Legacy
25 Capítulo 25 - "Little talks, big noise"
Antes de qualquer coisa, eu deveria lembrar de adicionar um lembrete mental ao meu cérebro: verificar minhas redes sociais antes de sair pedindo favores, especialmente se fosse para o Scooter. Inicialmente, não reconheci o rosto do ícone, até porque nunca tinha o visto pessoalmente. Entretanto, todos os nomes eram lidos em voz alta pelas seniores.
— Theo Mason, Scooter e Dan Harper. – Katherine leu. O nome de Dan soava extremamente familiar para mim, mas não conseguia associá-lo a nada no momento. E, como se não bastasse a minha surpresa com tudo aquilo, uma nova notificação de seguidor apareceu em minha página com a televisão ainda ligada. – Olha só, será que teremos um número quatro ainda? – questionou ela, com um tom divertido na voz. Aquele, sem dúvida alguma, estava sendo meu momento de maior nervosismo, mesmo tendo completado o desafio não fazia ideia do que surgiria quando Katherine clicasse naquela notificação. SethTanner começou a seguir AmyJenkins foi o que surgiu na tela e risinhos automaticamente ecoaram pela sala. — Não estava na lista, mas eu pessoalmente consideraria isso como um super ponto bônus. – Katherine disse rindo e todas as meninas fizeram o mesmo. Exceto Jennifer, é claro.
— Parabéns, Amy! – ouvi Vicky dizer ao meu lado.
— Realmente, arrasou. – Rebecca também comentou.
Por mais que eu me sentisse um pouco desconfortável com a situação, acabei rindo junto com todas elas. Esse acabou sendo um de nossos primeiros momentos de descontração e isso fazia com que eu me sentisse muito mais confiante dentro daquela casa. A única que não entrou na onda do momento foi Jenn, me fazendo questionar se para ser presidente da ZEB era necessário ser excessivamente rude e mal-humorada.
— Todas vocês estão de parabéns. – Katherine voltou a falar. – E isso significa que, a partir de agora, todas estão aptas a encarar a Hell Week. – murmuramos alguns sons de felicidade em conjunto, como se tivéssemos ganhado alguma coisa, mas logo nossa alegria foi cortada.
— Não fiquem tão felizes. – Juliet era quem falava agora. – Primeiro vocês precisam sobreviver e por isso terão que seguir nossas orientações.
— Primeiramente, hoje às 15 horas teremos o primeiro evento do Sistema Grego, que é justamente a abertura do ano letivo que se inicia. – Katherine disse. – Será realizado na praça central de Motown, que une os dois cantos do nosso pequeno bairro de casas. – explicou. – Estejam aqui no máximo às 14:45, porque iremos todas juntas e as candidatas a serem apresentadas precisam estar reunidas. – continuou. – E agora nossa missão inicial se encerra, vou deixar a Jenn explicar o resto para vocês. – na mesma hora, a presidente da ZEB se dirigiu ao centro da sala.
— Não pensem que a Hell Week terá alguma folga. – ela já chegou dizendo com firmeza. – Nosso horário de encontro será às 20:30, aqui na casa da ZEB, todos os dias dessa semana. – anunciou. – Em cada dia uma tarefa será passada e deverá ser apresentada no encontro seguinte. – disse. – Todas vocês receberão a mesma tarefa, exceto na quinta, que será individual e baseada em uma análise da semana. – Jenn explicou, mantendo o tom firme na voz. – A primeira tarefa é simples, levando em conta que terão o tempo de hoje como extra e também todo o dia de amanhã. – continuou. – Vocês terão que trazer uma foto com uma antiga ZEB, e, junto a isso, uma carta escrita pela mesma contendo motivos pelos quais essa antiga membro acredita que vocês merecem se juntar a nós. – explicou. – Alguma dúvida? — o silêncio foi conjunto entre nós – Então estão liberadas para o almoço, boa sorte e até a tarde. – em seguida, Jenn se retirou da sala.
As seniores saíram logo após Jenn. Katherine foi a última delas e antes de deixar a sala fez um sinal positivo para nós, provavelmente indicando que poderíamos voltar a respirar normalmente e nos acalmarmos depois daquela conversa amedrontadora. Eu não fazia ideia de como completaria aquela tarefa a tempo.
— Amy! – a voz de Vicky me trouxe de volta a realidade. – Você já tem planos para o almoço?
— Nenhum. – respondi, esboçando um sorriso, imaginando que ela iria sugerir alguma coisa.
— Então o que você acha de almoçarmos juntas? – sugeriu. – Tenho algumas coisas para te contar, já que fui abandonada na noite passada. – ela brincou.
— Eu me sentiria culpada, mas você só pareceu perceber que eu não estava ali depois das 4 horas da manhã. – também brinquei, me referindo a mensagem que recebera de madrugada.
— Você conhece algum lugar perto e seguro além do Rise? – Vicky perguntou.
— Não conheço. – admiti. Pensei no Mouthe, mas acreditava que eles não abrissem durante o dia.
— Então acho melhor nos garantirmos por aqui mesmo. – nós duas rimos com o comentário.
Em dupla, não foi tão difícil encontrar o caminho até o restaurante do campus. Vicky fofocou um pouco sobre a festa, mas disse que só iria compartilhar as informações importantes assim que estivéssemos sentadas e concentradas no almoço. Palavras dela.
Assim que chegamos, fizemos nossos pedidos e escolhemos uma mesa. Já era meio-dia e o local começava a encher. Por sorte, éramos apenas duas, então foi mais fácil achar um lugar para sentar.
— Está pronta? – ela perguntou, antes de começar a contar.
— Estou. – afirmei, extremamente curiosa para ouvir o que ela queria dizer.
— Bom, são duas coisas. – Vicky começou a falar. – Primeiro, gostaria de saber se é verdade que você saiu da festa com um tal de Seth Danner, porque ouvi algumas pessoas fazendo comentários sobre isso enquanto eu andava por aí.
— Você quiser dizer Seth Tanner? – perguntei, rindo rapidamente. – Se sim, é verdade. – respondi. – Como assim ouviu comentários, Vicky? Não achei que as pessoas prestassem atenção nesse tipo de coisa.
— Nem eu. – ela concordou. – Mas pelo que percebi, o Sistema Grego é uma espécie de colegial mais evoluído e consideravelmente mais formal. – disse. – Pelo menos quando não se trata de escândalos, os quais ainda não tivemos o prazer de presenciar.
— Essa é uma bela análise, e certamente bastante filosófica. – comentei. Vicky era engraçada e eu me sentia cada vez mais grata pelo fato de ela também estar candidatando na ZEB.
— Mas não se preocupa, os comentários eram mais sobre Seth, não você. – continuou. – Pelo que eu entendi, faz muito tempo desde a última vez em que ele foi visto com uma garota no campus, provavelmente alguém viu vocês dois saindo juntos e começou a comentar. – ela explicou. – O mistério era descobrir quem você era, já que ninguém te reconheceu. – fazia sentido não me reconhecerem, pois eu nem sequer conhecia as pessoas.
— Isso está soando estranho, Vicky. – falei. – Tem certeza que ouviu essas coisas?
— Amy, eu juro. – disse firme. – Eu não estava bêbada, nem nada. – garantiu. Sabia que Vicky não tinha motivos para mentir, mas isso tornava tudo ainda mais engraçado, porque não conseguia entender como ela ficou andando por aí sem motivos até as 5 horas da manhã.
— Seth foi muito legal comigo. – contei. – E se é assim que ele trata as garotas com quem sai, não consigo o imaginar em uma situação tão alarmante a ponto de as pessoas comentarem. – analisei. O que Vicky contara soava estranho para mim, porém eu realmente não me importava com qualquer palavra daquilo, não faria diferença na minha vida, nem no que já havia acontecido.
— Não tenho como saber o que é verdade, só sei que conectei os pontos e hoje de manhã tive 99% de certeza de que você era a garota misteriosa, então achei válido comentar. – ela disse.
— Obrigada por contar. – agradeci.
— Eu achei que deveria. – Vicky falou. – A segunda história é ainda mais intrigante. – avisou. – Ainda quando eu estava andando por aí...
— Calma. – interrompi. – Primeiro você pode me explicar o porquê de estar andando por aí?
— Eu estava com um cara. – contou.
— E vocês não preferiram ficar parados em algum lugar? – questionei.
— Na verdade não, ele era muito divertido. – ela respondeu. – Se chamava Mitch
— Por algum motivo esse nome soa familiar, mas isso não vem ao caso. – falei. – Pode continuar.
— Escutei uma discussão entre a Jennifer e a Katherine. – Vicky contou. – E era sobre você.
— Sobre mim?!?! – agora sim o assunto estava se tornando oficialmente estranho. – Vicky, tem certeza que você tem certeza?
— Absoluta. – mais uma vez ela garantiu. – Acho que Jenn estava bastante alterada, apesar de não querer demonstrar, provavelmente por ser a presidente. – continuou. – Não sei se eu devo te contar isso, porque meio que estragaria a surpresa, mas parece que a Katherine queria ser sua big sis.
— Big sis? – perguntei confusa.
— Sim, big sis. – confirmou. – Quando você se torna oficialmente uma candidata em iniciação, você ganha uma big sis, é tradição das irmandades mais clássicas.
— E o que essa big sis faria? – perguntei.
— Te orientaria durante o período de iniciação, a ideia é que funcione realmente como uma irmã mais velha, para ajudar na adaptação. – Vicky explicou. – Mas enfim, voltando ao assunto, Jenn parecia estar contestando isso, por algum motivo ela mesma queria ser sua big sis.
— Jenn?!?! – exclamei, surpresa e exaltada. – A mesma Jenn que conversa comigo em tom abominável em todos os momentos?
— Acho que conhecemos uma única Jenn. – Vicky disse. – Foi muito estranho, ela parecia irritada e prestes a surtar. – revelou. – Katherine estava calma e parecia querer fazer com que ela entendesse a falta de senso daquele diálogo.
— Mas por que eu? – questionei mais uma vez. – Não consigo pensar em uma única razão para eu ser motivo dessa discussão.
— Também não entendi. – ela concordou. – Muita coisa sobre você não está esclarecida, Amy. – esse comentário não poderia ser mais verdadeiro. Só queria entender o porquê de tantas confusões inexplicáveis. – O diálogo delas não teve um fim, Jenn começou a aumentar o tom de voz e isso chamou a atenção das pessoas ao redor. – Vicky contou mais. – Então, quase imediatamente, o cara que abriu a porta para nós no início da noite, Adam, apareceu ali, e, de alguma maneira, foi o único que conseguiu acalmá-la. – concluiu.
Era impossível não lembrar do incidente presenciado de manhã ao ouvir as últimas palavras de Vicky. Não sabia o que existia entre Adam e Jenn, mas eu certamente não conseguia imaginar toda aquela cena. Alguma coisa era verdadeiramente estranha sobre tudo aquilo, até mesmo Seth reagira de forma surpresa ao ver os dois juntos. Entretanto, eu não tinha como desvendar nenhum daqueles mistérios agora.
A conversa foi mantida durante o almoço e mais um pouco. Decidimos matar o tempo ali mesmo, já que não teria como existir muito tempo útil entre o almoço e o horário marcado na ZEB. Quando o relógio indicou 14:30, começamos a caminhar de volta a Motown, alcançando a casa no horário marcado.
A praça central de Motown era extremamente perto da ZEB. As primeiras irmandades e fraternidades instaladas na Cadillac provavelmente ficavam mais próximas dali. O local estava lotado, todos os integrantes do Sistema Grego estavam presentes, pelo menos teoricamente. Percebi que não tinha noção alguma da quantidade de pessoas que faziam parte de tudo aquilo, mas acreditava que em algum lugar deveria existir um valor ou estimativa, não interessava muito naquele momento.
Um palco de pedra situava-se exatamente no meio da praça, o que realmente lembrava os tempos de Grécia Antiga, talvez tivesse sido construído com aquele propósito. Até onde eu entendia, a praça servia para a realização de reuniões gerais como aquela. Quem conduziu o evento, foi Dianne, a mulher do comitê de recepção que nos guiou no tour pelas casas. Tudo aconteceu mais ou menos como eu imaginava, as irmandades e fraternidades foram apresentadas, juntamente com seus presidentes. Algumas introduções sobre o decorrer do ano foram feitas, mas a maioria ali agia como se já tivesse escutado tudo aquilo em todos os outros anos, era difícil prestar muita atenção.
No final, cada grupo deveria apresentar suas candidatas e seus candidatos por ordem de ranking. Como a ZEB era a irmandade número um do campus, fomos as primeiras, e, para minha felicidade, foi apenas uma apresentação muito rápida. Em seguida, a Ioda Lambda subiu no palco e então a Sigma Psi, com apenas duas meninas, sendo que nenhuma delas era Charlie. Surtei internamente. Não havia me preocupada até aquele momento com o sumiço dela porque tinha certeza de que ela estava com as garotas da Sigma Psi. Mas, aparentemente, eu estava errada.
Assim que aquele pseudo cerimonial teve um fim, fomos liberadas pelo resto do dia. O negócio todo durou cerca de duas horas então o céu ainda estava claro. Comecei a vagar imediatamente em meio ao aglomerado de pessoas, precisava achar Bri para perguntar se ela havia visto Charlie. Parecia que todos pretendiam ficar ali por mais tempo, porque estava extremamente difícil se movimentar. Não tinha como saber quanto tempo havia passado, mas não poderia ter ficado mais feliz ao avistar um vulto com os cabelos de Bri alguns passos adiante.
— Bri! – chamei enquanto me aproximava. Rapidamente ela se virou, apesar de aparentar bastante cansada.
— Amy? – ela estranhou minha presença.
— Desculpa incomodar, mas achei que a Charlie estaria com vocês. – falei. – Fiquei preocupada quando não vi ela na apresentação.
— Charlie estava muito mal para vir para cá. – Bri contou. – Então eu a liberei para ir descansar um pouco, provavelmente deve estar no dormitório de vocês.
— Isso faz muito tempo? – perguntei. – Eu passei por lá de manhã e ela não estava.
— Não faz muito tempo, ela foi na hora em que viemos para cá. – respondeu Bri.
— Vou atrás dela então. – eu disse. – Muito obrigada pela informação.
— Por nada, Amy. – ela falou. – E boa sorte na Zeta Eta Beta. – podia sentir um certo desapontamento por trás da voz dela. Entretanto, não faria sentido ela estar, se eu quem não recebera uma carta da Sigma Psi.
— Obrigada. – agradeci, esboçando um sorriso sincero. – Boa sorte nas suas funções também. – foram as últimas palavras que disse antes de nos afastarmos.
Estava prestes a sair daquele amontoado de gente para ir até o dormitório quando, inesperadamente, alguém segurou minha mão, impedindo que eu continuasse. Virei para trás de forma brusca, pronta para demonstrar minha indignação, porém, quase que de forma automática, reconheci o rosto que me parara.
— Você é a Amelia Jenkins, correto? – o sujeito um pouco mais alto do que eu, com olhos levemente puxados e cabelo castanho-escuro perguntou. – Desculpa te atrapalhar assim desse jeito, mas eu sou...
— Dan Harper! – eu exclamei ao associar o rosto com o nome já conhecido.
— Sim! – ele concordou, aparentando um pouco de surpresa.
— Desculpa pela emoção, é que lembrei agora de quem você era. – falei, rindo rapidamente.
— Não precisa se preocupar, sou um mega fã de emoção. – Dan disse, também rindo. – Mas como você sabe quem eu sou? O professor Logan disse alguma coisa? – e de repente, tudo fez sentido. Dan era o presidente da Upsilon Theta, era o cara de quem o professor Logan havia me falado.
— Ele mencionou algumas coisas sim. – confirmei, lembrando. – Mas na verdade, lembrei do seu rosto por ter visto uma foto na internet hoje de manhã. – admiti. – Foi você quem me seguiu, né?
— Eu mesmo! – ele respondeu, talvez um pouco impressionado por eu ter associado isso. – Eu ia tentar entrar em contato com você de algum jeito, mas então te vi agora no palco na hora da apresentação e reconheci.
— Faz todo sentido. – falei. – Acho que o Professor Logan me avisou que você tentaria entrar em contato.
— Temos muito o que conversar, pensei em marcarmos alguma reunião entre nós três. – Dan disse. – Você se importa se eu pedir o seu número?
— De forma alguma. – eu respondi, em seguida passando meu número para ele. Dan parecia prestes a falar mais alguma coisa, mas foi interrompido quando alguém segurou seu ombro.
— Dan, não sei o que fazer! – um garoto de rosto extremamente familiar chegou dizendo, parecia um tanto quanto desesperado. – Carl está passando mal e ninguém sabe como imped...
— Peter?!? – eu finalmente fui capaz de reconhecer quem ele era, o que foi difícil devido ao fato de ele não estar usando seus óculos.
— Vocês se conhecem? – Dan perguntou surpreso. A expressão de Peter parecia estar congelada, como se ele quisesse correr para o mais longe possível dali.
— Sim. – confirmei. – Somos parceiros de laboratório.
— Se eu soubesse disso, tudo seria ainda mais fácil. – Dan comentou. – Peter é um dos nossos candidatos desse ano. – contou. Peter esboçou um sorriso tímido, como se estivesse se sentindo a pessoa mais envergonhada do mundo por alguém da sua turma de química saber que ele estava se candidatando em uma fraternidade.
— Oi. – foi a única palavra que ele dirigiu a mim. Dan o encarou com uma cara de desaprovação, provavelmente não entendendo a mudança repentina de comportamento.
— Peço desculpas pelo excesso de palavras dele. – Dan disse, em tom sarcástico. Eu ri do comentário. – Acho que preciso ir então, Amy. – continuou. – Assim que possível, entrarei em contato.
— Ficarei no aguardo. – respondi antes de nos despedirmos e os dois sumirem em meio a multidão. E eu precisava sair dali também.
Dessa vez, eu teria que acertar o caminho por conta própria. Por sorte, minha memória fotográfica era bastante confiável e, com facilidade, percebi que já conhecia muito mais caminhos do que imaginava.
Quando comecei a subir as escadarias do dormitório, torci mentalmente para que, depois de quase dois dias sem ver Charlie, pudesse finalmente encontra-la em nosso quarto. Não poderia ter me sentido mais tranquila ao ver o corpo de cabelos negros encaracolados atirado sobre a cama quando abri a porta.
— Charlie? – chamei, ao mesmo tempo em que entrava no quarto. A princípio, achei que ela estivesse dormindo, até que escutei um baixo som de choro. Imediatamente me dirigi a cama dela, sentando-me na beirada. – Charlie! – disse com mais firmeza. – O que aconteceu?!
— Não quero falar sobre. – ela disse, ou pelo menos eu achava que ela tinha dito isso, já que era quase impossível entender as palavras que Charlie pronunciava com a cara enfiada no travesseiro.
— E você acha que eu vou simplesmente ficar aqui observando você chorar sem pedir uma explicação? – perguntei.
— Até parece que você se importa, Amy. — ela disse.
— Charlie, não sei o que você quis dizer com isso, mas se for sobre as irmandades, eu te garanto que existe uma explicação plausível. – falei. – E espero que não seja por isso que você está chorando.
— Não é. – contou, chorando ainda mais.
— Por favor, me explica o que está acontecendo. – pedi com calma.
— Eu odeio ele! – Charlie exclamou.
— Quem?! – perguntei, um pouco assustada.
— Idiota, desprezível, mentiroso e sem consideração! – continuou.
— Charlie, calma! – falei. – Eu mal consigo entender o que você diz, por favor vira pra mim e tenta se acalmar um pouco, eu só quero ajudar. – disse. Charlie ficou algum tempo em silêncio, mas acabou se virando eventualmente, permitindo que eu encarasse seus olhos inchados.
— Brett. – ela falou.
— O que aconteceu com ele? – logo perguntei.
— Eu odeio ele.
— Mas por que? – questionei novamente.
— Ele me magoou. – Charlie disse voltando a chorar, dessa vez aproveitei para abraça-la, e, felizmente, ela aceitou o abraço. Os dois se conheciam há uma semana, não conseguia pensar no que ele poderia ter feito para deixa-la assim.
— Você pode explicar melhor?
— Passamos o final de semana inteiro juntos. – ela contou. – No primeiro dia, na sexta, teve uma festa na Sigma Psi, e no sábado na Omega Gamma. – disse. – Já nesse primeiro momento ele veio falar comigo e acabamos passando todo o tempo juntos. – continuou. – Ele é lindo, alto e engraçado, não tinha porque não. – justificou. Ela fez uma pausa.
— Tudo bem, eu concordo. – falei. Charlie esboçou um sorrisinho com o comentário, mas a expressão divertida rapidamente se desfez de seu rosto.
— No sábado, era bem tarde, perto das cinco horas da manhã. – voltou a falar. – Brett e eu já havíamos nos despedido e ele provavelmente achava que eu tinha ido embora, mas eu estava esperando a Bri. – Charlie explicou. – Bri passou muito tempo dessa festa com meu irmão, nada aconteceu entre eles, mas ela estava super mal e ele ficou cuidado dela. – contou. – Além de que, sinto que eles devem ser aquelas pessoas que sempre tem algum assunto a ser conversado. – acrescentou. – Enfim, isso não vem ao caso. – ela disse. – Antes de irmos embora, Josh pediu para que eu buscasse um casaco no quarto dele, porque Bri estava com frio e ele não queria que ela fosse embora assim. – continuou. — Ele até se ofereceu para ir junto conosco até a Sigma Psi, mas eu disse que seria proteção demais e não era necessário. – falou. – Então, subi até o quarto dele para pegar o casaco e, quando entrei, me deparei com a cena mais chocante da minha vida. – novamente, Charlie fez uma pausa antes de continuar. – Brett estava lá com um cara. – eu definitivamente não estava esperava por essa.
— Estava com um cara fazendo o que exatamente? — perguntei, séria.
— Muitas coisas. – Charlie respondeu seca, deixando claro que não queria entrar em detalhes. – Não fiquei muito tempo ali para observar, inclusive sai correndo logo em seguida, nem peguei o casaco e acabei não esperando a Bri, só queria ir embora.
— E ele te viu no quarto?
— Infelizmente, sim. – afirmou. – Não fui muito discreta ao abrir a porta. – comentou. Por algum motivo consegui imaginar esse momento. – Assim que me viu, Brett também pareceu estar chocado. – contou. – Ele me ligou 37 vezes hoje, ignorei todas e desliguei meu celular quando comecei a me irritar.
— Não sei bem o que dizer, Charlie. – falei. – Mas vendo o quão magoada e chocada você está, acho que deveriam conversar. – sugeri. – Ele não te ligaria tantas vezes se não se importasse.
— Não, obrigada. – ela disse. – Provavelmente ele quer garantir que eu não vá contar para ninguém. – falou.
Era difícil opinar sobre aquilo sem ter total conhecimento dos motivos de Brett. Tentei consolar Charlie na medida do possível, insistindo que ela deveria conversar com ele e não se deixar abalar com aquilo, até porque os dois se conheciam há muito pouco tempo. Parte desse consolo todo envolveu sair para tomar sorvete, uma maratona de séries no salão do prédio e tentativas de convencê-la a esquecer de todo o ocorrido. Entretanto, fui eu quem acabei esquecendo da maior parte dos meus problemas ao se preocupar com o de Charlie. Provavelmente nem me lembraria deles até o dia seguinte, porém, quando estávamos nos preparando para dormir, recebi uma mensagem de Josh.
“Podemos almoçar juntos amanhã? Descobri algumas coisas que vão tornar a sua situação ainda mais estranha, mas acho que você vai querer saber.“
Fale com o autor