Legacy
11 Capítulo 11 - "Wake me up when it's all over"
Quando abri os olhos novamente, encontrei-me em um quarto totalmente desconhecido. Estava deitada em uma cama tão confortável quanto os braços de Seth. Conforme meus olhos desembaçavam, fui observando o ambiente ao meu redor. Era um quarto espaçoso, bem organizado e decorado, possuía duas camas de casal e uma escrivaninha grudada na parede, juntamente com algumas estantes cheias de livros. Contei pelo menos três bolas de futebol americano espalhadas pelo quarto, e foi aí que finalmente me dei conta de tudo que eu ainda não havia interligado naquela história toda: Seth e Theo eram do time de futebol americano. Por isso seus rostos aparentavam tão familiares e meu subconsciente dizia que Seth não era um total estranho, porque no dia anterior eu os tinha visto no banner gigante que estava pendurado no estádio.
As cortinas do quarto estavam fechadas, não era possível ter qualquer noção do tempo que eu havia perdido ali. Minha cabeça continuava latejando, felizmente com uma intensidade menor, mas ainda servia de grande incômodo. Ouvia vozes a distância e um cheiro de churrasco invadia o quarto, mesmo estando fechado, ao senti-lo percebi que meu estômago implorava por comida e comecei a tentar pensar em uma saída para aquela situação. Sabia que seria difícil encontrar uma solução, mas pela primeira vez naquele dia, a vida conspirou ao meu favor quando a porta do quarto se abriu.
— Amy? – reconheci a voz de Seth.
— O que aconteceu? – logo perguntei. – Que horas são?
— 19:30. – ele respondeu. – Você pegou no sono.
— 19:30?!?! – agora sim eu estava totalmente lascada. – Não pode ser! – me recusava a acreditar. – Diz que você está brincando.
— Não estou. – o tom tranquilo em sua voz deixava claro que ele falava sério.
— Por que você não me acordou?
— Eu juro que tentei, mas não tinha jeito. – justificou-se Seth. – No meio do caminho você já estava dormindo, tentei te acordar quando chegamos, só obtive grunhidos como resposta.
— Perdi todas as aulas da tarde. – o desespero era nítido em minha voz. – Estou ferrada, como vou resolver isso? – questionei comigo mesma.
— Já prometi que vamos resolver isso. – Seth reforçou. – Agora você precisa pensar somente em uma coisa: comida. – só então percebi que ele carregava uma bandeja contendo um prato. – Você come carne?
— Sim, mas não precisa me oferecer comida. – no fundo, tudo o que eu mais queria era comer aquela fatia de carne que, para melhorar ainda mais, estava acompanhada por arroz e salada. – Posso passar em algum lugar no caminho para o dormitório.
— Deixa eu ser legal com você, Amy. – ele pediu. – Só estou tentando ajudar. – isso era verdade. Seth nem precisava estar fazendo tudo aquilo, talvez eu devesse passar mais tempo aceitando sua ajuda do que desconfiando da mesma, assim poderia sair de toda aquela situação o mais rápido possível. Mesmo que, apesar de todo o prejuízo, não fosse tão terrível estar ao lado daqueles olhos verdes.
— Obrigada. – agradeci, rendendo-me aos gestos gentis dele e aceitando a bandeja com o prato. Arrumei melhor meu corpo, encostando-o na cabeceira da cama. Em seguida, comecei a comer.
— Está se sentindo melhor? – perguntou ele, que agora sentava na beirada da cama, alguns centímetros de distância.
— Um pouco. – respondi.
— Coloquei um pouco de gelo na parte em que você me disse que doía. – contou Seth. – Passei uma pomada depois e deixei você dormindo, acho que não tinha mais muito o que pudesse ser feito.
— Obrigada pela pomada e pelo gelo. – agradeci. – E desculpa por não ter acordado, não foi sua culpa.
— Não precisa se desculpar, com certeza não foi sua culpa também. – ele esboçou um leve sorriso ao terminar de dizer as palavras. – Quando quiser ir embora, me avisa que vou te levar de carro até o dormitório. – disse. – Ou, se quiser passar a noite aqui, eu e o Theo podemos dormir em outro quarto sem problemas. – não parecia uma má ideia dormir mais um pouco naquela cama super confortável, mas a vida no hospital do céu tinha que acabar alguma hora.
— Ninguém sentiu minha falta? – perguntei, pensando no almoço que havia marcado com Charlie.
— Sua companheira de quarto ligou, quase esqueci de te avisar. – Seth falou. – Foi no comecinho da tarde, expliquei para ela a situação e também a convidei para vir aqui se quisesse, mas ela achou melhor não – provavelmente Charlie não queria pisar na área da Alpha Xi, ou havia ido para suas aulas da tarde. – Ela parecia preocupada, porém ficou mais tranquila quando prometi te levar para casa assim que você estivesse melhor. – tudo bem que eu agora estava na fase de aceitar a ajuda de Seth sem contestar, mas ainda assim não entendia como a palavra de um estranho era capaz de tranquilizar Charlie. Mais tarde poderíamos ter essa conversa, até porque minha cabeça ainda doía consideravelmente o bastante para fazer com que eu não quisesse me preocupar com as coisas que ainda não haviam acontecido.
— Calma, quando você contou quem era... – comecei a falar enquanto teorizava. – Ela pareceu reconhecer que você é um dos astros do time de futebol americano?
— Então você sabe? – perguntou Seth, como se algo tivesse finalmente se esclarecido. – Achei que você fosse nova aqui, não imaginei que me reconheceria pelo futebol.
— Eu sou nova aqui, só reconheci porque ontem vi um banner gigante pendurado no estádio. – expliquei. – E agora que minha cabeça está funcionando, meu palpite é que você era um deles. – continuei. – De qualquer forma, só perguntei isso porque Charlie tem cara de ser alguém que confiaria em jogadores de futebol.
— E você, confia? – ele perguntou, em um tom divertido.
— Não tive opção. – respondi da mesma forma. O bom humor voltava a tomar conta de mim conforme eu me alimentava, a última vez em que havia comido fora de manhã, e um copo de café acompanhado de algumas bolachinhas nem tinha como ser considerado uma refeição.
— Mas, se me permite dar uma dica, não confie em qualquer jogador de futebol americano. – Seth alertou.
— Uau, algum motivo especial para dizer isso? – perguntei.
— Nenhum, mas existe muita gente em um time, e somos pessoas iguais a todas as outras. – ele explicou. – É incrível como a maioria dos estudantes da Cadillac ama futebol e comparece sempre aos jogos, mas às vezes acham que somos diferentes de alguma forma muito especial. – contou. – Eu só recebo a bola e corro.
— Sem superpoderes? – perguntei brincando e Seth riu. – Isso sim é uma decepção. – falei, ao mesmo tempo em que percebia que havia esvaziado meu prato. – Mas seu conselho estará guardado comigo. – disse por fim, esboçando um sorriso com os lábios.
Após o diálogo, Seth levou o prato embora e disse que voltaria em alguns minutos. Aproveitei esse tempo para me levantar e dar uma volta pelo quarto, para ver como me sentia. Com exceção da dor que ainda existia em minha cabeça, tudo parecia normal. Encontrei minha bolsa no canto de uma das escrivaninhas e meu celular estava logo ao lado dela, provavelmente porque Seth havia atendido a ligação de Charlie. Abri a tela do mesmo e haviam algumas mensagens de Charlie e uma ligação perdida de Josh.
“Amy, cade você????” as primeiras mensagens eram todas nesse estilo.
“Se precisar de alguma coisa, me liga. Se cuida, Amy. x” essa tinha sido enviada mais tarde, possivelmente depois que Seth e ela conversaram. Teria sido muito útil, se eu não estivesse inconsciente e sem meu celular aquele tempo todo.
— Parece que alguém não precisa mais de mim para se apoiar. – Seth entrou novamente no quarto. Se tinha uma coisa da qual eu não reclamaria sobre aquela situação toda, essa seria o corpo, e a pessoa, que me serviram de apoio. Mas a fase da tontura havia sido apenas inicial, agora eu me sentia bem melhor. Ri do comentário dele e virei-me em sua direção com um sorriso.
— Seth, agradeço de verdade por toda a ajuda, mas preciso ir agora. – falei. Já era pouco mais de 20h.
— Não precisa agradecer, eu que peço desculpas mais uma vez. – disse ele. – Meu carro está lá fora. Vamos? – Seth chamou, abrindo espaço para que eu passasse em sua frente. Agradeci com o olhar e seguimos caminho lado a lado pela casa, já que eu não fazia ideia de como me localizar por ali.
Visivelmente, a construção interna do local havia sido muito bem planejada. Os detalhes eram caprichados desde as paredes até a verdadeira decoração, uma casa tão incrível quanto a da Zeta Eta Beta, quase como se fosse uma versão masculina da irmandade, porém menos extravagante. Não conseguia impedir a mim mesma de analisar cada canto pelo qual passávamos, era como se meu olhar fosse atraído para desvendar o lugar onde eu me encontrava, Seth provavelmente percebeu isso.
— Algumas pessoas dizem que os Alpha Xi têm fama por se gabarem. – ele contou. – Mas juro que o que vou dizer agora não traz nenhuma intenção de ser uma fala relacionada a isso. – prometeu. – Talvez seja porque vivo aqui há alguns anos, mas essa é provavelmente a casa mais sensacional em que já estive.
— É realmente muito bonita. – elogiei.
— A Alpha Xi, se não me engano, foi a primeira fraternidade desse campus. – disse Seth. – Então certo esforço é colocado nessa casa há um bom tempo.
— Você só acha tudo isso? Achei que caras de uma fraternidade como essa eram todos especialistas em sua própria história. – Seth riu com meu comentário.
— A grande maioria sim, mas não todos. – ele revelou. – A história de como entrei aqui é um pouco diferente da dos outros garotos.
— Sou uma pessoa curiosa. – falei, como se pedisse indiretamente para que ele contasse. Descíamos as escadas agora, eu até pediria diretamente para Seth contar a história, mas fomos interrompidos por um garoto parado no início da escada.
— MEU DEUS! – ele gritou ao nos ver, parei assustada. – SETH TANNER ESTÁ COM UMA GAROTA! – pude ouvir várias vozes murmurando um pouco mais a distância, não tinha como entender os comentários, mas falavam como se ninguém pudesse acreditar naquilo.
— Por favor, ignora tudo isso. – pediu Seth, dando um passo a minha frente e fazendo um gesto para que eu continuasse o seguindo. Ao ultrapassarmos a escada, olhando para a direita encontramos vários meninos reunidos em uma sala, todos eles começaram a gritar palavras impossíveis de entender, como se parabenizassem Seth. – Não liga, eles são sempre assim. – ele disse a mim, enquanto atravessávamos o espaço entre a escada e a porta de entrada. Estávamos quase na porta, mas é claro que mais uma vez fomos interrompidos.
— Ei, espera ai! – um dos garotos falou. – Eu conheço ela! – aquilo era impossível, olhei para ver quem nos chamava e nunca havia visto aquela pessoa na vida. – Ela é minha ídola. – disse sorridente e se aproximando, acompanhado de mais alguns amigos da fraternidade. – Aliás, ela deveria ser ídola de todos nós. – continuou falando. Até Seth estava parado em frente a porta agora, tentando entender o que acontecia ali. – É a garota que colocou uma uva na boca do Scooter.
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