League Of Legends: Os Pacificadores
1 Prólogo
— Muito bem — disse uma voz austera e grossa demais para a pequena idade. — Não há mais passagem de volta, pessoal. Só poderemos sair pelo leste, se não me engano. Essas pedras são pesadas demais para se levantar. E recio que, pelos ecos, não seja somente uma pedra.
— Senti que isso não foi um acidente, Ez — respondeu um dos outros quatro rapazes no lugar. — Tem alguma coisa de ruim nesse lugar. Você sabe que essas terras são seladas por magia que não conhecemos...
— Não sei o que foi aquilo — respondeu Ezreal. — Mas se você está certo, as pedras caíram guiadas por um único propósito, é claro. Alguma coisa adormecida se arrastou e fez as pedras caírem. Existem coisas muito mais velhas e repugnantes do que espectros nos lugares mais profundos deste mundo.
Um dos companheiros de Ezreal falou em voz baixa, mas o eco das rochas amplificou o som para um sussurro alto, que todos puderam escutar:
— Nos lugares mais profundos do mundo! E para ali estamos indo, contra a nossa vontade. Quem poderá nos guiar nessa escuridão mortal, que trouxe morte para tantos no passado?
— Eu — disse Ezreal, — e é você quem deve caminhar ao meu lado. Vocês venham pela retaguarda, mas sigam a luz. Não esperem para gritar no caso de se perderem. Podemos perdê-los de vez por um segundo que for.
Quando Ez avançou subindo os degraus largos de areia seca e dura, ergueu uma lamparina, cuja luz era uma irradiação fraca. A ampla escada era segura e não estava danificada. Contaram, todo o grupo, duzentos degraus, largos e rasos; no topo encontraram uma passagem de arco, sobre um chão plano conduzindo para dentro da escuridão.
— Vamos sentar para descansar e comer alguma coisa, aqui neste patamar, já que não achamos uma sala de jantar — disse o segundo rapaz, o menor deles, que agora parara de tremer do susto das pedras que caíram posteriormente para sentir uma fome maligna.
A proposta foi bem recebida por todos; sentaram-se nos degraus mais altos, figuras apagadas na escuridão. Depois de comerem, Ezreal deu a todos um gole da água em seu cantil, a pouca que sobrava, para que depois fracionassem entre eles as águas deles mesmos.
— Receio que a água não vá durar por muito mais tempo — disse Ez. — Mas acho que precisamos de um pouco, depois do pavor que passamos há algumas horas. E a não ser que tenhamos muita sorte, vamos precisar de todo o resto antes de atingirmos o outro lado! Tenham cuidado com a água também! Há muitos riachos e poças nessas minas, mas nenhum deve ser tocado. É possível que não tenhamos oportunidade de encher nossos cantis até que tenhamos saído do subterrâneo. E sejam sensatos: tomem o máximo de cuidado possível com esses mapas; não vamos fazer que tudo isso tenha sido em vão.
— Quanto tempo vai demorar para chegarmos à superfície?
— Não posso dizer — disse Ezreal. — Depende de muita coisa. Mas indo em linha reta, sem errar o caminho, deve levar cerca de três ou quatro marchas, eu acho. Já mapeei ruínas parecidas, e não deve haver menos de quarenta milhas entre um portão e outro. Pelo menos não em linha reta, e as estradas podem ter muitas curvas.
Logo depois de um breve descanso, começaram a caminhar outra vez. Todos estavam ansiosos para terminar a viagem o mais rápido possível, e dispostos, cansados como estavam, a continuar a marcha ainda por várias horas. Ezreal ia na frente como antes. Na mão esquerda segurava a lamparina reluzente, cuja luz mostrava apenas o chão diante de seus pés. Na mão direita carregava uma espada longa. Atrás vinha o segundo companheiro, com os olhos faiscando na luz fraca, enquanto virava a cabeça de um lado para outro. Atrás do segundo caminhava o terceiro, que tinha retirado da bainha sua espada. E depois deste ia o quarto.
A passagem fez algumas curvas, e depois começou a descer. Continuou constantemente para baixo por um tempo, antes de ficar plana de novo. O ar ficou quente e abafado, mas não era desagradável, e algumas vezes eles sentiam no rosto correntes de ar mais fresco, que vinham de aberturas semi-ocultas nas paredes. Havia muitas dessas aberturas. No raio pálido da lamparina de Ezreal, o tecmaturgo, o terceiro via de relance escadas e arcos, além de outras passagens e túneis, que se dirigiam para cima, ou desciam abruptamente, ou se abriam numa escuridão vazia de ambos os lados. Qualquer um ficaria desnorteado. O segundo companheiro era de pouca ajuda para Ezreal, a não ser por sua vigorosa coragem. Pelo menos não se incomodava, ao contrário dos outros, com a escuridão em si.
Freqüentemente, o tecmaturgo o consultava em pontos onde a escolha de caminhos era duvidosa, mas era sempre Ezreal quem dizia a última palavra. As Ruínas dos Desertos de Shurima eram vastas e intrincadas, mais do que podia conceber a imaginação do segundo companheiro, embora fosse um dos velhos companheiros de aventuras de Ezreal. Para Ezreal, as lembranças de uma viagem realizada há muito tempo eram agora de pouca ajuda, mas mesmo na escuridão, e apesar de todas as curvas da estrada, ele sabia aonde desejava ir, e não vacilou, enquanto havia um caminho que conduzia na direção de seu objetivo.
— Não tenham medo — disse o terceiro. Estavam fazendo uma pausa mais longa do que costumavam, e Ezreal e o segundo conversavam em voz baixa; os outros estavam reunidos mais atrás, esperando ansiosos. — Não tenham medo! Estive com ele em muitas viagens, apesar de nunca ter participado de uma jornada tão escura; há histórias em Piltover que contam coisas que ele fez, maiores que quaisquer outras que já vi. Ele não vai se perder, se houver um caminho para se encontrar. Trouxe-nos aqui contra nossos temores, mas nos conduzirá para fora, a qualquer preço que precisar pagar. É mais provável ele encontrar o caminho de casa numa noite cega do que um cego acostumado com seu estado.
Para os rapazes, era bom ter um guia assim. Eles não tinham combustível, nem qualquer jeito de acender tochas; na fuga desesperada pela passagem, muitas coisas tinham sido abandonadas. Mas sem qualquer luz, logo teriam fracassado. Não só havia muitas estradas para escolher, mas também em muitos pontos havia buracos e alçapões, e poços escuros ao lado do seu caminho, nos quais seus pés ecoavam conforme iam passando. Havia fissuras e rachaduras nas paredes e no chão, e de quando em quando uma fenda se abria bem diante de seus pés. A mais larga delas tinha mais de dois metros de largura, e demorou muito até que o quarto, o menos corajoso, conseguisse criar coragem para saltar sobre aquele vazio aterrorizante. O barulho da água se agitando subia lá debaixo, como se alguma roda de moinho estivesse virando nas profundezas.
— Corda! — murmurou o terceiro. — Sabia que ia me arrepender se não a trouxesse.
À medida que esses perigos ficavam mais freqüentes, a marcha tornava-se mais lenta. Já lhes parecia que estavam andando sempre em frente, num caminho sem fim que conduzia às raízes da montanha. Estavam mais que cansados, e mesmo assim não parecia haver consolo na idéia de pararem em qualquer lugar.
O ânimo dos rapazes se elevara um pouco depois da escapada, e depois de comer algo e tomar um gole da bebida; mas agora uma forte inquietude, que chegava às raias do medo, tomava conta deles outra vez. Eles tinham certeza do perigo que os esperava à frente, e do perigo que o seguia, mas não diziam nada. Seguraram mais firme no punho de suas espadas e foram em frente, obstinados.
Os companheiros atrás de Ezreal raramente falavam, e mesmo assim em sussurros apressados. Não havia ruído além do ruído de seus próprios pés; os passos pesados e monótonos das botas de ferro do segundo; o pisar forte de do terceiro, e atrás os pés lentos e firmes do quarto, com seu passo largo. Quando paravam por uns instantes, não se ouvia nada, a não ser ocasionalmente o ruído distante de água correndo ou gotejando, invisível. Mesmo assim, Ezreal começou a ouvir, ou a imaginar que ouvia, alguma outra coisa: semelhante a passos de pés macios e descalços. O som nunca estava alto o suficiente, nem próximo o suficiente, para que Ezreal tivesse certeza do que escutava; mas, uma vez começado, nunca cessava, enquanto eles estivessem em movimento. Mas não era um eco, pois quando paravam o som dos passos continuava por uns instantes, sozinho, e então silenciava. Já era noite quando haviam entrado nas ruínas. Tinham caminhado por várias horas, fazendo apenas paradas rápidas, quando Ezreal deparou com seu primeiro grande teste.
Diante dele estava um arco amplo e escuro, que se abria para três passagens: todas conduziam mais ou menos para a mesma direção, o Leste, mas a passagem à esquerda descia vertiginosamente, enquanto a da direita subia, e o caminho do meio parecia continuar, suave e plano, mas muito estreito.
— Não me lembro de modo algum deste lugar! — disse Ezreal parando indeciso sob o arco. Levantou a lamparina na esperança de haver alguma marca ou inscrição que pudesse ajudá-lo em sua escolha, mas nada disso apareceu. — Estou cansado demais para decidir — disse ele, balançando a cabeça. — E suponho que todos vocês estejam tão cansados quanto eu, ou ainda mais cansados. É melhor pararmos aqui pelo resto da noite. Sabem o que quero dizer! Aqui está sempre escuro, mas lá fora a lua tardia já se dirige para o Oeste, e a meia-noite já passou.
À esquerda do grande arco, encontraram uma porta de pedra: estava parcialmente fechada, mas se abriu facilmente a um leve empurrão. Atrás dela parecia haver um quarto, cortado na rocha.
— Calma! Calma! — gritou Ezreal, quando o terceiro empurraram a porta para frente, felizes por encontrar um lugar onde poderiam descansar com pelo menos um pouco mais de sensação de abrigo do que na passagem aberta. — Calma! Vocês ainda não sabem o que está aí dentro. Vou na frente.
Entrou com cuidado, e os outros fizeram uma fila atrás.
— Aí está! Disse ele apontando com a lamparina para um ponto no meio do chão. Diante deles, viram um buraco grande e redondo, como a boca de um poço. Correntes quebradas e enferrujadas estavam caídas sobre a borda, e desciam pelo poço negro. Ao redor estavam fragmentos de pedra. — Um de vocês poderia ter caído, e agora ainda estaria imaginando quando iria chegar ao fundo — disse Ezreal para eles. — Deixem que o guia vá na frente, enquanto vocês ainda têm um.
— Este lugar parece ter sido uma guarita, feita para que as três passagens fossem vigiadas — disse o segundo. — É fácil perceber que aquele buraco foi um poço para o uso dos guardas, coberto com uma tampa de pedra. Mas a tampa está quebrada, e todos nós devemos nos precaver no escuro.
O terceiro deles se sentiu curiosamente atraído pelo poço. Enquanto os outros estavam desenrolando cobertores e preparando leitos próximos às paredes da sala, o mais longe possível do buraco no chão, ele se arrastou até a borda e espiou lá dentro. Um ar frio pareceu bater em seu rosto, subindo de profundezas invisíveis. Movido por um súbito impulso, ele tateou o chão procurando uma pedra solta, deixando-a cair no poço. Sentiu o coração bater moitas vezes antes que se ouvisse qualquer som.
Então, lá embaixo, como se a pedra tivesse caído em águas profundas, nalgum lugar cavernoso, ouviu-se um ruído bem distante, mas amplificado e repetido no poço oco.
— Que foi isso? — perguntou Ezreal. Ficou aliviado quando o terceiro confessou o que tinha feito; mas ficou furioso, e o terceiro pôde ver seus olhos faiscando.
— Seu tolo! — rosnou ele. — Esta é uma viagem séria, não um piquenique em Piltover.
Nada mais se ouviu por vários minutos; mas depois, das profundezas, vieram batidas fracas: tum-tá, tá-tum. Pararam, e quando os ecos silenciaram, as batidas se repetiram: tá-tum, tum-tá, tá-tá, tum, Soavam como sinais de algum tipo, e provocaram inquietação em todos; mas depois de um tempo as batidas silenciaram e não se ouviram de novo.
— Aquilo foi o som de um martelo, ou eu nunca em toda a minha vida ouvi um martelo — disse o segundo.
— Sim — disse Ezreal —, e eu não gosto disso. Pode não ter nada a ver com a pedra tola de Rudlen (o terceiro), mas provavelmente alguma coisa foi incomodada, e seria melhor tê-la deixado quieta. Por favor, não façam nada assim outra vez! Vamos tentar descansar um pouco sem mais problemas. Você, Rudlen, pode fazer o primeiro turno de guarda, como recompensa — rosnou ele, enquanto se enrolava num cobertor. Rudlen se sentou arrasado perto da porta, naquela escuridão total; mas de quando em quando se voltava, com medo de que alguma coisa desconhecida se arrastasse para fora do poço. Queria cobrir o buraco, mesmo que fosse só com um cobertor, mas não ousou mexer ou se aproximar dele, apesar de Ezreal parecer adormecido.
Na verdade, Ezreal não estava dormindo, embora estivesse deitado imóvel e em silêncio. Estava mergulhado em pensamentos, tentando relembrar cada detalhe de sua primeira viagem nas ruínas, e considerando ansiosamente o próximo caminho que deveriam tomar; uma escolha errada naquele momento poderia ser desastrosa. Depois de uma hora, levantou-se e se aproximou de Rudlen.
— Vá para um canto e durma um pouco, meu amigo — disse ele num tom gentil. — Suponho que você precisa dormir. Não consigo pegar no sono, então é melhor eu fazer a guarda.
No dia seguinte, foi Ezreal quem acordou todos os outros. Tinha ficado sentado, fazendo a guarda sozinho por seis horas, deixando que os outros descansassem.
— E durante a guarda tomei minha decisão — disse ele. — Não tenho vontade de ir pelo caminho do meio, e não gostei do cheiro do caminho à esquerda: há um ar pestilento lá embaixo, ou então não sou um guia. Escolhi a passagem da direita. Está na hora de começarmos a subir outra vez.
Por oito horas escuras, sem contar duas breves paradas, marcharam adiante; não encontraram perigos, nem escutaram nada, e não viram nada a não ser o brilho apagado da lamparina de Ezreal, brilhando como fogo-fátuo na frente deles. O corredor que tinham escolhido ia cada vez mais para cima. Pelo que podiam julgar, subia em grandes curvas, e conforme iam subindo, a passagem ficava mais alta e larga. Agora não havia outras aberturas para Outras galerias ou túneis dos dois lados, e o chão era plano e seguro, sem poços ou rachaduras.
Evidentemente, tinham tomado o que certa vez tinha sido uma estrada importante, e avançavam mais rápido agora que na primeira marcha. Assim foram adiante cerca de quinze milhas, medidas numa linha direta na direção Leste, embora na realidade devam ter caminhado Vinte milhas ou mais. Conforme a estrada subia, o ânimo de Ezreal aumentou um pouco, mas ele ainda se sentia oprimido, e ainda ouvia algumas vezes, ou pensava ouvir, bem atrás dele e distante do som dos passos do grupo, passadas que os seguiam, e que não eram um eco.
Tinham andado o máximo que os meninos de sua idade podiam aguentar sem descanso, e estavam todos pensando num lugar onde pudessem dormir, quando de repente as paredes à direita e à esquerda desapareceram. Pareciam ter passado através de algum arco, entrando num espaço negro e vazio. Atrás deles vinha uma forte corrente de ar mais quente, e na frente sentiam a escuridão fria sobre seus rostos. Pararam e se juntaram, cheios de ansiedade.
Ezreal parecia satisfeito. — Escolhi o caminho certo — disse ele. — Finalmente estamos chegando às partes habitáveis, e acho que não estamos longe do lado Leste. Mas estamos num ponto muito elevado, bem acima da saída, a não ser que eu esteja enganado. Pelo ar que estou sentindo, diria que estamos num salão amplo. Agora vou arriscar um pouco de luz de verdade.
Levantou a lamparina, e por um breve instante houve um clarão, feito com tecmaturgia, a qual Ezreal dedicara os primeiros treze anos de sua vida para aprender, como um relâmpago. Sombras grandes saltaram e fugiram, e por um segundo eles viram um teto amplo acima de suas cabeças, apoiado em muitos pilares feitos de pedra. Adiante, e dos dois lados, se espalhava um enorme salão vazio; as paredes negras, polidas e lisas como vidro, brilhavam e faiscavam. Enxergaram outras três entradas, arcos negros e escuros: um diretamente à frente, rumando para o Leste, e um de cada lado. Depois disso, a luz se apagou.
— Isso é tudo que vou arriscar por enquanto — disse Ezreal. — Costumava haver grandes janelas na encosta da montanha, e aberturas conduzindo para a luz, nos pontos mais altos das ruínas. Acho que as atingimos agora, mas lá fora é noite outra vez, e não podemos ter certeza até amanhã cedo. Se estou certo, amanhã poderemos realmente ver o dia nascendo, espiando aqui dentro. Mas enquanto isso é melhor não avançarmos mais. Vamos descansar, se pudermos. As coisas estão indo bem até agora, e a maior parte da estrada escura já passou. Mas ainda não atravessamos as Ruínas do Deserto Shurima, e há um bom caminho até os Portões que lá embaixo se abrem para o mundo.
Os membros do grupo passaram a noite no grande salão cavernoso, encolhidos num canto para escapar da corrente de vento: parecia haver um fluxo constante de ar frio vindo através do arco Leste. Por toda a volta, pairava a escuridão, vazia e imensa, e eles se sentiam oprimidos pelo abandono e pela vastidão das paredes de pedra, e pelas escadarias e corredores que se ramificavam interminavelmente. As fantasias mais alucinadas que os boatos mais obscuros jamais tinham sugerido aos jovens em Piltover ficaram insignificantes perto do terror e da surpresa que sentiram naquelas ruínas do vasto deserto.
— Deve ter havido uma multidão de pessoas por aqui nalguma época disse o terceiro; — e cada um deles mais ocupado que um texugo por mais de quinhentos anos Para construir tudo isto, e quase tudo em areia dura! Para que fizeram isto? Certamente eles não viviam nesses buracos escuros?
— Não são buracos — disse o segundo. — Este era um grande reino nos tempos passados, chamado de Templo do Falcão, devastado pelas Guerras Rúnicas. E antigamente não era escuro, mas cheio de luz e esplendor, como ainda lembram as canções.
Fez-se um silêncio profundo. Um a um, os outros adormeceram. Rudlen fazia a guarda. Como um ar que vinha através de portas invisíveis, de lugares profundos, o medo o dominou. Sentia as mãos frias e a cabeça pesada. Tinha Os ouvidos atentos. Toda sua mente esteve concentrada em escutar e nada mais, por duas horas arrastadas; mas não escutou nenhum ruído, nem mesmo o eco imaginado de passos. Seu turno na guarda estava quase no fim quando, mais além do ponto onde supunha estar o arco Oeste, Rudlen imaginou ter visto dois pontos de luz clara, quase semelhantes a olhos luminosos. Teve um sobressalto. Seus olhos tinham se fechado.
“Acho que quase adormeci durante a guarda”, pensou ele. “Estava à beira de um sonho.” Levantou-se e esfregou os olhos, e permaneceu em pé, olhando para a escuridão, até que foi dispensado por Ezreal.
Quando se deitou, logo adormeceu, mas teve a impressão de que o sonho continuava: ouviu sussurros, e viu os dois pontos de luz clara se aproximando, lentamente. Acordou e viu que os outros estavam falando em voz baixa perto dele, e que uma luz fraca lhe batia no rosto. Lá de cima, sobre o arco Leste, através de uma passagem de ar próxima ao teto, vinha um raio longo e claro; atravessando o salão em direção do arco Norte, a luz também avançava, fraca e distante. Rudlen se sentou.
— Bom dia! — disse Ezreal. — Pois dia se faz outra vez, finalmente. Eu estava certo, como vê. Estamos num ponto alto do lado Leste do Templo do Falcão. Antes do dia acabar, deveremos encontrar os Grandes Portões dessas ruínas e ver o céu novamente.
— Ficarei feliz — disse o segundo. — Olhei este templo, que é realmente muito grande, mas se tornou escura e temível, e não encontramos qualquer sinal de um povo aqui. Agora duvido que qualquer outro explorador tenha chegado até aqui.
Depois de tomarem o desjejum, Ezreal decidiu continuar a marcha imediatamente.
— Estamos cansados, mas poderemos descansar melhor quando sairmos daqui — disse ele. — Acho que nenhum de nós deseja passar mais uma noite nestas ruínas.
— De jeito nenhum! — disse Rudlen. — Que caminho vamos tomar? Continuamos pelo arco Leste?
— Talvez — disse Ezreal. — Mas ainda não sei exatamente onde estamos. — A não ser que esteja redondamente enganado, suponho que estejamos acima e ao Norte dos Grandes Portões, e pode não ser fácil encontrar a estrada certa que desce até eles. Provavelmente, o arco Leste será o caminho que devemos tomar, mas antes de decidir temos de dar uma examinada no local. Vamos em direção àquela luz na porta Norte. Se pudéssemos encontrar uma janela, isso ajudaria bastante, mas receio que a luz só chegue aqui através das passagens de ar.
Seguindo-o, o grupo passou por baixo do arco Norte. Viram-se num corredor largo. À medida que avançavam por ele, a luz ia ficando mais forte, e perceberam que ela vinha através de uma entrada à direita. Era alta e quadrada, e a porta de pedra ainda estava no lugar, semi-aberta. Além dela via-se um grande cômodo quadrado. Estava fracamente iluminado, mas aos olhos deles, depois de tanto tempo na escuridão, parecia de uma luminosidade ofuscante; os olhos piscaram repetidas vezes no momento em que entraram.
Os pés pisaram uma grande camada de poeira sobre o chão, e tropeçaram em coisas que estavam na passagem, cujas formas eles não puderam distinguir num primeiro momento. O cômodo era iluminado por uma grande abertura na parede Leste, mais à frente. A luz batia diretamente numa mesa no meio da sala: um único bloco retangular, de cerca de sessenta centímetros de altura, sobre o qual fora assentada uma grande laje de pedra branca.
— Parece um túmulo — murmurou Rudlen, inclinando-se para olhar mais de perto, com uma estranha sensação de mau presságio. Ezreal veio rapidamente para o lado dele. Na laje havia runas, gravadas a fundo:
— Estas são runas, Rudlen. Runas muito antigas, como as que eram usadas antigamente em Shurima, quando o arcanismo era a mágica desta terra — disse Ezreal. — Aqui está escrito, na língua dos antigos arcanos que moravam nessas terras: Xerath, o Mago Ascendente.
Ezreal mal tinha dito essas palavras, quando chegou a eles um enorme barulho: um estrondoso Bum que parecia vir das profundezas, fazendo tremer a rocha aos pés deles. Correram em direção à porta assustados. Dum , dum, retumbou o barulho outra vez, como se mãos gigantescas estivessem transformando as próprias ruínas de Shurima num enorme tambor. Então veio uma rajada reverberando: uma grande corneta soou no salão, e em resposta ouviram-se cornetas e gritos dissonantes vindos de algum ponto distante. Ouviu-se o tropel apressado de muitos pés.
— Eles estão vindo! — gritou Rudlen.
— Não podemos sair — disse o segundo.
— Presos! — disse Ez. — Por que demorei? Aqui estamos, presos, exatamente como esteve este Xerath antes. Mas eu não estava aqui daquela vez. Vamos ver o que...
Dum, dum, vinha a batida dos tambores, estremecendo as paredes.
— Batam as portas e coloquem calços! — gritou Rudlen. — E segurem suas mochilas o máximo que conseguirem: ainda podemos ter uma chance de escapar.
— Não! — disse Ez. — Não devemos ficar trancados aqui dentro. Mantenham a porta Leste entreaberta! Iremos por ali, se houver uma possibilidade.
Um outro chamado estridente de corneta e guinchos agudos soou. Pés se aproximavam pelo corredor. Ouviu-se um tinido e um tropel no momento em que a Comitiva desembainhava as espadas. A espada de Ez foi segurada por seu punho. O terceiro empurrou a porta Oeste com os ombros.
— Espere um momento. Não feche ainda — disse Ezreal, pulando para o lado de Rudlen, e aprumando-se ao máximo. — Quem vem aqui para perturbar o descanso de Xerath, o Mago Ascendente? — gritou ele com uma voz cheia.
Houve uma torrente de gargalhadas roucas, semelhante a pedras caindo num poço; em meio ao clamor, uma voz grave se ergueu em comando. Dum, blim, dum, faziam os tambores nas profundezas. Num movimento rápido, Ezreal avançou para a fresta da porta aberta, colocando à frente sua lamparina. Fez-se um clarão ofuscante, que iluminou a sala e o corredor. Por um instante, Ezreal olhou para fora. Flechas zuniram e assobiaram pelo corredor, e ele pulou para trás.
- Espectros, nuitos deles — disse ele. — E alguns são grandes e perigosos: espectros negros do norte. Antigos exploradores das ruínas perdidas que cavaram fundo demais. Muito mais do que deviam. Criaturas agora sombrias, que ao toque dão visões da morte e sofrimento eterno. Não há esperança de escaparmos por ali.
— E não haverá esperança de nada, se eles vierem pela outra porta também – disse o terceiro.
— Não se ouve nada deste lado ainda — disse Rudlen, que estava parado próximo à porta Leste, escutando. — A passagem deste lado desce direto por uma escada: é certeza que não conduz de volta ao salão. Mas não é bom fugir cegamente por aqui, com o inimigo bem atrás. Não podemos bloquear a porta. Não há mais chave, a fechadura está quebrada e a porta se abre para dentro. Temos de fazer alguma coisa para atrasar os espectros primeiro. Vamos fazer com que sintam medo da Câmara de Xerath! — disse ele com austeridade, tocando o gume de sua espada.
Ouviram-se passos pesados no corredor. O terceiro se jogou contra a porta e a fechou com o peso de seu corpo; então calçou-a com lâminas de espadas quebradas e lascas de madeira. O grupo recuou para o outro lado da câmara. Mas ainda não tinham a possibilidade de fugir. Um golpe fez tremer a porta que lentamente começou a se abrir, rangendo e forçando os calços. Um braço e um ombro enormes, sem tecido algum, mas formados por sombra e neblina, lançaram-se através da fresta que se alargava.
Depois um pé grande, chato e sem dedos forçou a parte de baixo, abrindo-a. Havia um silêncio mortal do lado de fora. O terceiro pulou para frente e golpeou o braço com toda a força, mas a espada rangeu, resvalou e caiu de sua mão trêmula. A lâmina estava quebrada. De repente, e para sua própria surpresa, Rudlen sentiu uma ira feroz se acender em seu coração.
— Por Piltover! — gritou ele e, avançando num salto para o lado de Ezreal, abaixou-se e apunhalou com sua espada o pé asqueroso. Ouviu-se um urro, e o pé recuou de sopetão, quase arrancando a espada do braço de Rudlen. Gotas negras pingaram da lâmina, e caíram no chão fumegando.
O terceiro arremessou-se contra a porta, fechando-a de novo.
— Um para Piltover! — gritou Ezreal. — A mordida do companheiro vai fundo! Você tem uma boa lâmina, Rudlen!
Ouviu-se uma pancada na porta, seguida de pancadas e mais pancadas. Aríetes e martelos batiam contra ela. A porta se partiu e foi recuando e a fresta ficou subitamente larga. Flechas entraram assobiando, mas atingiram a parede Norte, caindo no chão sem ferir ninguém. Um clangor de corneta ecoou e ouviu-se um tropel de passos, e espectros, um após o outro, pularam para dentro da câmara. Quantos eram, Ezreal não pôde contar. A luta foi violenta, mas os espectros se assustaram perante a ferocidade da defesa. Rudlen atingiu dois na garganta com seu arco. Rudlen cortou as pernas de um outro que tinha subido no túmulo de Xerath. Ezreal e o terceiro mataram vários. Quando trinta tinham caído, o restante deles fugiu tremendo, deixando os defensores ilesos, com a exceção de Rudlen, que tinha um corte na cabeça. Uma esquiva rápida o salvara, e ele tinha derrubado seu espectro: um golpe vigoroso com sua espad. Queimava em seus olhos castanhos um fogo que teria feito um bandido recuar, se ele tivesse visto.
— Chegou a hora! — gritou Ezreal. — Vamos, antes que o espectro grande retorne!
Mas no momento em que se retiravam, antes que o segundo e o terceiro tivessem alcançado a escada do lado de fora, um enorme líder dos espectros, quase da altura de um humano, vestido da cabeça aos pés numa malha metálica preta, pulou para dentro da câmara; atrás dele seus seguidores se amontoavam na entrada. O rosto largo e chato era escuro, os olhos como carvão, e a língua era vermelha; brandia uma grande lança. Com um golpe de seu enorme escudo de couro, afastou a espada de Rudlen e o empurrou para trás, derrubando-o no chão. Abaixando-se para se defender de um golpe do segundo, e com a rapidez de uma serpente em seu bote, ele atacou o grupo e investiu com a lança na direção do segundo.
O golpe o atingiu no flanco direito, e este foi jogado contra a parede, ficando espetado pela lança. Rudlen, com um grito, golpeou a haste da lança, que se quebrou. O espectro soltou a lança e usou somente suas manoplas pontudas nos dedos, rasgando o rosto de Rudlen por completo. Rudlen caiu com a cabeça partida. O espectro uivou, quando o terceiro e Ezreal pularam para cima deles.
Dum, dum, continuavam os tambores nas profundezas. A voz poderosa fez-se ouvir outra vez, num estrondo.
— Não! — gritou Ezreal. — Não temos mais chance contra eles, são muitos! Cairemos também! Corra!
O terceiro puxou a porta, cujos gonzos rangeram: tinha grandes argolas de ferro dos dois lados, mas não se podia trancá-la. Quando a abriu, duas enormes pedras caíram do teto e quase acertaram a cabeça de Ezreal. Quebraram o chão, e Ezreal e o terceiro caíram na mais imensa escuridão, sem chão para pisar. Nenhum dos dois pôde ver mais nada, e nem ouvir quando caíram desmaiados ao chão.
Quando Ezreal abriu os olhos, duvidou que o tivesse feito, pois tudo continuava tão escuro como antes de abri-los. Não havia ninguém por perto. Não conseguia ouvir nada, ver nada, e não sentia nada exceto o chão de pedra.
Muito devagar ele se levantou e, de quatro, tateou o chão, até tocar a parede do túnel, mas não encontrou nada nem acima nem abaixo: absolutamente nada, nenhum sinal do seu terceiro companheiro. Sua cabeça rodava, e ele não tinha idéia nem mesmo da direção em que estavam correndo quando caiu.
Tentou adivinhar da melhor maneira possível e arrastou-se por um bom trecho, até que de repente sua mão tocou o que parecia ser um imenso anel de metal frio no chão do túnel. Colocou o anel em volta de sua mão, pois, do tamanho que era, era provável que seu último usuário possuísse o dobro do tamanho de Ez.
Não foi muito longe, sentou-se no chão frio e entregou-se à mais completa infelicidade por um longo tempo. Estava quase em desespero: perdera os mapas, seu cantil estava vazio e seus amigos estavam muito acima de si com toda a água e comida que restara. Estava numa completa escuridão, havia trazido todos os seus amigos para a morte e não parecia conseguir tatear sua lamparina.
Então os tambores bateram novamente: dum, dum, ta! dum, dum, ta, e agora mais organizados e sincronizados. Então Ez se levantou, tentando tatear as paredes, e achou sua lamparina. Estava destroçada, e nenhum fogo sairia mais dela. Ezreal usou sua tecmaturgia, e uma breve chama de energia se acendeu. Quando apontou para os espectros, viu que alguma coisa vinha atrás. Não se podia ver o que fosse: era como uma grande sombra, no meio da qual havia uma forma escura, talvez humanóide, mas maior; poder e terror pareciam estar nela e ao seu redor.
A figura veio para a extremidade do fogo e a luz se apagou, como se uma nuvem tivesse coberto tudo. Então, com um movimento rápido, pulou por sobre a fissura. As chamas azuladas bramiram para saudá-la, e se ergueram à sua volta; uma nuvem negra rodopiou subindo no ar. A cabeleira esvoaçante de fogo azul se incendiou, fulgurando. As mãos tinham dedos pontudos como a das enormes manoplas dos espectros, mas eram de um azul do gelo, e não tinha corpo: pedra de obsidiana dançava por seu corpo, não se apoiando em nada, mas ali se erguendo, unida por correntes.
Ezreal correu, mas o monstro alcançou a ponte para qual ele tinha corrido. Ezreal parou no meio do arco, levantando a lamparina com a mão esquerda, mas na outra mão brilhava sua espada, fria e branca. O inimigo parou outra vez, enfrentando-o, e a sombra à sua volta se espalhou como duas grandes asas. Levantou suas mãos, e as correntes zuniram e estalaram.
Saía fogo azul de suas narinas. Mas Ezreal ficou firme.
— Afaste-se, chama de Shurima! — ele gritou, se mantendo firme. — Volte ao seu sono, pois o mundo não lhe fará mais bem algum! Volte para a sombra, mago arcano adormecido!
O arcano não fez sinal de resposta. A escuridão nele pareceu se extinguir, mas o fogo aumentou. Ele parou por um momento e uma luz se ergueu pelo chão, encontrando caminho até os pés de Ezreal. O arcano começou a conjurar uma magia maligna, pois os pés de Ez estavam começando a se juntar ao chão, como se fossem se tornar um só. Quando Ezreal percebeu, logo deu um salto para trás e correu. Quando olhou para trás, duas trovoadas caíam, mas não do céu: do arcano em direção à Ez.
Quando Ez conseguiu escapar de sua armadilha, o arcano deu um grito horrendo, todas as vozes dos mortos unidas, gritando em desespero como as de um só: eu sou eterno. A voz tormentou os ouvidos de Ezreal, que pulou para a frente. Não via o final, mas o mago arcano o seguia, flutuando mortalmente, com as mãos erguidas, a aura maligna fazendo barulhos horríveis atrás dele. Quando Ez correu até o final, se deu conta com nada mais do que uma parede. Era o seu fim, estava perdido. Apertou seu coração com a mão direita, cujo anel, aquele que encontrara mais cedo, rodeava. O arcano se aproximou e Ez pôde sentir o frio que exalava de seu corpo: magia primitiva não fará efeito em mim, mortal, ele disse. Ezreal ficou sem entender, até que abriu os olhos.
Embora tudo continuasse como antes, escuro e sombrio, a figura se tornou terrivelmente clara. Ezreal podia ver através da obsidiana e do fogo azul. No seu rosto (ainda de um fogo azulado) brilhavam olhos agudos e impiedosos. Seus olhos caíram sobre ele e o penetraram enquanto corriam na sua direção, como se estivesse desesperado. Mas de repente ele começou a desaparecer, e seu fogo azul a apagar. Logo, tudo ficou escuro, e menos de um segundo depois, tudo ficou claríssimo: O Deserto Shurima se estendia ao redor. A sombra das Pirâmides Flutuantes se projetava sobre ele, mas ao Leste havia uma luz dourada sobre a terra. Não passava uma hora do meio-dia.
O sol brilhava; as nuvens estavam altas e brancas.
Olhou para trás. A boca do arco dos Portões bocejava sobre a sombra da pirâmide arruinada da qual acabara de sair. As batidas dos tambores retumbavam, fracas e distantes sob a terra: dum. Uma fumaça fina e preta subia no céu. Não se via mais nada; o vale ao redor estava vazio.
Dum. Finalmente, a realidade tomou conta dele, havia saído das Ruínas de Shurima. Dum, dum, as batidas dos tambores foram ficando mais fracas, até que não se ouvia mais nada.
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