Legacy

3 O Afogado


Notas iniciais
:D

As vezes James tinha a sensação de estar preso em um sonho.

Desde de que chegara a Felirian, várias coisas que via, ouvia ou comia pareciam não ser reais. Por dezessete anos se acostumara a viver de uma forma e então sem qualquer aviso sua vida mudou.

Madran era paciente com James, explicava as coisas várias vezes até que fosse assimilado pelo moreno. O que mais intrigou o rapaz foi o crepúsculo que ali tinha um tom esverdeado e para ele parecia alienígena.

– Bom, não sei ao certo como te explicar isso sem entrar em uma conversa maçante sobre ciência e seus elementos. – O velho começou divertido. – É uma espécie de gás que existe acima das nuvens, ele possui pequenas partículas que refletem as outras cores deixando passar apenas esse tom de verde.

James uma vez viu um programa de ciência na televisão com Albus, achou extremamente tedioso enquanto o irmão ficara fascinado com Átomos, prótons e seja lá o nome que essas coisas tinham. Ficou um pouco arrependido agora, por que talvez assim fosse capaz de entender o que de fato Madran estava dizendo e poderia traçar o que de parecido havia com o mundo de onde veio.

Certa vez enquanto pegava lenha para o velho se pegou questionando por que ele não fazia muitas perguntas sobre seu mundo. Havia dito quando se conheceram que era um estudioso do assunto e haviam estudiosos demais em sua família para saber o quanto eles ficam insuportavelmente animados com uma novidade acadêmica.

Quando chegou a cabana questionou Madran que respondeu que não era hora ainda e que estava mais empenhando em descobrir como manda-lo de volta do que as peculiaridades de seu mundo. James não engoliu, mas deixou o assunto de lado por hora.

Mais ou menos um mês passou desde que chegou, nesse tempo Madran deixou James sozinho duas vezes, para segundo ele ir buscar suprimentos nos vilarejos próximo. As viagens não duraram mais do que três dias cada e James aproveitava esse tempo sozinho para aceitar o seu destino.

Seu lugar preferido para pensar era o lago que havia a cerca de um quilometro da cabana de Madran. Todo o percurso de ida era uma terapia para James e quando chegava lá sentia-se menos deprimido e mais acostumado com a vida que estava levando.

O lago ficava aos pés de um rochedo grande e possuía pequenas quedas d’agua em fendas no rochedo. O lago era grande o suficiente para se perder no horizonte e James sentava na beirada e deixava os pés dentro da agua e refletia sobre as coisas. Sempre fora do tipo agitado que não conseguia ficam um segundo parado, mas ali, vendo aquele lago tão bonito e tranquilo parecia pecado não senta-se quieto e admirar a beleza.

Estava em processo de contemplação quando ouviu o barulho de cascos quebrando galhos e folhas secas, rapidamente o barulho foi ficando mais perto e junto trazia a suplica de um rapaz ao cavalo para que parasse.

James não teve muito tempo para entender o que estava acontecendo pois lá de cima do rochedo ele viu um rapaz de vestes escuras caindo direto na agua.

Ele tinha que admitir que a queda foi feia, o rapaz caiu em um ângulo esquisito, deitado e o barulho foi o mesmo de quando se cai no chão.

Não pensou muito, tirou as botas e a camisa e pulou na agua pois sabia que o rapaz se afogaria em minutos. James era um bom nadador, por alguns anos o pai insistiu que ele tivesse aulas e depois de um tempo ele passou a gostar.

Nadou o mais rápido que pode e quando chegou ao lugar aonde o rapaz havia caído mergulhou. Apesar da agua ser limpa ela ia ficando meio turva a medida que mergulhava, mas o rapaz não havia afundado muito.

James nadou até ele, passou seu braço pelo seu tronco e o puxou para a superfície. Assim que a cabeça dele estava fora da agua foi nadando até a margem aonde estavam suas coisas.

Saiu da agua arrastando o jovem desacordado e o colocou no chão, checou se ele estava respirando e para desespero de James não havia sinal algum. Aprendeu primeiros socorros quando tinha aulas de natação então o mais rápido que conseguiu começou a fazer respiração boca a boca e massagem cardíaca no rapaz.

Por cerca de um minuto James tentou e nem sinal do rapaz expelir a agua. As vezes quando se lembra desse momento o moreno acredita que foi inspiração divina que o fez ter essa ideia, e mesmo sem varinha ele colocou as duas mãos sobre o peito do rapaz desacordado e disse ‘Enervate’.

Viu o peito dele subir como se houvesse tomado um choque e para o alivio de James começou a tossir e cuspir a agua dos pulmões.

– Por pouco Felirian não perde prematuramente o seu futuro Rei. – Uma voz grave surgiu no meio das arvores.

O rapaz ainda tossia e apenas James olhou para o dono da voz, era um homem de aproximadamente 30 anos, alto e forte do tipo que intimida, a pele era pálida, os cabelos castanhos escuros e curtos contrastavam um pouco com os olhos azuis e assim como o recém afogado vestia roupas escuras, no que pareceu a James o equivalente a um uniforme militar.

– Salve o Príncipe Galyan e sua sorte em acidentalmente encontrar um Draxia para salvar sua vida. – Uma jovem apareceu atrás do homem.

James não sabia dizer se foi o esforço ou a garota que tirou seu folego, mas ela era linda, os cabelos negros estavam presos em uma trança jogada pelo ombro, a pele oliva parecia se iluminar com o sol, os olhos eram negros como os cabelos e ela era alta, embora fosse visivelmente menor que o outro homem. Suas vestes eram diferentes da do homem, mas também passava a ideia de ser militar.

– Viper, sem deboche. – James pode ouvir Galyan falar com a voz rouca de tanto tossir.

– Não estou debochando Vossa Alteza. – A garota disse em um tom sério. – Estou constatando o obvio.

James ia se levantando para pegar suas coisas quando sentiu uma mão sobre seu ombro.

– Então Jovem Draxia, qual seu nome. – O moreno olhou para o homem confuso, o que diabos era um Draxia? Decidiu não perguntar para não levantar suspeitas, mas com certeza perguntaria a Madran sobre isso, se sobrevivesse.

– James. – Respondeu incerto, a verdade é que estava com medo, ele usou magia, não sabia como explicaria isso, não havia perguntado ao velho sobre magia, por que assumiu que ela não existia ali, já que as conversas entre os dois eram sempre algo cientifico ou sobre o funcionamento daquele mundo e magia nunca entrou no tópico.

– Ai esta você. – Para o alivio de James, Madran apareceu. – Sabe o susto que me deu? – Ralhou o velho.

– Você o conhece Madran? – A garota Viper inquiriu e James ficou surpreso de que ela o conhecia.

– O garoto é um parente distante. – Respondeu Madran. – Ele é um Romani dos países alem mar. – Mais um termo que James não conhecia, mas que pareceu suavizar a expressão da garota.

– É por que não reportou ao recrutador da vila que ele é um Draxia? – Agora foi a vez do homem.

– Por que ele não havia manifestado nenhum tipo de magia Vossa Majestade. – Informou o velho em uma breve reverencia e para o alivio de James respondeu a sua pergunta, Draxia é o equivalente de bruxo nesse mundo.

– Ora Codelian, deixa disso. – Começou Galyan. – Ele salvou a minha vida, isso é o que importa. Ele deveria ser recompensado e não tradado como criminoso.

A expressão de Codelian se suavizou e então passou a analisar James que ficou um tanto desconfortável com aquilo.

– Que tal a recompensa de ser o Draxia de sua guarda? – Informou Codelian. – Você não possui nenhum e isso tem deixado nosso pai incomodado.

James ficou um pouco irritado, seu destino estava sendo decido por outras pessoas em um mundo que ele não sabia nada.

– Vossa alteza, ele não possui qualquer treinamento. – Começou Madran. – O Draxia do futuro Rei deveria ser o mais treinado entre os guerreiros. – James percebeu o que o velho estava fazendo, estava tentando mantê-lo ali, escondido na floresta.

– Bobagem. – Respondeu Codelian. – Ele será treinado pelos melhores Draxias e por Viper pessoalmente. – Ele indicou a garota que fez uma cara de surpresa.

– Codelian... – Ela começou apreensiva, mas foi interrompida por ele.

– Allegra você vai treina-lo, é a melhor guerreira entre toda a guarda, Draxia ou não. – Codelian afirmou. – Não acha que um membro da guarda do futuro Rei tem que ser bem treinado?

– Como desejar Vossa Alteza. – A garota falou entre dentes e parecia muito irritada pois usou o pronome de tratamento ao invés do nome do homem.

– Então está tudo decidido. – Codelian começou com um sorriso. – Partiremos agora.

– Vossa Alteza vou reconsiderar sua oferta. – Começou Madran. – Partirei para Allura com vocês.

– Não sabe como fico feliz em ouvir isso Madran, se soubesse que era só recrutar seu parente teria feito isso antes. – Respondeu Codelian bem humorado.

E foi assim, seu destino foi decido sem que ele tivesse qualquer controle simplesmente por que ele havia salvo a vida de um príncipe. Esse mundo ia ficando a cada segundo mais maluco e James estava com medo de perder a sanidade quanto mais tempo passava ali.

E James rezou para qualquer que fosse o deus que estivesse ouvindo que isso fosse um sonho.