Legacy
10 Capítulo 10 - "When I lay down in your arms"
— Você está bem? – uma voz desconhecida surgiu ao meu redor. Não sabia se estava morrendo, mas aquela talvez fosse a voz mais agradável que eu havia escutado em toda a minha vida. Era grave, mas ao mesmo tempo suave, talvez fossem os anjos vindo me buscar, a teoria só se confirmou quando o dono da voz revelou seu rosto. Um formato perfeito, dono de um belo par de olhos verde-escuro e cabelo loiro com corte perfeito.
— Estou ótima. – respondi. Nem consigo imaginar o quão falsas e inseguras essas palavras soaram. Estava perfeitamente claro que eu nem ao menos tinha forças para me levantar.
— Peço desculpas, não tínhamos nenhuma intenção de te machucar. – lamentou-se o sujeito misterioso. – Eu disse que não era uma boa ideia praticar qualquer coisa no meio do campus, Theo.
— Mas mesmo assim concordou, foi necessário. – uma nova voz surgiu, porém não conseguia avistar o dono da mesma. – Precisava ter certeza de que não estava bêbado antes de começarmos a treinar e não é culpa de ninguém se não nos deixaram entrar no estádio.
— E também não é culpa dessa garota se fomos imprudentes o suficiente para treinar passes no meio do campus. – o rapaz loiro falou.
— Ok, nossa culpa. – disse o outro garoto, que até onde eu podia raciocinar se chamava Theo. – O que fazemos agora?
— Não faço ideia. – disse o loiro. – Ela claramente não está bem.
— Já disse que estou bem. – reuni forças para dizer.
— Desculpa, mas você não está. – respondeu. – Qual é o seu nome?
— Amy. — falei.
— O treinador vai nos matar. – Theo falou, com certo tom de desespero.
— Eu sou o Seth. – apresentou-se o dono da voz grave e suave, ignorando a fala do amigo. – Dói quando encosto aqui? – ele perguntou, pressionando delicadamente um ponto especifico da minha testa.
— Ai! – exclamei automaticamente.
— Garotos, o que está acontecendo aqui? – mais uma voz surgiu na conversa.
— Professor, graças a Deus! – disse Theo.
— Theo atingiu ela com uma bola de futebol, estávamos treinando umas jogadas aéreas. – explicou Seth.
— Aqui não é o lugar, nem a hora para isso. – repreendeu o professor. – Mas vocês não podem leva-la até a enfermaria do campus, isso exigiria uma explicação e tudo que não queremos são vocês dois com qualquer tipo de punição logo no começo da temporada. – disse. Em seguida, ele se abaixou e analisou minha testa, ele possuía cabelo grisalho e uma barba bem-feita. – Um pouco de gelo e cuidado vão resolver a situação, podem fazer isso?
— Tenho aula em 20 minutos. – avisou Theo.
— Levamos 20 minutos só para voltar para casa. – disse Seth. – Não tenho aula hoje, posso tentar resolver isso.
— Já disse que estou bem. – disse novamente, dessa vez tentando me levantar. Seth, que estava agachado ao meu lado, ergueu-se rapidamente vendo o que eu estava fazendo. – Tenho minha primeira aula de química agora e não posso faltar. – falei, tentando soar determinada, mas foi nesse momento que o sentimento de tontura que tomava conta de minha cabeça latejante gritou mais alto e eu quase caí no chão novamente.
Teria caído, mais uma vez com tudo, porém os firmes braços de Seth impediram que isso acontecesse. Ele era consideravelmente mais alto do que eu e possuía um corpo forte, que servia de apoio para mim naquele momento.
— Amy, você não está bem. – Seth voltou a dizer, e parecia estar me encarando com seus olhos verdes, mas infelizmente minha visão estava tão tonta quanto eu para ter certeza daquilo.
— Eu sou o Eddie, Amy. – introduziu-se o professor. – Seu professor de química, prometo que não considerarei sua falta de hoje e nada de tão importante será passado em sala. – prometeu. – Se precisar, podemos marcar um horário e eu repasso a introdução que passarei hoje em sala, mas você parece uma aluna esforçada, creio que nem irá precisar disso.
— Não posso decepcionar. – não tinha total noção do que estava dizendo, só pensava em como queria apenas comparecer tranquilamente a todas as minhas aulas naquele primeiro dia e manter minha bolsa de estudos.
— E você não está e nem irá. – garantiu Eddie. – Preciso ir para a sala agora. – avisou ele. – Seth, cuide da minha aluna. – pediu. – E Theo, vá para sua aula e não atinja mais ninguém.
— Pode deixar, professor. – prometeu Theo.
— Conto com suas palavras, garotos. – disse Eddie. – Até mais. – despediu-se.
— É melhor eu me apressar também. – Theo falou. – Você consegue fazer isso, cara.
Depois disso, não escutei mais a voz de Theo, ele provavelmente havia ido embora sem uma resposta de Seth, que talvez não tivesse o que dizer naquele momento.
— Amy, vou precisar que você confie em mim. – Seth pediu.
— Tenho outra opção? – perguntei.
— Até onde eu sei, não. – respondeu, inclinando um pouco seu corpo, que ainda servia como meu apoio, para baixo. – Consegue passar seu braço ao redor do meu pescoço?
— Desse jeito? – questionei ao realizar o movimento.
— Exatamente. – confirmou. Seth se abaixou mais um pouco e pegou minha bolsa caída no chão, pendurando-a em um de seus ombros. Em seguida, ele ergueu meu corpo e começou a caminhar, me carregando em seus braços.
— Onde você está me levando? – perguntei sonolenta. Talvez eu devesse gritar, ou contestar aquilo de qualquer forma, estava deixando um estranho me carregar para algum lugar desconhecido. Talvez eu devesse, mas simplesmente não tinha força para qualquer coisa. A sensação de não ter que me esforçar para permanecer de pé no chão era maravilhosa, e se eu estivesse mais consciente também falaria sobre o quão confortáveis eram os braços de Seth. Ou, talvez, aquilo ainda fizesse parte de toda a minha teoria inicial e ele fosse um anjo me levando para o céu. Na verdade, nada disso importava muito, a única conclusão era que eu não tinha força, ou energia, suficientes para optar por qualquer outra coisa naquele momento, só esperava não estar me metendo em uma enrascada.
— Para a casa da minha fraternidade. – respondeu.
— Em Motown?! – perguntei. – Você não vai conseguir me carregar até lá.
— Sou mais forte do que aparento. – disse Seth.
— Você já aparenta bastante forte. – eu realmente não tinha noção das palavras que saíam da minha boca.
— E também sou bastante rápido. – falou. Foi quando percebi que estávamos, de fato, andando bastante rápido.
— Mas é logicamente impossível que você me carregue até lá. – impliquei.
— Amy, só confia em mim. – pediu ele. – Você é extremamente leve, garanto que não vou te deixar cair.
— Só estou aqui porque você me deixou cair.
— Não foi bem assim. – Seth disse. – o Theo te atingiu com a bola e eu sabia que não era uma boa ideia jogar ali. – defendeu-se. – Mas já assumi minha parte da culpa e pedi desculpas. – continuou. – Estou tentando te ajudar de algum modo, para ao menos me redimir um pouco.
— Estou perdendo minhas aulas. – lamentei-me.
— Podemos dar um jeito nisso depois, eu prometo. – garantiu ele.
— Não prometa coisas das quais você não tem controle. – falei.
— Você não me conhece. – disse Seth. – Jamais quebrei uma promessa e não vai ser agora que farei isso.
— Exatamente, eu não te conheço, esse é o segundo maior problema dessa situação. – reclamei.
— E qual seria o primeiro? – perguntou.
— Ser atingida na cabeça por uma bola de futebol americano no caminho da minha primeira aula de química na faculdade. – respondi.
— Justo. – Seth soltou uma leve risada, que por algum motivo eu sabia que não trazia nenhuma maldade. Se eu estivesse no lugar dele, provavelmente também teria rido do meu comentário.
— Mas por algum motivo, você não parece um estranho ruim. – talvez fossem os braços dele a razão, eram confortáveis de um jeito inexplicável.
— Muito obrigado. – agradeceu Seth, soltando outra risada no mesmo tom. – Guardarei esse elogio comigo. – foi a última coisa que lembro de ter escutado, antes de me aconchegar nos braços que me carregavam, fechar os olhos, e por um momento, esquecer de tudo que estava acontecendo. Ao fazer isso, porém, não previ que esse momento de conforto duraria muito mais tempo do que eu poderia permitir que ele durasse.
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