Legacy

33 Capítulo 33 - "Opened life suitcase"


— Não tem como ser ele, Scooter. – eu disse ao mesmo tempo em que lia o nome George Jenkins embaixo de sua foto. – Ele abomina esse tipo de organização.

— Acho que nós dois sabemos que não existe uma forma de negar os fatos presentes em nossa frente. – Scooter falou, com toda a razão do mundo. – É por isso que o seu sobrenome ficou tão automaticamente gravado na minha cabeça, eu sabia que já tinha o visto em algum lugar antes.

— Isso está estranho. – comentei, ainda perplexa analisando a imagem.

— Então se prepare, pois existem coisas mais estranhas ainda que eu gostaria de te contar. – ele anunciou. – Talvez eu não devesse explicar o porquê, mas como já tomei a decisão de te revelar todo esse segredo, não faria sentido não relatar todos os detalhes. – virei-me para ele e permaneci em silêncio, esperando que continuasse com o que tinha a dizer. – Como sou nativo de Detroit, nunca tive essa história de ter que voltar para casa para visitar a família e afins. – Scooter começou a contar. – Então nas últimas férias, quando fui eleito para ser presidente da Omega Gamma, passei grande parte do tempo aqui na casa. – continuou. – Como estava vazia, tive muito mais privacidade para explorar cada detalhe dentro do santuário e garantir que eu estaria apto a deixar um legado, assim como os presidentes anteriores. – revelou. – Descobri então, conforme eu explorava, que atrás de cada quadro existe uma ficha pessoal de cada presidente, na qual eles escrevem livremente sobre seu período governando a casa, e, consequentemente, deixam algumas confissões e relatos pessoas. – ele explicou. – Quando eu li o do seu pai, uma coisa me chamou atenção: em determinado momento, ele confessava que havia ficado com uma única garota desde que entrara na universidade. – contou. – Fiquei curioso para descobrir quem seria essa única garota e tentei pesquisar sobre ele nos registros da Cadillac e arquivos relacionados da universidade, para quem sabe chegar até ela também. – continuou. – Pode ter certeza, Amy, sou um dos caras com mais acesso a qualquer tipo de informação dentro dessa universidade, mas foi impossível encontrar uma única coisa sobre George Jenkins, ele não existe fora dessa casa.

— Como assim não existe? – questionei. No fundo, eu entendia o que ele queria dizer, mas meu subconsciente pedia por um melhor esclarecimento.

— Ele não tem nenhum registro nessa universidade, Amy. – Scooter contou. – Nem matrícula, graduação, inscrições, nada.

— Não consigo compreender os fatos. – admiti. – Antes de eu vir para cá, meu pai receou muito sobre isso. – contei. – Era quase como se esforçasse para não querer que eu viesse, acho que ele só amoleceu a cabeça por causa da bolsa de estudos. – falei. – E porque minha vó ajudou na minha defesa.

— Até onde eu posso analisar, alguma coisa aconteceu para que ele criasse esse sentimento contra a Cadillac. – Scooter comentou. – E, também, um sentimento da Cadillac contra ele. – acrescentou. – Desde que te conheci, venho novamente tentando descobrir alguma coisa, porém com a mesma falta de sucesso. – ele disse. – Antes era só um detalhe despercebido, mas agora é algo que realmente me intriga e incomoda.

— Não sei o que dizer ou pensar. – falei. – São muitas informações de uma só vez.

— Eu sei, imagino como deve estar sendo. – ele falou, demonstrando verdadeira solidariedade. – Mas, se não se importa, podemos continuar o assunto fora dessa sala? – Scooter pediu. – Me sinto um pouco mal por trazer você aqui, mas sei que era necessário.

— Obrigada por tanta consideração. – agradeci sincera, enquanto saímos da sala.

— Não precisa agradecer, fiz o que deveria ser feito. – ele disse, já trancando a porta atrás de nós e em seguida empurrando a estante que a escondia. – Sei que você vem vivenciando diversos acontecimentos sem muito sentido, achei que seria justo saber de uma verdade, mesmo que não seja clara.

— Obrigada mesmo, Scooter. – agradeci mais uma vez. Ele realmente era uma pessoa imprevisível. – Se você descobrir mais alguma coisa, promete me contar? – pedi. – Nem que façamos outra troca de favores que nem a da festa e das redes sociais.

— Prometo contar, sem a necessidade de uma troca de favores. – falou, esboçando um leve sorriso. – Posso não parecer, mas sou um cara bastante justo e honesto.

— Não tenho como dizer o que você parece, só sei que é muito imprevisível. – comentei, rindo fraco.

— Ah, Amy, só preciso que você não conte nada disso para ninguém. – Scooter pediu. – Sei que a parte do seu pai é tentadora, mas ela comprometeria a fonte de informações.

— Eu sei disso, não se preocupa. – afirmei. – Pode deixar, será nosso segredo.

— Obrigado. – ele agradeceu. O som da festa já era bem mais nítido dentro do quarto de Scooter, talvez a sala secreta fosse de alguma forma mais inibidora, mas de qualquer maneira, era como se ouvir a realidade lá fora fosse um pedido para que voltássemos para o mundo real.

— Existe mais algum assunto o qual você gostaria de tratar comigo? – perguntei antes de sugerir que voltássemos.

— Não exatamente. – ele disse. – Mas eu estaria mentindo se dissesse que não esperava ter um pouco de sorte e, quem sabe, ter a chance de fazer alguma outra coisa com você depois de tratar dos assuntos formais. – senti meu coração instantaneamente acelerar ao ouvir as palavras de Scooter. Estávamos de frente um ao outro à uma distância consideravelmente pequena, a qual ele fez questão de diminuir ainda mais conforme se aproximava e apoiava suas mãos em minha cintura.

— Scooter, nós não podemos. – eu me esforcei para dizer. Sabia que grande parte de mim que seria simplesmente ignorar todas as consequências e permitir que tudo acontecesse. Ele era lindo e extremamente atraente, com uma dose perfeita de audácia que, por algum motivo, causava-me um interesse enorme. Eu sabia também que, nada em teoria, além de mim, poderia me impedir daquilo. Seth e eu não éramos algo de verdade, mas mesmo sabendo disso, pensar nele parecia intensificar meus motivos contra deixar que Scooter quebrasse a distância restante entre nós naquele momento.

— Por que não? – perguntou, com os lábios próximos ao meu ouvido direito, quase que em um sussurro. – Por que suas amigas disseram que eu não presto e sou um cara de apenas uma noite? – ele questionou. – Dizem que sempre existe alguém para mudar as pessoas. – eu não podia negar que a voz dele naquele tom causava leves arrepios em mim, mas seria imprudente permitir que isso me influenciasse. – E eu sei que você quer, Amy. – ele fitou meus olhos diretamente após terminar de falar. Encarei os dele em silêncio, e, ao mesmo tempo, ele começou a se aproximar cada vez mais. Mil e um pensamentos batalhavam na minha cabeça, eu precisava tomar alguma decisão, mas quanto mais eu sabia disso, mais difícil parecia. Enquanto isso, os lábios de Scooter se aproximaram até que finalmente se chocassem contra os meus. Entretanto, antes que pudéssemos ir além somente daquele contato, desvencilhei-me dele.

— Não posso ser essa pessoa para você. – eu falei, também o encarando. – Não agora. – continuei, não sabendo definir se futuramente eu me arrependeria disso. – Preciso ir, Scooter. – foi a última que eu disse, antes de rapidamente atravessar a porta do quarto e em seguida o corredor.

Não procurei ninguém, apenas saí andando com passos apressados rumo ao meu dormitório. Não queria pensar sobre Scooter, não queria pensar sobre meu pai, não queria pensar sobre Seth, não queria pensar sobre a Zeta Eta Beta e muito menos sobre qualquer assunto relacionado ao Sistema Grego, o que parecia uma alternativa impossível, já que tudo aquilo tomava conta de uma vez só da minha cabeça. O pior de tudo era ter de agir naturalmente em frente a todas essas coisas, como se os problemas não existissem, porque se eu os tomasse como parte do cotidiano, aí sim eles seriam grandes problemas.

O tempo passou tão rápido com todas essas coisas na minha mente que eu pareci ter chegado ao Beard Hall em uma questão de segundos. E, como se nada mais pudesse acontecer, levei um dos maiores sustos da minha vida ao encontrar um corpo sentado na frente da porta do meu quarto.

— MEU DEUS! – gritei automaticamente em defesa.

— Amy, calma! – uma voz conhecida exclamou em resposta. – Sou eu, o Brett!

— Brett?! – perguntei. – O que diabos você está fazendo aqui?!

— Eu preciso falar com a Charlie, ela não atende minhas ligações e me ignora sempre que está na Omega Gamma. – ele disse.

— Ela está fazendo isso com razão, Brett. – eu defendi minha amiga.

— Eu sei que está. – concordou. – Mas eu preciso que ela pelo menos me escute.

— Concordo que vocês deveriam conversar, mas você precisa permitir que ela decida o tempo disso. – opinei.

— Talvez você tenha razão. – Brett disse. – É só que, não sei mais o que fazer, é muito difícil Amy. – senti a voz dele apertar ao dizer essas palavras e só então percebi que ele estava chorando.

— Brett, calma, nada acontece por acaso. – eu falei, sentando-me ao lado dele. – O que está sendo muito difícil?

— Charlie te contou tudo? – ele perguntou.

— Sim. – afirmei.

— Eu não queria ser assim, Amy. – Brett falou, agora definitivamente se entregando às lágrimas. – Se os garotos descobrirem, vou ser expulso. – ele disse.

— Brett, por favor não se trata dessa forma. – eu pedi, verdadeiramente preocupada. – Não tem nada de errado com você e não cabe a nós contestarmos as decisões tomadas pelos nossos sentimentos. – falei. – Os caras da Omega Gamma são alguns dos mais legais que conheci até hoje, tenho certeza que não te julgariam de maneira alguma, ainda mais por serem seus amigos há bastante tempo.

— Obrigado, Amy. – ele agradeceu. – Mas eu não sei o que aconteceria, de verdade.

— Mas eu sei. – falei, mesmo sem ter total convicção do que dizia. – Sei também que a Charlie vai te perdoar mais cedo ou mais tarde e tudo vai se ajeitar. – eu disse. – Não há nada de errado em aceitar quem somos e nos amarmos desse jeito. – o corredor estava escuro, mas eu conseguia encarar Brett diretamente. – Aquele dia na casa da Omega Gamma, você estava tentando me dizer algo sobre isso, né?

— Eu tentei, mas nunca consigo. – ele disse. – Ninguém sabia, só o Rick. – eu definitivamente não sabia quem era Rick, mas deduzi que deveria ser o cara com quem Charlie vira Brett naquele dia. – É mais fácil falar, agora que você já descobriu de outra maneira.

— Então podemos conversar mais vezes. – eu sugeri. – Até que se torne confortável para você. – eu e Brett não éramos próximos, mas eu senti uma necessidade repentina de ajuda-lo com aquilo. Ele sempre me tratara bem e era nítido o quão mal ele estava se sentindo com tudo isso, mesmo que não devesse.

— Você não se incomodaria? – Brett perguntou.

— Claro que não. – falei. – Não posso prometer total disponibilidade, tenho algumas confusões próprias para resolver, mas vamos dar um jeito.

— Obrigado, Amy. – ele agradeceu mais uma vez.

— Agora você deveria voltar para sua casa e descansar. – sugeri. – Sei que o barulho lá não irá ajudar, mas ficar aqui sentado não vai solucionar nada.

— Você está certa. – concordou. – Desculpa ter causado esse susto.

— Não se preocupa, já nem lembro mais. – falei.

— Até mais, Amy. – Brett se despediu ao mesmo tempo em que levantava, sorri em resposta.

Esperei que ele desaparecesse no corredor para só então adentrar meu quarto. Era quase cômico o modo com que eu aparentava ser um imã de situações a serem resolvidas desde que chegara ali. Pelo menos, preferiria mil vezes ter que me concentrar em ajudar Brett naquele caso do que ter que continuar pensando em tudo que se referia a mim.

Não fiz muito mais do que trocar minha roupa por um pijama e deitar na cama. Tentei ler alguma coisa para me distrair, mas nada foi suficiente. Fiquei pensando antes de dormir se por acaso a tal única garota do meu pai seria minha mãe, tinha que ser. Eles haviam se conhecido na universidade, então até onde eu podia raciocinar, não tinha como existir outra hipótese. Às vezes eu desejava que meu pai contasse mais sobre os dois, entretanto eu sabia que não era um assunto fácil para ele, ainda mais agora descobrindo que ele realmente era um cara apaixonado, se não fez questão de sequer interessar-se por outras garotas. Ao refletir sobre tudo isso, comecei a pensar em qual seria minha próxima chance de tentar colher verde sobre o assunto com meu pai, e, então, rapidamente me dei conta de que tinha mais uma coisa com a qual me preocupar: na semana seguinte, completaríamos um mês de aula, ou seja, seria o dia de visita das famílias dos calouros. E com certeza havia muita coisa que eu precisava tratar com a minha família.