League of Legends: As Crônicas de Valoran 2ª Temp.
7 Capítulo 6: Freljord
Notas iniciais
Capítulo 6:
Freljord
Ashe cavalgou até adentrar às florestas daquela vila, perto do lago onde Sejuani despejaria suas tropas. Nem mesmo lembrava do nome dela, o que não era muito certo de sua parte.
– Bjornidius – murmurou Thaynam.
Ashe deu graças ao tio por tê-la lembrado. Seria um crime à sua honra como rainha sequer lembrar do nome daquele vilarejo na qual prometeu proteger. Aquele garoto, Nathan, havia a auxiliado a chegar lá, e mesmo depois de toda aquela luta, não havia esquecido o caminho.
Após aquela águia branca tê-la auxiliado seis anos antes, naquela caverna, ela começou a dar mais valor a pessoas que a ajudavam.
A cena que viu quando chegou ao vilarejo que não foi nada bonita. A neve branca havia sido tingida de vermelho, vermelho sangue. Todos aqueles guerreiros avarosianos e próprios da vila estavam mortos, dizimados, caídos no chão frio.
Ashe desceu do cavalo, fazendo um som abafado ao cair com as botas na neve. Aquela visão a deixou desolada. Todos pareceram ser facilmente subjugados, e caminhando por mais dali ela percebeu que vários guerreiros da Garra também foram. Não fazia sentido, a não ser que...
– Maldito seja Aatrox – Tryndamere cerrou os punhos.
Ashe foi até a frente do centro da vila, onde encontrara o povo festejando. Que desgraça, pensou. Tudo aquilo poderia ter sido evitado, talvez, se a guerra não tivesse acontecido. O centro da vila, em si, estava destruído. Havia indícios de incêndio, e a fumaça tinha um cheiro metálico de sangue e enxofre, respectivamente misturados.
– Os cidadãos...
– Foram encaminhados para a capital em segurança antes da guerra começar – respondeu Thaynam.
Foi um grande alívio saber daquilo. Odiaria saber que o povo havia sido também massacrado. Preferia pensar nos guerreiros como meros peões. Se fosse chorar por todos eles, não seria uma rainha, e sim uma lamentadora. Demonstraria fraqueza e perderia a guerra.
– É – exclamou Lissandra; Ashe ainda não entendera por que a trouxera. – Acho que foi ele sim. Sinto sua energia emanar, fora os corpos sem sangue nas feridas, deixando claro o vampirismo da espada Darkin. – Deu uma gemia e esfregou a mão na nádega. – Aff, odeio cavalgar. Fico toda assada.
Ashe se virou para ela, com raiva.
– Se eu fosse você eu me calava – foi quando percebeu que Tryndamere não sabia sobre ela, e se ele soubesse, seria ruim, pois ele não se seguraria e a mataria. Rapidamente se corrigiu ao ver a expressão confusa do marido. – Quero dizer, Lady Lissandra, se eu fosse você eu procurava mais pistas, pois... só você conhece tão bem os mitos do Darkin.
Lissandra sorriu maliciosamente, como quem diz: Me bajule mesmo ou não vai querer ver seu marido se descontrolar.
– Pois bem – ela respondeu. – O garoto Nunu conhece os mitos tão bem como eu, mas tadinho, tão jovem. Não aguentaria tal cena terrível. Tantos corpos, eca.
Ashe respirou fundo. Não queria ser ignorante com a “princesa”, até por que odiava o sentimento de raiva, pois atrapalhava o raciocínio lógico. Mas depois de passar por uma verdadeira guerra, coisas mudam dentro de si. Já sentia essas mudanças chegando.
– Tente procurar mais alguma coisa, princesa – pediu com calma.
Lissandra sorriu.
– Nem preciso – ela levantou a aba do vestido e caminhou pela neve lentamente, mostrando suas novas botas de caminhada, que não combinavam em nada com o vestido. Depois de vê-la como Bruxa Gélida, Ashe se perguntava se ela tinha mesmo pés. Agora sabia a resposta. – Eu... achei... algo – mesmo sendo a bruxa do gelo ela não parecia se dar bem com neve. Quase afundou nela e tombou, mas se estabilizou miraculosamente.
Caminhou até um ponto longe da vista dos três, que ficaram parados esperando ver aonde ela chegava – interessante foi vê-la caminhar pelos corpos mortos e nem se importar. Foi quando ela tropeçou e rolou um barranco abaixo que eles se assustaram. Tryndamere saltou rapidamente em direção ao buraco, Ashe e Thaynam correndo até lá para ver o que se passava.
Tryndamere foi tão rápido capaz de segurar a lady antes que ela caísse para uma espécie de ladeira mortal que dava para várias pedras. Ashe não gostou nada da forma como os dois ficaram, Tryndamere a segurando pela cintura e ela se segurando nele de forma encantada. Os dois estavam perto demais. Ele não demonstrava qualquer sinal de interesse, ela, se não fosse tão pálida, teria corado.
– Por pouco – ele disse.
– Com certeza – ela respondeu, bancando a sedutora.
Ashe ignorou a vontade de atirar uma flecha no peito da bruxa e matá-la ali mesmo, deixando que ela caísse no abismo assim como seus malditos Observadores Gélidos. Mas se Aatrox era uma ameaça tão poderosa, seria bom tê-la como aliado.
Olhou para um rastro de sangue e percebeu um corpo ao lado de Trynda e Lissandra. Os dois se estabilizaram ali mesmo e ela apontou para o corpo.
– Bom, era isso que eu estava procurando.
Thaynam franziu a testa.
– Como o detectou?
Lissandra deu de ombros.
– Só segui o rastro de sangue.
– Mas o que mais têm ali são corpos ensanguentados.
Ela fez um sorriso sombrio, como quem detém a total razão.
– A única diferença é que este corpo está vivo.
Ashe arregalou os olhos, reconhecendo o corpo. Ele usava um uniforme comum de arqueiro da guarda avarosiana, mas em sua aljava havia uma flecha de Gelo Verdadeiro, aquela que ela havia dado para Nathan antes da guerra. Ele havia sido só um arqueiro comum, mas ele era daquela vila e pedira proteção, até a levara até lá. E agora estavam quase todos mortos. No máximo só as mulheres e crianças sobreviveram.
– É Nathan – exclamou Ashe. – Traga-o para cá.
Tryndamere assentiu. Ele foi até o garoto e o pegou no colo. Ele estava extremamente pálido, os lábios azulados e o cabelo semicongelado. Sua cabeça pendia, mas sua mão não largava o arco. Ashe pediu a Avarosa que aquele garoto não estivesse morto.
– Tem certeza de que ele está vivo, Lissandra?
Lissandra assentiu.
– Tenho certeza.
Tryndamere usou a mão que segurava a cabeça do garoto para testar o pulso colocando dois dedos em uma parte específica do pescoço. Demorou alguns segundos e ele assentiu.
– É incrível ele ainda estar vivo – foram poucas palavras numa só frase, mas foram o suficiente para acalmar o coração de Ashe. – O garoto é feroz, se recusa a morrer.
Thaynam semicerrou os olhos.
– Precisamos leva-lo aos mestres na capital, pois ele pode estar sofrendo de hipotermia.
Lissandra deu uma risada rápida.
– Se freljordianos morressem de hipotermia não haveria pessoas vivas nesse fim de mundo – e revirou os olhos. – Vamos, pois posso sentir outra presença estranha.
Tryndamere saltou até aonde Ashe estava, foi até Thaynam e deixou que ele segurasse o garoto. Saltou para a ponta do penhasco novamente e pegou a lady, saltou e deixou-a ali. Por um segundo ele sentiu frio no peito nu, uma sensação que não tinha fazia anos.
– Como pode pressentir pessoas vivas? – perguntou à ela.
Ela cruzou os braços.
– Muito pelo contrário, não posso sentir gente viva. Posso sentir a morte, logo é fácil destacar quem está vivo – ela fez um sorriso misterioso, como se quisesse que Tryndamere soubesse sobre ela.
– Vamos logo? – cortou Thaynam, balançando Nathan no colo. – O garoto aqui está indo de azul para roxo.
[...]
Ashe observava o reino de sua torre mais alta. Estava bem alarmado pela guerra dos dias anteriores. Não houvera vencedora, logo, a morte de muitos havia sido evitada. Viu o quanto algumas mulheres estavam felizes em ver que seus maridos, guerreiros, estavam vivos. Se perguntou o porquê de tanta guerra ser necessária.
Estava, também, preocupada com o garoto Nathan. Ele mal havia chegado e fora atendido por dezenas de médicos a pedido dela própria. Ao final ele ficou bem, mas em um possível coma.
– Deve estar pensando no garoto Nathan – Thaynam adentrou ao quarto, usando apenas uma cota semelhante a uma camiseta, deixando seus braços fortes de fora. Ele devia ter mais de quarenta anos, mas era tão jovial e esbelta quanto um adolescente.
Ashe se virou para o tio, rindo.
– Pare de ler a minha mente, tio. Não é nada legal.
Ele sorriu. Não imaginava ver aquele sorriso tantas vezes. Até a poucos anos ela o via apenas como um parente no qual ela tinha que aturar, até mesmo por ser o último. Mas agora, após a viagem para Rakelstake, via-o como muito mais. Antes ele era tão distante, o acompanhante e conselheiro de Shayera Frozenheart, nada mais. Ele sempre estava, ou ao lado da mãe de Ashe, ou do pai. Sempre via os dois juntos.
Ele suspirou.
– Você está se saindo bem como rainha, até – ele admitiu. – Ficamos tanto tempo fora e mesmo assim eles ainda te veneram. Parece que veem o melhor de seus pais em conjunto, quando olham para você.
– Pode parar de dizer eles e dizer eu. Se quer me elogiar, que seja logo.
– Então que seja por competência, não por pontualidade – ele riu.
Ashe sentiu vontade de se auto estapear. Havia se perdido em pensamentos e esquecido da reunião do conselho. Deveria saber do que houve em Freljord no tempo em que ela ficou fora.
Acompanhou o tio até a sala do conselho.
[...]
Se lembrava de como eram as reuniões do conselho e de como eram chatas. A única parte boa é que na maioria das vezes eram acompanhadas de banquetes, que com a luz do sol eram mais saborosos. Ashe estava com saudades de usar roupas de tecido liso, que não esquentam. O tempo finalmente esquentara em Freljord. O verão voltara e ela nem tinha visto.
No banquete haviam comidas diversas, de carnes a frutas, com vinho e sucos de fruta. O verão em Freljord era rico, o tempo da colheita, pois até na primavera fazia frio. Geralmente um frio acompanhado de sol, o que não fazia tanto sentido.
Thaynam como sempre quis torturar o conselheiro Sam Fury, chamado “gordo faminto”. Ninguém poderia tocar no que fosse do banquete até que a rainha estivesse entre eles, então ele preferiu ir primeiro, deixando Ashe terminar de se arrumar. Ele estava em forma, mais até do que no último verão.
Sam parecia que ia explodir.
– Não aguento essa demora – disse ele.
Um homem de longos cabelos e barba branca fez um shh, ele tinha olhos verdes e uma túnica azulada.
– Fique quieto, Sam! – murmurou.
– Não consegue esperar por enfiar comida goela à baixo, Sam? – perguntou Thaynam, descendo as escadas em direção ao banquete, se segurando para não rir. – Você deveria trazer comida em seus bolsos. Se é que já não faz.
Sam fez uma cara de ódio.
– Um ano se passou e você não mudou nada, não é? Sempre o mesmo papinho. Eu não carrego comida nos bolsos.
– É certo que não – Ashe vinha logo atrás do tio, caminhando a passos lentos com seu longo vestido branco de cetim. Ela parecia uma dama de luz quando o sol a transparecia. Ela foi até a ponta da Grande Mesa e se sentou, sendo alvejada por todos os membros do conselho freljordiano. Thaynam se sentou ao seu lado e o homem de cabelos brancos do outro. Lissandra podia se ver mais ao longe, observando cada passo dela. – Antes de nos deliciarmos com essa refeição oferecida por meu tio e conselheiro, Lorde-comandante Thaynam Frozenheart, precisamos debater coisas importantes.
Lissandra aproveitou que ninguém olhava e magicamente fez um cubo de gelo cair em seu copo de vinho com as mãos. Deu uma risada e voltou a Ashe, que havia parado de falar para encará-la por alguns segundos. Lissandra bebia enquanto encarava a rainha.
Ignorou-a e continuou a falar.
– É sabido que o Mestre Lau Mei ficou cuidando dos assuntos relacionados ao trono durante minha ausência...
Lau Mei, o velho barbudo de cabelos brancos e túnica azul sorriu e assentiu.
– Sim, minha rainha. Tudo pela senhora.
– E então? – ela perguntou. – Preciso de um relatório do que ocorreu por aqui durante o tempo. Seja oral ou por escrito.
Ele franziu a testa.
– Bem, minha senhora, não ocorreram coisas relativamente estranhas, mas...
– Mas...? – perguntou Thaynam.
Lau Mei respirou fundo.
– Houveram estranhos... estranhos assassinatos por aqui – ele admitiu. – Houveram casos normais que ocorrem o tempo todo, nada que eu não possa resolver. Mas esses... esses foram complicados. O próprio Mestre-da-moeda Sam Fury teve um grande prejuízo com esses assassinatos estranhos.
Todos fitaram o gordo Sam, que encarava um pedaço de frango com uma voracidade nos olhos. Ele demorou para perceber que o observavam.
Thaynam pigarreou.
– Sam, o frango não vai fugir da mesa.
– Oi? – ele sobressaltou-se, atordoado. – Ah, sim. Houveram estranhos... assassinatos, sim. Não descobrimos quem foi o assassino.
Ashe respirou fundo.
– Ainda não entendo o que os classifica como estranhos – retrucou o gordo homem.
– Mas eu sei – Tryndamere adentrou ao grande salão do banquete dos conselheiros trajando seu velho uniforme de rei bárbaro. À fora alguns de seus pupilos o esperavam.
Lau Mei pareceu ofendido pois queria responder a quase pergunta da rainha, porém, não demonstrou isso perto do rei bárbaro. Tryndamere era tão grande e imponente, era basicamente o dobro da rainha Ashe e ainda maior que Thaynam, que já era alto. O rei pegou a uma cadeira vazia do lado da de Lissandra, que olhou de cima até embaixo, analisando seu corpo com um sorriso malicioso que, por sorte, ele não percebeu. Carregou a cadeira com uma só mão, e o curioso é que ela era extremamente pesada, justamente por ser feita de uma pedra branca semelhante ao mármore, mas que se fundia com o Gelo Verdadeiro, sendo um material tão resistente quanto concreto ou diamante.
Mesmo assim para carrega-lo o rei bárbaro só precisou de uma mão.
Colocou a cadeira ao lado da de Ashe, que sorriu com a presença do marido. Ela pegou uma uva próxima, sorrindo, e deu na boca do seu rei, fazendo Sam Fury revirar os olhos de ciúmes, mas da comida, claro.
– E então, rei bárbaro? – perguntou Lau. – O que os classifica de tão estranhos?
Tryndamere sorriu.
– Posso ser um bárbaro bruto, Mestre, mas não sou burro. Pesquisei boatos sobre os assassinatos com meus pupilos e descobri que os corpos estavam sem uma gota de sangue sequer, certo?
Lau relutantemente assentiu.
Tryndamere riu. Ashe abraçou seu grande braço direito.
– Então quer dizer que Aatrox já estava aqui bem antes da guerra e nós nem soubemos. Interessante.
Lissandra finalmente disse uma palavra, logo após pigarrear.
– Então se todas as vítimas de Aatrox, com exceção dos guerreiros da guerra verdadeira, tiveram o sangue drenado – fez uma breve pausa, olhando para cada um daqueles no recinto, surpresos por ela finalmente dizer algo –, então por que o garoto Nathan ainda vive?
Ashe desagarrou de Tryndamere com uma expressão confusa no rosto. Percebia algo estranho na afirmação de Lissandra, como se ela suspeitasse de algo. Era estranho, pois era ela aquela mulher milenar que tentou matar Ashe dezenas de vezes. Mesmo assim não conseguia odiá-la, pelo menos não por enquanto. Temia que o momento em que se livraria dela seria tarde demais.
Tryndamere engoliu em seco, algo que não acontecia sempre. Ashe percebeu que havia algo distante em seu olhar, como se estivesse vendo aquilo novamente.
– Não sei.
Lau sorriu.
– Já que não sabe responder, deixe que eu o faço, lorde rei.
– NÃO! – gritou Sam Fury, irado. – Vamos todos comer!
Ashe e Thaynam se entreolharam e deram de olhos
– Claro – ela disse.
– Finalmente disse algo útil, Sam – zombou Thaynam.
[...]
Sejuani acordou de cara na neve... literalmente. O frio não era uma sensação tão comum, sempre estava agasalhada, e quando não estava, sentia-se quente por pura determinação – e sangue freljordiano, claro.
Sua única visão consistia em pura neve e um cerco de árvores gigantescas e escuras. Estava na floresta, na imensidão obscura de algum lado de Freljord. Estava tão desorientada, não sabia nem como havia parado ali. Se levantou com dificuldade, sentindo os ossos congelarem.
Olhou ao redor, não via absolutamente nada. Estava desorientada, sem saber o que fazer, quando ouviu uma voz em sua mente, uma voz sombria e gélida. Me resgate, dizia a voz. Me salve do precipício.
Começou a ficar tonta, sua visão girava. A voz continuou a murmurar em sua mente, fazendo-a dor como se estivesse congelado, dormente. Me salve, continuou a voz. Nos ressuscite.
Sejuani sentiu seu corpo paralisar; estava perdendo o controle sobre ele. Não entendia o que estava ocorrendo, mas de repente diversas vozes gélidas gritaram ao mesmo tempo em sua mente. Nos resgate! Nos tire daqui! Nos ressuscite! Traga a visão para nós novamente! Nos traga a Bruxa!
Não!, gritou uma outra voz, feminina e destemida. Sejuani a conhecia muito bem e sentira saudades dela, não a ouvindo faziam semanas. Voltem para o fundo do submundo, seres desprezíveis!
Sejuani caiu de joelhos no chão, sua visão parando de rodar, seu corpo se estabilizando e o frio passando.
As vozes pararam.
– Obrigada, Serylda – agradeceu Sejuani.
Não é hora de descansar, avisou a mulher. Seus inimigos a espreitam.
Sejuani ergueu a vista e vislumbrou algumas silhuetas de homens altos segurando armas, espadas, porretes e arcos. Você morrerá se não sair daí. Sabia que Serylda estava certa. Se havia algum tipo de ser que a trouxera até aquele local, deveriam ter sido aqueles homens.
Levantou-se novamente e correu.
Fale com o autor