Legacy
15 Capítulo 15 - "Life is a box full of surprises, or an envelope"
Passei o resto do caminho prestando atenção na cidade. Seth não tinha dificuldades para se localizar por ali, mas ele contou que não era de Detroit e sim de Lansing, capital do estado. Porém, morando na cidade durante 3 anos ele aprendeu o suficiente para se locomover sem problemas maiores. Ele também disse que, se eu quisesse, um dia poderíamos visitar os principais lugares da cidade quando surgisse tempo para isso.
— Aonde vamos? – perguntei assim que deixamos Charlie no dormitório.
— Você já foi ao Mouthe? – Seth perguntou e neguei com a cabeça. – É um bar que fica nos arredores do campus, fora do território. – ele contou. – O preferido da maioria dos estudantes, vale a pena conhecer.
— Por mim, parece ótimo. – concordei com a ideia e em rápidos cinco minutos chegamos ao local.
Estava pouco movimentado naquela noite, provavelmente porque era terça-feira. Sinceramente, eu preferia daquela maneira. Não tinha nada contra movimento e barulho, mas se fosse para optar, com certeza escolheria paz e sossego. Parecendo pensar da mesma forma, Seth nos guiou até uma mesa na janela, que ficava mais ao fundo, afastada da maioria das mesas ocupadas naquele momento.
— Aqui está bom para você? – perguntou.
— Está perfeito. – afirmei. – Adorei o lugar. – comentei. Era fantástico, bem organizado e espaçoso, parecia o local perfeito para sair com os amigos em uma sexta-feira a noite.
— Fico feliz que tenha gostado. – ele disse, sorrindo com os lábios. – Você tá com vontade de comer alguma coisa específica?
— Só estou com muita fome. – admiti. – Por que não pedimos alguma coisa que você geralmente pede aqui?
— É meio complexo. – ele disse.
— Complexo? – perguntei.
— Se eu explicar, talvez você ache estranho. – Seth falou.
— Nem vem com essa, Seth. – falei. – Você já sabe que eu sou curiosa. – lembrei. – Inclusive, ainda estou esperando para ouvir a história de porque você é diferente dos outros garotos da sua fraternidade.
— Bem lembrado, esqueci que tínhamos sido interrompidos pelo seu sucesso na internet. – brincou.
— Não, erro seu. – corrigi. – Primeiro fomos interrompidos pelo fato de acharem que estávamos juntos por outros motivos. – a cena ainda era clara em minha cabeça. – Depois pelo meu sucesso.
— É verdade, você está certa. – concordou ele. – Mas já esclareci a situação com todos. – contou ele, como se eu estivesse o repreendendo.
— Não precisa se preocupar com isso. – garanti. – Seus colegas de fraternidade são bem divertidos. – disse rindo, ao me lembrar da noite anterior. – E você já pode explicar o que é complexo.
— É que é difícil eu comer a mesma coisa, tenho uma espécie de calendário em que a cada dia semana eu como um tipo de carne. – explicou.
— Então você acha que eu não sou capaz de entender uma dieta? – perguntei brincando, mas disfarçando uma expressão séria ao erguer a sobrancelhas.
— Na verdade, acho que é mais complexo para eu explicar do que para você entender. – ele admitiu e nós dois rimos.
— Não precisa explicar, só me dizer o que você come na terça. – disse cessando a risada com um sorriso.
— Terça é dia de peixe. – revelou.
— Que tal tirinhas de peixe? – sugeri.
— Eu amo tirinhas de peixe. – Seth falou animado.
— Eu amo tirinhas de peixe. – repeti com a mesma animação.
— Então temos a decisão perfeita. – concluiu Seth.
Fizemos o pedido e rapidamente recebemos nossa porção de comida. A conversa era mantida o tempo todo. Seth contou que havia entrado na Alpha Xi porque eles geralmente se interessavam por pessoas com qualquer tipo de status, e ele era uma promessa do time de futebol americano da universidade, assim como Theo, por isso acabaram se tornando tão amigos, pois muitas vezes pensavam de forma parecida, mesmo que em outras nem tanto. Claro que por outra visão, Seth viu que poderia ser uma boa ideia entrar para a fraternidade, os dois lados acabariam se beneficiando, e foi o que aconteceu.
Contei para ele sobre minha bolsa de estudos, por algum motivo sentia que deveria compartilhar aquilo, o que foi útil para explicar também o porquê de eu estar interessada em ingressar uma irmandade. Conversamos sobre diversas coisas durante aquelas quase duas horas juntos, desde assuntos aleatórios até histórias sobre nossas vidas. Agora eu realmente via Seth como um conhecido, ao invés de somente o cara que havia cuidado de mim por ter me atingido com uma bola de futebol americano, ainda que não fosse ele a pessoa que me atingira.
Quando Seth me levou de volta para o dormitório, o agradeci mais uma vez pela ajuda e pela noite. Dessa vez, ele fez o inesperado, buscou minha mão e depositou um beijo sobre a mesma, como um verdadeiro príncipe encantado.
— Nos vemos por aí? – ele perguntou antes de eu sair do carro, com seu usual sorriso estampado nos lábios.
— Nos vemos por aí. – confirmei antes de ir embora, retribuindo o sorriso.
Quando cheguei no quarto, Charlie já estava dormindo, mas logo na manhã do dia seguinte ela exigiu que eu contasse a história toda. Para minha sorte, não existia nada de muito detalhado para compartilhar, se não íamos acabar atrasadas, levando em conta que Charlie não me deixaria sair dali sem que ela soubesse de tudo.
— Ele está super afim de você, Amy! – exclamou Charlie. – Nem uma semana aqui e já tem um jogador de futebol americano e um presidente de fraternidade atrás de você. – não pude evitar rir do comentário.
— Presidente de fraternidade? – perguntei sem entender.
— Scooter. – ela respondeu.
— Seth não está afim de mim, nos conhecemos há literalmente dois dias. – falei. – E com certeza muito menos Scooter, só fui o primeiro rosto que ele encontrou para chamar naquela festa.
— Josh contou que Scooter estava falando de você esses dias na casa deles. – Charlie revelou.
— Isso não pode ser algo bom. – disse, mais para mim mesma do que para Charlie.
— Isso não importa muito. – ela falou. – Até porque, se o Scooter não está afim de você, existe um jogador maravilhoso de futebol americano, lindo, alto e forte, que está. – ri mais uma vez da forma como Charlie falava.
— Ok, chega. – encerrei o assunto. – Temos que ir para a aula.
— Infelizmente temos mesmo. – Charlie concordou e então saímos do quarto rumo a mais um dia de estudo.
Naquela manhã, pude finalmente conhecer o CadiLab, pois tinha aula de química novamente. O prédio alcançou todas as minhas expectativas, as salas eram bem equipadas e tudo era muito bem distribuído. O professor Eddie também era incrível, ele não havia mentido na segunda-feira, me orientou em tudo que foi necessário e foi como se não tivesse faltado a primeira aula. O único que parecia se importar com minha falta era um sujeito chamado Peter Lewinsky, que descobri que seria minha dupla de laboratório durante todo o ano letivo. Já de primeiro contato, era nítido o fato de ele ser extremamente inteligente, ele disse ter ficado chateado em ter que trabalhar sozinho no primeiro dia, mesmo quando parecia perfeitamente capaz de fazer qualquer coisa daquela aula sem a ajuda de ninguém. Não tive como formar uma opinião sobre Peter naquele dia, mas algo me dizia que ele era uma pessoa muito mais complexa do que aparentava.
Depois de superar a ansiedade de conhecer o CadiLab, consegui ter um resto de dia totalmente normal, até diria que o segundo momento mais emocionante fora quando recebi uma mensagem de Seth antes de dormir, perguntando se continuava tudo bem comigo. Respondi que sim e acabamos tendo conversando por mensagens novamente.
Pela primeira vez desde que chegara na universidade, eu parecia livre de problemas. Quando acordei na manhã seguinte, de quinta-feira, só lembrei que era o dia de receber as cartas porque encontrei um envelope com meu nome embaixo da porta. Charlie havia saído mais cedo naquele dia, porque eu tinha o primeiro período daquela manhã livre. Observei a escrivaninha dela, haviam três cartas ali, provavelmente de irmandades, mas não quis olhar muito mais do que isso, precisava respeitar a regra do sigilo. Tinha que confessar que estava esperando algumas cartas também, talvez a mesma quantidade que Charlie recebera, mas quando abri meu envelope só encontrei uma.
Minhas expectativas não eram de receber apenas uma carta, havíamos visitado várias casas. No fundo, aquilo não importava muito, eu poderia acabar escolhendo apenas uma mesmo e se tinha somente uma carta ali, só poderia ser da Sigma Psi. Quando abri a cédula, porém, me deparei com algo que não esperava.
— Zeta Eta Beta?! – sussurrei para mim mesma ao ler o nome da única irmandade que havia declarado interesse por minha candidatura.
Fale com o autor