Legacy

18 Capítulo 18 - "Safety is a closed door"


— Você se lembra de mim? – era a voz de Brett que me chamava do canto da parede.

— Não esqueceria de você tão cedo, cara da uva. – brinquei. – O que está fazendo aí escondido?

— Ouvi o Josh e o Scooter comentando que você viria aqui e planejei esse plano para conseguir conversar com você. – explicou ele, ainda falando em tom baixo, quase sussurrando.

— E você não pode fazer isso em público? – perguntei, estranhando a situação e mantendo meu tom de voz normal, sem entender aquilo.

— É, tudo bem, acho que não vai ter problema. – Brett concordou, finalmente saindo de trás da parede e sentando ao meu lado no sofá. Ele parecia ainda mais confuso do que eu e algo em sua expressão demonstrava estar assustado. – Como está a Charlie?

— Até onde eu sei, muito bem. – fazia total sentido o motivo daquela conversa ser Charlie, o que eu não conseguia decifrar eram as feições do rosto de Brett, que no momento eram incompreensíveis. – Eu já sei sobre toda a situação, caso a conversa seja sobre isso.

— Imaginei que você fosse saber. – ele disse. – Depois do dia em que ela me ligou perguntando se eu lembrava de algo, nunca mais deu notícias e ignorou todas as minhas ligações. – contou.

— Ela não te contou que nada aconteceu? – imaginava que Charlie tivesse compartilhado as informações com Brett. Mesmo que ela preferisse não ir atrás dele para contar, não conseguia enxergar motivos para ignorar as ligações do garoto, apesar de nem sequer saber que aquilo estava acontecendo até aquele momento.

— Nada aconteceu?! – perguntou surpreso. – Ela não me contou nada, não conversamos desde o dia em que Charlie me ligou pela primeira vez.

— Achei que ela tivesse te contando essas coisas. – admiti. – Fomos à uma ginecologista, ela confirmou que não tinha acontecido nada além do que vocês já sabiam.

— Nada mesmo? – Brett deixava claro o desapontamento em sua voz, o que me fez ficar um pouco irritada.

— Ainda bem, né? – perguntei o encarando, quase como se o estivesse repreendendo por parecer estar decepcionado com a descoberta.

— É – concordou sem nenhuma convicção. Ouvi o barulho de pessoas descendo os degraus da escada e agradeci ao ver Josh e Scooter chegando na sala, provavelmente não seria bom continuar aquela conversa com Brett. A pior parte era que agora eu precisava conversar com Charlie também, mas tinha que me manter afastada até poder revelar todos os acontecimentos para ela.

— Já são 19h. – Josh falou. – O jogo começa às 20h, é bom irmos agora.

— Tchau, Brett. – me despedi, já levantando do sofá e seguindo Josh e Scooter para sabe se lá onde estivéssemos indo.

Percorremos um rápido caminho até o outro lado da rua, onde o carro de Scooter estava estacionado. Josh se sentou no banco da frente e eu no de trás. Quase que ao mesmo tempo em que dava vida ao motor, Scooter ligava o rádio do carro, colocando em um canal que apresentava um pré-jogo cheio de comentários sobre os times e etc.

— Já foi em um jogo dos Pistons, Amy? – ele perguntou, começando a dirigir.

— Não, só assisti na televisão. – falei.

— Legal, então você já sabe que esse é o melhor time de basquete do universo. – Scooter disse.

Do modo como ele falava, dava para perceber o quão fanático pelos Pistons ele era. O assunto até o estádio foi voltado totalmente para o basquete. Os dois comentavam um pouco sobre o jogo e tentavam me incluir, e Scooter também contou que ele era fã do time desde que era pequeno, por isso ia com tanta frequência aos jogos. Dessa forma, descobri então que ele era a primeira pessoa que eu conhecia em Detroit que realmente havia nascido ali.

O estádio dos Pistons tinha capacidade para 22.000 torcedores, de acordo com Josh. Nunca havia entrado em um estádio tão grande de basquete, o maior tinha sido o da minha escola, que não podia nem ser comparado com aquele. Nossos lugares ficavam mais ou menos no meio, para minha felicidade. Não seria ruim de enxergar, mas também não ficaríamos tão expostos.

Uma das coisas que eu mais gostava sobre eventos esportivos era que, mesmo se você não gostasse de esportes, não tinha como não se divertir. Uma apresentação da mascote e das cheerleaders abriu o jogo e animou o público. Estava sentada no meio de Josh e Scooter, não sabia se aquilo era proposital, mas nada disso importava, já que os dois estavam vidrados na partida.

Nunca fui do tipo de pessoa que assistia jogos esportivos com muita frequência, mas quando eu assistia, não sabia como não me envolver e, quando percebi, estava compartilhando do mesmo entusiasmo dos dois. No intervalo, para nossa felicidade, os Pistons comandavam o placar.

— Vou aproveitar o intervalo para comprar algum lanche para nós, o que acham? – Josh perguntou.

— Uma ótima ideia. – Scooter logo respondeu.

— Vocês deveriam conversar. – Josh sugeriu.

— Sobre o que? – dessa vez foi eu quem perguntou, não entendendo a fala de Josh.

— Sobre o seu problema. – ele respondeu. – Scooter é meio maluco, mas juro que ele é um cara confiável.

— Josh, eu consigo ouvir o que você fala. – Scooter disse.

— E ninguém entende mais de fraternidades e irmandades do que ele. – Josh completou.

— É verdade. – Scooter concordou, como se não se importasse com nada.

— Ele basicamente vive pelo Sistema Grego. – acrescentou Josh.

— Ei, vamos maneirar os comentários. – Scooter replicou, rindo logo em seguida. Josh fez o mesmo.

— Bom, dei minha sugestão. – ele disse por fim. – Você que sabe, Amy. – foi a última coisa que Josh disse antes de sair para comprar comida.

Das pessoas que eu conhecera até então, Scooter não seria a primeira, nem a segunda, por quem eu procuraria para pedir uma opinião sobre aquilo. Tudo o que Josh acabara de dizer, porém, parecia fazer sentido. Até onde eu sabia, Scooter estava envolvido há muito tempo com toda a confusão daquele mundo, e honestamente, eu não tinha nada a perder.

— Pode não parecer, mas além de policial do campus, também sou um ótimo conselheiro. – Scooter disse, tentando manter um tom sério na voz. – Ok, talvez não um bom conselheiro, porém um ótimo estrategista. – ri do comentário.

— É uma história meio longa. – avisei.

— Nada é mais longo que o intervalo de um jogo de basquete. – ele comentou. Nós dois rimos.

Quase sem me dar conta, estava relatando os acontecimentos para Scooter. Contei desde a parte da bolsa de estudos, até a visita das casas e o não recebimento da carta da Sigma Psi, claro que poupando muitos detalhes da história, dando ênfase ao problema principal.

— Não acredito que elas não te enviaram uma carta. – essa era a parte que mais parecia incomodar Scooter. – Não faz nenhum sentido, Amy. – os comentários dele me lembraram o dia em que ele havia me acompanhado até o dormitório, nessa mesma noite Scooter comentou que eu seria uma ótima membro da Sigma Psi.

— Eu estou tentando entender alguma coisa, só que simplesmente não consigo decifrar o que está acontecendo. – falei. – Não esperava não receber uma carta da Sigma Psi, e muito menos esperava receber uma da Zeta Eta Beta.

— Não tenho nada contra a Zeta Eta Beta. – Scooter falou. – Elas são bonitas, com um espírito um pouco agressivo quando se trata do ranking do Sistema, o que é bastante provocativo, mas eu particularmente vejo isso no bom sentido. Elas também...

— Ok, Scooter. – eu o cortei, me esforçando para não soar grossa. – Essa parte eu já entendi.

— Não estou dizendo que você não aparenta ser assim também, só que eu te enxergava muito na Sigma Psi. – ele terminou de explicar. – E pelo jeito, você não tem escolha. – continuou. – Isso é uma pena, de verdade, pois significa que raramente iremos frequentar as mesmas festas.

— Isso é uma pena por muitos motivos. – reforcei, quase ignorando o comentário dele. – Já me vejo totalmente perdida dentro da Zeta Eta Beta.

— Se quiser, posso falar um pouco do que eu sei sobre a iniciação da Zeta Eta Beta. – Scooter ofereceu.

— Devo pedir por isso? – perguntei, um pouco receosa em possivelmente saber mais do que eu deveria.

— Se você está verdadeiramente assustada, mal isso não vai te fazer. – ele respondeu.

— Tudo bem, então eu aceito. – concordei.

A partir do momento em que Scooter começou a falar sobre o que sabia, deu tempo para que Josh voltasse com os lanches e o intervalo da partida terminasse. Mesmo assim, ele continuou falando. Contou que cada irmandade tinha sua forma diferente de iniciação, mas que todas aconteciam durante o mesmo período, que no caso, começava amanhã à noite. Scooter lembrou também que eu precisava deixar minha carta com a resposta para a Zeta Eta Beta no comitê do Sistema Grego, amanhã de manhã, se não perderia minha vaga.

— Até onde eu sei, a Zeta Eta Beta começa a iniciação em horário especial da noite, algum número simbólico para a irmandade. – Scooter contou. – Então você pode esperar que elas apareçam na porta do seu dormitório entre as 19h e meia noite. – continuou. – Sei que a Sigma Psi busca as candidatas um minuto após a meia noite, então você e Charlie provavelmente não irão ser buscadas no mesmo momento.

Deixamos o estádio com uma vitória dos Pistons e, no meu caso, com uma boa quantidade de conselhos sobre o dia de iniciação que teria amanhã. No caminho de volta, Josh e Scooter continuaram me aconselhando, dizendo que surtar provavelmente seria a pior coisa a ser feita na iniciação da Zeta Eta Beta e que isso não era necessário, já que nenhum ato que agredisse ou ferisse a pessoa era permitido durante a iniciação. Além de que, era difícil imaginar a Zeta Eta Beta realizando alguma coisa do tipo.

— Obrigada por hoje, vocês me ajudaram em muitos sentidos. — agradeci o convite de Josh, e a companhia dele e de Scooter, quando os dois me deixaram em frente ao prédio de meu dormitório.

— Não precisa agradecer, Amy. – Josh falou. – Você foi uma ótima companhia.

— E sempre que precisar, pode contar com a ajuda da polícia do campus. – Scooter completou.

Em sequência, me despedi e adentrei o prédio. Olhei o horário enquanto subia as escadas, era um pouco mais de 22h. Tudo bem que ainda não estava tão tarde, mas quando o dia era cansativo Charlie acabava dormindo mais cedo e, por sorte, quando abri a porta do nosso quarto encontrei-a adormecida e as luzes apagadas.

Sem muito o que fazer e também cansada, tentei esvaziar minha cabeça das milhares de coisas que tomavam conta da mesma e pegar no sono. Demorou um pouco, mas por fim consegui adormecer. Acordei no dia seguinte com Charlie cutucando meu ombro.

— Amy, você vai se atrasar se não acordar agora. – ela avisou.

— O que? – perguntei confusa, esfregando os olhos e olhando a hora em meu celular que estava na cabeceira da cama, para causar meu desespero.

— Você não acordou com o despertador, a sorte que hoje acordei mais cedo mesmo não tendo aula no primeiro período. – ela falou.

— Ai meu Deus! – exclamei. – Não posso me atrasar hoje, é minha primeira sexta-feira de aulas.

— Se quiser, posso levar a sua carta para o comitê, assim você não precisa se preocup... – Charlie se ofereceu, mas eu logo a interrompi.

— Não! – disse ao mesmo tempo em que me levantava. – Quero dizer, acho que isso não é permitido, por causa da regra do sigilo e tudo mais. – tentei disfarçar minha preocupação.

— Ah, é verdade. – Charlie concordou, para o meu alívio.

Depois disso, me arrumei com pressa e rapidamente deixei o quarto. Antes de sair, disse para Charlie que precisava conversar com ela mais tarde, não mencionei o porquê, mas ela descobriria à noite que se tratava do assunto Brett.

A primeira coisa que fiz foi passar no comitê do Sistema Grego e deixar minha carta de aceitação para a Zeta Eta Beta. Mesmo que relutante, eu não podia correr qualquer risco de não cumprir os requisitos da minha bolsa de estudos. Acabei me atrasando um pouco para minha primeira aula, mas consegui enrolar o professor com uma desculpa convincente. O resto do dia foi normal, apesar de minha cabeça estar totalmente voltada para o que iria acontecer a partir daquela noite.

Quando voltei para o dormitório no fim daquela tarde, Charlie já havia chego, diferentemente do dia anterior. Antes de conversarmos, fui tomar um banho rápido para me preparar para o que estivesse por vir em minha vida naquela noite. Vesti minha calça jeans e camiseta preferidas antes de voltar para o quarto, pois se fosse para morrer, gostaria de estar usando minhas roupas favoritas do momento. Após tudo isso, o relógio já passava um pouco das 19h.

— Como foi sua pesquisa ontem? – Charlie começou a puxar assunto. – Acabei pegando no sono cedo e nem vi você chegar.

— Foi bem legal. – sim, isso foi tudo o que consegui dizer em meio ao nervosismo. – Como foi o seu dia? – perguntei.

— Foi bem legal. – Charlie repetiu meu comentário, parecendo começar a notar que alguma coisa estava estranha. – Não tive aulas com nenhum professor tão maravilhoso quanto o Logan, mas ainda assim foi um bom dia. – ela tentou manter o bom humor que sempre estava presente em nossas conversas. – Sobre o que você precisava falar comigo? – por fim Charlie perguntou.

— Brett veio falar comigo ontem. – entrei diretamente no assunto.

— Brett? – ela perguntou surpresa. – Isso não pode ser bom.

— Ele queria saber alguma coisa sobre o que aconteceu e disse que você nunca retornou as ligações dele. – contei.

— Tudo bem, isso é verdade. – Charlie admitiu. – Mas Amy, você sabe que não sei falar quando estou nervosa e eu simplesmente não tinha como manter uma conversa com ele, mesmo depois de saber que nada tinha acontecido.

— Mas você não acha que ele merecia saber? – perguntei, da maneira mais calma possível, sem querer pressioná-la de qualquer forma.

— Eu acho, só não sabia como trazer o assunto de volta de forma natural. – lamentou-se Charlie. Em seguida, ela passou um bom tempo tentando se explicar. Devido ao jeito de Charlie, eu conseguia entender o que se passava na cabeça dela, mas no fundo ela sabia que deveria ter esclarecido as coisas com Brett.

— Desculpa, eu prometo que vou ligar para ele quando surgir a oportunidade. – ela disse por fim. – Mas será que por agora, podemos mudar de assunto? – pediu.

— Não precisa pedir desculpas para mim. – falei, rindo levemente. – É uma ótima ideia você ligar para ele. – concordei. – E se você finalmente chegou à essa conclusão, então sim, podemos mudar de assunto.

— Ótimo. – Charlie disse, esboçando um sorriso nos lábios. – Como você acha que vai ser a iniciação? – senti meu sangue congelar ao ouvir o novo assunto que ela decidira puxar. Quase como ao mesmo tempo, tudo aconteceu. Antes que eu pudesse improvisar qualquer resposta, duas batidas fortes na porta interromperam nossa conversa.

— Amelia Jenkins! – uma voz grave e desconhecida veio do corredor. – Abra a porta!