Legacy
26 Capítulo 26 - "Up and down, then up then down"
Uma mistura de curiosidade, um pouco de medo e anseio, tomaram conta de mim ao ler a mensagem de Josh. Mesmo assim, respondi imediatamente dizendo que poderia encontra-lo para o almoço, e, de forma automática, comecei a questionar em minha cabeça inúmeras possibilidades do que poderia ser a descoberta feita por ele.
Além disso, também estava pensando sobre a situação de Charlie. Por sorte, ela não encontrou dificuldades para dormir. Lembrei do momento em que encontrara Brett na casa da Omega Gamma no dia do jogo de basquete, sentia que aquilo tudo poderia ter a ver com o ocorrido. Se não convencesse Charlie a falar com ele, talvez eu mesma o fizesse.
Quando o despertador tocou de manhã, somente eu levantei. Imaginei que Charlie não faria o mesmo, mas ela já havia faltado aula segunda passada e eu não podia permitir que isso acontecesse novamente. Com essa ideia em mente, fui logo em direção a cama dela na intenção de acordá-la.
— Charlie, acorda. – disse, ainda meio sonolenta, sacudindo um dos braços dela.
— Não vou para aula hoje. – ela resmungou.
— Você tem que ir. – falei. – Pode faltar amanhã, mas hoje não. – acrescentei.
— Ninguém se importa com as aulas na faculdade, Amy. – Charlie disse.
— Eu me importo! – retruquei firme. – E você tem que viver comigo basicamente pelo resto do ano, então não vai ser tão simples não se importar com as aulas.
— Falou a pessoa que sumiu nos últimos três dias. – ela disse em tom sarcástico.
— Do meu ponto de vista, foi você quem sumiu. – tentei soar o mais calma e gentil possível ao dizer isso. – E foram dois dias.
— Tanto faz. – Charlie falou.
Aproveitei para lavar o rosto e trocar de roupa enquanto Charlie enrolava para levantar. Em seguida, fui até a máquina de café e trouxe um copo de cada para nós. Ainda não tínhamos conversado sobre nenhuma outra coisa que acontecera durante o final de semana, Charlie sugeriu almoçarmos juntas, mas eu não podia arriscar trazê-la para o almoço com Josh, mesmo ele sendo irmão dela, não sabia que informações ele teria para contar. Combinamos então de sair para comer algo a noite.
Minha primeira aula de segunda era sociologia com a Natalie. Depois da aula que tivera semana passada, isso servia de ótimo animo para iniciar a semana, estava ansiosa para uma nova aula com ela. Foi mais fácil achar o caminho até o prédio, em comparação a última vez. Só quando sentei em minha cadeira dentro da sala foi que parei para pensar no fato de que Seth não me mandara nenhum sinal de vida depois de me deixar na casa da ZEB no dia anterior. Sei que ele não tinha nenhuma obrigação, mas ele já havia me enviado mensagens em outros momentos, e, por algum motivo, as fofocas estranhas que Vicky havia me contado durante o último almoço também vieram à minha cabeça quando fiquei pensando nisso, mesmo sem existir um verdadeiro motivo para que essa conexão acontecesse.
— Bom dia, turma! – Nat cumprimentou ao passar pela porta, ainda simpática e exuberante como havíamos a conhecido na semana passada. Ela deixou suas coisas em cima da mesa e estava pronta para começara a aula, com a turma toda em silêncio. De repente, senti algo tremer dentro da minha bolsa. – Vocês estão escutando? – ela imediatamente perguntou. Com todo aquele silêncio, era possível escutar o tremor vindo da minha bolsa. Nat seguiu o barulho com atenção, até parar em frente a mim.
— Desculpa, vou desligar. – falei, deduzindo que a única coisa que poderia tremer seria meu celular.
— Não, primeira regra da minha aula. – Nat impediu. – Se o seu celular tocar, tem que atender no viva-voz. — eu conseguia lembrar do exato instante em que ela havia nos dito isso segunda passada, mas havia me esquecido momentaneamente.
Estendi o braço até a bolsa, tentando parecer o menos nervosa possível com aquilo. Não fazia ideia de quem poderia estar me ligando tão cedo, o primeiro nome que vinha na minha cabeça era o de meu pai, já que fazia algum tempo desde que eu mandara notícias pela última vez. Independentemente de quem fosse, eu não me sentia nem um pouco confortável em ter que atender a ligação na frente de todos e para que todos ouvissem. Com sorte, seria apenas alguma agência telefônica ou algo do tipo.
No exato momento em que tirei o celular da bolsa, ele parou de tocar. Foi difícil disfarçar minha extrema sensação de alívio, só que ela duraria pouco. Natalie continuava em minha frente e, logo em seguida, surgiu um aviso indicando que eu tinha uma mensagem de voz não escutada na caixa de mensagens. A professora olhou para a notificação e em seguida para mim, com uma nítida expressão de divertimento, como se nem precisasse dizer o que eu deveria fazer com aquilo.
— Não se preocupe, também vou aceitar que você escute essa mensagem de voz. – ela disse sorrindo. Era horrível não ter escolha.
Desbloqueei o celular então e logo cai na página das mensagens de voz, não sendo possível ver quem tinha me ligado. Cliquei para escutar o que eu havia recebido, torcendo para que não fosse nada comprometedor.
“Oi Amy, aqui é o Seth.” Congelei imediatamente ao escutar a voz dele falando e algumas pessoas pareceram reagir a isso também, provavelmente sabiam quem ele era, mesmo podendo existir inúmeros outros Seth naquela universidade. “Estou deixando essa mensagem para pedir desculpas por não ter te ligado ontem ou enviando qualquer sinal de vida, tive que resolver alguns problemas e acabei me esquecendo, mas prometi antes de dormir que seria a primeira coisa que eu faria ao acordar. Por favor me avisa se está tudo bem, o clima não parecia muito bom quando te deixei na casa da ZEB ontem. Fora isso, só queria dizer mais uma vez que eu me diverti muito, obrigado novamente. Acho que nos vemos por aí, cuidado com jogadores de futebol praticando no meio do campus, segunda é um dia de alto índice de acidentes. ” não pude evitar rir do comentário, ignorando por um momento que todos estavam escutando tudo aquilo. “Até mais, Amy” foi a última coisa que Seth disse na mensagem, que em seguida silenciou-se.
— Obrigada, Amy! – Natalie agradeceu. – Essa foi uma das melhores ligações que escutei durante minhas aulas, uma pena você não ter atendido a tempo. – algumas risadas ecoaram pela sala e eu não sabia interpretar se minha professora estava sendo extremamente irônica ou apenas falava em tom de divertimento. – Mas agora, por favor desligue o celular.
Eu obedeci imediatamente e adicionei uma nota mental para nunca mais deixar o celular ligado nas segundas-feiras. Se a situação fosse outra, eu provavelmente estaria apenas pensando sobre o quão bom fora receber aquela mensagem de voz de Seth. Em algum canto bem fundo na minha cabeça, os comentários que Vicky fizera dele ainda ecoavam, mas era difícil me importar ou pensar qualquer coisa em meio a tanta gentileza e cavalheirismo, sem mencionar o fato de que ele ainda era uma pessoa extremamente divertida.
O resto da aula foi impecável, Nat conseguia tornar assuntos pacatos em grandes reflexões e isso nitidamente gerava o interesse da turma. Depois de duas aulas com ela, podia começar a afirmar que gostava muito dos métodos utilizados, mesmo o do celular. Ao término do tempo que tínhamos, estava pronta para cruzar a porta da sala e me dirigir ao CadiLab, quando ouvi meu nome ser chamado.
— Amy? – era a professora me chamando, sentada em sua mesa.
— Sim? – respondi, voltando-me para ela.
— Será que podíamos conversar um pouco? Creio que vai ser do seu interesse. – Natalie propôs.
— Claro. – concordei, mesmo com um pouco de medo. Sabia que a vida na faculdade não era tão rigorosa, mas por eu ser uma estudante bolsista, me sentia de certa forma vigiada e sob certas obrigações.
— Não sei se você sabe, mas cada irmandade e fraternidade da Cadillac precisa de um professor ativo no campus que seja uma espécie de “protetor”. – ela contou assim que eu me aproximei de sua mesa. – E eu sou essa atual professora da Zeta Eta Beta, por esse motivo acabei descobrindo que você será uma das minhas candidatas, correto?
— Correto. – confirmei, sem entender muito bem o propósito daquela conversa.
— Eu raramente tenho alunas dessa classe se candidatando, fiquei bastante surpresa. – admitiu. – Também sou uma antiga ZEB, o que fez com que as meninas me procurassem quando comecei a lecionar aqui. – contou. – Pensei então em oferecer minha ajuda para você com a sua primeira tarefa, a da recomendação. – ela sugeriu. – A menos que já tenha cumprido a mesma.
— Meu Deus, professora! – logo exclamei. – Se não for um incômodo para você, eu realmente não teria como recusar essa proposta. – essa era, sem dúvida alguma, a melhor surpresa que eu recebia desde que chegara na universidade. Nem estava pensando direito naquela tarefa, sendo que poderia significar a perda da minha vaga caso eu não a cumprisse, Natalie era quase como um anjo caído do céu naquele momento.
— Eu posso escrever no intervalo de alguma das minhas aulas durante a manhã. – ela disse. – Aí você passa para pegar antes do almoço, aqui nessa sala. Combinado? – Natalie esboçou um sorriso ao terminar a frase.
— Combinadíssimo! – concordei animada. – Nem sei como te agradecer.
— Não se preocupa com isso. – ela falou. Retribui o sorriso antes de nos despedirmos e eu deixar a sala.
Meu caminho até o CadiLab foi tranquilo, ao contrário da semana passada quando havia sido atingida. Entretanto, depois do final de semana, não tinha certeza se eu deveria reclamar muito da situação. Cheguei um pouco atrasada por ter ficado conversando com Natalie, já podia imaginar Peter indignado por ter começado os trabalhos sozinhos, mas quando entrei na sala, ele estava surpreendentemente apagado sobre os materiais.
— Boa sorte com seu parceiro de laboratório. – o professor Eddie logo desejou quando me viu, deixando claro que aquilo poderia ser qualquer coisa menos problema dele.
— Ei, Peter! – chamei, sendo totalmente ignorada. – Tudo bem, pode me ignorar, só toma cuidado com esse pouquinho de ácido sulfúrico pingando na manga do seu jaleco. – falei, disfarçando seriedade. Imediatamente, ele levantou em prantos e erguendo os braços.
— Muito engraçado. – ele disse com expressão de mau-humor ao ver que não tinha nada pingando em sua manga.
— Final de semana pesado? – fui direto para a pergunta, rindo baixinho assim que lembrei de tê-lo encontrado no dia anterior. – Devo admitir, não esperava que...
— Alguém com tanta cara de nerd como eu fosse entrar em uma fraternidade? – Peter interrompeu.
— Na verdade, ia dizer alguém tão mal-humorado quanto você. – corrigi. – Até porque, eu me considero meio nerd de vez em quando, não iria ferir minha imagem desse jeito.
— Eu não consideraria você em nenhum momento. – ele disse.
— Você não me conhece para fazer considerações. – retruquei.
— Ainda bem. – Peter falou.
— Uou! – exclamei. – Esse foi realmente um comentário maldoso. – eu disse, claramente espantada. – É sério que você vai me tratar assim só porque eu não vim no primeiro dia?
— Não é nada pessoal, eu só não gosto muito de trabalhar em dupla. – ele contou.
— Então você deveria ser um pouquinho mais grato por ser minha dupla, porque outra pessoa possivelmente já teria dado um soco na sua cara. – falei.
— Esse também foi um comentário maldoso. – Peter disse.
— Não foi. – discordei. – Deveríamos começar nossos trabalhos. – alertei, dividindo o olhar entre ele e os materiais sobre a mesa. – E acredite, Peter, nada é por acaso, não pense que você é a única pessoa inteligente sentada em frente a essa mesa.
O resto da manhã ao lado de Peter foi quase tão bom quanto o começo, ele mal me encarou durante toda a outra parte da aula. Pelo menos, não houve mais tantas implicações entre nós dois. Algo me dizia que encontraríamos algum jeito de nos darmos bem, mas isso seria um mistério a ser resolvido futuramente, hoje o dia já estava bastante cheio.
Voltei ao prédio, onde tinha aula com Natalie, antes do almoço, para buscar a recomendação. Ela me entregou um envelope rosa com uma folha dobrada dentro e me orientou dizendo que eu não deveria ler antes de entregar. Não sabia se isso deveria me assustar ou deixar desconfiada, mas ela pareceu sincera e eu não esperaria que uma professora me enganasse sem um motivo plausível. Dei um abraço de agradecimento antes de sair novamente e a retribuição do aperto do mesmo fez com que eu realmente acreditasse nos meus pensamentos.
Depois de uma manhã consideravelmente agitada, eu poderia por fim encontrar Josh para almoçar. A parte boa foi que não ter tido tanto tempo para pensar naquilo antes que o horário marcado chegasse. Porém, naquele momento, sem outras coisas na cabeça, comecei novamente a ficar intrigada com a informação que ele teria para compartilhar. Quando cheguei no Rise, Josh estava acompanhado por Bri em uma mesa. Eu quase não tive coragem de me aproximar, não queria atrapalhar se algo estivesse acontecendo, mas felizmente Josh me avistou e fez um sinal para que eu me juntasse a eles. Bri pareceu não ter aprovado a atitude.
— Bom dia, Amy. – Josh cumprimentou, indicando com o braço para que eu me sentasse ao lado de Bri. Estava me sentindo muito inconveniente, mas agora já não tinha saída. – Sim, eu convidei vocês duas para almoçar e nenhuma sabe disso. – Bri e eu nos entreolhamos ao ouvir aquilo.
— Não estou entendendo nada. – foi a primeira coisa que eu disse.
— Vai piorar. – Josh avisou. Ergui a sobrancelha para ele, esperando que uma explicação fosse seguir o comentário. – Descobri algumas coisas bem estranhas durante a nossa conversa sábado, Bri. – ele contou, dirigindo o olhar à ela.
— Nós tivemos uma conversa no sábado? – Bri questionou. Lembrei que Charlie havia comentado que ela estava mal no sábado, o que pareceu fazer sentido.
— Tivemos, você não lembra de nada? – ele perguntou.
— Lembro de estar com você. – ela disse.
— É um bom começo. – Josh disse, sendo positivo. – Se quiser um resumo, acho que a parte mais importante foi quando você decidiu me dar uma segunda chance. – ele falou, sério. A expressão no rosto de Bri pareceu ter congelado por um instante, como se ela se questionasse se realmente teria sido capaz de fazer isso. – Depois fugimos para Vegas e nos casamos. – Josh completou, fazendo com que a cara dela mudasse automaticamente.
— Você é um idiota. – Bri disse séria, mas não conseguiu evitar uma rápida risada.
— Essa risadinha valeu o meu dia. – Josh falou sorrindo.
— Josh, para. – ela pediu.
— Às vezes é inevitável. – ele tentou se justificar. – Mas enfim, você disse uma coisa que realmente foi chocante. – continuou. – Estávamos conversando normalmente, e, de repente, você começou a desabafar sobre não entender o porquê de a Amy não ter ido para a Sigma Psi. – Josh contou. Agora nada fazia sentido para mim, não existiam motivos para Bri querer contestar algo sobre aquilo, se eu nem havia sido chamada.
— Ok, Josh, você não precisa falar isso na frente dela. – Bri disse, aparentemente irritada.
— Na verdade, preciso. – ele falou. – Algo muito estranho está acontecendo, Bri. – disse. – Amy me disse que só não escolheu a Sigma Psi porque ela não recebeu uma carta da Sigma Psi. – continuou. Foi a minha vez de sentir constrangimento, só que isso durou muito pouco.
— O quê?! – Bri exclamou indignada. – Isso não é possível!
— Por que não é possível? – eu me intrometi.
— Porque eu mesma entreguei a sua carta no comitê do Sistema Grego. — ela respondeu.
Nós duas nos encaramos, sem qualquer entendimento do que estava acontecendo.
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