Legacy
8 Capítulo 8 - "At least we stole the show"
— Por que o silêncio? – Bri questionou. – Não é como se eu não conhecesse a história. – ela disse atravessando a porta do quarto, carregava três copos, dois em uma mão e um em outra. Distribuiu, entregando um para mim e outro para Charlie, ficando com o restante. A jovem de cabelos castanhos terminou o trajeto sentando-se ao lado de Josh na beirada da cama, e por fim, ofereceu seu próprio copo ao garoto, que era alguns centímetros mais alto do que ela.
— Isso é um teste? – Josh perguntou.
— Você me conhece, não faço essas coisas. – Bri respondeu. – Nem quando estávamos juntos.
— Mesmo assim, não posso aceitar. – ele disse. – Não encosto em qualquer bebida alcóolica desde que você terminou comigo.
— Eu não sabia disso. – disse Bri. Charlie e eu trocamos olhares, perguntando mentalmente uma para a outra se deveríamos sair dali.
— Quem sabe não estrago tudo em uma próxima vez. – falou Josh.
— É uma pena eu ter sido a pessoa que gerou a mudança. – lamentou-se Bri.
— Se te consola, vai demorar muito para eu te superar, se é que isso vai acontecer. – os dois agora conversavam olhando diretamente nos olhos um do outro, Charlie e eu não sabíamos o que fazer. – Sei que é tudo minha culpa e juro que fico feliz ao ver que você superou isso rápido, não queria atrapalhar mais ainda a sua vida.
— Não vem com essa, Josh. – ela o cortou. – Vou voltar lá para baixo, quem sabe um dia conversamos sobre tudo isso. – Bri encerrou a conversa. – Vocês vêm, meninas? – ela nos chamou e acenamos positivamente com a cabeça em resposta.
— Eu vou adorar conversar, só me avisa quando. – Josh concordou com um leve sorriso nos lábios, retribuído por Bri, que já nos acompanhava até a porta.
— A propósito, nunca disse que superei isso rápido. – ela disse colocando a mão na maçaneta da porta. – E superar não é a palavra que eu usaria...
— Bri...- ouvi Josh chamar, mas Briana fechou a porta antes que ele pudesse dar mais continuidade ao diálogo. – Desculpa por isso, ele mexe comigo de alguma forma. – ela se desculpou conosco.
— Nós teríamos saído, mas não sabíamos o que fazer. – também me expliquei.
— Nem se preocupa com isso, nunca nos importamos muito com público. – Bri disse, soltando uma risada sem humor enquanto atravessávamos o corredor.
— Bri, não quero me meter, mas vocês ainda parecem gostar um do outro. – falei.
— Concordo, tem que ter acontecido algo muito marcante para vocês estarem assim. – Charlie concordou.
— Tudo bem, acho que é justo eu terminar de contar a história. – Bri deu um longo gole no copo que carregava, como se estivesse criando coragem para falar sobre aquilo. – Josh e eu começamos meio sem querer querendo, e não poderia ter dado mais certo. – começou a contar. – Temos uma conexão natural e quando estamos juntos não tem como não nos divertimos, mas infelizmente tudo aconteceu justo na época em que ele estava começando a ser valorizado na Omega Gamma. – continuou. – Mesmo que nunca tenha sido intencional, ele acabou colocando a fraternidade como primeiro plano e um dia acabou me magoando em uma festa. – revelou. – Não ficou com outra, nem me traiu de qualquer forma, mas digamos que não é legal ver seu namorado lambendo a barriga de outra menina de biquíni, muito menos dançando com outras. – com certeza não parecia algo legal. – Ele mudou muito para agradar os irmãos da fraternidade, depois se deu conta das coisas que estava fazendo, só que foi tarde demais.
— Sinto muito, Bri. – Charlie foi a primeira a falar. – Meu irmão pode ser um idiota de vez em quando. – admitiu. – Mas se sei alguma coisa sobre ele, é que possui um coração enorme, independente das atitudes erradas que ele comete às vezes. – Charlie ponteou. – Vocês realmente deveriam ter aquela conversa, mesmo que ainda não imagine vocês dois juntos.
— É, ninguém imagina. – Bri comentou, soltando uma risada fraca. – Talvez por isso tenha dado tão certo enquanto durou. – foi a última frase que ouvimos sobre o assunto naquela noite.
O resto da festa foi sensacional, pelo menos a parte em que permanecemos. Os Omega Gamma sabiam mesmo como dar uma festa divertida, sem muitos esforços. Passamos a maior parte do tempo dançando com as outras meninas, nunca fui muito de beber, mas não recusava alguns copos durante uma festa. Porém, sabia que naquela em especial não poderia exagerar, já que teria minhas primeiras aulas no dia seguinte.
Quando o relógio do celular indicou 2:30 da manhã, chamei Charlie para voltarmos ao dormitório. Para minha infelicidade, ela parecia preferir se divertir a estar sã no dia seguinte.
— Amy, acho que vou ficar mais um pouco, mas não se preocupa comigo, sério! – era visível que Charlie estava levemente alterada, porém consciente de si.
— Tem certeza, Charlie? – perguntei com certo receio, não queria deixar ela ali. – Temos aula amanhã.
— Nunca me diverti tanto na minha cidade, Amy. – ela contou. – Acho que prefiro aproveitar mais um pouco, vou ter muitas chances de assistir as aulas. – olhei para Bri, que estava ao nosso lado e parecia ouvir a conversa.
— Você cuida dela? – perguntei preocupada.
— Prometo que ela estará em boas mãos. – Bri garantiu
— Se cuida, ok? – disse para Charlie, em seguida dando um abraço de despedida nela e em Bri, e me despedindo também do resto das garotas.
Não me sentia bem deixando Charlie ali, mas não podia obriga-la a voltar para casa comigo, nem virar a noite festando. Tentei pensar somente nas horas de sono que eu ainda conseguiria ter, quatro horas e meia se eu encontrasse o caminho para meu dormitório em meia hora.
— Já vai tão cedo? – senti algo segurar meu pulso, impedindo-me de atravessar a porta principal da casa. Quando virei para ver o que era, encontrei Scooter a alguns centímetros de distância.
— A festa está ótima. – disse com sinceridade. – Mas tenho minhas primeiras aulas amanhã. – enquanto falava, Scooter soltou delicadamente meu pulso, mesmo que não apertasse tão forte, mas desceu discretamente sua mão até chegar em meus dedos, onde ele os segurou levemente.
— Então não está boa o suficiente. – ele disse com tom de brincadeira.
— Só não sou do tipo que prefere uma festa a faltar um dia de aula. – afirmei. – Além de que, sou nova aqui.
— Eu sei que você é. – falou, mantendo o sorriso indecifrável nos lábios. – E sendo nova aqui, você deveria saber que é perigoso andar por aí sozinha tão tarde. – alertou. – Detroit é uma cidade perigosa, e não é porque estamos dentro de um campus que isso nos garante proteção.
— Você parece o meu pai falando. – comentei. – Mas sim, sei que é perigoso, porém preciso de algumas horas de sono e irei tomar cuidado no caminho.
— Eu posso te acompanhar. – Scooter se ofereceu.
— Agradeço a preocupação, mas não sei se um cara bêbado serviria de muita ajuda. – disse, com certa ironia.
— Não estou bêbado, sou forte o suficiente para ingerir uma quantidade razoável de álcool e continuar totalmente consciente. – ele se defendeu.
— Tudo bem se você se garante com isso, mas não pode me culpar por pensar dessa forma após a cena da mesa. – falei.
— Desculpa pela cena da mesa, preciso manter minha reputação de presidente da Omega Gamma. – era impossível saber se ele brincava ou falava sério.
— É uma pena que ninguém tenha prestado atenção na parte em que eu coloco uma uva na sua boca então. – disse, mantendo o sarcasmo daquela conversa.
— É uma pena mesmo, porque eu fiquei pensando nessa cena a noite toda. – por esse comentário eu não esperava, talvez a mudança na minha expressão tenha sido perceptível, mas eu torcia para que não.
— Ok, eu realmente preciso ir agora. – disse por fim. – Até mais, Scooter.
— Amy. – ele chamou ao mesmo tempo em que eu me virava para ir embora, segurando minha mão com firmeza agora, porém visivelmente tomando cuidado para não me machucar. – Deixa eu te acompanhar. – pediu mais uma vez, fitando-me diretamente nos olhos. – Por favor. – fiquei pelo menos uns dois minutos apenas o encarando de volta, como se tentasse decifrar o motivo de ele insistir tanto. Não conhecia Scooter, talvez fosse tão imprudente andar sozinha a noite quanto deixa-lo me acompanhar, mas ele não desviou seu olhar do meu por um segundo sequer, deixando claro que não desistiria da ideia.
— Beard Hall. – me rendi. – É o meu dormitório.
— Então devemos ir logo, vamos levar no mínimo uns 20 minutos até lá. – Scooter disse, ultrapassando a porta e discretamente soltando minha mão.
— 40 para você. – disse, soltando uma leve risada enquanto o acompanhava.
— Você vai se dar muito bem na Sigma Psi. – comentou, também rindo.
— Quem disse que estarei me candidatando? – perguntei.
— Se não estivesse, não estaria aqui.
— Ok, fez sentido. – concordei. – E nenhuma outra irmandade parecia fazer sentido mesmo.
Passamos o resto do caminho jogando conversa fora sobre os mais diversos assuntos. Scooter me falou um pouco mais sobre as fraternidades e irmandades, e o tempo passou incrivelmente rápido. Ele também revelou que, na verdade, se chamava Scott, Scooter era apenas um apelido devido a uma scooter que ele usava em seu primeiro ano da faculdade. Quando me dei conta, já estávamos na frente do dormitório.
— Obrigada por me acompanhar até aqui. – agradeci.
— Foi um prazer. – ele disse sorridente. – E antes que eu me esqueça, você deveria salvar o número da polícia do campus, caso precise algum dia.
— É uma boa ideia, você tem o número? – perguntei.
— Está com o seu celular aí? Vou ver aqui e já adiciono para você.
— Ok. – falei, pegando meu celular da bolsa e entregando para Scooter. Rapidamente, ele digitou alguns números na discagem, sem consultar qualquer coisa. De repente, algo começou a apitar no bolso de sua bermuda.
— Me desculpa, vou ter que atender, deve ser importante. – ele disse com seriedade, tirando o celular do bolso e colocando rapidamente. – Boa noite, polícia do campus! No que posso ajudar? – me senti extremamente idiota por não ter percebido o que ele estava fazendo, mas não consegui evitar cair na risada.
— Não acredito que caí nessa. – disse incrédula.
— Foi para o seu bem, Amy. – Scooter disse com um sorriso de divertimento nos lábios, e em seguida deu um rápido beijo roubado em meu rosto. – Obrigado pela companhia, vou deixar você aproveitar suas horas restantes de sono agora. – ele falou, mantendo o sorriso. – Se precisar de mim, agora já tem o meu número. – foi a última coisa que disse, antes de lançar uma piscadela e sair, ao mesmo tempo em que eu adentrava o prédio, ainda rindo de toda a situação. Aquela universidade guardava muito mais intrigas e diversão para mim do que eu esperava, só faltava descobrir se isso seria bom ou ruim.
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