhor para fazer agora?

Bucky não gostaria de admitir que ela tinha razão — achava perigoso demais alimentar o ego naturalmente inflado dela—, embora Serena o tivesse pegado. Seus planos para aquela noite incluíam continuar meditando até se cansar e depois dormir, feito um idoso. O que nem estava errado, sendo sincero.

Arg.

Quando se tornara tão patético?

Se o antigo Bucky pudesse ver o tipo de pessoa que tinha se transformado, viajaria no tempo apenas para socá-lo. Porque sabia que se estivesse em sua época, jamais ficaria em casa sem fazer nada, não em plena noite de domingo, como naquele momento.

Àquela altura, o antigo Bucky estaria saindo com uma mulher.

Primeiro à levaria para jantar, depois para um clube, onde dançaria com ela por toda a noite e, depois, quem sabe eles poderiam... não importava.

Porque aquele Bucky já não existia mais.

— Não, não tenho — a resposta não era mais um sussurro lamurioso.

Os olhos dela brilharam como se tivesse acabado de ganhar um unicórnio.

Talvez não fosse uma ideia tão ruim assim jantar com a coisinha, pensou ele. Comida de graça era comida de graça.

E ele poderia transformar aquilo em algo positivo.

Durante a última sessão da terapia obrigatória, Raynor, depois de vasculhar seu celular — atitude que Bucky tinha certeza de que era antiética, para dizer o mínimo — praticamente o intimara a sair com outras pessoas, como se ele fosse a criança problemática do primário.

— Então? — Serena cantarolou — vai deixar a comida esfriar?

Ele suspirou. É pela terapia. Se andasse na linha, aquela merda acabaria em breve. Era o que Raynor havia dito, pelo menos.

— Ok — disse ele.

E deu um passo para frente. Mas a coisinha tamborilou o indicador no queixo e falou:

—Não intérprete isso como uma crítica, sargento. Mas pretende sair desse jeito?

Levou alguns momentos até que Bucky realmente entendesse sobre o que Serena estava falando. Ele continuava nu da cintura para cima. Ela deu uma risadinha petulante, embora suas bochechas ainda estivessem um pouco coradas. Ele revirou os olhos. Agora era ela quem o tinha deixado sem graça, maldita fosse.

Então, sem dizer nada, voltou para o quarto, refletindo sobre sua decisão de merda. Várias delas.

✧❄✧

A primeira coisa que Bucky notou ao cruzar pela porta era que o apartamento da coisinha era o completo oposto ao dele. E, talvez, ela tivesse razão em achar o apartamento dele tão estranho. A estrutura era exatamente a mesma, mas, de alguma forma, aquele lugar parecia de fato um lar.

Era vivo. Iluminado. Tinha personalidade e alma.

As paredes de gesso foram pintadas com formas que pareciam ondas, em vários tons de azul e estavam repletas de fotografias enquadradas. A janela era enorme e permitia a entrada de luz natural. Ocupava mais de um terço da parede e tinha uma reentrância onde um colchonete verde-água repousava com várias almofadas coloridas por cima e era contornado por um pisca-pisca, provavelmente esquecido de algum natal passado; a televisão parecia duas vezes maior — e muito mais moderna — que a dele; no meio da sala, havia um sofá bege que parecia muito confortável e, embaixo dele, pode notar um tapete branco enorme e felpudo, como se ela tivesse tosado umas sete ovelhas e largado a lã ali; por fim, várias prateleiras com livros e troféus completavam a decoração moderna.

Uma bela coleção, aqueles troféus, ele notou.

De diversos tamanhos, estavam datados em diferentes épocas. 2012. 2014. 2015. 2017. A data mais recente era, aparentemente, 2018. Alguns eram dourados, outros prateados, além de diversas medalhas brilhantes, o que não deixava de ser impressionante.

Outra olhada rápida e Bucky encontrou uma moldura empoeirada no canto da prateleira, onde Serena trajava um collant azul claro, coque e segurava um buquê de flores maior que o próprio rosto. Ela tinha um sorriso doce e júbilo. Parecia apenas alguns anos mais jovem. Havia outra mulher ao lado dela, que também segurava um troféu. Pareciam ter a mesma idade.

Bucky encarou a foto.

— Ainda me lembro desse dia — Serena murmurou — foi minha primeira competição na NYU, em 2014 — apesar do tom casual, seu olhar era melancólico — consegui dezesseis ponto um em dificuldade e execução. A nota mais alta até hoje da Universidade, modéstia parte.

Ele continuou olhando para a foto.

— Não sabia que era atleta — ele observou — está disputando o campeonato nacional ou algo do tipo?

Houve uma pausa. Ela cruzou os braços.

— Ah, não — Serena murmurou — eu não... eu não estou competindo mais.

— Por quê? — A pergunta tinha fugido de seus lábios antes que Bucky tivesse o bom-senso de controlar a maldita língua.

Serena desviou o olhar para o chão.

— É complicado — falou.

Bucky então tirou os olhos da foto, e voltou aos troféus. A última data era, de fato, 2018, ano em que... Merda.

Ele era um babaca insensível.

A última competição dela havia sido no mesmo ano em que Thanos dizimara metade da população. Era bem possível que Serena tivesse sido uma dessas pessoas. Como ele. Como tantas outras.

— Me desculpe — ciciou — não quis ser inconveniente.

— Tudo bem. É só que... — ela suspirou — sempre fui um prodígio na ginástica, sabe. Desde pequena, sempre foi a única coisa em que eu realmente era boa — um sorriso fraco escapou por entre seus lábios enquanto falava, como se fosse uma memória amarga, aquela — e, graças as competições, consegui bancar boa parte da minha formação. E tudo estava indo bem até...

— Thanos?

Ela concordou.

— Foi tudo muito rápido. Em um momento eu estava esperando minha nota no tatame e no outro as pessoas começaram a correr — Serena fez outra pausa — quando dei por mim, cinco anos tinham passado. Nada era como antes. O mundo mudou. Eu mudei.

Bucky não gostava de pensar muito sobre aquele assunto —principalmente porque já estava atolado até o pescoço com suas próprias merdas para lidar — mas... as cicatrizes causadas pelo estalo de Thanos foram muito, muito maiores do que ele se permitia notar.

Especialmente para civis, como a coisinha.

Como teria sido acordar pela manhã e descobrir que um ente querido simplesmente tinha virado pó? Um pai. Um irmão. Um companheiro. Quão dolorosa seria a sensação de viver em um mundo caótico onde mais nada fazia sentido?

Será que aquelas pessoas ao menos sabiam o que realmente acontecera naquela tarde infernal em Wakanda?

— Sinto muito — disse ele, no entanto.

Bucky sabia que tinha sua parcela de culpa naquilo.

Porque tudo que tinha feito enquanto a garota bruxa matava o próprio namorado robô para salvar o universo — apenas para vê-lo morrer outra vez nas mãos de Thanos, momentos depois — foi assistir. Assim como estava presente quando ele estalou os dedos.

E não pode fazer porra nenhuma a respeito.

— Nada disso é culpa sua — Serena respondeu.

Bucky queria poder discordar, mas pela forma como ela deu-lhe as costas e saiu andando o deu a certeza de que não queria falar mais sobre o assunto.

— Olha, não tem com o que se preocupar — ela continuou — já superei isso há muito tempo — e abanou as mãos, enquanto pegava dois pratos de porcelana do armário, colocando-os na bancada em seguida.

— Não sente falta de competir? — Sabe Deus porque, ele perguntou.

— Meu emprego consome muito mais do meu tempo do que eu gostaria. Não é como é se sobrasse espaço para treinar enquanto passo quase dez horas fora de casa por dia.

Bucky apertou os olhos.

— Parece... cansativo.

Ela concordou.

— Se quer mesmo saber, sargento, estou satisfeita com minha vida agora — a coisinha disse — tenho um emprego... razoável. E posso comer quantos potes de sorvete de brownie com jujubas quiser sem me sentir uma criminosa por isso. É o sonho americano.

Tão rápido quanto veio, a melancolia dela desaparecera. Bucky achou melhor mudar de assunto enquanto a ajudava a servir o jantar.

Não se lembrava da última vez que sentira um aroma tão delicioso quanto aquele.

Ele inspirou e quase pode sentir o gosto do molho de tomate, manjericão e das especiarias e... Santo Deus, aquele molho borbulhava embaixo do queijo gratinado. O estômago dele roncou como se estivesse sem comer a dias. De repente, a comida congelada que havia comido no almoço parecia mais um pedaço de papelão.

Bucky então se sentou em frente ao balcão da cozinha, onde uma garrafa de vinho foi servida por Serena, que em seguida, virou-se para um dos armários, como se estivesse procurando por alguma coisa.

Ela estava em silêncio, olhando fixamente para um ponto específico, com uma careta.

Ele precisou controlar o ímpeto de rir.

Na prateleira do topo, Bucky viu as taças de vidro, taças essas que ela obviamente estava tentando pegar, embora fingisse que não.

Baixinha e extremamente orgulhosa, Serena preferia ficar encarando o armário, como se em um passe de mágica as taças fossem aparecer em suas mãos, do que pedir ajuda a ele de uma vez.

— Algum problema, coisinha? — perguntou, despretensiosamente.

— Não, nenhum — disse ela, rápido até demais — por que teria algum problema?

Um esboço de sorriso surgiu nos lábios dele.

— Você está há quase cinco minutos encarando as taças da prateleira de cima.

— Não estou não.

— Ah, está sim — ele respondeu — quer que eu pegue pra você?

— Não — ela então se esticou outra vez, mas não chegou nem perto de alcançar a prateleira — que merda. Sim. Por favor.

Sem dificuldade alguma, ele tirou as taças do topo do armário, assomando entre ela e a parede.

Porém, o espaço do lugar era menor do que parecia e, inevitavelmente, ficaram próximos. Muito próximos. Tão próximos que a cabeça dela bateu contra o peito dele. Serena se virou para abrir a passagem e eles ficaram cara a cara. Bucky encarou o rosto redondo e os olhos cor de avelã dela. Eram grandes, brilhantes e expressivos e que reluziam feito os pisca-piscas da sala. Ele não precisou respirar para sentir o perfume inebriante de flores silvestres e ameixa dela, seus sentidos aguçados faziam aquilo por ele.

Os batimentos cardíacos dela aumentaram um pouco. Muito pouco, mas ele pode perceber. Era fofo. Ela estava constrangida. Provavelmente porque Bucky a encarava-a como se fosse a criatura mais fascinante da face da terra.

Ele não parou, no entanto.

— Obrigada — ela resmungou e pegou as taças.

E saiu.

Bucky ainda conseguia ouvir o coração dela batendo enquanto andava até a mesa.

✧❄✧

Até que era agradável jantar com a coisinha, Bucky era obrigado a admitir.

Mesmo que ela gostasse — e muito — de falar e passasse quase todo o tempo tagarelando sobre uma série de coisas que ele não entendia direito; música, televisão e filmes, principalmente. Tudo bem, ele podia sorrir e fingir que sabia o que havia sido o Queen ou o impacto deles no cenário musical dos anos setenta ou qual havia sido a melhor adaptação para o cinema de o Hobbit — e teve mais de uma? — porque, bem, ela claramente estava se esforçando para fazê-lo se sentir confortável. E, porra, sua comida era muito boa.

Por aquele motivo, especificamente.

— Posso fazer uma pergunta? — Serena murmurou, enchendo sua taça no que deveria ser a terceira vez.

— Se eu disser não, vai te impedir?

A coisinha abriu um sorriso jocoso que falava por si só.

— É verdade que existe viagem no tempo? Tipo, é possível mesmo voltar ao passado?

Ele apertou os olhos.

— Quem te disse isso?

— Ah, aquele cara que encolhe. Scott alguma coisa — ela respondeu, tocando no queixo — bem, ele não me disse, porque eu nunca o vi na vida. Mas ele fez um podcast sobre isso. E escreveu um livro. Tem na amazon.

Bucky suspirou. Aparentemente, naquele tempo o conceito de sigilo já não existia mais.

— Sim, é possível — disse ele, pegando mais um pedaço de lasanha. O terceiro. Ou quarto. Estava boa de verdade.

Serena sopesou taça na mão e sorriu como se tivesse acabado de ganhar um milhão de dólares.

— Como funciona? — perguntou ela — é magia ou tecnologia?

— Tecnologia.

— E como funciona o dispositivo? — Serena continuou falando. Seus olhos poderiam abrigar estrelas de tão brilhantes — é um relógio? Um carro que abre por cima, ou melhor ainda, uma cabine telefônica?

Ela falava rápido. Tão rápido que ele mal conseguia acompanhar.

— Não faço ideia.

Ela torceu o nariz.

— Como assim não faz ideia?

— Na época eu estava morto — ele argumentou — não cheguei a usar aquela coisa.

Os lábios dela tremularam. Ele continuou comendo.

— Mas ninguém te contou como funciona? — Serena insistiu — nunca a viu funcionando?

Houve uma pausa.

A bem da verdade, Bucky havia visto sim a coisa toda funcionando. Uma única vez, momentos antes de Steve entregar o escudo a Sam, partir para o passado e nunca mais voltar.

— Apenas o básico — disse ele, no entanto — mas meu conhecimento sobre física quântica e teoria das cordas é um pouco limitado.

— Ah — as bochechas dela ficaram em um tom de coral — certo.

— Mais alguma pergunta?

Ela acenou.

— O que aconteceu de verdade? Eles apenas voltaram no tempo e impediram o estalo? Isso não deveria ter alterado nosso presente?

Eram três perguntas, mas ele relevou. Só porque aquela lasanha estava muito boa.

— Não exatamente; o tempo não funciona desse jeito — Bucky então pegou sua taça e encheu até a metade com o merlot 2015 de Serena — e não me olhe assim, tudo o que sei sobre isso é que mudar o passado não altera o nosso presente. Ou o futuro.

Ela apoiou a mão no queixo.

— Quer dizer que De Volta para o Futuro é uma mentira?

Ele levantou uma sobrancelha.

— O filme de ficção científica, você diz?

— É.

Ele deixou escapar o que deveria ser uma risada, embora mais se parecesse com um murmúrio de escárnio. Ainda assim, era o mais perto que Bucky de uma risada sincera que havia conseguido esboçar em meses.

— Não ria — ela chiou.

— Perdão — o sargento pigarreou — mas você achou que aquilo fosse um documentário?

— Não seja tão babaca — Serena bufou, erguendo as mãos — é um mundo novo pra mim. Tudo parecia possível.

— Mas se basear em um filme...

Ela revirou os olhos.

— O mais surpreendente nisso tudo é você saber que De Volta para o Futuro é um filme. Ou o que é um filme.

Bucky apertou os olhos. Serena tinha acabado de insinuar que era velho?

— Já existia cinema na década de quarenta, coisinha — resmungou — o último filme que assisti foi Cidadão Kane.

Como se isso melhorasse a situação, pensou ele.

— Um filme de quarenta e um — a coisinha observou, com uma expressão de esgar — bem recente, sargento.

Ele estreitou os olhos.

— Quem está sendo babaca agora?

Ela deu uma risadinha.

— Não tem por que ficar chateado, velhinho. Eu amo filmes antigos —Serena falou, se interrompendo para tomar mais um pouco de vinho — Cidadão Kane é um ótimo filme. Um dos meus favoritos da década de quarenta, na verdade.

Ele piscou.

— Você está falando sério? Gosta mesmo disso?

A mulher inclinou a cabeça.

— Claro que sim. E por que não eu gostaria?

— É um filme velho — ele observou — você mesma disse isso.

— No século vinte e um, chamamos de vintage — ela deu uma piscadela — e vintage nunca saí de moda. Lembre-se disso, sargento.

Ele retorceu os lábios.

— Engraçadinha.

Ela piscou outra vez e entornou o que sobrara de bebida na taça. Bucky tinha quase certeza de que ela estava levemente alterada. Não bêbada, mas um pouco alegre.

— Sério que você nunca mais assistiu nada? — Serena perguntou — nadinha mesmo?

Ele acenou lentamente com a cabeça.

— Nem Star Wars?

— Não.

Ela soltou um palavrão.

— Nem mesmo Rocky? Parece com o tipo de filme que você gostaria.

Serena definitivamente bebera mais do que deveria.

— Qual parte de nada você não entendeu?

— Tem razão, me desculpe — ela murmurou — mas agora que sei disso, não posso simplesmente deixá-lo assim.

— Assim como?

— Alheio a cultura pop — Serena respondeu, como se fosse óbvio — é a parte mais importante da nossa sociedade. O cinema é o que nos impede de voltar a era das trevas.

— Você está exagerando.

Ela o ignorou.

— George Lucas, Steven Spielberg, Greta Gerwig, Tarantino — a cada nome, Serena levantava um dedo, como se estivesse fazendo uma lista — grandes gênios da nossa geração. E são apenas alguns deles. Você pelo menos tem Netflix?

Ele torceu o nariz.

— Net o quê?

Os olhos dela poderiam ter saltado do rosto, de tão arregalados.

— É muito pior do que eu imaginava.

— Olha — disse ele, antes que Serena tivesse um colapso — não é como se fosse de propósito. Em geral minha vida não costuma ser tão...

— Tediosa? — Arriscou ela.

— Pacífica — ele corrigiu — é a primeira vez em mais de setenta anos que não estou enfiado no meio de uma guerra ou alguma merda do tipo. Lazer não é minha praia.

Bucky não sabia por que havia contado aquilo a ela. Sentia que não deveria ter contado aquilo a ela.

Serena, por sua vez, o encarou com ar de confusão.

— E é ruim não estar enfiado no meio de uma guerra?

— Não, claro que não — Bucky suspirou — só é... diferente.

E ele não tinha ideia de como deveria se sentir em relação a aquilo.

A bem da verdade, havia momentos em que tinha a impressão de que abriria a porta da sala e o apartamento explodiria. Então, outro alienígena genocida estaria esperando por ele. Junto com a Hidra.

Tudo de uma vez.

— Eu tenho uma lista, com alguns filmes, séries, músicas. Para me... atualizar. Um velho amigo me deu há um tempo — ele mudou de assunto, para o maldito caderno que jazia em uma das cadeiras do apartamento, sabê-la por que — mas nunca me interessei por ela. Não de verdade.

— Por quê?

Porque não quero olhar para aquele maldito caderno mais que o necessário. Porque isso me faria seguir em frente. E eu não posso seguir em frente. Não é certo.

— Não tive tempo — disse ele, ao invés disso.

Serena encheu sua taça outra vez e ofereceu a garrafa ele. Tinha menos de um terço de vinho nela.

Seria muito indelicado da parte dele beber o resto de uma vez?

— Pode me dizer alguma coisa que tem nessa lista? —pediu ela — só uma coisinha.

— Não — a voz dele soara muito mais rude do que gostaria.

Ela então, para a surpresa de Bucky, abriu um sorrisinho.

— Tudo bem, tudo bem. Íntimo demais, eu respeito isso — respondeu e colocou os talheres em cima do prato vazio — posso pelo menos fazer algumas indicações para você anotar?

— Ah, sim?

Os olhos dela pareceram se iluminar.

— Perfeito! Podemos começar agora?

Ela se levantou e seguiu até a cozinha, em direção ao forno. Desde quando aquela coisa estava ligada?

— Do que você está...

— Brownies e Netflix — Serena cantarolou, radiante, com uma travessa fumegante nas mãos — os principais responsáveis pelo meu desinteresse em socialização desde 2015. Espero que tenha guardado espaço para a sobremesa, sargento.

Ela saiu com a travessa em direção a sala e, com um comando de voz, ligou sua televisão ridiculamente grande e brilhante. Um “N” enorme apareceu na tela. Com um gesto, convidou Bucky para o canto vazio do sofá branco. No meio, o gato barulhento dela jazia dormindo enrolado. Estaria ele ali aquele tempo todo?

Em menos de quinze segundos, ele traçou lista mental com os prós e contras em aceitar o convite dela.

Contras: A coisinha poderia pensar que ele estava disposto a fazer amizade, o que não era verdade;

Estava ficando tarde. Era um contra? (Sim, era);

O gato dela parecia odiá-lo. Erguera os olhos azuis para Bucky e fez um daqueles sons ameaçadores de gato, como um alerta para que se afastasse;

Não parecia sensato se aproximar de uma civil. Na verdade, era uma ideia de merda e nunca acabava bem.

Prós: Ele não conseguiu pensar em nenhum, embora o brownie parecesse delicioso.

Quando ela sorriu e deu algumas batidinhas no sofá, porém, Bucky andou até a sala.

Só por essa noite, pensou ele, pela terapia. E o Brownie.

Especificamente pelo brownie.